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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Porque Espiritismo demorou a surgir

Perguntam sempre  porque só recentemente surgiu o que para nós é a III Revelação, o  Consolador    prometido e os cristãos "ficaram enganados durante séculos" .
É só olharmos a História do Cristianismo. As   trevas que se abateram  sobre a Humanidade durante a longa noite da Idade Média, impediram toda e qualquer manifestação do pensamento. A Igreja se considerava  a única depositária e fiel intérprete  da Verdade e, em nome dessa "verdade", perseguiu implacavelmente todos que ousavam pensar com independência. Na verdade, nem precisava pensar, bastava uma denúncia anônima, de familiares ou até mesmo de crianças, para atirar multidões às masmorras  do "Santo Ofício", ou aos tribunais da "Santa Inquisição". Tudo, obviamente,  "para a maior glória de Deus"  e em nome daquele que veio ao mundo para ensinar aos homens uma lição de amor e de misericórdia..
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Do livro "Porque Sou Espírita" , de Américo Domingos:
  "Como seria importante que a hodierna Igreja Católica respeitasse e aceitasse o pensamento daqueles  prelados de antanho. Na realidade, atacando veementemente aos 'heréticos'  espíritas de hoje, estão os sacerdotes do Clero rememorando o execrável tempo da Inquisição, de triste memória.
     'Em fins  de 1481, só em Sevilha, perto de trezentas pessoas tinham padecido o suplício do fogo, e oitenta haviam sido condenadas a cárcere perpétuo. No resto da província e no bispado de Cádiz, duas mil foram, nesse ano, entregues às chamas, e dezessete mil condenadas a diversas penas canônicas. Entre os supliciados contavam-se pessoas opulentas cujos bens reverteram em benefício do fisco. Para facilitar as execuções, construiu-se em Sevilha um cadafalso de cantaria, onde os cristãos novos eram metidos, lançando-se-lhes depois ao fogo. Este horrível  monumento, que existiu até os começos do século XVIII, era conhecido pela expressiva denominação do 'Quemadero'  (Afinal,  Quem Somos?, Edicel, pg 116)
      'Em Sevilha, onde mais prosperou, centro que foi da Inquisição espanhola, chegaram-se a revezar turmas de operários para manter aceso o 'Quemadero', ao qual se ateava fogo continuamente para queimar centenas de pessoas de uma só vez, nos intermináveis 'autos-de-fé'  que celebrizaram Torquemada, o  mais sinistro dos inquisidores.
     'A obra do fanatismo inquisitorial  era terrível  aí, porque, além de perverter a consciência e sufocar o remorso, matava os últimos escrúpulos que permaneciam encobertos pelo beatismo. (ibidem, pg. 106)
      'No século XV a oposição sempre viva no seio da Igreja contra o primado do bispo de Roma, culminou com o estabelecimento de outro papa em Avinhão. E, para maior glória da Igreja, foi ferozmente reorganizada a primitiva Inquisição para combater mais extensamente os hereges'. Seus arquivos, só em Portugal, contam mais de 40.000 processos, 'testemunho de cenas medonhas', de atrocidades sem exemplo, de longas agonias'. (ibidem, pgs. 116 e 117)
     "A 15 de abril de 1506 - domingo - após as preces públicas contra a peste que inçava Lisboa e terminada a Procissão de Penitência, inicia-se, fomentado pelo clero, o maior massacre que houve em Portugal - a matança dos cristãos novos - os quais nada mais eram que judeus convertidos obrigatoriamente.
     'Não escapou, sequer, da sanha inquisitorial, os que foram se abrigar nas Igrejas, abraçados às imagens dos santos: as 'feras', atiçadas pelos representantes do clero, estimuladas pela onda de ferocidade do tribunal de Torquemada, iam ali arrancá-los e matá-los, sem distinção de sexo e idade. Só à tarde de terça-feira, quando já dominada a revolta, averiguou-se que além dos estropiados, tinham sido assassinadas mais de 2.000 pessoas....
