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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A Trindade de Tertuliano

Do Blog Unitarismo Bíblico:
Certamente você já ouviu falar que os chamados pais da igreja eram trinitários e deve ter lido citações deles que parecem não deixar dúvidas acerca disso. O que pretendo mostrar é que os trechos usados pelos defensores desse dogma apresentam apenas parte da história. É ponto pacífico entre os estudiosos da história dos primeiros séculos do cristianismo que os primitivos cristãos não ensinavam sobre a trindade, e que muitos não tinham uma ideia como se tem hoje sobre isso (por que será que eles não tinham?). Mas, se assim é, por que, então, se alega, por exemplo, que Tertuliano era defensor da trindade. Bem, vamos ler um pouco a respeito:
A Tertuliano, cristão desde 193 d.C, considerado um dos pais latinos, se atribui a criação da palavra “trinitas” para referir-se a trindade. O uso dessa palavra fez com que Tertuliano fosse um dos antigos apologistas mais citados na história da igreja como defensor da doutrina trinitária. Mas, será que Tertuliano era defensor desse dogma, na sua forma niceno-constantinopolitana? A palavra latina “trinitas” foi usada por ele para elencar Pai, Filho e Espírito Santo como seres distintos1, mas não como coiguais ou coeternos por causa da consubstanciação entre as três pessoas. Na verdade, o conceito de coigualdade ou mesmo de consubstancialidade não era de aceitação geral nos dias de Tertuliano, pelo contrário, nem entre os latinos, nem, segundo ele, entre os gregos havia aceitação dessa ideia. Na obra Contra Praxeas, por exemplo, onde Tertuliano se opõe ao sabelianismo daquele, ao tempo em que defende que Pai, Filho e Espírito Santo são Deus em consubstanciação, nos é informado no capítulo 3 que “Os Simples, de fato (não vou chamá-los de tolos ou ignorantes), que sempre constituem a maioria dos fiéis estão chocados com a dispensação (dos Três em Um)” e mais a frente nesse mesmo capítulo lemos: “enquanto gregos justamente se recusam a entender a economia, ou dispensação (dos Três em Um)”. Este testemunho mostra, de forma clara, que à época em que foi escrito, ao contrário do que é afirmado hoje pelos defensores do dogma da trindade, o ensino “dos Três em Um” não era crença corrente, nem facilmente aceito no seio da igreja; nem dos latinos, nem dos gregos e a teologia de Tertuliano começava a introduzir, ainda que de forma diferente dos concílios posteriores, esse novo conceito. Isso termina por provar que a rejeição da crença “dos Três em Um” não era algo acidental ou localizada, mas geral na igreja antiga.
Ainda que Tertuliano tem usado a palavra “trindade”, devemos considerar, em respeito ao seu ponto de vista, que ele não a defendia em sua forma niceno-constantinopolitana. Na verdade, muitas de suas posições serão rejeitadas pelos nicenos e ele mesmo seria considerado herege se pudesse as expor ali; pois mesmo os termos comuns nas duas teologias não tinham o mesmo sentido. Ao falar de “substância”, por exemplo, tertuliano não está se referindo a “química”, por assim dizer, da Divindade, ou mais tecnicamente falando, não está evocando características metafísicas da Divindade; mas leva em conta, como advogado que era, sua conotação jurídica conforme esclarece Justo L. González: “O termo ’substância’ deve ser entendido aqui, não num sentido metafísico, e sim num sentido legal. Dentro deste contexto, ’substância’ é a propriedade e o direito que uma pessoa tem de fazer uso dessa propriedade. No caso da monarquia, a substância do Imperador é o Império, e é isto que torna possível para o Imperador partilhar sua substância com seu filho – como de fato era comum no Império Romano. ‘Pessoa’, por outro lado, deve ser entendida como ‘pessoa jurídica’ e não no sentido comum.2 Nenhuma dessas acepções para essas palavras foram usadas, nem pelos bispos dos concílios que ocorreram depois, nem por Agostinho de Hipona que também usa desses termos. É interessante que quem cita, hoje, Tertuliano, em favor da trindade, ignora essa peculiaridade de seus escritos e termina por dar um conotação diferente às suas palavras com relação aquilo que ele pretendeu dizer, ainda que ele mesmo tenha advertido as pessoas sobre essa tendência natural do homem no capítulo 3 de Contra Praxeas quando falando a este, diz: “Eu preferiria que você ao contrário pensasse no significado da coisa do que no som da palavra”, ou seja, ainda que tenham sons