"Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros." (João 13:35) "Onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, lá estarei no meio deles." (Mateus 18:20)

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sábado, 19 de fevereiro de 2011

Trindade segundo Léon Denis

Léon Denis, livro "Cristianismo e Espiritismo":
   Jesus trouxera ao mundo uma noção da divindade,  desconhecida ao Judaísmo. O Deus de Jesus já não é o déspota zeloso e parcial que protege Israel contra os outros povos; é o Deus Pai da Humanidade. Todas as nações, todos os homens, são seus filhos. É o Deus em quem tudo vive, move-se e respira, imanente em a Natureza e  na consciência humana.
   Para o mundo pagão, como para os judeus, essa noção de Deus encerrava toda uma revolução moral. A homens que tudo haviam chegado a divinizar e a temer tudo o que haviam divinizado, a doutrina de Jesus revelava a existência de um só Deus, Criador e Pai, por quem todos os homens são irmãos  e em cujo nome eles de devem afeição e assistência. Ela tornava possível a comunhão com esse Pai, pela união fraternal dos membros da família humana. Franqueava a todos o caminho da perfeição pelo amor ao próximo e pela dedicação à Humanidade.
   Essa doutrina, simples e grande ao mesmo tempo, devia elevar o espírito humano a alturas admiráveis, até ao Foco divino, cuja irradiação todo homem pode sentir dentro de si mesmo. Como foi essa idéia simples e pura, que podia regenerar o mundo, transformada ao ponto de se tornar irreconhecível?
    É o resultado das paixões  e dos interesses materiais que entraram em jogo no mundo cristão, depois da morte de Jesus.
     A noção da Trindade, colhida numa lenda hindu que era a expressão de um símbolo, veio obscurecer e desnaturar essa alta idéia de Deus. A inteligência  humana podia elevar-se a essa concepção do Ser eterno, que abrange o Universo e dá a vida a todas as criaturas: não pode a si mesma explicar como três pessoas se unem para constituir um só Deus. A questão da consubstancialidade em nada elucida o problema. Em vão nos advertiram que o homem não pode conhecer a natureza de Deus. Neste caso, não se trata de atributos divinos mas da lei dos números e medidas, lei que tudo regula no Universo, mesmo as relações que ligam a razão humana à razão suprema das coisas.
      Essa concepção trinitária, tão obscura, tão incompreensível, oferecia, entretanto, grande vantagem às pretensões da Igreja. Permitia-lhe fazer de Jesus Cristo um Deus. Conferia ao poderoso Espírito, a que ela chama seu fundador, um prestígio, uma autoridade, cujo esplendor sobre ela recaía e assegurava o seu poder. Nisso está o segredo da sua adoção pelo concílio de Nicéia. As discussões e perturbações que suscitou essa questão, agitaram os espíritos durante três séculos e só vieram a cessar com a proscrição dos bispos arianos, ordenada pelo imperador Constâncio, e o banimento do papa Libero que recusava sancionar a decisão do concílio(Nota do autor: ver, quanto às particularidades desses fatos, E. Bellemare, ´"Espírita e Cristão', pág. 212).
     A divindade de Jesus, rejeitada por três concílios, o mais importante dos quais foi o de Antioquia (269), foi, em 325, proclamada pelo de Nicéia, nestes termos:
    "A Igreja de Deus, católica e apostólica, anatematiza os que dizem que houve um tempo em que o Filho não existia, ou que não existia antes de haver sido gerado"
     Essa declaração está em contradição formal com as opiniões dos apóstolos. Ao passo que todos acreditavam o Filho criado pelo Pai, os bispos do século IV proclamavam o Filho igual ao Pai, ´eterno como ele, gerado e não criado', opondo assim um desmentido ao próprio Cristo, que dizia e repetia: "meu Pai é maior do que eu".
      Para justificar essa afirmação, apóia-se a Igreja em certas palavras do Cristo, que, se exatas, foram mal compreendidas, mal interpretadas. Em João (X,33), por exemplo, se diz: "Nós te apedrejamos porque, sendo homem, te fazes Deus a ti mesmo"
      A resposta de Jesus destrói essa acusação  e revela o seu pensamento íntimo: "Não está escrito na vossa lei: - Eu disse: vós sois deuses?" (João, X, 34) (Nota do autor:Essas palavras se referem à seguinte passagem do Salmo LXXXI, v.6: "Eu disse: vós sois deuses e todos filhos do Excelso")
"Se ela chamou deuses àqueles a quem a palavra de Deus foi dirigida..." (João, X, 35).
       Todos sabem que os antigos, latinos e orientais, chamavam deuses a todos quantos, por qualquer motivo, se tornavam superiores ao comum dos homens. O Cristo preferia a essa qualificação abusiva, a de filho de Deus para designar os que investigavam  e observavam os divinos ensinamentos. É o que ele expõe no versículo seguinte:
      "Bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus"  (Mat., V, 9).
