"Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros." (João 13:35) "Onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, lá estarei no meio deles." (Mateus 18:20)

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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Espiritismo é Cristão?

No Jornal Espírita, nº 317, de janeiro de 2002, especificamente na coluna “Qual é a Dúvida”, de responsabilidade de Carlos de Brito Imbassay, foi transcrita para os leitores a seguinte mensagem:

Espiritismo Cristão?
Como? O Espiritismo é cristão? Mas os senhores então acreditam em
criação do Mundo em seis dias há seis mil anos? Creem em três Deuses fazendo
o papel de Um? Creem na infalibilidade da Bíblia? Creem que estão salvos pelo
sangue do Nosso Senhor Jesus Cristo derramado na cruz, para remir nossos
pecados?
Não? Então como pode o Espiritismo ser cristão? Todo cristão tem por
obrigação crer naquelas coisas, pois senão, não podem fazer uso do qualificativo
de cristão.
Marcos.
Responderemos às questões propostas pelo articulista, sem a necessidade de demonstrar que se ele realmente pensa desta maneira nada entende de Espiritismo, talvez seja mais um dos que ouviram dizer que o Espiritismo é isso ou aquilo, da boca de outro que ouviu dizer, que por sua vez, também ouviu de outro, e assim sucessivamente.
Como? O Espiritismo é cristão?
Ao que nós sabemos ainda não existe nenhuma instituição (nacional ou internacional?) encarregada de distribuir “carteirinha de cristão” a quem quer que seja. O que afirmamos é que: é cristão todo aquele que se diz ser. Nada mais que isso. Mas, isso não implica necessariamente termos que pensar de maneira igual, pois cada um de nós é uma individualidade distinta que possui grau de evolução diferente dos demais.
Entretanto, iremos recorrer ao Evangelho para tirarmos a prova. Primeiramente citaremos o próprio Jesus que diz: “Porque, onde estão dois ou três reunidos em meu nome, eu estou no meio deles” (Mt 18,20). Veja que a única condição para Ele estar junto com alguém é que esteja reunido em Seu nome. Fora disso, só se alguém estiver querendo ser maior que Jesus. Agora podemos citar Paulo que em sua carta aos coríntios fala: “julgais as coisas só pelas aparências. Se alguém tem a certeza de pertencer a Cristo, considere que nós somos de Cristo como ele” (2Cor 10,7).
Também fazemos uma diferença entre ser cristão e seguir ao Cristo. Os que atualmente se dizem cristãos nada mais são que pessoas que poderíamos dizer judeu-cristãos, já que para eles a fonte de suas verdades se apoia na Bíblia. Seguir ao Cristo para nós seria esforçarmos para colocar seus ensinamentos, contidos no Novo Testamento, em prática no nosso dia-a-dia.
Não o vemos em momento algum criticando a religião de ninguém, nem O vemos tentando, a qualquer custo, converter alguém a segui-Lo ou mesmo insistindo que somente quem o segue irá para os céus. A única coisa que disse foi: “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” (Jo 14,6), entretanto isto significa que sem praticar seus ensinamentos não há como chegar ao Pai. Mas, a bem da verdade não podemos dizer que os ensinamentos são propriamente de Jesus, já que disse: “portanto, o que falo é justamente aquilo que o Pai me mandou anunciar” (Jo 12,50), ou seja, estava transmitindo-nos as orientações de Deus.
E para os menos avisados, Kardec estudando a moral do Cristo publicou o Livro “O Evangelho Segundo o Espiritismo – E.S.E”, onde analisa sob a ótica da Doutrina Espírita os ensinamentos de Jesus, entre os quais citamos o Sermão da Montanha. E para ressaltar a importância dele, vejamos os dados abaixo: 1 – No E.S.E. existem 28 capítulos, dos quais 18 contêm passagens dele, corresponde, portanto, a 64% dos capítulos; 2 – Em Mateus ele está inserido nos capítulos 5, 6 e 7, num total de 111 versículos, destes 92 foram estudados por Kardec, ou seja, 83% dos versículos; 3 – Em Mateus existem 28 capítulos, esse episódio está  narrado em 3, o que equivale a 11% dos capítulos.
Assim, no aspecto religioso o Espiritismo abraça, sem dúvida alguma, os ensinamentos de Cristo, não os daqueles que se julgam donos da verdade. A nossa máxima é “FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO”, que cumprida significa: amar ao próximo como a nós mesmos, mandamento básico da mensagem de Deus vinda aos homens por intermédio de Jesus.
Mas os senhores então acreditam em criação do Mundo em seis dias há seis mil anos?


