"Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros." (João 13:35) "Onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, lá estarei no meio deles." (Mateus 18:20)

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quarta-feira, 23 de março de 2011

FENÔMENOS MEDIÚNICOS NA VIDA DOS SANTOS

Parte I
Duas Palavras
Os registros hagiológicos estão repletos de fatos que muito pesaram na balança em favor da canonização de homens e mulheres que, por suas vidas de renúncia e dedicação ao Cristo, têm hoje suas imagens colocadas pelos altares incensados e, segundo se crê, do alto dos Céus intercedem junto a Deus pelos que na Terra neles depositam suas esperanças, cada um dentro de sua especialidade, tirada quase sempre dos detalhes que mais destaque tiveram em seus martírios, pois que muitos foram perseguidos pelos governadores e imperadores, na aurora do Cristianismo, ou pela própria religião organizada, a exemplo de Joana D’Arc que, acusada de ter visões e ouvir vozes, foi depois canonizada porque ... ouvia vozes e tinha visões.
Não podemos nem queremos negar a esses mártires o valor espiritual e a envergadura moral que lhes são atribuídos, muito embora sem endosso ao título de "santo" que se lhes antepõem ao nome, visto estarmos todos em processo contínuo de aperfeiçoamento, o que faz que, uma vez atingido o maior grau de elevação espiritual que as experiências terrenas podem conferir, ascenda a alma a outros mundos superiores, onde possa auferir novas experiências, a exemplo do aluno que, aprovado em um ano letivo, passa a receber aulas mais adiantadas. Sabe-se também que pelas oportunidades palingenésicas, muitos dos chamados santos do Catolicismo são a reencarnação de um mesmo Espírito, acontecendo dessa forma o fato curioso de se venerar o mesmo ser como se fossem duas entidades distintas. Assim é que vemos muitas vezes, lado a lado, imagens de João Evangelista e de Francisco de Assis, ou de Inácio de Loiola e de Vicente de Paula, quando consta ser este último a reencarnação do criador da Companhia de Jesus, e o Pobrezinho de Assis, o renascimento na veste física do Vidente de Patmos. Se se adotou no título deste artigo o qualificativo usado popularmente, e se ele se repete mais vezes no presente escrito, tal se dará apenas pela finalidade proposta, qual seja, de identificar as personalidades das quais se fala, ao demonstrar que todos foram médiuns, e seus "milagres", fatos perfeitamente explicáveis à luz da Terceira Revelação, o que, aliás, em nada lhes diminui o mérito. Tentaremos escoimar desta narrativa fatos que, pela sua absurdidade, devem ser levados à conta de lendas ou de intercalações apócrifas, alguns dos quais o próprio Catolicismo rejeita. Para isso tivemos o cuidado de só consultar as biografias devidamente autorizadas pela Igreja, conforme faremos constar neste trabalho.
Preciso é que se diga que os acontecimentos narrados nos hagiológios e que aqui reproduzimos, não os aceitamos incondicionalmente como verdadeiros. Geralmente são fatos muito antigos e não observados em condições ideais de pesquisa. Admitimos a possibilidade de terem ocorrido, considerada a similitude com outros fenômenos medianímicos, estes sim, bem averiguados. Quem garante a autenticidade do que aqui vai narrado é a própria Igreja, que a tudo fez publicar.
Reafirmamos também que não é nosso intento negar os méritos morais desses santos. Se compararmos, por exemplo, um fenômeno de bilocação produzido por Antônio de Pádua com outro, levado a efeito por Sagée, a comparação obviamente se dará apenas quanto ao teor fenomênico, sem que se procure estabelecer paralelos morais entre os protagonistas.


