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domingo, 20 de fevereiro de 2011

Ressurreição da Carne

Leon Denis - Cristianismo e Espiritismo
     Deveremos falar da ressurreição da carne, dogma segundo o qual os átomos do nosso corpo carnal, disseminados, dispersos por mil novos corpos, devem reunir-se um dia, reconstituir nosso invólucro e figurar no juízo final ?
    As leis da evolução material, a circulação incessante da vida, o jogo das moléculas que, em inúmeras correntes, passam de forma em forma, de organismo em organismo, tornam inadmissível essa teoria.
    O corpo humano constantemente se modifica; os elementos que o compõem renovam-se completamente em alguns anos. Nenhum dos átomos atuais da nossa carne se tornará a achar-se na ocasião da morte, por pouco que se prolongue nossa vida, e os que então constituírem o nosso invólucro, serão dispersos aos quatro ventos do infinito.
   A maior parte dos padres da Igreja o entendiam de outro modo. Conheciam eles a existência do perispírito, desse corpo fluídico, sutil, imponderável, que é o invólucro permanente da alma, antes, durante e depois da vida terrestre; denominavam-no corpo espiritual. São Paulo, Orígenes e os sacerdotes de Alexandria afirmavam a sua existência. Na sua opinião, os corpos dos anjos e dos escolhidos, formados com esse elemento sutil, eram "incorruptíveis, delgados, tênues e soberanamente ágeis".
  Por isso, não atribuíam eles a ressurreição senão a esse corpo espiritual, o qual resume, em sua substância quintessenciada, todos os invólucros grosseiros, todos os revestimentos perecíveis que a alma tomou, depois abandonou, em suas peregrinações através dos mundos.
  O perispírito, penetrando com a  sua energia todas as matérias passageiras da vida terrestre, é de fato o corpo essencial.
  A questão achava-se, por esse modo, simplificada.  Essa crença dos primeiros padres no corpo espiritual lançava, além disso, luz vivíssima sobre o problema das manifestações ocultas.
Tertuliano  diz ("De carne Christi", cap. VI):
"Os anjos têm um corpo que lhes é próprio e que se pode transfigurar em carne humana; eles podem, por certo tempo, tornar-se perceptíveis aos homens e com eles comunicar visivelmente".
  Torne-se extensivo aos espíritos dos mortos o poder que Tertuliano atribui aos anjos, e aí teremos explicado o fenômeno das materializações e das aparições!
  Por outro lado, se consultarmos com atenção as Escrituras, notaremos que o sentido grosseiro atribuído à ressurreição, em nossos dias, pela Igreja, não se justifica absolutamente. Aí não encontraremos a expressão: ressurreição da carne, mas antes: ressuscitar dentre os mortos (a mortuis resurgere), e, num sentido mais geral: a ressurreição dos mortos (resurrectio mortuorum). É grande a diferença.
Segundo os textos, a ressurreição tomada no sentido espiritual é o renascimento da vida de além-túmulo, a espiritualização da forma humana para os que dela são dignos, e não a operação química que reconstituísse elementos materiais; é a purificação da alma e do seu perispírito, esboço fluídico que conforma o corpo material para o tempo de vida terrestre.
  É o que o apóstolo se esforçava para fazer compreender: (I Epist. aos Coríntios, XV, 4-50 (traduzido do texto grego); ver também XV, 52-56; Epist. aos Filipenses, III, 21; depois São João, V, 28 e 29; São Inácio, Epístola aos Trallianos, IX, 1):
"Semeia-se o corpo em corrupção, ressuscitará em incorrupção; semeia-se em vileza, ressuscitará em glória; semeia-se em fraqueza, ressuscitará em vigor. E semeado o corpo animal, ressuscitará o corpo espiritual. Eu vo-lo digo, meus irmãos,  a carne e o sangue não podem possuir o reino de Deus, nem a corrupção possuirá a incorruptibilidade"
Muitos teólogos adotam essa interpretação, dando aos corpos ressuscitados propriedades desconhecidas da matéria carnal, fazendo-os "luminosos, ágeis como Espíritos, sutis como o éter, e impassíveis" (Abade Petitm A renovação religiosa, págs. 48-53. )
  Tal o verdadeiro sentido da ressurreição dos mortos, como os primeiros cristãos a entendiam. Se vemos, em uma época posterior, aparecer em certos documentos, e em particular no símbolo apócrifo dos apóstolos a expressão "ressurreição da carne", é isso sempre no sentido da reencarnação (Abade Petit, obra citada, pág. 53) - isto é, de volta à vida material - ato pelo qual a alma reveste uma nova carne para percorrer o campo de suas existência terrestres.