E nem poderíamos acreditar num absurdo desse. Vejamos o que a ciência afirma sobre a idade do Planeta Terra: A datação radiométrica permitiu aos cientistas calcular a idade da Terra em 4 bilhões 650 milhões de anos.1 Assim, não há como contrariar a Ciência por causa da Bíblia. Uma coisa que normalmente os bibliólatras não conseguem enxergar é que tudo o que a ciência vier a descobrir ou desvendar estará certamente descobrindo ou desvendando Leis Naturais, cuja origem é Deus, assim, via de consequência, são inegavelmente Leis Divinas.
É bom lembrar que, não muito tempo atrás, os que se apegavam à Bíblia quiseram contestar a tese de Galileu, que afirmava não ser a Terra o centro do Universo, quase o queimaram por isso mas, hoje em dia, nem se discute mais que ele estava coberto de razão.
Mas, para os que acreditam que a criação do Mundo se deu em seis dias, perguntamos:considerando que somente após criar o Sol é que podemos racionalmente dizer em dia (e noite) como estabelecer esse período de tempo para as coisas que foram criadas anteriores à criação dele? Alguém poderá dizer que Deus ao criar a luz no primeiro dia fez uma separação entre a luz e as trevas, e que à luz chamou de dia, e às trevas de noite. Ótimo! Mas, então como explicar que se fale em dia e noite sem que se tenha ainda criado o Sol, uma vez que somente este astro é que nos dá o ciclo dia e noite?
Creem em três Deuses fazendo o papel de Um?
Se fosse ensino de Jesus creríamos. Entretanto, não O vemos em momento algum dizer que Ele era o próprio Deus. Ao contrário, inúmeras vezes se dizia filho do homem (Mateus 30 vezes, Marcos 13, Lucas 26 e João 11) e, pouquíssimas vezes filho de Deus (João 3 vezes).
Ser filho de Deus, não quer dizer que era Deus, existe uma diferença inconfundível nisso. Desculpe-nos, falamos inconfundível somente para pessoas de mente aberta, não para alguns fanáticos.
Mas, para que não paire dúvida alguma, faremos uma pesquisa no Novo Testamento,para resolvermos esta questão. Vejamos estas passagens:
Mr 12,29.32: “...o SENHOR nosso Deus é o único Senhor. E o escriba lhe disse: Muito bem, Mestre, e com verdade disseste que há um só Deus, e que não há outro além dele.”
Rm 3,30: “Visto que Deus é um só ...”
1Cor 8,4.6: “...o ídolo nada é no mundo, e que não há outro Deus, senão um só.
Todavia para nós há um só Deus, o Pai, de quem é tudo ...”
Gl 3,20: “Ora, o medianeiro não o é de um só, mas Deus é um; Efésios 4, 5-6: Um só
SENHOR, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos,
e por todos e em todos vós”.
1Tm 2,5: “Porque há um só Deus, e um só Mediador...”.
Por outro lado, os discípulos nunca O tiveram como a um Deus, sempre diziam que era apenas um homem, vejamos:
At 2,22: “Homens israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, homem aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais...”.

1"Terra (planeta)," Enciclopédia® Microsoft® Encarta. © 1993-1999 Microsoft Corporation.