Da Mediunidade
Sobre a mediunidade, em si, pouco se teria a dizer aqui, agora. Conforme se sabe, ela é a faculdade pela qual podemos perceber a presença ou influência dos Espíritos. Não é privativa de nenhum grupo de pessoas e nem pede, para a sua manifestação, a crença neste ou naquele sistema ideológico-religioso. Existiu sempre e sempre existirá, pois que, sem depender necessariamente da moral, à medida que o Espírito se eleve mais facilmente entra em contato com a realidade extra-física, sintonizando-se com faixas mais sublimadas da espiritualidade. As ocorrências mediúnicas pontilham em todas as épocas da humanidade e assinalam a vida de todos os povos. A interpretação dada aos fenômenos não os invalida, nem lhes tira as características. Embora em todos os povos, em todos os lugares, em todas as épocas, tenha existido a crença na sobrevivência da alma e nas suas manifestações, muitas vezes os Espíritos manifestantes foram considerados deuses, semideuses, elementais, larvas ou o próprio Deus, criador de tudo. São principalmente deste último gênero as interpretações que encontramos no Velho Testamento. A Bíblia está, efetivamente, toda ela repleta de narrativas de caráter nitidamente mediúnico. O próprio José, esposo de Maria, mãe de Jesus, entrou em contato com Espíritos, considerados "anjos". Ora, se atentarmos para o sentido etimológico dessa palavra, veremos que anjo significa mensageiro, isto é, o que se faz porta voz de alguém. Portanto, se um homem entra em contato com um "mensageiro" e este não é um ser corpóreo e sim espiritual, aquele que lhe registra a presença é um médium, isto é, um intermediário entre dois planos da existência. Se esse anjo é um ser perfeito ou apenas perfectível e, considerada a primeira hipótese, se ele já foi criado em estado de perfeição, é assunto que foge aos limites aqui propostos, embora a lógica nos diga que Deus, suprema fonte de justiça, não iria criar seus filhos desigualmente, premiando alguns que nada fizeram para merecê-lo, com um estado de perfeição ab ovo, enquanto que milhares de seres permanecem chafurdados no erro e no vício, entregues à própria sorte que veriam selada de forma inexorável após alguns poucos anos de vida corpórea, e que nada podem significar perante a eternidade. Há a se considerar também, o problema dos anjos decaídos, o que equivale a um retrocesso na vida espiritual. Lúcifer teve a chance de pecar. Terá alguma de se redimir dos erros? Parece que não, pois tão logo manifestou sua rebeldia, foi lançado nos abismos infernais onde, segundo dizem, a sorte está definitivamente lacrada. Ora, sendo Deus onisciente, e o é, saberia desde sempre que aquele anjo que iria criar um dia e que dentre todos seria o "mais sábio" (ainda aqui a desigualdade!) haveria de se perder e, com sua queda, conquistar para as caldeiras fumegantes da geena boa parte das criaturas humanas, frágeis que somos. Sabendo que seria assim, por que Deus o criou, apesar de tudo? Nós que somos tão pequenos, não colocaríamos um filho no alto do muro se soubéssemos que ele de lá iria se despencar. Deus o faria?
Quando se admite a chance da expiação, da reparação e, consequentemente, da remissão, compreende-se que Deus permita a queda. A experiência será valorosa e o progresso adquirido, meritório, pois que a ele se fez jus. Mas criar um ser, sabendo de antemão que ele irá se perder irreparavelmente, então isto raia pela suprema crueldade, sendo incompatível com as qualidades tributadas ao Criador. Mas muitos há que nisso crêem, e não é à-toa que se diz que se Deus criou o homem à Sua imagem, este lhe pagou na mesma moeda...
Tornando à mediunidade, sabe-se que ela sempre existiu, independentemente das convicções religiosas. E por ser assim, os médiuns amoldam a interpretação de suas experiências medianímicas na conformidade de suas crenças. Dessa forma, se um profitente de outro credo que não o espirítico tiver uma vidência, não reluta em interpretá-la: se a visão for bonita, será um anjo, ou a Virgem, ou um santo em que sua fé repouse. Se a coisa vista, porém, for atemorizante, o diagnóstico é ainda mais fácil : era o demônio.
Se em uma casa ocorrem ruídos, pancadas, movimentos de objetos, logo se há de pensar que o "capeta" está fazendo das suas. Mas em bem pobre conta se deve ter o demônio para pensar assim, visto que com suas manifestações ostensivas, ele não consegue arregimentar para si nem mais uma alma, pois com suas pedradas o mais que pode é fazer com que os crentes, assustadíssimos, ponham-se a fazer preces, novenas, promessas e comunhões, arriscando-se ainda, o diabo, a levar por cima uns borrifos de água benta...
