"Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros." (João 13:35) "Onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, lá estarei no meio deles." (Mateus 18:20)

Translate


Pesquisar

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Henoc teria sido arrebatado?

Sim! Seria a resposta que, rapidamente, daria a maioria dos seguidores aficionados da
Bíblia, e, certamente, de forma bem retumbante. Porém, nós ainda permanecíamos na dúvida, por dois motivos.
O primeiro é que tendo Jesus dito que “O espírito é que dá vida, a carne não serve para
nada” (Jo 6,63), não víamos motivo algum para que fôssemos para um outro plano
completamente diferente do em que vivemos – mundo material, levando o nosso corpo físico.
Consideramos isso tão absurdo quanto querer voar sem ter asas ou viver na profundeza dos
mares, sem   qualquer tipo de aparelho ou equipamento, que nos forneçam o oxigênio,
elemento vital para sobrevivermos. Uma boa noção disso, seria um   astronauta, após ter
voltado da ISS  (International Space Station), não querer tirar o traje, que usou para ir ao
espaço, pretendendo viver, aqui na Terra, o seu dia-a-dia com ela. É exatamente assim  a
relação que o nosso corpo físico terá com o espírito na dimensão espiritual.
O segundo, temo-lo em Paulo, que explicou detalhadamente aos coríntios (1Cor 15,35-
49), que, para as variadas situações em que vivem os seres, Deus deu um corpo apropriado a
cada uma delas, e, em relação a nós, afirmou, sem rodeios, que temos dois corpos: o animal e
o espiritual; e que esse último é que seria o corpo da ressurreição. Ao final, concluiu de forma
taxativa:  “a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus” (1Cor 15,50), não dando,
portanto, margem a alguma outra opção de interpretação. Sem falar que a lei do Criador não
permite que um   corpo físico se mantenha no mundo espiritual; porquanto esse só tem
condições de se manter através da ingestão de elementos também orgânicos.
Vejamos a narrativa bíblica, na qual consta que Henoc teria sido arrebatado:
Gn 5,21-24: “Quando Henoc completou sessenta e cinco anos, gerou Matusalém. Henoc
andou com Deus. Depois do nascimento de Matusalém, Henoc viveu trezentos anos, e
gerou filhos e filhas. Ao todo, Henoc viveu trezentos e sessenta e cinco anos.  Henoc
andou com Deus e desapareceu, porque Deus o arrebatou”
Apesar de já termos lido esse passo, por diversas vezes, ainda não tínhamos
despertado para um  pequeno detalhe que consta nele, que é a afirmação de que “ao todo,
Henoc viveu 365 anos”, ficamos a matutar se esse “viveu” aí não seria o caso de se concluir
que o autor bíblico tinha consciência de morte de Henoc. Uma boa alternativa que passamos a
ver como a hipótese mais provável da ocorrência.
Como sempre fazemos, cuidamos de pesquisar em  outras versões bíblicas, para ver
como o fato é narrado nelas. A nossa surpresa foi que o termo “arrebatou” só o encontramos
nas Bíblias Pastoral e de Jerusalém; todas as outras, em número de treze (86,6%), aparecem,
em  seu lugar, os termos “levou” ou “tomou”, conforme opção do tradutor. Não refeito deste
susto, mais um nos aguardava, quando lemos nas Bíblias - Paulinas), o seguinte: “É tradição
que Henoc não tenha morrido”. (Paulinas, 1977, p. 30; 1980, p. 30   –   grifo nosso).
Imediatamente, concluímos: trata-se apenas de uma tradição, não de um fato real; ou que
tradutor e a editora não quiseram assumir a responsabilidade do que consta nos “originais”.
Para entendermos melhor a ocorrência, vamos buscar nos tradutores da Bíblia – Vozes,
a seguinte explicação, constante de nota de rodapé:
Henoc levou uma vida de amizade com Deus, moral e religiosamente
perfeita, mas viveu apenas 365 anos. O número significa a perfeição de uma
vida igualável ao número dos dias de um ano completo. Em vista de sua vida
perfeita foi  arrebatado para junto de Deus
. Tal  maneira de descrever um
fim de vida  corresponde à expressão popular “Deus o levou”, referindo-se
à morte de pessoas bondosas e queridas. (Bíblia – Vozes, p. 33). (grifo nosso)
Percebe-se, claramente, que se trata é de uma figura de linguagem do narrador bíblico,
para dizer que ele, por ser uma pessoa tão boa, “Deus o levou”, para uma melhor, ou seja,
morreu mesmo. Em apoio a essa nova perspectiva do fato, podemos trazer em corroboração,
essa passagem do livro Sabedoria:
Sb 4,7-15  :  ”Ainda que  morra prematuramente, o justo encontrará repouso. (…) O
justo agradou a Deus, e Deus o amou. Como ele vivia entre os pecadores,  Deus  o
transferiu. Foi arrebatado
, para que a malícia não lhe pervertesse os sentimentos,
ou para que o engano não o seduzisse. De fato, o fascínio do vício obscurece os
verdadeiros valores, e a força da paixão perverte a mente que não tem malícia.
Amadurecido em pouco tempo, o justo atingiu a plenitude de uma vida longa.  A alma
dele era agradável ao Senhor, e este se apressou em   tirá-lo do meio da
maldade.
Muita gente vê isso, mas não compreende nada; não reflete que a graça e a
