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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Qual Deus é mesmo cruel?

Chega-nos a notícia de que um determinado líder religioso, querendo justificar que sua religião é boa, disse que o Deus dele é bom, mas que no Espiritismo isso não acontece, pois nosso Deus é cruel, já que faz com  que pessoas renasçam aleijadas e outras com  muito sofrimento. Estaria ele admitindo a existência de mais de um Deus?
Certos indivíduos agem como um verdureiro que, querendo provar que o tomate que vende é bom, usa do argumento de que o do seu concorrente é que é ruim, enquanto que deveria demonstrar que seu produto é bom, por razões de qualidade, sabor, visual, etc.Gostaríamos de saber como eles conseguem explicar que Deus, sendo bom, faça nascer criaturas aleijadas, cegas, surdas, mudas, paralíticas, sem usar como argumento o princípio da reencarnação. Se vivermos, conforme pregam, uma só vida, que nos apresentem seus argumentos para estabelecer essa bondade do Deus que seguem, já que as pessoas nascem dessa forma, independentemente de acreditarem na reencarnação ou não. Por outro lado, como conciliar essas situações com “Deus não faz acepção de pessoas” (At 10,34). Porventura não mais prevalece o “...vós que sois maus sabeis dar boas coisas a seus filhos, quanto mais o Pai Celestial...” (Mt 7,11)?
Aliás, parece-nos muito contraditório, pois se na Bíblia é afirmado que  “os pais não serão mortos pela culpa dos filhos, nem os filhos pela culpa dos pais. Cada um será executado por causa de seu próprio crime” (Dt 24,16), como nos pode ser imputado o “pecado” de Adão e Eva? Preferimos pagar pelo que fizemos, mesmo sem nos lembrarmos disso, a ter que pagar pelo que os outros fizeram, já que isso, além de ser completamente injusto, ainda fere  o princípio basilar de justiça, preconizado por Jesus:  “a cada um segundo suas obras”  (Mt 16,27).
Há outra coisa para a qual também   não conseguimos encontrar uma explicação: considerando que, ao instituir os Dez Mandamentos, Deus não estabeleceu a pena de castigo eterno no inferno para os seus infratores, como, então, Ele manda as almas para lá?  A legislação humana, por questão de justiça, só condena alguém, quando há pena estabelecida na Lei, mas a divina parece nem ligar para isso, segundo certos princípios teológicos! Por outro lado, não há como harmonizar essa absurda ideia de penas eternas diante da afirmativa de que “O Senhor é misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno. Não repreende perpetuamente, nem  conserva para sempre a sua ira. Não nos trata segundo os nossos pecados, nem nos retribui consoante as nossas iniquidades” (Sl 103,8-10). Entretanto, isso cabe perfeitamente na questão da reencarnação, já que Deus, como um   pai misericordioso, repreende temporariamente.
Erram os que pensam ser a reencarnação uma punição, pois essa lei é, acima de tudo, uma necessidade para a evolução da criatura, caminho pelo qual todos nós chegaremos  a Deus, ou seja, ela objetiva o progresso individual. E sem   ela, como explicar todo esse sofrimento, para o qual não se encontra justificação e que estão à nossa volta? Haveria, por exemplo, algum sentido de vida para uma criança que nasce deficiente mental? Quando morrer irá para o céu ou para o inferno, já que pelas suas condições de vida não tem como fazer nada para merecer nem um, nem o outro?
As desigualdades das condições sócio-econômicas das pessoas teriam qual explicação diante de uma justiça infinita? Não se encontrará outra senão quando se utilizar da justiça que somente se realiza através da reencarnação. Na verdade certos líderes religiosos acreditam na reencarnação como fato, mas como estão presos a sistemas que defendem seus interesses pessoais, não divulgam, e quando há questionamentos por parte dos fiéis, saem pela tangente afirmando que é um “Mistério de Deus”.
Afirmamos que, para nós, os Espíritas, Deus não é cruel, pois, ao invés de nos mandar para o inferno, onde ficaremos assando por toda a eternidade, como se fôssemos frangos depenados em assadeira elétrica às vistas de cachorros vagabundos, nos dá outra oportunidade para viver novamente e tantas quantas forem necessárias até nos tornarmos anjos (espíritos puros), aproveitando o ensejo da reencarnação para que possamos também reparar o mal que praticarmos. Todos os nossos sofrimentos são frutos de nossas próprias ações, quando não dessa vida, certamente de uma anterior, não tendo Deus nada a ver com isso, pois apenas está funcionando Sua Lei de causa e efeito.
O velho e surrado argumento de que Jesus não pregou reencarnação e sim ressurreição, deve ser revisto pelos que dele fazem uso.  A  questão é: como entendiam essa palavra? Será que ela também poderia significar voltar a viver em outro corpo? Se não, como Jesus afirmou que João Batista era Elias? A Nicodemos Ele disse que, para entrar no reino dos céus,  “é necessário que nasça de novo” (Jo 3,3). O que não deveria ser confundido com  o batismo, já que a prática ritualística de iniciação entre os judeus era a circuncisão. O povo pensava que Jesus poderia ser algum dos antigos profetas ressuscitado (Lc 9,8), óbvio que  o sentido aqui é reencarnatório, uma vez que conheciam sua origem. E como Jesus não disse que isso não poderia ocorrer, podemos daí concluir que, tacitamente, confirma tal pensamento, uma vez que, sempre corrigia os que pensavam equivocadamente. Mas é fácil entender o porquê do combate à reencarnação, pois, por ela, a “salvação’” fica nas mãos da própria pessoa, enquanto que, de outra maneira, a que defendem  – ressurreição da carne e castigo eterno -, estará nas mãos do líder religioso; que dessa forma mantém a posição de privilégio, poder e cofre cheio, via dízimo arrecadado como “doação” dos seus “pobres” fiéis, que nem desconfiam disso! Aliás a crença na ressurreição da carne, além de ser totalmente anticientífica, é contrária ao que Paulo afirmou:  “a carne e o sangue não podem herdar o reino dos céus” (1Cor 15,50).

Por derradeiro: “Só se jogam pedras em árvores que dão frutos”.
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Dez/2006.

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