Exatamente por extremismos de tal ordem, tantas pessoas foram anatematizadas, excomungadas, torturadas e queimadas em praça pública. As religiões organizadas, não querendo considerar as infinitas gradações da espiritualidade, esquecidas de que a natureza não dá saltos, entendem que uma manifestação espiritual ou há de ser divina e o ser manifestante um anjo ou um santo, ou será demoníaca, principalmente quando ocorrer em ambiente de outra religião, pouco importando que a mensagem transmitida seja de conteúdo moral e evangélico irrepreensível.
Com isso em mente, passemos a ver alguns fenômenos mediúnicos apresentados pelos santos da Igreja e sua analogia com a vasta gama fenomenológica espírita, e vejamos a que conclusões nos pode levar este pequeno estudo comparativo.


julho/1979


Parte II
Santa Rita de Cássia
(Obra consultada: Na Luz Perpétua, do Pe. J.B. Lehmann
Nihil Obstat - Pe. Guilherme Porten, Reimprimatur - Justino, Bispo Diocesano)
Nascida em 1381, na Umbria, filha de Antônio e Amata Mancini, Rita desde criança produziu fenômenos que hoje a classificariam como médium de efeitos físicos. Muitas vezes seus pais viram sua cabeça nimbada por um halo de luz.
Piedosamente, Rita de Cássia dedicava-se às orações e, quando mocinha, pretendeu entrar para a Ordem das Agostinianas. Forçada pelo pai, porém, veio a contrair matrimônio e teve dois filhos.
Quando seu marido foi morto por antigos companheiros, Rita acolheu os assassinos em sua casa, para que não fossem presos.
Se muito Rita havia sofrido nas mãos de seu marido, que a maltratava, muito também sofreu com os filhos, de gênio rebelde e irascível. Quando souberam, aos quatorze anos, que seu pai fora assassinado, juraram vingança, e de nada valiam os rogos de sua mãe, que os instava a perdoarem os assassinos. Antes que a vingança se consumasse, porém, os gêmeos vieram a falecer. Rita estava só, e novamente acalentou seu sonho de entrar para a Ordem das Agostinianas. Mas a superiora a rejeitou, pelo fato de ser viúva.
Voltando para casa, Rita de Cássia ficou a rezar. Eis que, em dado momento, um ponto luminoso apareceu e foi aos poucos tomando forma. Espantada, Rita vê que a luz ia assumindo a aparência de uma mão luminosa, enquanto uma voz a chamava pelo nome.
Cheia de susto, Rita nota que a luminescência vai crescendo, e três figuras masculinas se formam diante de seus olhos, e ela crê estar diante de João Batista, Santo Agostinho e de São Nicolau de Tolentino.
Não cessam aí as manifestações mediúnicas de Rita. As monjas Agostinianas, ao entrarem no claustro, ali encontram em oração aquela que não haviam aceito por ser viúva. Cheias de espanto, perguntam como pudera Rita ter lá penetrado, e ela respondeu que seus três santos protetores a haviam chamado e que, quando dera por si, já ali se achava. Diante do estranho fato, consente a superiora em recebê-la.
Rita tornou-se um exemplo de humildade e dedicação. Um dia, estando a rezar defronte à imagem do Cristo crucificado, sente uma dor aguda em sua fronte: da coroa de espinhos da imagem saltara um acúleo que lhe foi atingir a testa, produzindo uma ferida que jamais haveria de cicatrizar.
Já nos últimos anos de vida, mal podendo se alimentar, Rita ainda era um modelo de resignação. E no momento em que morria, todas as religiosas presentes puderam ver sua cela iluminada por estranha luz, enquanto que agradável perfume balsamizava o ambiente.
Sem dúvida alguma, temos de nos curvar ante tantas demonstrações de fortaleza e confiança diante dos sofrimentos. Mas como o que estamos estudando são as manifestações mediúnicas, façamos um resumo dos maravilhosos fenômenos de efeitos físicos que Rita de Cássia produzia:
- Aparecimento de luzes em torno de seu próprio corpo.