Rm 5,15: “...muito mais a graça de Deus, e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos”.
1Tm 2,5: “...e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem”.
Ele sempre Se colocou como enviado de Deus, nunca como o próprio Deus. Além de que, as profecias sobre Ele sempre diziam da vinda de um Messias (Mensageiro) não que o próprio Deus iria vir.
Se aceitarmos Jesus como sendo Deus ficaremos diante de algo inexplicável, vejamos: Deus (Jesus) encarna na Terra, se imola na cruz em oferta a Deus (Ele mesmo) para tirar os nossos pecados, pode uma coisa dessa? Também, quando ele morre na cruz, ele diz: Pai (=Deus, ou seja, ele mesmo), em tuas mãos entrego meu espírito, como explicar Ele entregando Seu espírito a Ele mesmo?
Mas se alguém quiser saber o porquê do dogma da Trindade, imposta aos Católicos e aceita pelos Protestantes, é só pesquisar a cultura de todos os povos que dominaram o povo hebreu e encontrará a explicação. Não fizeram nada mais que copiar o que destes povos tinham a respeito de suas divindades, que eram sempre compostas de três pessoas. E o Catolicismo em meio de várias religiões não possuía mais que um Deus, assim, para se igualar às correntes religiosas, diga-se de passagem todas ditas pagãs, resolveram juntar aos seus dogmas mais este.

Creem na infalibilidade da Bíblia?

Os católicos acreditam na infalibilidade do Papa, os protestantes na infalibilidade da Bíblia e nós, os Espíritas, preferimos aceitar e acreditar somente na INFALIBILIDADE DE DEUS.
E é por isso que não podemos, por razões de lógica, aceitar que Deus sendo infalível possa produzir algo assim: Em Ex 20,5: “... Castigo a culpa dos pais nos filhos até à terceira e quarta geração...” enquanto que em Dt 24,16: “Os pais não serão mortos pela culpa dos filhos, nem os filhos pela culpa dos pais: cada um será morto por seu próprio pecado”, afinal castiga os filhos pelo erro dos pais ou não? Em Ex 21,12: “Quem ferir mortalmente um homem, será punido de morte” em Ex 21,15: “Quem ferir o pai ou a mãe, será punido de morte”, isso entre outras tantas cujo desfecho é a morte, ao passo que em Ex 20,13: “Não matarás”, ficamos na dúvida é para matar ou não?
Teríamos muito mais coisas para colocar, mas para que este texto não se alongue demais, fiquemos por aqui. E sobre esse assunto, estaremos publicando, em breve, o livro “A Bíblia à Moda da Casa”, onde mostraremos verdades sobre a Bíblia para os que possuem capacidade de ver e ouvidos de ouvir.

Creem que estão salvos pelo sangue do Nosso Senhor Jesus Cristo derramado na cruz, para remir nossos pecados?

Não podemos crer nisso, pois preferimos ficar com Jesus, quando Ele diz: “Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai, com os seus anjos, e retribuirá a cada um conforme suas obras” (Mt 16,27). Se a retribuição é conforme as nossas obras e Ele nunca falou em sangue, ficamos com as obras, quem quiser que fique com o sangue.
Ao estudarmos o Novo Testamento, percebemos que no princípio essa ideia de sangue resgatar os pecados foi introduzida somente para que o cristianismo nascente se propagasse sem grandes dificuldades de aceitação. É o que os apóstolos fizeram, talvez também fruto das Leis Mosaicas, já que é nelas que o sangue dos touros resgata os pecados, pelo sacrifício de expiação.
Por outro lado, se o sangue de Cristo derramado na cruz, remiu nossos pecados, comamos e bebamos, como diz Paulo, já que estamos todos remidos. Só que os sacrifícios de expiação daquela época eram para resgatar os pecados já cometidos, e assim sendo,  necessitaremos de um outro Cristo para pagar os pecados da humanidade após sua morte na cruz, não há outra alternativa se nos baseamos na lógica e no bom senso.

