"Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros." (João 13:35) "Onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, lá estarei no meio deles." (Mateus 18:20)

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domingo, 13 de fevereiro de 2011

Eucaristia: Jesus a instituiu?

Para justificar a eucaristia pegam o momento em que Jesus, ceando com os seus apóstolos, distribui o pão e o vinho. Fato acontecido, segundo alguns, na sexta-feira anterior à  da sua crucificação.
Vamos iniciar nossa análise comparando as passagens bíblicas que narram a ocasião considerada como sendo a instituição da eucaristia para, com isso, termos uma visão do assunto.

Mt 26,26-29: Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu, distribuiu aos discípulos, e disse: "Tomem e comam, isto é o meu corpo." Em seguida, tomou um cálice, agradeceu, e deu a eles dizendo: "Bebam dele todos, pois isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos, para remissão dos pecados. Eu lhes digo: de hoje em diante não beberei desse fruto da videira, até o dia em que, com vocês, beberei o vinho novo no reino do meu Pai."
Mc 14,22-25: Enquanto comiam, Jesus tomou um pão e, tendo pronunciado a bênção, o partiu, distribuiu a eles, e disse: "Tomem, isto é o meu corpo." Em seguida, tomou um cálice, agradeceu e deu a eles. E todos eles beberam. E Jesus lhes disse: "Isto é o meu sangue, o sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos. Eu garanto a vocês: nunca mais beberei do fruto da videira, até o dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus."
Lc 22,14-20: Quando chegou a hora, Jesus se pôs à mesa com os apóstolos. E disse:"Desejei muito comer com vocês esta ceia pascal, antes de sofrer. Pois eu lhes digo: nunca mais a comerei, até que ela se realize no Reino de Deus." Então Jesus pegou o cálice, agradeceu a Deus, e disse: "Tomem isto, e repartam entre vocês; pois eu lhes digo que nunca mais beberei do fruto da videira, até que venha o Reino de Deus." A seguir, Jesus tomou um pão, agradeceu a Deus, o partiu e distribuiu a eles, dizendo: "Isto é o meu corpo, que é dado por vocês.Façam isto em memória de mim." Depois da ceia, Jesus fez o mesmo com o cálice, dizendo: "Este cálice é a nova aliança do meu sangue, que é derramado por vocês”
    

Fato curioso é que João não fala absolutamente nada sobre essa distribuição de pão e vinho, considerando que ele também se encontrava presente no evento; inclusive, se foi ele o discípulo a quem Jesus amava, certamente, estaria a seu lado, pois é ele quem descreve com maior número de pormenores tal acontecimento.
Se compararmos Mateus e Marcos, cujas narrativas são bem semelhantes, veremos que, no primeiro, consta um acréscimo da expressão “para remissão dos pecados”, o que poderá ser muito bem uma interpolação para justificar a ideia do sangue com poder para remir os pecados, embora Jesus tenha dito “a cada um segundo as suas obras” (Mt 16,27). Interessante é que nenhum dos dois evangelistas falou em “façam isto em memória de mim”, expressão essa só escrita em Lucas. Aí é a questão de se perguntar: qual deles falou a verdade? Logo, devemos entender o ato de comer e beber constante dessa passagem como
uma metáfora, sob pena de se estar aceitando a pregação de canibalismo. Se na eucaristia está presente o corpo e o sangue de Jesus, não há alternativa a não ser entender tal prática como um ato, mesmo que simbólico, de canibalismo; não é mesmo?
Mas o que devemos fazer, isto sim, é sair do nosso egoísmo para distribuir com os necessitados o pão nosso de cada dia. Entre fazer isso e comer o corpo e beber do sangue de Cristo, qual dos dois entendimentos está seguindo a orientação de “amar ao próximo como a si mesmo”?
Por outro lado, é necessário decidir qual das três situações devemos aceitar, no que se refere à nossa salvação, já que, simultaneamente, pregam estas três hipóteses...:
a) que basta somente receber o perdão de Deus;
b) que já fomos perdoados pelo derramamento do sangue de Jesus; ou
c) que seremos salvos pela simples condição de crer e de ser batizado (Mc 16,16).
Vejamos o que Geza Vermes nos mostra, analisando essas palavras ditas por Jesus durante a ceia:

Quatro relatos da Última Ceia sobreviveram no Novo Testamento. Eles
concordam entre si sobre vários pontos essenciais, mas também ostentam
variações substanciais.
Também é notável que o Evangelho de João não
contenha qualquer relato da ceia de Páscoa compartilhada por Jesus e seus
discípulos. Isto se deve sem dúvida ao fato de a prisão e crucificação de Jesus
terem acontecido, segundo o Quarto Evangelho, um dia antes da festa, não
podendo consequentemente ser questão de qualquer participação de Jesus
numa ceia real de Páscoa. João especifica que os dignitários que entregaram
Jesus a Pilatos recusaram-se a entrar em seu palácio, no pretório, a fim de
permanecerem ritualmente puros “e poder comer a Páscoa” (ver João 18,28).
Há um consenso geral entre intérpretes do Novo Testamento de que a
narrativa da Última Ceia, com a sua exiguidade de detalhes concretos,
foi escrita acima de tudo para registrar o que desde o princípio a igreja
primitiva compreendeu como a instituição de um ritual religioso
significativo, a Eucaristia.
Queira ou não, essa visão eclesial afeta
retrospectivamente o significado das palavras que presumidamente teriam vindo
dos lábios de Jesus. (VERMES, 2006, p. 344-345). (grifo nosso).




Na passagem de Mateus, em nota de rodapé, os tradutores da Bíblia de Jerusalém nos explicam: “Estamos no meio da ceia pascal. É em gestos precisos e solenes do ritual judaico (ações de graças a Iahweh pronunciadas sobre o pão e sobre o vinho) que Jesus enxerta os ritos sacramentais do novo culto que instaura” (p. 1751). Apenas uma perguntinha: ou enxertaram usando o nome de Jesus? Além do mais, isso se deu no primeiro dia dos pães ázimos (Mt 26,17); portanto, é mesmo um ritual judaico realizado durante a celebração da Páscoa. Essa ceia, com a distribuição de pão e vinho, fazia mesmo parte dos rituais judeus,
conforme explica Renan (1823-1892):

[...] Naquela refeição, assim como em muitas outras(48). Jesus praticou
seu rito misterioso da divisão do pão. Como se acreditou, desde os primeiros
anos da Igreja, que a refeição em questão tivesse acontecido no dia de Páscoa e
tivesse sido o banquete pascal, naturalmente veio a ideia de que a instituição
eucarística se fizera naquele momento supremo. Partindo da hipótese de que
Jesus sabia antecipadamente com precisão quando morreria, os discípulos
deveriam ter sido levados a supor que ele reservara para aquelas últimas horas
uma enorme quantidade de atos importantes. Como, aliás, uma das ideias
fundamentais dos primeiros cristãos era a de que a morte de Jesus fora um
sacrifício, substituindo todos os da antiga Lei, a Ceia tornou-se o sacrifício por
excelência, o ato constitutivo da nova aliança, o sinal do sangue derramado para
a salvação de todos (49). O pão e o vinho, relacionados à própria morte, foram,
dessa forma, a imagem do Novo Testamento, que Jesus selara com seus
sofrimentos, a comemoração do sacrifício do Cristo até a sua vinda(50).
Muito cedo esse mistério se fixou num pequeno relato sacramental, que
possuímos em quatro versões(51) muito parecidas entre si. O quarto
evangelista, tão preocupado com ideias eucarísticas(52), que descreve a
última ceia com tanta prolixidade, que liga a ela tantas circunstâncias e
discursos(53), não conhece esse relato. Isso prova que não considerava
a instituição da Eucaristia como uma particularidade da Ceia. Para o
quarto evangelista, o rito da Ceia é a lavagem dos pés.
______
(48) Luc., XXIV, 30-31, 35, representa a divisão do pão como um hábito de Jesus.
(49) Luc., XXII, 20.
(50) I Cor., XI, 26.
(51) Mat. XXVI, 26-28; Marc., XI, 22-24; Luc., XXII,19-21; I Cor., XI, 23-25.
(52) Cap. VI.
(53) Cap. XIII-XVII.
(RENAN, 2004, p. 360-361) (Grifo nosso).