- Aparecimento de luzes longe de seu corpo.
- Materialização de mãos.
- Materializações completas, de pessoas já falecidas.
- Transporte de seu corpo, que aparece no claustro estando as portas trancadas.
- Deslocação de um espinho da imagem, que vai se cravar em sua fronte.
- Produção de fenômenos de voz direta.
- Produção de perfume, aparentemente oriundo da chaga na testa.
Estudemos separadamente cada caso e vejamos se podem ser tidos na conta de milagres.
O aparecimento de luzes próximas ao corpo do médium ou longe dele, é praticamente a tônica dos fenômenos de materialização, e o atestam todos os pesquisadores. Léon Denis assim se exprime (No Invisível):
"Os elementos das materializações são temporariamente hauridos nos médiuns e nas outras pessoas presentes. Suas radiações, seus eflúvios, são condensados pela vontade dos Espíritos, ao começo em cúmulos luminosos; depois, à medida que aumenta a condensação, a forma se desenha, torna-se cada vez mais visível".
René Sudre (Tratado de Parapsicologia) diz:
"A mão de Home, o alto de sua cabeça, tornavam-se por vezes fosforescentes como se um vapor saísse deles".
Mais adiante, falando sobre o ectoplasma, esclarece este autor:
"A substância se manifesta sob a forma de névoa luminosa ou não, e sem transição passa ao estado organizado".
William Crookes (Fatos Espíritas) assim descreve a formação ectoplasmática de mãos:
"Vi, mais de uma vez, primeiro um objeto mover-se, depois uma nuvem luminosa que parecia formar-se ao redor dele e, enfim, a nuvem condensar-se, tomar forma e transformar-se em mão, perfeitamente acabada. Nesse momento, todas as pessoas presentes podiam ver essa mão. Nem sempre ela é uma simples forma, pois algumas vezes parece perfeitamente animada e graciosa: os dedos movem-se e a carne parece ser tão humana quanto a de qualquer das pessoas presentes".
Ainda sobre o assunto, René Sudre acrescenta:
"Ao descrever o ectoplasma tivemos ocasião de dizer que ele aparecia geralmente em estado luminoso. Adquire, então, diversas formas: nuvem, bola, pontos, clarões".
Crookes, com sua autoridade de físico-químico, declara:
"Demais, muitas dessas luzes eram de natureza tal que não pude chegar a imitá-las por meios artificiais".
E mais adiante:
"Sob as mais rigorosas condições de exame, vi um corpo sólido, luminoso por si mesmo, pouco mais ou menos do volume e da forma de um ovo de perua, flutuar, sem ruído, pelo aposento, elevar-se por momentos, mais alto do que poderia fazer qualquer dos assistentes (...)".
Sudre fala também:
"Assinalamos ainda os clarões difusos que cercam por vezes o corpo dos pacientes".
D’Arsonval e Curie viram ao redor da cabeça de Eusápia Paladino "uma espécie de zona obscura seguida de uma luminosa, semelhante ao espaço negro catódico na descarga de um tubo de Crookes".
Léon Denis narra uma materialização perfeitamente formada à vista dos experimentadores que tinham também, diante de si, o médium em transe.
Muito lamentável que certos "parapsicólogos" de colarinho eclesiástico que andam por aí a dar conferências e cursos, e a editar livros, "esqueçam-se" de narrar fatos dessa natureza, negando o fenômeno das materializações completas. Ouçamos, de novo, Léon Denis:
"A Sra. Florence Marryat descreve uma sessão que se efetuou no dia 05 de setembro de 1844 em presença dos coronéis Stewart e Len, do Sr. e da Sra. Russel Davies, do Sr. Morgan e dela própria, na qual os Espíritos mostraram aos experimentadores de que modo procediam a fim de organizar para si mesmo um corpo a expensas do médium".