(...)
    Tertuliano declara que a corporeidade da alma é afirmada pelos Evangelhos: "Corporalitas animae in ipso Evangelico relucescit", porque - acrescenta ele - se a alma não tivesse um corpo, "a imagem da alma não teria a imagem dos corpos" (Tratado De Anima, Caps.  VII, VIII, e IX, edição de 1657, pág. 8).
    S. Basílio fala do corpo espiritual, como Tertuliano o havia feito. Em seu tratado do Espírito Santo assegura ele que os anjos se tornam visíveis pelas espécies de seu próprio corpo, aparecendo aos que são dignos disso. (S. Basílio, Liber de Spiritu Sancto, capítulo XVI, edição benedict, de 1730, t. III, pág. 32).
  Essa doutrina era também a de S. Gregório, de S. Cirilo de Alexandria e de Santo Ambrósio. Assim se exprime este último:
"Não se suponha que ser algum seja isento de matéria em sua composição, excetuada unicamente a substância da adorável Trindade" (Abraham, liv II, 58, ed. benedic. de 1686, t, I, col. 338).
S. Cirilo de Jerusalém, escreve:
"O nome espírito é um nome genérico e comum; tudo o que não possui um corpo pesado e denso é de um modo geral denominado espírito"  (Catechesis, XVI, ed. benedic. de 1720, págs. 251, 252).
"Em outras passagens atribui S. Cirilo, quer aos anjos, quer aos demônios, que às almas dos mortos, corpos mais sutis que o corpo terrestre: Cat., XII, 14, Cat. XVIII, 19" (obra citada, pág. 252. Nota do beneditino Dom A. Toutée.)
Evódio, bispo de Uzala, escreve em 414 a Santo Agostinho, inquirindo-o acerca da natureza e causa das aparições de que lhe dá muitos exemplos, e para lhe perguntar se depois da morte:
"Quando a alma abandonou este corpo grosseiro e terrestre, não permanece a substância incorpórea unida a algum outro corpo, não composto dos quatro elementos como este, porém mais sutil, e que participa da natureza do ar ou do éter?".
E assim termina a sua carta:
"Acredito, portanto, que a alma não poderia existir sem corpo algum" (obra de Santo Agostinho, edição benedict. de 1679, t. II, carta 158, col. 560 e seguintes).
Ver também a carta de Santo Agostinho a Nebrido, escrita em 390, em que o bispo de Hipona assim se exprime:
"Necessário é te recordares de que agitamos muitas vezes, em discussões que nos punham excitados e sem fôlego, essa questão de saber se a alma não tem morada alguma  espécie de corpo, ou alguma coisa análoga a um corpo, que certas pessoas, como sabes, denominam o seu veículo" (Santo Agostinho, op. cit, t.II, carta 14, cols. 16 e 17).
Diz S. Bernardo:
"Atribuiremos, pois, com toda a segurança unicamente a Deus a verdadeira incorporeidade, assim como a verdadeira imortalidade; porque, único entre os espíritos, ultrapassa toda a natureza corporal, o suficiente para não ter necessidade do concurso de corpo algum para qualquer trabalho, pois que só a sua vontade espiritual, quando a exerce, tudo lhe permite fazer" (Sermão VI in Cantica, ed. Mabillon, t. I, col. 1277).