    'A Inquisição na América Latina foi menos sanguinária do que nas metrópoles  européias. Em compensação,  demonstrou-se cúpida e voraz, pois havia aqui maiores riquezas a confiscar, mais ouro a extorquir, seja para a glória da Igreja e dos Estados, seja para a própria bolsa particular dos inquisidores. (ibidem, pg. 117)
    'Estímulo à  delação, à  espionagem, à corrupção mora e política, empobrecimento de famílias inteiras, criação de um ambiente de temor e permanente suspeição, atraso da cultura, intimidada pela presença esmagadora do Tribunal do Santo Ofício, responsável em grande parte pela acentuação do domínio temporal e espiritual das metrópoles, eis o balanço da obra da 'Santa Inquisição', em vários séculos da história'  (ibidem, pgs. 119  e 120)
    Os cientistas também foram perseguidos pelo Clero: 'Apesar de todas as precauções que tomou para não irritar o Santo Ofício, o velho e ilustre Galileu foi obrigado a comparecer perante uma comissão de oito cardeais, presidida pelo papa Urbano VIII, onde se viu constrangido a pronunciar, de joelhos, a fórmula seguinte: "Eu Galileu Galilei, com setenta anos de idade, como prisioneiro da 'Santa Inquisição'  e ajoelhado diante de Vossas Eminências, tendo sob os olhos os Santos Evangelhos e tocando-os com as minhas próprias mãos, abjuro, maldigo e detesto o erro e a heresia do movimento da Terra'.
    'Sabemos que lhe custou todos os sacrifícios,  inclusive o da liberdade, quando revoltado, num assomo de coragem, gritou ao regressar ao calabouço: 'E pur si muove'.
    'Outro exemplo interessante: Jerônimo de Praga, sacerdote, físico e grande sábio, teve o arrojo de afirmar, em uma das suas obras, a pluralidade das vidas e dos mundos habitados. Fora condenado à fogueira  pelo Concílio de Constança, que se iniciou no ano 1414 e foi até 1418, pois havia três papas irregularmente eleitos, daí a demora da condenação: Gregório XII, Benedito XIII e João XXIII que se tratavam reciprocamente de heréticos e que se excomungavam entre  si. Entretanto, anos depois, o cardeal Nicolau de Cuza sustenta, em pleno Vaticano, a pluralidade das vidas e dos mundos habitados, com assentimento do papa Eugênio IV.
      'A Idade Média também é povoada de espectros, que as fogueiras não intimidam. Rogério Bacon, acusado de magia e de ter pacto com o demônio, por afirmar que 'ouvia vozes dos espíritos', passa quarenta anos na prisão.
       'Joanna d'Arc foi condenada à fogueira por ouvir vozes misteriosas que a incitaram a libertar a França. (ibidem, pg. 121).
       'A multidão insulta-a como apóstata, da mesma maneira que insultara a Jesus como blasfemo! As chamas lhe envolvem e lambem  corpo virginal. 'Meu Deus, Jesus, Maria, minhas vozes! Sim, minhas vozes eram de Deus!' Foram suas últimas palavras.
        Também não escapa da sanha inquisitorial, uma das figuras mais brilhantes do Renascimento, o próprio Giordano Bruno. Pelo fato de acreditar na comunicação dos espíritos, sofre idêntico castigo de Joanna d'Arc: é queimado vivo" (ibidem, pg. 122)"

Léon Denis, em "Cristianismo e Espiritismo":
   "A Igreja, pelo órgão dos concílios, entendeu dever condenar as práticas espíritas, quando, de democrática e popular que era em sua origem, se tornou despótica e autoritária. Quis ser a única a possuir o privilégio das comunicações ocultas e o direito de as interpretar. Todos os leigos, provado que mantinham relação com os mortos, foram perseguidos como feiticeiros e queimados.
    Mas esse monopólio das relações  com o mundo invisível, apesar dos seus julgamentos e condenações, apesar das execuções em massa, a Igreja nunca o pôde obter. Ao contrário, a partir deste momento, as mais brilhantes manifestações se produzem fora dela. A fonte das superiores inspirações, fechada para os eclesiásticos, permanece aberta para os hereges. A História o atesta. Aí estão as vozes de Joanna D'arc, os gênios familiares de Tasso e de Jerônimo Cardan, os fenômenos macabros da Idade Média, produzidos por espíritos de categoria inferior; os convulsionários de S. Medard, depois os pequenos profetas inspirados de Cavennes, Swedenborg e sua escola. Mil outros fatos ainda formam uma ininterrupta cadeia, que, desde as manifestações na mais remota antiguidade, nos conduz ao moderno Espiritualismo.
  Entretanto, numa época recente, no seio da Igreja, alguns raros pensadores investigavam ainda o problema do invisível. Sob o título "Da distinção dos Espíritos", o cardeal Bona, esse Fenelon da Itália, consagrava uma obra ao estudo das diversas categorias de Espíritos que podem manifestar-se aos homens.

  'Motivo de estranheza, diz ele, é que se pudessem encontrar homens de bom senso que tenham ousado negar em absoluto as aparições e comunicações das almas com os vivos, ou atribuí-las a extravio da imaginação, ou ainda a artifício dos demônios".
  Esse cardeal não previa os anátemas dos padres católicos contra o Espiritismo.