"Eglinton se apresentou primeiramente entre nós em transe completo. Entrou de costas, com os olhos fechados, a respiração ofegante, parecendo debater-se contra a força que o impeliu para o nosso lado. Uma vez aí, apoiou-se a uma cadeira e vimos sair-lhe da ilharga esquerda uma espécie de vapor, massa nevoante como fumo. Suas pernas estavam iluminadas por clarões que as percorriam em todos os sentidos. Um véu branco se-lhe estendeu pela cabeça e pelos ombros. A massa vaporosa ia aumentando sempre e a opressão do médium tornava-se mais intensa, enquanto mãos invisíveis, retirando-lhe da ilharga flocos de uma espécie de gaze muito leve, os acumulavam no solo, em camadas superpostas. Acompanhávamos com alvoroçada atenção os progressos desse trabalho. De repente se evaporou a massa e num abrir e fechar de olhos, um Espírito perfeitamente formado apareceu ao lado de Eglinton. Ninguém poderia dizer donde nem como se achava entre nós; mas aí estava".
Eis aí alguns fatos sobre materializações, que corroboram com o acontecido com Rita de Cássia. Os exemplos, podê-lo-íamos multiplicar muitas vezes, mas cremos que o que foi dito basta. Não se alegue, também, que os médiuns espíritas produzem suas materializações em transe, enquanto que Rita, pelo que se sabe, estava lúcida. Há vários graus de transe mediúnico. Além disso, lembremos-nos de D’Espérance, que permanecia consciente durante todo o tempo, assistindo às próprias materializações que produzia. O fenômeno, pois, não é novo para os estudiosos do Espiritismo.

agosto/1979 
    


  Parte III
Santa Rita de Cássia
Estudados que estão os fenômenos de materialização e de luminescência produzidos por esta extraordinária médium, vejamos o caso de transporte do corpo, com ela ocorrido.
As religiosas, estarão lembrados os leitores, haviam se surpreendido ao depararem com Rita de Cássia dentro do claustro, em oração (em transe?), sem que pudessem atinar como pudera ela ir parar ali. Pelo que se compreende da leitura de seu hagiológio, o fato teria ocorrido no mesmo dia em que se deram as materializações que vimos de estudar. Tal fato encontra apoio na fenomenologia espírita, ou deveremos levá-lo à conta de autêntico milagre? Sem receio de errar, ficamos na primeira hipótese.
Sobre o aparecimento de objetos em recintos fechados, o transporte, o aporte, a hiloclastia ou que nome quer que se lhe dê, muito já se tem escrito e a parapsicologia confirma a realidade do fenômeno. Sobre ele Kardec falou, e várias perguntas fez aos Espíritos, obtendo respostas interessantes. Citemos, contudo, autor não espírita, livre, pois, da pecha de sectarista. Valhamo-nos de novo de René Sudre (Tratado de Parapsicologia ).
"Todos os grandes teleplastas deram esses fenômenos. Em doze transportes que Crookes observou, assinala dois particularmente notáveis. O primeiro ocorreu com Miss Fox. Durante uma sessão que se realizava na sala de jantar, uma campainha de mão que fora deixada em sua biblioteca ressoou bruscamente em seus ouvidos e tocou durante cinco minutos em todos os cantos do aposento, antes de cair ao seu lado. Ora, Miss Fox tinha penetrado apenas na sala de jantar; a porta estava fechada a chave; a campainha achava-se momentos antes na biblioteca, sobre um livro onde Crookes a havia deixado e seu filho mais moço brincara com ela, enquanto Crookes recebia a paciente".
Acrescentemos que Crookes, ao deixar a biblioteca para receber Miss Fox, trancara seus filhos nesse local, onde estava a campainha, guardando a chave no bolso. Ao voltar, depois, em busca da sineta, o pesquisador e seus filhos notaram que ela já lá não estava. Os meninos haviam permanecido ali o tempo todo (e nem poderiam ter saído, pois a porta fora trancada).