iguais “Substância” e “Pessoa”, em Tertuliano não tem conotação metafísica ou ontológica, mas jurídica. Outra coisa que é facilmente confundida nos escritos desse antigo cristão, por causas das preconcepções trinitárias convencionadas posteriormente, é a fusão ou confusão do termo “unidade”, bastante usado por ele, com “coigualdade”, não usado por ele. Para Tertuliano, ser da mesma “substância” aufere “unidade”. Nesse sentido, para ele, Jesus é o mesmo Deus que o Pai, ainda que em grau inferior a ELE, pois ser da mesma “substância” não aufere ao Filho “coigualdade” na eternidade, por isso ele diz em Contra Praxeas 9.2: “Pois o Pai é a inteira substância (pater enim tota substantia est); o Filho é derivação e porção do todo (filius vero derivatio tortius et portio)”. Nesse mesmo sentido encontramos no capítulo 13 a seguinte declaração: “Pois eu posso dar o nome de “sol” até mesmo para um raio de sol, considerado em si mesmo; mas se eu for mencionar o sol de onde o raio emana, eu certamente devo imediatamente abandonar o uso do nome de sol para o mero raio.” Assim, o escritor admite que Jesus é Deus por derivação e vontade do Pai, não por inerência eterna de seu próprio ser3. Isto se vê confirmado no capítulo 7 quando diz: “Assim Ele (Deus Pai) o faz (ao Filho) igual a Ele: pois por proceder d’Ele mesmo, Ele se torna seu Filho primogênito” e, ainda, “Em que forma de Deus? Claro que ele diz em alguma forma, e não em nenhuma” e é nessa forma determinada pelo Pai, no entender de Tertuliano que o Filho é igual a Deus, não em sua totalidade: “Ele mostra que há dois, a quem Ele coloca em igualdade e une em um” (Contra Praxeas, C. 22), lembremos sempre igualdade na unidade, mas não na totalidade da “substância”. A percepção de desigualdade entre o Pai e o Filho, embora da mesma substância, é bem delineado nos escritos de Tertuliano e focando isso ele chega a dizer: “a Palavra é Deus, porque procedendo de Deus, mas ainda não realmente igual àquele de quem Ele procede” (Contra Praxeas, c. 26), nesse mesmo capítulo endossa que o Filho, se considerado Deus, o é por ser porção da “substancia” de Deus, e não o Próprio Deus, o Pai, a quem Tertuliano considera a origem do segundo (o Filho), donde vem o terceiro (o Espírito). E por falar em consubstanciação, uma das frases mais usadas atribuídas a Tertuliano, como defesa da trindade nicena, é “Uma só substância em três pessoas”, mas essa que ficou conhecida como a forma clássica das palavras de Tertuliano, não é o que esse antigo cristão escreveu. Ele, na verdade, disse: “unam substantiam in tribus cohaerentibus4” que significa “Uma só substância em três interligados5 e isso não reflete coigualdade no pensamento dele sobre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, como já vimos e veremos mais em seguida; reflete unidade. Deve-se ter claro que esta não é a única fala de Tertuliano que foi ligeiramente modificada para tornar mais “explicito” o “trinitarianismo” dele. Mas, vale a pena registrar também que ele, ao falar dos Três, disse: “A unidade dever ser procurada não na essência, mas na origem das pessoas6, ele também disse: “a Trindade, através de uma série de degraus cruzados e interligados, descende do Pai e não se opõe à monarquia, mas protege a natureza da economia7. Logo se percebe que a aplicação do termo “essência” ou “substância” na época de Tertuliano é completamente diferente daquela empregada mais de um século depois pelos nicenos, ou mesmo por Agostinho quando disse que “Deus é uma substância” composta por três pessoas. Tertuliano usou o termo para dizer que o Filho e o Espírito Santo participam da divindade por derivação direta, diferente de como os humanos participam. O Filho deriva do Pai e o Espírito do Pai através do Filho. A prova da diferença do uso do termo “substância” se revela no próprio trato que os próprios nicenos davam a palavra. Eles abertamente não se sentiam à vontade para usar a palavra conforme proclamada no credo praticamente 150 anos depois de Tertuliano, porque lá ela tinha outra denotação. Embora tenha origem distinta podemos dizer Tertuliano usou o termo em simplicidade como reconheceria o credo ariano ao dizer “A palavra ousia [substância], porque foi usada pelos Pais em simplicidade [que significa dizer, com boa intenção], mas não sendo compreendida pelas pessoas, ocasionou escândalos, não está contida nos Escritos Sagrados”. De fato, hoje citam as palavra de Tertuliano como se ele usasse a palavra “substância” com o