  Forçoso é, portanto, reconhecê-lo: os dignatários da Igreja que, do alto de sua cátedra, têm anatematizado as práticas espíritas, desnortearam completamente. Não compreendem que as manifestações das almas são uma das bases do Cristianismo, que o movimento espírita é a reprodução do movimento cristão em sua origem. Não se lembram de que negar a comunicação com os mortos, ou mesmo atribuí-las à intervenção dos demônios, é pôr-se em contradição com os padres da Igreja e com os próprios apóstolos. Já  os sacerdotes de Jerusalém acusavam Jesus de agir sob a influência de Belzebu. A teoria do demônio fez sua época; agora já não é admissível."
Vemos ainda o que diz um teólogo protestante sobre esse período terrível:
"A crença do povo era de temor, como nas religiões pagãs que o Cristianismo destronara. Pensava-se que o mundo era cheio de maus espíritos, de demônios, cuja obra era destruir as almas. Para anular a obra dos demônios, apelava-se para a interseção dos santos, e para as virtudes mágicas das santas relíquias(...) À primeira vista parece incrível  que o Cristianismo chegasse a tal ponto, apresentasse tal caricatura das suas belas doutrinas, e ficasse tão longe daquela simplicidade de Jesus"(R.H NICHOLS, em "História da Igreja Cristã". Casa Edit. Presbiteriana, 1978, pg. 76)
"O Cristianismo de quase todo o povo da Idade Média era essencialmente a religião do temor. A Igreja mantinha seus filhos em submissão, conservando bem vivo em todas as pessoas o medo do seu poder sobre a vida, aqui e além-túmulo. (...) Isso obrigava  a totalidade das massas a tomar parte nas observâncias religiosas e obedecer aos preceitos morais da religião,  não por amor e confiança em Deus,  porém pelo terror inspirado pela idéia ou lembrança das conseqüências  de outra atitude"  (ibd, pg. 120) (As últimas palavras são um eufemismo, para mascarar o "pavor do inferno", que ainda hoje persiste).
   E não se pense que os valorosos reformadores  do Século XVI estiveram isentos desse radicalismo. Pretenderam  restaurar o Cristianismo do Cristo e o que fizeram  foi eliminar alguns dogmas. Substituíram a infalibilidade do Papa (sancionada em 1870,  mas já então aceita) pela infalibilidade da Bíblia, porém conservaram a mesma intolerância dos seus  predecessores. Prova-o o apoio de Lutero ao esmagamento da revolta dos camponeses alemães, em 1525, e a participação de Calvino no assassinato de Miguel Servet, em 1553. Vejamos como se expressam a respeito dois historiadores protestantes:
"De início Lutero procurou ver  as injustiças de ambos os lados. Mas quando a revolta mal dirigida caiu em excessos  maiores e pareceu fazer-se anarquista, voltou-se contra os camponeses com um violento panfleto "Contra a corja de Camponeses Assassinos e Ladrões", exigindo que os príncipes os esmagassem pela força. A insurreição camponesa foi marcada por espantosa carnificina" (W. Walker em "História da Igreja Cristã", pg 433)
"A parte de Calvino na execução de Servet, médico espanhol, por motivo de heresia, tem contribuído para que muitas pessoas deixem de fazer justiça à grande obra desse Reformador. Por negar a doutrina da Trindade, Servet foi condenado à fogueira, sendo Calvino um dos juízes que o condenaram. Como quase todas as pessoas do seu tempo, Calvino herdou da Idade Média a crença de que a heresia devia ser punida com a morte. Trairíamos a nossa consciência cristã se deixássemos de condenar com todas as forças o ato de Calvino neste caso. Todavia,  devemos  nos lembrar de que naquele tempo sua atitude foi geralmente aprovada em Genebra e pelos protestantes de quase toda parte"
(R.H NICHOLS, op. cit., pg. 166)
  A lição  de intolerância foi bem aproveitada pelos seguidores, pois o mesmo Nichols, falando dos anabatistas, assinala:
"A Igreja Romana, naturalmente, perseguiu-os de modo brutal. E até os luteranos e zuinglianos os perseguiram por sua rejeição ao batismo infantil e oposição às igrejas oficiais. Na Dieta de Spira, em 1529, enquanto os luteranos e zuinglianos protestavam contra a perseguição que se lhes movia, concordavam em que se perseguissem os anabatistas,  alguns dos quais sofreram morte às mãos de vários protestantes". (ibd pg 182)
  Mas das trevas da Idade Média não surgiu somente a Reforma. Num trabalho lento e progressivo, a Renascença libertou o espírito humano dos grilhões que o aprisionavam. O homem procurou avançar em conhecimento, começou a investigar os mistérios da existência.