misericórdia de Deus são para os seus escolhidos, e a proteção dele é para os seus
santos”
O livro Sabedoria, como todos sabemos, não consta das Bíblias protestantes. Por ele,
fica nítida a informação sobre o sentido figurado dado ao termo arrebatar, que acabamos de
falar. Inclusive, mais à frente, narra-se:
Sb 14,15: “Um pai, atormentado por um luto prematuro, manda fazer uma imagem do
filho tão cedo arrebatado. (…)”,
O sentido que aqui encontramos só vem reforçar ainda mais a conclusão à qual estamos
chegando no decorrer desse estudo.
E, em Eclesiástico, outro livro que não consta do Cânon protestante, lemos:
Eclo 44,16:  “Henoc agradou ao Senhor e foi arrebatado, tornando-se modelo de
conversão para as gerações”.
Provavelmente, o mesmo que estamos falando de Henoc servirá para Elias, o profeta
que dizem ter também sido arrebatado:
1Mc 2,58: “Elias foi arrebatado ao céu, por causa do seu ardente zelo pela Lei”.
Até parece ironia do destino, mas também   este livro de Macabeus não consta das
Bíblias protestantes. E, são eles, que mais defendem o arrebatamento de ambos os nomes
citados. Em   função dessas exclusões passou-nos pela ideia: será que foi em   decorrência
desses fatos que esses livros foram retirados da Bíblia protestante?
Encontramos uma passagem no N.T., na qual se afirma algo sobre o assunto; vejamos:
Hb 11,5: “Pela fé, Henoc foi levado embora, para que não experimentasse a morte.
E não foi mais encontrado, porque  Deus o levou; e antes de ser levado, foi dito que
ele agradava a Deus”.
Nas outras Bíblias em   lugar de “levou” encontramos “arrebatou ou trasladou”, prato
cheio para os bibliólatras que tentarão justificar como fato real o arrebatamento de Henoc.
Temos aqui o cumprimento do ditado “quem conta um conto, aumenta um ponto”, pois vemos
nada mais que a transformação de uma metáfora numa realidade.
Por outro lado, recomendamos muito cuidado aos que, porventura, se agarrarem a esse
livro, pois nele também se diz, de forma bem clara, que, em virtude da fraqueza, da inutilidade
e das falhas, o A.T foi declarado antiquado e substituído por algo tanto mais excelente quanto
melhor, que é a nova Aliança, ou seja, o N.T. (Hb 7,18-19; Hb 8,6-7.12). Pensava-se,
antigamente que o seu autor fosse Paulo (possivelmente seja o motivo pelo qual entrou no
Cânon do N.T), entretanto, hoje tem-se que é de autoria de uma pessoa completamente
desconhecida. Acreditamos que, se tivessem prestado mais atenção nisso aí que afirmou, seria
bem provável que não teria sido incluído entre os livros que compõem o N.T.
A pesquisa que levamos a efeito, visando saber quem foi Henoc, nos colocou diante de novos problemas.
No Dicionário Bíblico Universal, lemos:
A descrição bíblica de Henoc tem os contornos imprecisos do estilo
mítico.
Henoc pertence a  duas genealogias diferentes: é filho de Caim  e
de Jared  (Gn 4,17; 5,18).
Viveu 365 anos, tantos quantos os dias de um ano
solar. Difere dos outros patriarcas, entre os quais é apresentado: elogiado por
sua fidelidade a Deus, não morreu, “mas desapareceu, porque Deus o levou” (Gn 5,22-24). (p. 348). (grifo nosso).
Suspeitamos que a descrição de que tem “os contornos imprecisos do estilo mítico”, foi feita para suavizar o fato, ou seja, para não o colocar flagrantemente como proveniente da mitologia; o que é confirmado também pelo tempo de vida dele corresponder a um ano solar. Mas, por mais fantástico que parece, fomos conferir, e não deu outra: Henoc tem mesmo “dois pais”! Veja:
Gn 4,17-18:  “Caim se uniu à sua mulher, que concebeu e deu à luz  Henoc. [...].
Henoc gerou Irad, e Irad gerou Maviael; Maviael gerou  Matusael, e Matusael gerou
Lamec”.
Gn 5,18.21.25: “Quando Jared completou cento e sessenta e dois anos, gerou Henoc.
Quando Henoc completou sessenta e cinco anos, gerou  Matusalém. Quando
Matusalém completou cento e oitenta e sete anos, gerou Lamec“.
Embora os passos sejam  divergentes em  relação ao pai de Matusael/Matusalém, em
ambos os textos, este foi quem gerou Lamec; portanto, não adiantaria nada justificar alegando
que os passos falam de duas pessoas com o nome de Henoc.
Voltando ao assunto tempo de vida de Henoc, vemos aqui mais uma contradição nos
textos bíblicos. Vejamos estas informações sobre ele e outros personagens bíblicos:
Gn 5,5: “Ao todo, Adão viveu novecentos e trinta anos. E morreu”.
Gn 5,8: “Ao todo, Set viveu novecentos e doze anos. E morreu”.
Gn 5,11: “Ao todo, Enós viveu novecentos e cinco anos. E morreu”.
Gn 5,14: “Ao todo, Cainã viveu novecentos e dez anos. E morreu”.
Gn 5,17: “Ao todo, Malaleel viveu oitocentos e noventa e cinco anos. E morreu”.
Gn 5,20: “Ao todo, Jared viveu novecentos e sessenta e dois anos. E morreu”.
Gn 5,23: “Ao todo, Henoc viveu trezentos e sessenta e cinco anos”.
Gn 5,27: “Ao todo, Matusalém viveu novecentos e sessenta e nove anos. E morreu”.
Gn 5,31: “Ao todo, Lamec viveu setecentos e setenta e sete anos. E morreu”.
Gn 9,29: “Ao todo, Noé viveu novecentos e cinquenta anos. E morreu”.