mesmo sentido que esta no credo niceno ou no credo atanasiano e isso não é verdade. Assim, embora Tertuliano tenha sido o primeiro a usar o vocábulo “trinitas” donde veio a palavra “trindade”, ele não ensinava a trindade como será concebida posteriormente nos concílios e usada, nesse novo sentido, até hoje. Na verdade Tertuliano seria mais propriamente classificado como unitário que trinitário, pois ainda que admitia Jesus como Deus, este não era Deus igual ao Pai, assim o criam muitos unitários nas épocas dos concílios. E, no contexto em que ele usou a palavra “trindade” o sentido é completamente heterodoxo ao que se crer hoje. Isto se conclui facilmente quando analistas das afirmações de Tertuliano confirmam: “Ao falar da geração do Filho, sem querer comprometer a sua divindade, admite uma certa gradação, desde uma fase anterior à criação, em que o Logos de Deus se contempla a Si mesmo, para passar a contemplar a economia salvífica, e é engendrado de forma imanente em Deus, até à criação, em que a Palavra se realiza como tal ao ser proferida. Cristo é, assim, o primogênito do Pai, gerado antes de todas as coisas, mas não é eterno. O Filho é como que uma porção ou emanação do Pai.8 Tal assertiva já deveria ser o suficiente para se questionar a afirmação dos teólogos trinitários de que Tertuliano defendia esse dogma como é aceito hoje e havia cunhado aquela palavra para melhor defini-la. O antigo teólogo disse também “Houve um tempo em que não havia Filho e nem pecado, quando Deus não era nem pai nem juiz9. Por mais clara que seja essa declaração de temporalidade do Filho na compreensão de Tertuliano (veremos mais adiante que não é só dele), que o admitia preexistente, mas não coeterno com o Pai, há quem tente descaracterizar a incisividade dessa afirmação alegando que essa expressão foi usada em um momento de ousadia para combater a alegação de Hermógenes que acreditava ser a matéria eterna para poder dar a eternidade do título Senhor a Deus, pois na compreensão daquele, Deus só poderia ser eternamente Senhor, se houvesse algo sobre o que ser Senhor, dai alegam alguns trinitários que Tertuliano ousou na expressão para contrapor Hermógenes, dizendo que Deus nem sempre foi Senhor, nem sempre Pai, nem sempre Juiz, mas, segundo eles, não para negar a coeternidade do Filho com seu Pai, Deus, e sim para desdizer Hermógenes, mas essa tentativa de justificação não próspera, pois além de não explicar satisfatoriamente a questão, ignora que o que está informação em Contra Hermógenes não foi a única declaração de Tertuliano nesse sentido. Em Contra Praxeas, por exemplo, vemos essa compreensão dele confirmada em suas próprias palavras nas seguintes declarações:
  • Mas quanto a mim, que deriva o Filho de nenhuma outra fonte que não a substância do Pai” (Capítulo 4).
  • …mesmo antes da criação do universo Deus não estava sozinho, desde que ele tinha em Si próprio tanto Razão e, inerentemente à Razão, Sua Palavra, que Ele (Deus) fez outro em Si por agitá-la em Si mesmo ” (Capítulo 5), o Filho aqui ainda não é pessoa distinta do Pai, mas é feito, segundo ele, no interior do Pai, como mais a frente se dirá gerado “do útero de Seu próprio coração”.
  • Ele me criou e me gerou em Sua própria inteligência” (Capítulo 6). Tertuliano parafraseia, claramente, Pv. 8.22, admitindo criação e geração.
  • Este é o perfeito nascimento da Palavra, quando Ela procede de Deus – formada por Ele primeiro” (Capítulo 7).
  • Há um “gerado por Deus, de uma forma peculiar a Si mesmo, do útero de Seu próprio coração” (Capítulo 7), perceba que há sempre um feitor ou gerador e outro feito ou gerado, Um que é antes e outro que é depois.
  • Ele se tornou então o Filho de Deus, e foi gerado quando Ele procedeu d’Ele” (Capítulo 7). Reconhece a temporalidade da condição de Filho.
  • Ele fez de Sua Palavra um Filho para Si mesmo”(Capítulo 11.)
  • Sua primeira declaração é de fato feita, quando o Filho não havia aparecido ainda” (Capítulo 12).
  • nós reconhecemos o Filho como sendo visível em razão da dispensação da Sua existência derivada” (Capítulo 14).
  • e naquele princípio Ele foi prolatado pelo Pai” (Capítulo 19).
  • Agora, por dizer ‘o Espírito de Deus’ (apesar de que o Espírito de Deus é Deus,) e por não nomear diretamente Deus, ele quis que fosse entendida aquela porção de toda a divindade, que estava prestes a se retirar para a designação de ‘Filho’. O Espírito de Deus nesta passagem deve ser o mesmo que a Palavra” (Capítulo 26).