Seria interessante que aqui fôssemos ver essa passagem bíblica citada por Renan, a primeira da lista acima, na qual ele diz ser, a divisão do pão, um hábito de Jesus, que, para um melhor entendimento, iremos começá-la num versículo anterior ao citado; então, leiamo-a:

Quando chegaram perto do povoado para onde iam, Jesus fez de conta que ia mais
adiante. Eles, porém, insistiram com Jesus, dizendo: "Fica conosco, pois já é tarde e a
noite vem chegando." Então Jesus entrou para ficar com eles. Sentou-se à mesa com
os dois, tomou o pão e abençoou, depois o partiu e deu a eles. Nisso os olhos dos
discípulos se abriram, e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente
deles. Então um disse ao outro: "Não estava o nosso coração ardendo quando ele nos
falava pelo caminho, e nos explicava as Escrituras?" Na mesma hora, eles se
levantaram e voltaram para Jerusalém, onde encontraram os onze, reunidos com os
outros. E estes confirmaram: "Realmente, o Senhor ressuscitou, e apareceu a Simão!"
Então os dois contaram o que tinha acontecido no caminho, e como tinham
reconhecido Jesus quando ele partiu o pão.
(Lc 24, 28-35)
.
Jesus, depois de ressuscitado, foi reconhecido pelos dois discípulos, que estavam se dirigindo a Emaús, exatamente pelo ato de partir o pão. Dessa forma, a conclusão de Renan é absolutamente correta, não sendo, portanto, o ritual de partir o pão e beber vinho a instituição da eucaristia, rito sacramental praticado em determinadas correntes religiosas.
Estranhamos que tal fato ainda venha a acontecer, pois a nós, da forma que é praticado, mais parece, voltamos a dizer, um ritual de canibalismo do que qualquer outra coisa. Povos primitivos acreditavam que, ao se comer o corpo de um guerreiro que haviam matado, a sua força e coragem, muito valorizadas por esses povos, passariam àquele que fizesse do guerreiro vencido o seu “prato do dia”.
Qual será a razão para se justificar que os fiéis ainda “comam do corpo e bebam do sangue” de Jesus, que creem presentes na hóstia, após ser consagrada pelo sacerdote? Para nós é algo sem sentido, principalmente considerando que Jesus disse “não é o que entra pela boca que torna o homem impuro,...” (Mt 15,11); da mesma forma podemos entender que o que entra pela boca não torna o homem puro. Consequentemente podemos concluir que,mesmo que se coma algo sagrado (hóstia), ninguém se tornará um ser purificado por isso.
Pesquisando outras fontes sobre o assunto, encontramos o autor Bart D. Ehrman, considerado a maior autoridade sobre o Novo Testamento do mundo, dizendo:
 
[...] Em um de nossos mais antigos manuscritos gregos, assim como em
vários testemunhos latinos, temos:
E tomando o cálice, dando graças, ele disse: “Tomai-o, reparti-o entre
vós, pois eu vos digo que não beberei do fruto da vinha a partir de agora,
até que venha o reino de Deus”. E tomando o pão, dando graças, ele o
partiu e o deu a eles, dizendo: “Isto é o meu corpo... Mas vede que a mão
daquele que me trai está comigo nesta mesa” (Lucas 22,17-19).
Contudo, na maioria de nossos manuscritos, há um acréscimo ao texto,
que soará familiar a muitos leitores da Bíblia, visto que se assentou nas
traduções modernas
. Ali, depois que Jesus diz: “Isto é meu corpo”, ele
continua dizendo as palavras: “'Que foi dado por vós; fazei isto em memória de
mim', e fez o mesmo com o cálice após a refeição, dizendo: 'Este cálice é a nova
aliança em meu sangue derramado por vós'”.
Estas são as palavras, muito familiares, da “instituição” da Ceia do
Senhor, registradas também sob uma forma muito similar na primeira carta de
Paulo aos Coríntios (1 Coríntios 11,23-25). A despeito do fato de serem tão
familiares, há boas razões para pensar que esses versículos não
estavam no original do Evangelho de Lucas, mas que foram
acrescentados para ressaltar que foram o corpo partido e o sangue
derramado de Jesus que trouxeram a salvação “para vós”. [...]
Além do mais, não se pode deixar de notar que os versículos, por mais
familiares que sejam, não representam a própria compreensão que
Lucas demonstra ter da morte de Jesus.
É uma característica
surpreendentemente do retrato que Lucas faz da morte de Jesus – por mais
estranho que isso seja à primeira vista – que ele nunca, em nenhuma outra  passagem, indica que a morte em si seja o que traz a salvação do
pecado.
Em nenhum outro lugar de toda a obra em dois volumes de Lucas
(Lucas e Atos dos Apóstolos), se diz que a morte de Jesus foi “por vós”. De fato,
nas duas ocasiões em que a fonte de Lucas (Marcos) indica que foi por meio da
morte de Jesus que veio a salvação (Marcos 10,45; 15,39), Lucas mudou a
disposição do texto (ou o eliminou). Em outros termos, Lucas tem uma
compreensão diferente da forma com que a morte de Jesus conduz à salvação,
diferente da de Marcos (da de Paulo e da de outros escritores cristãos antigos).
(EHRMAN, 2006, p. 175-176). (grifo nosso).
 