Temos dois questionamentos: 1º) se “Deus não faz acepção de pessoas” (Dt 10,17; 2Cr 19,7; At 10,34; 15,9; Rm 2,11; 10,12; Gl 2,6; Ef  6,9; Cl 3,25  e 1Pe 1,17), por qual motivo esses privilegiados acima viveram tanto tempo?; 2º) se não bastasse tanta longevidade ainda nos deparamos com o grave problema de que Deus já tinha estabelecido que o homem não viveria mais do que 120  anos (Gn 6,3), será que teria se esquecido disso? A nosso ver, aqui encontramos duas contradições bíblicas.
Também não deixou de passar pela nossa mente a possibilidade de o autor bíblico, por um  lapso, ter deixado de colocar no versículo 23 a expressão “e morreu”, como vemos em todos os outros nomes. Assim, essa omissão fez com que pensassem ter Henoc ido para junto de Deus em corpo e alma, sem se darem conta de que, a cerca de 9 mil metros de altura,  a temperatura fica próxima a 40º C negativos; fora a questão da quase completa falta de oxigênio no ar.
Por outro lado, de todos da lista, constatamos que Henoc foi o que viveu menos tempo, supondo-se vida longa por estar nas graças de Deus, quem deveria ter sido arrebatado era  o seu filho Matusalém, que é o primeiro da lista dos “longa-vida”. Na verdade, ninguém viveu tanto tempo; é uma figura de linguagem para significar que a pessoa era, de um modo especial, cumpridora dos preceitos divinos e, como não tinham  a
crença numa vida após a morte, que é ideia relativamente recente no judaísmo (BORG,  e  CROSSAN, 2007), a retribuição seria uma “longos dias de vida” (Pr 3,2); portanto, “Morrer após uma vida longa e feliz era a recompensa prometida aos que seguissem os conselhos da sabedoria e observassem a Lei de Deus”. (Bíblia - Vozes, p. 541)
Retomando ao ponto anterior, vejamos, agora, o que consta no Dicionário Prático  - Barsa, que já considera o filho de Caim como um outro Henoc:
2. Filho de Jared e pai  de Matusalém. Depois de viver 365 anos “Henoc andou com Deus e não foi visto mais, porque o Senhor o levou” (Gen 5,18-24).  Por causa desta frase e de algumas outras referências a ele na Bíblia (Eclo 44,16; Hebr 11,5), muitos pensam que não tenha morrido, mas que tenha
sido “arrebatado” por Deus
como o foi  o profeta Elias (4Rs 2,3.9.10); como querem também alguns que Henoc e Elias sejam os “dois testemunhos”  do Apocalipse (11,3ss).  Nada disto é certo. Henoc é também o suposto autor de um livro apócrifo, citado por S. Judas (Jud 14,15), mas é também possível que o
Apóstolo esteja baseado na tradição oral. (Bíblia Barsa – Dicionário, p. 119). (grifo nosso).
 