Diante dessas declarações é difícil negar que sua afirmativa em Contra Hermógenes, quando disse: “Houve um tempo em que não havia Filho e nem pecado, quando Deus não era nem pai nem juiz”, tenha sido acidental ou mera retórica e não reflexo de sua própria convicção de que o Filho, ainda que Deus por participação na substância do Pai a partir de sua geração, não é, de fato, eterno preteritamente.
Em Contra Praxeas se vê distribuído no corpo do texto a atribuição das características do Filho como “derivado”, “porção da Divindade”, “prolatado”, “formado”, “feito”, “procedido”, “gerado”, “nascido” e “criado” antes da criação do mundo. É difícil crer que ele tenha usado todos esses predicativos para querer denotar a eternidade de alguém. Assim, o Filho é parte da “substância”, derivado dela, mas não toda substância e sempre o segundo na posição. Tertuliano confirma a realidade do princípio do Filho ao contrastar com a eterna existência do Pai dizendo: “O Pai, contudo, não teve princípio, não procedendo de ninguém” (Capítulo 19). Aqui fica claro que ao usar a palavra “proceder” Tertuliano esta falando de ter um princípio, pelo fato de o Pai por não ser “procedido” não teve princípio; e essa palavra ele usa com relação ao Filho. Portanto, por conta dessa clara posição qualquer afirmação em defesa da trindade niceno-constantinopolitana atribuída a Tertuliano é precária e equivocada, pois ele não a pode ter defendido e ensinado se entendia que o Filho não era preteritamente eterno e sua própria concepção de Jesus com Deus decorre de sua visão de que Ele, Jesus, era uma porção ou emanação do Pai, saído de Deus para atendimento dos propósitos da criação10 e salvação. Claramente se percebe que Tertuliano não usou a palavra trindade no sentido de identificação ontológica de Deus, mas para contrapor o sabelianismo de Práxeas que não acreditava existir três: Pai, Filho e Espírito; mas apenas um que se manifestava de três modos. Na verdade, essa percepção de que a geração do Filho se deu por emanação (geração) ou derivação se assemelha muito a de outros teólogos daquela mesma época como, por exemplo, Taciano, que foi discípulo de Justino, autor do Discurso Contra os Gregos (160 d.C), em Roma, e Diatéssaron (172 d.C), que escreveu acerca de Jesus: “Antes da criação, Deus estava só; o Logos estava imanente nEle como Sua potencialidade para criar todas as coisas. No momento da criação, porém, Ele irrompeu do Pai como Sua ‘obra primordial’ (ergon prototokon). ‘espírito derivado de espírito, racionalidade derivada do poder racional’” Perceba a semelhança de ideias bem como a proximidade das datas entre os dois, e perceba que ambos são do II século.
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1 Ele fez uso da palavra trinitas em oposição a Práxeas que defendia ser o Pai o próprio Filho e por isso Práxeas dizia que o Pai foi quem morreu na cruz. Esse pensamento era conhecido como patripassionismo (a paxão teria sido sofrida pelo Pai).
2 Apud Justo L. González in “Uma História do Pensamento Cristão, Ed. Cultura Cristã, 2004, vol. I, pág. 174/5
3 Para Tertuliano, também o Espírito Santo não é Deus em sua totalidade, mas uma derivação desse através do Filho. Ele confirma isso ao dizer no cap. 26 de Contra Praxeas: “Agora, por dizer ‘o Espírito de Deus’ (apesar de que o Espírito de Deus é Deus,) e por não nomear diretamente Deus, ele quis que fosse entendida aquela porção de toda a divindade”.
4 De “cohaereo“: Estar unido, estar pegado, concordar, combinar
5 Contra Praxeas capítulo 12
6 Enciclopédia Católica – verbete Tertuliano (http://oce.catholic.com/index.php?title=Tertullian)
7 Padovese, Luigi in Introdução à Teologia Patrísitica, Edições Loyola, pág. 68
8 http://pt.wikipedia.org /wiki/Tertuliano
9 Enciclopédia Católica – verbete Tertuliano (http://oce.catholic.com/index.php?title=Tertullian) – Essa frase dita por Tertuliano aparece na obra Contra Hermógenes que acreditava ser a matéria eterna.
10 Em Contra Praxeas, capítulo 12, Tertuliano diz: “Mas em respeito aos prévios trabalhos do mundo o que diz as Escrituras? Sua primeira declaração é de fato feita, quando o Filho não havia aparecido ainda: ‘E Deus disse, haja luz, e houve luz’. Imediatamente aparece a palavra, ‘aquela verdadeira luz, que ilumina o homem em sua vinda ao mundo’, e através dele também vem a luz ao mundo. A partir deste momento Deus quis que a criação fosse efetuada na Palavra, Cristo sendo presente e ministrando para Ele…

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