Assim, dentro da visão desse renomado autor, um dos textos a que se apegam para justificar a eucaristia não é outra coisa senão uma adulteração dos originais bíblicos. E, pelo visto, ele não está sozinho em sua tese. Vejamos uma outra opinião:

Jesus seguia a ordem essênia em suas refeições de festa e, em especial,na última ceia, ou seguia a ordem não-sectária: vinho e pão? Segundo Mateus e Marcos, Jesus primeiro abençoava o cálice e depois o pão, mas a situação em
Lucas é diferente. “Chegada a hora, pôs-se Jesus à mesa, e com ele os apóstolos. E disse-lhes: Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta
páscoa, antes de meu sofrimento. Pois vos digo que nunca mais a comerei, até
que ela se cumpra no reino de Deus. E, tomando um cálice, havendo dado
graças, disse: Recebei e reparti entre vós; pois vos digo que de agora em diante
não mais beberei do fruto da videira, até que venha o reino de Deus. E,
tomando um pão, tendo dado graças, o partiu e lhes deu, dizendo: Isto é meu
corpo” (Lc 22:14-19). Aí termina o texto de Lucas, de acordo com o famoso
Codex Bezae, a antiga tradução latina, e dois antigos manuscritos siríacos.
Todos os leitores atentos reconhecerão com facilidade que o que se segue em
Lucas nos outros testemunhos é tirado de 1 Cor 11:23-26, de modo que temos
aqui a estranha situação de que no texto aceito aparecem dois cálices, um no
começo e o outro no final. Tanto a Versão Padrão Revista como a Nova Bíblia
Inglesa adotaram o ponto de vista correto, de que Lc 22:19b-20 não fazia
parte do texto original de Lucas.
Depois que Jesus disse do pão partido ‘Isto
é meu corpo” fazendo alusão a sua iminente morte violenta, ele continuou e
tornou-se mais explícito, dizendo: “Todavia a mão do traidor está comigo à
mesa” (Lc 22:21). (FLUSSER, 2000, p. 227) (grifo nosso)
.
Confirma-se, portanto, que o texto de Lucas (Lc 22,19b-20) foi um acréscimo posterior. Em James D. Tabor, em A dinastia de Jesus: a história secreta das origens do cristianismo, vamos encontrar outras explicações que são bem interessantes de se ver:

Ironicamente, os mais antigos relatos da última refeição na quarta-feira à
noite vêm de Paulo, e não de qualquer dos evangelhos. Em uma carta a seus
seguidores na cidade grega de Corinto, escrita por volta de 54 d.C., Paulo
passa adiante a tradição que dizia ter "recebido" de Jesus:
"Jesus, na
noite em que foi traído, tomou um pão, e tendo dado graças, partiu-o e disse:
'Isto é o meu corpo, que é para vós; fazei isso em memória de mim: Do mesmo
modo, depois da ceia, tomou o cálice e disse: 'Este cálice é a nova Aliança no
meu sangue; fazei isto sempre que o beberdes, em memória de mim'” (1
Coríntios 11:23-25).
Essas palavras, tão familiares aos cristãos como parte da
Eucaristia da Missa, são repetidas com ligeiras variantes em Marcos,
Mateus e Lucas.
Representam a síntese da fé cristã, o pilar do evangelho
cristão: a humanidade está salva dos pecados pelo sacrifício do corpo e do
sangue de Jesus. Qual é a probabilidade histórica de que essa tradição
baseada naquilo que Paulo disse ter "recebido" de Jesus represente o
que Jesus disse durante a última ceia?
Tão surpreendente quanto possa
parecer, existem alguns problemas autênticos a considerar.
Em cada refeição judaica, o pão é partido, o vinho partilhado, e a
bênção dada - mas a ideia de comermos carne humana e bebermos
sangue, mesmo que simbolicamente, é de todo alheia ao judaísmo. A
Torá proíbe especificamente a ingestão de sangue, não só para os
israelitas, mas para todos
. A Noé e a seus descendentes, como
representantes de toda a humanidade, já tinha sido proibido "ingerir sangue"
(Gênesis 9:4). Moisés tinha prevenido, "se qualquer homem da Casa de Israel
ou gentio, residente no meio deles, ingerir qualquer espécie de sangue, eu me
voltarei contra esse que ingere sangue e eliminá-lo-ei de seu povo" (Levítico
17:10). Em outra ocasião, Tiago, o irmão de Jesus, refere-se a isto como uma
"exigência”, para que os não judeus pudessem juntar-se à comunidade nazarena
- não ingerirão sangue (Atos 15:20). Essas restrições dizem respeito ao sangue
de animais. Ingerir carne e sangue humanos não era proibido, era
simplesmente inconcebível.
Essa sensibilidade generalizada em relação à
mera ideia de "beber sangue" mostra a improbabilidade de Jesus ter usado tais
símbolos.
Como dissemos, a comunidade essênica, em Qumrã, descreveu, em um
de seus manuscritos, um futuro "banquete messiânico", no qual o Messias
Sacerdotal e o Messias da linhagem de Davi sentar-se-iam com os membros da
comunidade crente e abençoariam a sagrada refeição de pão e vinho como a
celebração do Reino de Deus. Teriam certamente ficado espantados com
qualquer simbolismo sugestivo de que o pão fosse a carne humana, e o vinho, o
sangue.(10) Tal ideia simplesmente não poderia ter partido de Jesus
como judeu.
Portanto, qual a origem dessa linguagem? Se aparece primeiramente com
Paulo, e ele não a recebeu de Jesus, então qual seria sua fonte? As maiores
semelhanças encontram-se em alguns ritos mágicos greco-romanos.
Existe um papiro grego que registra um encantamento amoroso, no qual um
macho pronuncia certos feitiços sobre um cálice de vinho, que representa o
sangue que o deus egípcio Osíris tinha dado à sua consorte Ísis para que ela o
amasse. Quando sua amante bebe o vinho, ela simbolicamente se une a seu
amado pelo seu sangue.(11) Em outro texto, o vinho é transformado na carne
de Osíris.(12) Simbolicamente, comer a "carne" e beber o "vinho" era
parte de um rito mágico de união na cultura greco-romana.
Devemos considerar que Paulo cresceu imbuído da cultura grecoromana,
na cidade de Tarso, na Ásia Menor, fora da terra de Israel. Ele nunca
conheceu ou falou com Jesus. A relação que ele pretendeu com Jesus é
"visionária”, e não com um Jesus de carne e osso, caminhando na terra.
Quando os Doze se reuniram para substituir Judas, depois da morte de
Jesus, colocaram como condição para fazer parte do grupo ter estado com Jesus
desde o tempo de João Batista até a crucificação (Atos 1:21-22). Ter visões e
ouvir vozes não eram qualificações suficientes para um apóstolo.
Em segundo lugar, e de forma ainda mais reveladora, o evangelho de
João narra os acontecimentos daquela última refeição na noite de
quarta-feira, mas nunca se refere às palavras de Jesus instituindo essa
nova cerimônia da Eucaristia
. Se Jesus, na realidade, iniciou a prática de
comer o pão como sendo seu corpo, e beber o vinho como sendo seu sangue na
sua "última ceia" como poderia João tê-la omitido? O que João escreve, segundo
todas as indicações, é que Jesus sentou-se para participar de uma refeição
judaica comum. Após a ceia, ele se levantou, pegou uma bacia de água e um
pano, e começou a lavar os pés de seus discípulos, mostrando como o professor
e mestre deveria agir como criado - mesmo para seus discípulos. Jesus
começou, então, a descrever como iria ser traído, e João nos diz que Judas
abruptamente abandonou a ceia.
O evangelho de Marcos está muito próximo, em suas ideias
teológicas, àquele de Paulo.
Parece possível que, em sua descrição da última
ceia, feita uma década depois da de Paulo, Marcos tenha inserido o
tradicional "coma o meu corpo" e "beba o meu sangue" em seu
evangelho, influenciado pelo que Paulo afirma ter recebido.
Tanto Mateus
como Lucas baseiam inteiramente suas narrativas em Marcos, e Lucas é