Finalmente, S. João de Tessalonica resume nestes termos a questão, em sua declaração ao segundo concílio de Nicéia (787), o qual adotou as suas opiniões:
"Sobre os anjos, os arcanjos e as potências, - acrescentarei  também - sobre as almas, a Igreja decide que esses seres são na verdade espirituais, mas não completamente privados de corpo, ao contrário, dotados de um corpo "tênue, aéreo ou ígneo". Sabemos que assim têm entendido muitos santos padres, entre os quais Basílio, cognominado o grande, o bem-aventurado Atanásio e Metódio e os que ao lado deles são colocados. Não há senão Deus, unicamente, que seja incorpóreo e sem forma. Quanto às criaturas espirituais, não são de modo algum incorpóreas" (Historia Universal da Igreja Católica, pelo abade Rohrbacher, doutor em Teologia, tomo, XI, págs. 209, 210).
Um concílio, realizado em Delfinado, na cidade de Viena, em 3 de abril de 1312, sob Clemente V, declarou heréticos os que não admitissem a materialidade da alma (O Espiritualismo na História, de Rossi de Giustiniani).
  Acreditamos dever lembrar essas opiniões, porque constituem outras tantas afirmações em favor da existência do perispírito. Este não é realmente outra senão esse corpo sutil, invólucro inseparável da alma, indestrutível, quanto ela, entrevisto pelas autoridades eclesiásticas de todos os tempos.
  Essas afirmações são completadas pelos testemunhos da ciência atual. As sucessivas pesquisas da Sociedade de Investigações Psíquicas, de Londres, evidenciaram mil e seiscentos casos de aparições de "fantasmas" de vivos e de mortos. A existência do perispírito é, além disso, demonstrada por inúmeras moldagens de mãos e de rostos fluídicos materializados, pelos fenômenos de exteriorizações e desdobramentos de vivos, pela visão dos médiuns e sonâmbulos, por fotografias de falecidos, numa palavra, por um imponente conjunto de fatos devidamente comprovados".
  Certos escritores católicos confundem voluntariamente a ação do perispírito  e suas manifestações depois da separação do corpo humano com a idéia da "ressurreição da carne". Já fizemos notar que essa expressão raramente se encontra nas Escrituras. Ai de preferência se encontra a "ressurreição dos mortos" (Ver, por exemplo, I Coríntios, XV, 15 e seguintes).
  A ressurreição da carne se torna impossível pelo fato de que as moléculas componentes do nosso corpo atual pertenceram no passado a milhares de corpos humanos, como pertencerão a milhares de outros corpos no futuro. No dia do juízo, qual deste poderia reivindicar a posse dessas moléculas errantes ?
  A ressurreição é um fato espírita, que só o Espiritismo  torna compreensível. Para o explicar, são os católicos obrigados a recorrer ao milagre, isto é, à violação, por Deus, das leis naturais por ele próprio estatuídas.
  Como, sem a existência do perispírito, sem a dupla corporeidade do homem, poder-se-iam explicar os numerosos casos de bilocação relatados nos anais do Catolicismo ?
   Afonso de Liguori foi canonizado por se haver mostrado simultaneamente em dois lugares diferentes.
   Santo Antônio de Pádua defende seu pai de uma acusação de assassínio perante o Tribunal de Pádua, e denuncia o verdadeiro culpado, no momento mesmo em que pregava na Espanha, em presença de grande número de fiéis.
   S. Francisco Xavier se mostra várias vezes à mesma hora em lugares muito distantes entre si.
   É possível deixar de ver nesses fatos casos de desdobramento do ser humano, e a ação, a distância, do seu invólucro fluídico?
   O mesmo sucede com os numerosos casos de aparições de mortos, mencionados nas Escrituras. Eles não são explicáveis senão pela existência de uma forma semelhante a outra que na Terra o Espírito possuía, mais sutil, porém, e mais tênue, e que sobrevive à destruição do corpo carnal. Sem perispírito, sem forma, como poderiam os Espíritos fazer-se reconhecer pelos homens ? Como se poderiam eles, no espaço, entre si reconhecer ?
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