      Os apóstolos atribuíam o mesmo sentido a essa expressão:
      "Todos os que são levados pelo Espírito de Deus, esses tais são filhos de Deus" (S. Paulo, Epístola aos Romanos, VIII, 14).
       Jesus o confirma em muitas circunstâncias:
       "A mim, a quem o Pai santificou  e enviou ao mundo, porque dizeis vós: ´Tu blasfemas", por eu ter dito que sou Filho de Deus?" (João, X, 36).
       "A um israelita redargui: "Por que me chamais bom? Ninguém é bom senão Deus, unicamente" (Lucas, XVIII, 19) - "Eu não posso de mim mesmo fazer coisa alguma. Não busco a minha vontade, mas a vontade d´Aquele que me enviou" (João, V, 30).
       As seguintes palavras são ainda mais explícitas:
       "Procurais tirar-me a vida, a mim que sou um homem, que vos tenho dito a verdade que de Deus ouvi" (João, VIII, 40)
       "Se me amasseis, certamente havíeis de folgar que eu vá para o Pai, porque o Pai é maior do que eu" (João, XIV, 28)
       "Jesus diz a Madalena: Vai a meus irmãos e dize-lhes que eu vou para meu Pai e vosso Pai, para meu Deus e vosso Deus" (João, XX, 17)
         Assim, longe de externar a idéia sacrílega de que era Deus, em todas as circunstâncias  Jesus fala do Ser infinito como a criatura deve falar do Criador, ou ainda como um subordinado fala do seu senhor.
         Nem mesmo sua mãe acreditava na sua divindade, e todavia quem mais autorizado que ela a admiti-la? Não recebera a visita do anjo que lhe anunciava a vinda do Menino, abençoado pelo Altíssimo e por sua graça concebido? Porque tenta, pois, embaraçar-lhe a obra, imaginando  que ele perdera o juízo(Marcos, III, 21). Há aí contradição patente.
        Os apóstolos, por sua vez, não viam em Jesus senão um missionário, um enviado do Céu, um Espírito, sem dúvida superior por suas luzes  e virtudes, mas humano. Sua atitude para com ele, sua linguagem, o provam claramente.
       Se o tivessem considerado um Deus, não se teriam prosternado diante dele, não seria genuflexos que lhe teriam falado? - ao passo que a sua deferência e respeito não ultrapassavam o devido a um mestre, a um homem eminente. É, ao demais, esse título de mestre (em hebreu rabi) que lhe dispensavam habitualmente. Os Evangelhos dão testemunho disso. Quando lhe chamam Cristo, não vêem nesse qualitativo senão o sinônimo de enviado de Deus.
       "Respondeu Pedro, Tu és o Cristo"" (Marcos, VIII, 29)
       O pensamento dos apóstolos acha-se explicado, esclarecido por certas passagens dos Atos (II,22). Pedro dirige-se à multidão:
       "Varões israelitas, ouvi minhas palavras. Jesus Nazareno foi um varão (virum), aprovado por Deus entre vós, com virtudes e prodígios, e sinais que Deus obrou por ele no meio de vós"
        Encontra-se o mesmo pensamento expresso em Lucas, XXIV, 19:
       "Jesus de Nazaré foi um profeta, poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo"
       Se os primeiros cristãos tivessem acreditado na divindade de Jesus, se dele houvessem feito um Deus, sua religião ter-se-ia provavelmente submergido na multidão das que o Império Romano admitia, cada qual exaltando divindades particulares. Os arroubos de entusiasmo dos apóstolos, a indomável energia dos mártires, tinham sua origem na ressurreição do Cristo. Considerando-o um homem semelhante a eles, viam nessa ressurreição a prova manifesta da sua própria imortalidade. S. Paulo confirma com absoluta clareza essa opinião, quando diz:
       "Pois se não há ressurreição de mortos, nem Cristo ressuscitou. E se Cristo não ressuscitou, é logo vá a nossa pregação, é também vã a nossa fé. E somos assim mesmo convencidos por falsos testemunhos de Deus, dizendo que ressuscitou a Cristo, ao qual não ressuscitou, se os mortos não ressuscitam" (I Cor., XV, 13-15)
     Assim, para os discípulos de Jesus, como para todos os que atentamente , e sem paixão, estudam o problema dessa existência admirável, o Cristo, segundo a expressão que a si próprio aplica, não é mais que o "profeta" de Deus, isto é, um intérprete, um porta-voz de Deus, um espírito dotado de faculdades especiais, de poderes excepcionais, mas não superiores à natureza humana. Sua clarividência, suas inspirações, o dom de curar que possuía em tão elevado grau, encontram-se em épocas diversas e em diferentes graus, em outros homens.