também um convicto defensor de Paulo. Tudo parece levar a Paulo. Como
veremos, não há qualquer prova de que os primeiros seguidores judeus
de Jesus, conduzidos ao quartel-general em Jerusalém por Tiago, o
irmão de Jesus, tenham alguma vez praticado qualquer rito dessa
natureza.
Como todos os judeus, eles santificavam o vinho e o pão como parte
de uma refeição sagrada, e provavelmente tinham presente a noite em que ele
havia sido traído, lembrando-se da última refeição com Jesus.
Na realidade, para resolver essa questão, precisamos de uma fonte
independente, cristã, que não tenha sido influenciada por Paulo, que possa
esclarecer a prática original dos seguidores de Jesus. Felizmente, em 1873, esse
texto foi encontrado em uma biblioteca em Constantinopla. É intitulado Didache,e data do início do século II d.C.(13) Fora mencionado pelos primeiros autores da igreja, mas desaparecera até ser descoberto acidentalmente por um
sacerdote grego, o Padre Bryennios, em um arquivo de manuscritos antigos.
Didache significa "Ensinamentos”, em grego, e seu título completo é "Os
Ensinamentos dos Doze Apóstolos”. Trata-se de um antigo "manual de
instruções", provavelmente escrito para ser utilizado por aspirantes ao batismo
cristão. Contém muitas instruções e exortações éticas, mas também capítulos
sobre o batismo e a Eucaristia - a sagrada refeição do pão e vinho. É aí que
entra a surpresa. Ele oferece as seguintes bênçãos para o pão e o vinho:
No que se refere à Eucaristia, darás graças da seguinte forma.
Em primeiro lugar, quanto ao cálice: "Damos-vos graças, Pai nosso,
pela santa vinha de Davi, vosso filho, que nos destes a conhecer através
de Jesus, vosso filho. Para vós a glória eterna". E quanto ao pão: Damos vos
graças, Pai nosso, pela vida e sabedoria que nos comunicastes através
de Jesus, vosso filho. Para vós, glória eterna.(14)
Notem que não há menção ao vinho, representando o sangue, ou
ao pão, representando a carne.
E, no entanto, é um registro da primeira
refeição da Eucaristia cristã! Este texto nos faz lembrar muito das descrições da
sagrada refeição messiânica nos Manuscritos do Mar Morto. O que temos aqui é
a celebração messiânica de Jesus como o Messias da linhagem de Davi, e a vida
e a sabedoria que ele trouxe à comunidade. Evidentemente, essa comunidade
de seguidores de Jesus nada sabia da cerimônia proposta por Paulo. Se a prática
de Paulo viera realmente de Jesus, seguramente esse texto tê-la-ia incluído.
Existe mais um ponto importante a esse respeito. Na tradição judaica, é o
cálice de vinho que, primeiramente, é abençoado, depois o pão. Essa é a ordem
que encontramos na Didache. Mas no relato de Paulo da "Ceia do Senhor", Jesus
abençoa primeiro o pão, depois o cálice de vinho - justamente o oposto. Pode
parecer um detalhe insignificante até examinarmos o relato de Lucas sobre as
palavras de Jesus, durante a refeição. Embora ele siga basicamente a tradição
de Paulo, ao contrário deste, Lucas fala primeiro no cálice de vinho, depois no
pão e, em seguida, em outro cálice de vinho! O pão e o segundo cálice de vinho
ele interpreta como o "corpo" e o "sangue" de Jesus. Mas quanto ao primeiro
cálice - na ordem que se esperaria da tradição judaica - nada é dito que
represente "sangue". Ao contrário, Jesus diz, "Eu vos digo, doravante não
beberei da fruta da videira até a chegada do Reino de Deus" (Lucas 22:18). Essa
tradição do primeiro cálice, só encontrada em Lucas, é uma pista do que deveria
ter sido a tradição original antes de a versão Paulina ter sido inserida, agora
confirmada pela Didache.
Vista sob essa luz, essa última refeição tem sentido histórico. Jesus disse
a seus seguidores mais próximos, reunidos secretamente na Sala do Andar
Superior, que ele não partilharia com eles outra refeição até a chegada do Reino
de Deus. Ele sabe que Judas iniciará, naquela noite, os procedimentos que
culminarão com sua prisão. Suas esperança e prece são de que, da próxima vez
em que estiverem sentados juntos para comer, dando a tradicional bênção
judaica do vinho e do pão - o Reino de Deus já tenha chegado.
Uma vez que Jesus se reuniu só com seu Conselho dos Doze, nessa última
refeição privada, Tiago e os três outros irmãos de Jesus teriam estado
presentes. Isso foi confirmado em um texto perdido chamado Evangelho dos
Hebreus, que era usado por judeus-cristãos que rejeitavam os ensinamentos e a
autoridade de Paulo. Sobrevive apenas em algumas citações, preservadas por
autores cristãos, como Jerônimo. Uma das passagens nos diz que Tiago, o irmão
de Jesus, depois de ter bebido do cálice que Jesus fizera circular, afiançou que
também ele não comeria ou beberia até ver o Reino chegar." Portanto, temos
aqui a prova textual de uma tradição que recorda a presença de Tiago na última
refeição.
______
(10) Manuscritos do Mar Morto, The Messianic Rule (1QSa) 2.11-25.
(11) The Demotic Maginal Papyrus of London and Leiden 15.1-6, em The Greek
Magical Payri in Translation, incluing the Demotic Spells, ed. Hans Dieter Betz
(Chicago: University of Chicago Press, 1968).
(12) Papyri graecae magicae 7.643ff.
(13)Didache é promunciado como did-a-quei.
14) Didache 9:1-3, em Bart Ehrman, trad. The Apostolic Fathers, Loeb Classical
Library 24, vol. 1 (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 2003), p. 431.
(TABOR, 2006, p. 215-219). (grifo nosso).
 