   Tudo isso explica porque somente  em época relativamente recente os fatos que a Ciência rotula hoje de "paranormais" encontraram ambiente  propício à sua manifestação e divulgação. Na Idade Média os sensitivos eram acusados de feitiçaria e frequentemente levados  à morte pelas cortes inquisitoriais. A emancipação do espírito  não se fez de imediato, e nem se pode afirmar que tenha terminado ainda. Os ranços da intolerância religiosa ainda se fazem sentir por toda parte. Mas o Pai Celestial vela pelos destinos dos homens e de vez em quando - sempre que lhe parece oportuno - permite  o despontar de novas verdades,  ou melhor,de novos aspectos da Verdade.
    Mas, pergunta-se: "Se as comunicações  do mundo espiritual ocorreram em todos os tempos e entre todos os povos, por que precisamente os verificados em meados do século XIX tiveram repercussão tão ampla, ao ponto de ensejarem o aparecimento  de uma nova concepção do Cristianismo" ?
   Por vários motivos: 1 - Era preciso que a Humanidade  estivesse emancipada da opressão religiosa, ou seja, com liberdade para investigar livremente e adotar cada um  o ponto de vista que melhor lhe aprouvesse; 2 - Era necessário que o desenvolvimento intelectual  atingisse um nível em que se pudesse analisar os fatos sob critério estritamente racionais; e 3 - Impunha-se que os órgãos  de divulgação se expandissem ao ponto de tornar possível a ampla repercussão de quaisquer acontecimentos.
     Tudo isso se tornou viável no século XIX. O arejamento das idéias produzido pela Renascença libertou o pensamento das amarras medievais, fazendo surgir novos conceitos filosóficos,  ensejando o repúdio aos dogmas e até orientando dialeticamente o espírito humano para rumos materialistas, pelas vias do positivismo de Comte. Está aí bem clara  a oportunidade para uma salutar revisão nas bases do Cristianismo.
    A Ciência também  se emancipou com as teorias evolucionistas de Laplace e Darwin e procurou rumos próprios, colocando-se em posição antagônica à da teologia ortodoxa. Eis aí ainda mais indubitável a premência de um reajuste conceptual que ensejasse a conciliação das idéias em choque.
     Finalmente, a expansão do livro e da imprensa, dos meios de comunicação,  a eclosão da era industrial, o desenvolvimento da educação, todos esses fatores concorreram  para vulgarizar a cultura, disseminando conhecimentos que eram anteriormente privilégio de uma elite. Eis a terceira justificativa da adequação da mensagem espiritual a um mundo que já amadurecia intelectualmente para receber ensinamentos mais completos.
    Assim, surgiu  o Espiritismo,  retornando ao Cristianismo  primitivo, sem os dogmas e abusos humanos que o macularam ao longo dos séculos, com as verdades sobre a vida espiritual, e, principalmente, ensinando que a reforma íntima está acima de qualquer credo religioso. O próprio Cristo disse que seus ensinos seriam esquecidos e para isso enviaria o Consolador. E não foi isso o que aconteceu ? Não esqueceram seus ensinos a ponto dos ditos cristãos terem a mesma intolerância religiosa dos fariseus dos tempos do Cristo, pregando a crença em um Jesus Salvador  acima do amor ao próximo,  a ponto de chamar o Espiritismo, que ensina somente o bem, de Doutrina satânica, simplesmente por não pregar dogmas sem nenhum resultado prático, ensinos que não fazem ninguém se tornar um ser humano melhor? O Mestre conhecia e conhece bem os homens - não fosse Ele um Espírito Puro que convive com o Pai de toda a eternidade. Consequentemente já sabia que a Sua mensagem ficaria esquecida nos desvãos da vaidade humana. Mensagem que os Bons Espíritos, enviados por Cristo, vem relembrar.
         Se a Humanidade ficou por quase dois mil anos à margem desses ensinamentos, eis que é chegada a plenitude dos tempos, uma vez que o manifesto descompasso entre o progresso científico e o moral, entre o saber e a virtude, trouxe-nos a um momento crucial, em que não é mais possível fazer ouvidos de mercador aos preceitos do Cristo. Grande é a responsabilidade perante o Tribunal Divino daqueles que exerceram a função de condutores dos povos, ou de mentores espirituais de massas e não souberam ou não quiseram transmitir as divinas verdades de que se diziam portadores. Maior ainda é a responsabilidade daqueles que - conhecendo as tarefas que lhes cabe agora desempenhar - esquivando-se ao dever de transmitir aos homens a mensagem da salvação. Salvação, esta sim, com o sentido de libertação da ignorância, dos vícios, das paixões e dos preconceitos. Porque Jesus afirmou e não é demais repetir: "Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará"  (João 8:32)
Fonte: "O Espiritismo e as Igrejas Reformadas", Jayme Andrade.

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