      Pode comprovar-se  a existência dessas faculdades nos médiuns de nossos dias, não agrupadas, reunidas de modo a constituírem uma poderosa personalidade como a do Cristo, mas dispersas, distribuídas por grande número de indivíduos. As curas de Jesus não são milagres(Nota do autor: O que se denomina milagres são fenômenos produzidos  pela ação de forças desconhecidas, que a ciência descobre cedo ou tarde. Não pode existir milagre no sentido de postergação das leis naturais. Com a violação dessas leis, a desordem e a confusão penetrariam no mundo. Deus não pode ter estabelecido leis para, em seguida, as violar. Ele nos daria, assim, o mais pernicioso exemplo; porque, se violamos a lei, poderemos ser punidos, ao passo que Deus, fonte da lei, terá atentado contra ela?), mas a aplicação de um poder fluídico  e magnético, que novamente se encontra mais ou menos desenvolvido, em certos curadores da nossa época. Essas faculdades estão sujeitas a variações, a intermitências que no próprio Cristo se observam, como o provam os versículos  do Evangelho  de Marcos (VI, 4,5):
      "Mas Jesus lhes dizia: um profeta só deixa de ser honrado em sua pátria, em sua casa e entre seus parentes. E não podia ali fazer milagre algum".
       Todos os que têm de perto observado os fenômenos do Espiritismo, do magnetismo e da sugestão, e remontado dos efeitos à causa que os produz, sabem que existe uma grande analogia entre as curas operadas pelo Cristo e as obtidas pelos que exercem modernamente essas funções. Como ele, mas com menos força e êxito, os curadores espíritas tratam de casos de obsessão e possessão e, com o auxílio de passes, tocando os indivíduos pela imposição das mãos. libertam os doentes dos males produzidos pela influência dos espíritos impuros, daqueles que a Escritura designa sob o nome de demônios:
         "À tarde, porém, apresentaram-lhe muitos endemoninhados, dos quais ele expelia os maus espíritos,  com a sua palavra; e curou todos os enfermos" (Mateus, VIII, 16)
        A maior parte das moléstias nervosas provém  das perturbações causadas por estranhas influências causadas por estranhas influências em nosso organismo fluídico ou perispírito. A Medicina, que estuda simplesmente o corpo material, não pôde descobrir a causa desses males e os remédios a ele aplicáveis. Por isso é quase sempre impotente para os curar. A ação fluídica de certos homens, firmados na vontade, na prece e na assistência dos espíritos elevados, pode fazer cessarem essas perturbações, restituir ao invólucro fluídico dos doentes as suas vibrações normais e forçar a se retirarem os maus Espíritos. Era o  que Jesus obtinha facilmente, como o obtinham, depois dele, os apóstolos e os santos.
     Os conhecimentos difundidos entre os homens pelo moderno Espiritualismo, permitem melhor compreender e definir a alta personalidade do Cristo. Jesus era um divino missionário, dotado de poderosas faculdades, um médium incomparável. Ele próprio o afirma:
      "Eu não falei de mim mesmo, mas o Pai que me enviou é o mesmo que me prescreveu o que devo dizer e o que devo falar" (João, XII, 49)
       A todas as raças humanas, em todas as épocas da História, enviou Deus missionários, Espíritos superiores, chegados, por seus esforços e merecimentos, ao mais alto grau de hierarquia espiritual. Podem acompanhar-se, através dos tempos, os sulcos dos seus passos. Suas frontes dominam, sobranceiras, a multidão dos humanos que eles têm o encargo de dirigir para as altitudes intelectuais.
        O céu os apercebeu para as lutas do pensamento;  dele receberam o poder e a intrepidez.
        Jesus é um desses divinos missionários e é de todos o maior. Destituído da falsa auréola  da divindade, mais imponente nos parece ele. Seus sofrimentos, seus desfalecimentos, sua resignação, deixam-nos quase insensíveis, se oriundos de um Deus, mas tocam-nos, comovem-nos profundamente em um irmão. Jesus é, de todos os filhos dos homens, o mais digno de admiração. É extraordinário no sermão da montanha, em meio à turba de humildes. É maior ainda no Calvário, quando a sombra da cruz se estende sobre o mundo, na tarde do suplício.
        Nele vemos o homem que ascendeu à eminência final da evolução, e neste sentido é que se lhe pode chamar deus, assim conciliando os apologistas da sua divindade com os que a negam.  A humanidade e a divindade do Cristo representam os extremos de sua individualidade, como o são para todo ser humano. Ao termo de nossa evolução, cada qual se tornará um "Cristo", será um com o Pai e terá alcançado a condição divina.
       A passagem de Jesus pela Terra, seus ensinamentos e exemplos, deixaram traços indeléveis; sua influência se estenderá pelos séculos vindouros. Ainda hoje, ele preside aos destinos do globo em que viveu, amou, sofreu. Governador espiritual deste planeta, veio, com seu sacrifício, encarreirá-lo para a senda do bem, e é sob a sua direção oculta e com o seu apoio que se opera essa nova revelação, que, sob o nome de moderno espiritualismo, vem restabelecer sua doutrina, restituir aos homens o sentimento dos próprios deveres, o conhecimento de sua natureza e dos seus destinos.

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