Não? Então como pode o Espiritismo ser cristão?

Se tivéssemos outro nome para nos designar talvez fosse bem melhor, pois se ser cristão e ter que aceitar os maiores absurdos só porque constam da Bíblia, é melhor não o sermos. Se ser cristão é não acreditar nos avanços da ciência, preferimos não ser. Se ser cristão é ficar preocupados com os que os outros pensam para os atacar, é preferível não o ser. Enfim, para não sermos confundidos com os que se dizem cristão e não seguem a Cristo,até mesmo suplicamos por outro nome para identificar a nós que nos esforçamos para seguir plenamente Seus ensinamentos. E diante de tantos absurdos que fizeram e ainda fazem os que se dizem cristãos, preferimos somente ser chamados de Espíritas.

Todo cristão tem por obrigação crer naquelas coisas, pois senão, não podem fazer uso do qualificativo de cristão.

Agora sim é que não quero ser designado cristão mesmo, pois jamais abrirei mão do direito de pensar por mim mesmo. Não podemos ficar sujeitos às interpretações e dogmas impostos por qualquer pessoa. E nisso o Espiritismo é ímpar entre as religiões, pois, muito ao contrário, diz justamente que devemos criticar tudo, não aceitar nada sem uma análise feita utilizando a razão e a lógica, e que podemos questionar tudo, mas tudo mesmo, porque INFALÍVEL SÓ DEUS.

Conclusão

Para evitar que este texto ficasse longo demais, não colocamos todos os nossos argumentos.
Mas, com razão está Huberto Rohden, quando diz:

Há quem afirme que o cristianismo possa salvar o mundo – enganam-se!
Há quase dois mil anos o cristianismo tem cometido os maiores crimes de que
há memória nos anais do gênero humano, incluindo cruzadas, inquisições,
guerras de extermínio, infernos de ódio, rios de sangue e de lágrimas – e
ninguém dirá que isso seja salvação.
(ROHDEN, 1995, p. 180).

É tempo, senhores teólogos dogmáticos, de enterrarmos os nossos ídolos,  tidos e havidos por sagrados, e voltarmos a um conceito mais puro e mais espiritual do cristianismo. Cristão genuíno é todo aquele homem que possui o espírito de Cristo e vive segundo esse espírito. O espírito de Cristo, porém, é o de um amor ao próximo universal, nascido dum profundíssimo amor a Deus.
(ROHDEN, 1995, p. 176).

E, para finalizar, fazemos nossas as seguintes palavras aos que pensam assim:
Eles não compreendem nem o que dizem, nem as questões que defendem, apesar de se apresentarem como doutores da lei (1Tm 1,7).
Porque, onde há ciúme e espírito de discórdia, aí reina desordem e toda espécie de maldade (Tg 3,16).

Esta é a vontade de Deus: fazer calar, pela prática do bem, a ignorância dos homens insensatos (1Pd 2,15).
Será que me tornei vosso inimigo por dizer-vos a verdade? (Gl 4,16).

Paulo da Silva Neto Sobrinho
Jan/2002.
Referências bibliográficas:
Bíblia Anotada. São Paulo, Mundo Cristão, 1994.
Bíblia Sagrada. Edição Barsa, 1965.
Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, 14ª imp. São Paulo: Sociedade Bíblica Católica Internacional/
São Paulo: Paulus, 1995.
Bíblia – Mensagem de Deus , Novo Testamento - LEB - Edições Loyola, São Paulo, 1984.
Bíblia Sagrada, 68ª ed. São Paulo: Ave Maria, 1989.
Bíblia Sagrada, 8ª ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.
ROHDEN, H. Lampejos Evangélicos. São Paulo: Martin Claret, 1995.
IMBASSAY, C. coluna “Qual é a Dúvida” in. Jornal Espírita, nº 317. São Paulo: FEESP,
janeiro/2002.
http://www.apologiaespirita.org/apologia/artigos/025_O_Espiritismo_e_cristao.pdf

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