Vê-se que, num  primeiro, não se assumiu que Henoc não tenha morrido, apenas diz que “muitos pensam”; porém, ao final, é categórico: “nada disto é certo”; portanto, deixa para o campo da suposição essa crença.
De nossa parte, pelo que aqui levantamos, tudo se tornou bem claro, nunca houve arrebatamento físico, todos temos que passar pela porta da morte, pois não há outra forma de se retornar ao plano espiritual, do qual viemos, para habitar este atual corpo físico.
Responderemos, sem mais hesitação, à pergunta título desse estudo com um sonoro: não!
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Outubro/2009.

Referências bibliográficas:
A Bíblia Anotada, 8ª edição, São Paulo: Mundo Cristão, 1994.
Bíblia de Jerusalém, nova edição, revista e ampliada, São Paulo: Paulus, 2002.
Bíblia do Peregrino, edição brasileira, São Paulo: Paulus, 2002.
Bíblia Sagrada, 37ª edição, São Paulo: Paulinas, 1980.
Bíblia Sagrada, 3ª edição, São Paulo: Paulinas, 1977.
Bíblia Sagrada, 5ª edição, Aparecida-SP: Santuário, 1984.
Bíblia Sagrada, 68ª edição, São Paulo: Ave Maria, 1989.
Bíblia Sagrada, 8ª edição, Petrópolis, RJ: Vozes, 1989.
Bíblia Sagrada, 9ª edição, São Paulo: Paulinas, 1957.
Bíblia Sagrada, Edição Barsa, s/ed. Rio de Janeiro: Catholic Press, 1965.
Bíblia Sagrada, Edição Pastoral. 43ª impressão. São Paulo: Paulus, 2001.
Bíblia Sagrada, Edição Revista e corrigida, Brasília, DF: SBB, 1969.
Bíblia Sagrada, s/ed. São Paulo: SBTB, 1994.
Bíblia Shedd, 2ª Edição rev. e atual. no Brasil. São Paulo: Vida Nova; Brasília: SBB, 2005.
Escrituras Sagradas, Tradução do Novo Mundo das. Cesário Lange, SP: STVBT, 1986.
MONLOUBOU   L. e DU   BUIT, F. M.,  Dicionário Bíblico Universal, Petrópolis  –   RJ: Vozes;
Aparecida – SP: Santuário, 1996.
BORG, M. J. e CROSSAN, J. D. A última semana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007.

Nenhum comentário:

Postar um comentário