Realmente, a questão de comer carne e beber sangue para um judeu era algo impensável; por isso, Jesus, que nasceu, viveu e morreu como judeu, jamais teria dito isso. É inacreditável que ainda se adotem, nos dias atuais, práticas religiosas tidas “como bíblicas”, quando, na verdade, são, em sua esmagadora maioria, atos pagãos, para usar uma expressão ao gosto dos teólogos. É o caso que estamos analisando, que é corroborado por Kersten e Gruber, que, narrando o culto persa a Mitra, dizem: “O serviço religioso semanal era realizado aos domingos, dia dedicado ao deus. A cerimônia mais importante do culto era uma
ceia que constava de vinho e pão – oferecido na forma de hóstias consagradas que tinham o sinal da cruz”. (KERSTEN e GRUBER, p. 316). (grifo nosso).
Curiosa é a frase a seguir, atribuída a Mitra, que nos coloca diante de um fato, em relação ao qual qualquer semelhança não é mera coincidência: "Aquele que não comer minha carne e não beber meu sangue para ser um comigo, e eu um com ele, aquele não conhecerá a salvação". (FREKE e GANDY, 2002, p. 11 e 52).
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Mai/2006.
(revisado nov/2010).
Referências bibliográficas:
Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, São Paulo: Paulus, 1990.
Bíblia de Jerusalém, São Paulo: Paulus, 2002.
EHRMAN, B. D. O que Jesus disse? O que Jesus não disse?: quem mudou a Bíblia e por quê,
São Paulo: Prestígio, 2006.
FLUSSER, D. O Judaísmo e as origens do Cristianismo, vol. 1, Rio de Janeiro: Imago, 2000.
FREKE, T. e GANDY, P. Os mistérios de Jesus – seria o Jesus original um deus pagão? Mem
Martins, Portugal: Europa América, 2002.
KERSTEN, H. e GRUBER, E. R. O Buda Jesus – as fontes budistas do cristianismo, São Paulo:
Best Seller, s/d.
RENAN, E. A vida de Jesus, São Paulo: Martin Claret, 2004.
TABOR, J. D. A dinastia de Jesus: a história secreta das origines do cristianismo. Rio de
Janeiro: Ediouro, 2006.
VERMES, G. O Autêntico Evangelho de Jesus, Rio de Janeiro: Record, 2006

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