O médium Slade também produziu fenômenos de desaparecimento e reaparecimento do objetos. Uma vez, em plena claridade, uma mesinha levitada telecineticamente passa por debaixo de outra mesa maior e ninguém mais a vê. Ao cabo de alguns minutos reapareceu no ar, caindo bruscamente no chão. Depois desapareceu um estojo de termômetro. A seguir um pedaço de carvão mineral e ainda um livro. Instantes após, tudo isto reaparecia. As mãos de Slade, em momento algum, tinham deixado de repousar sobre a mesa. Fenômenos idênticos foram ainda observados por Ochorowicz, Lebiedzinski, além de outros experimentadores.
Entretanto, dirá alguém, no caso de Rita de Cássia o que se deu não foi transporte de objetos, mas do próprio corpo. Também aqui, porém, não há novidade, embora se trate de fenômeno bem mais raro. Mas não passou despercebido aos observadores. Assim é que Léon Denis reproduz o caso seguinte, testemunhado por Gibier:
"No decurso de uma sessão ocorreu um fato surpreendente. A médium, em transe, encerrada na jaula, foi encontrada do lado de fora, ao terminar as experiências".
Lombroso, (Hipnotismo e Espiritismo) a propósito do assunto, comenta:
"Há fenômenos nas sessões medianímicas que, segundo alguns autores, não se podem explicar pela energia própria do médium, mas pela suposição de que, graças a uma razão ignorada, produza-se em torno dele uma atmosfera ultra física; nela as leis comuns de gravidade, coesão, impenetrabilidade e inércia da matéria são suspensas, como se nosso espaço assumisse quatro ou mais dimensões. Essa hipótese, primitivamente lembrada por Zollner, explicaria, sobretudo, os fenômenos de transporte e auto levitação, os de auto desaparição e reaparição".
Deslocação do espinho da imagem
Rita de Cássia orava aos pés da cruz, e eis que de repente um espinho salta da coroa de espinhos da imagem do Crucificado, indo alojar-se em sua testa.
Há que se considerar a possibilidade de que o espinho não tenha, realmente, saltado da coroa para o frontal da religiosa e sim, tenha havido apenas um fenômeno de estigmatização. Assim, sem perder de vista esta possibilidade, abandonêmo-la por ora e aceitemos como verdade que o acúleo tenha se desprendido da imagem e ido atingir a testa de Rita, o que é provável, já que esta moça destaca-se, como temos visto, pelos fenômenos de efeitos físicos.
Sobre a realidade de tais fenômenos, em contraposição aos efeitos intelectuais, acreditamos não hajam dúvidas. Rhine, o "pai da parapsicologia", após seus muitos anos de pesquisa criteriosa, dá o fato como provado. A comissão formada pela Sociedade Dialética de Londres já assim se manifestara a respeito:
"1º - Uma força emanante dos operadores pode agir sem contato ou possibilidade de contato sobre objetos materiais".
"2º - É freqüentemente dirigida com inteligência".
O fenômeno é bastante comum nos casos de assombramento, que vez por outra ilustram as manchetes dos jornais, onde vem narrado o susto dos moradores de certas casas, que são atingidos por pedradas, garrafadas, etc. No caso de Rita de Cássia, o estado de recolhimento em que se achava, a própria exaltação religiosa, foram elementos suficientes para que suas forças telergéticas tenham produzido a deslocação do espinho, que veio a ferir sua testa.
Ranieri (Forças Libertadoras) menciona o caso, bem recente aliás, da menina Maria José, de Jaboticabal, em São Paulo, em que pregos e agulhas penetravam o seu corpo, causando reboliço na família. A criança chegou a ser apresentada em programas de televisão. Por vezes a simples lembrança ou desejo de apanhar um prego ou agulha de que, eventualmente se tivesse necessidade, fazia com que esses objetos se cravassem nas carnes de Maria José.
Esse autor expõe ainda os sofrimentos de Da. Lucrécia, mulher pobre de Lorena, também em São Paulo, que vivia atormentada pelas incontáveis agulhas que penetravam seu corpo e que, a princípio, reclamavam intervenção cirúrgica para serem extraídas e que depois passaram a ser retiradas com um alicate, após fazer-se com que caminhassem pela carne até mostrarem a ponta. Ranieri contou mais de trezentas agulhas retiradas. Outras mais continuaram a aparecer e houve inclusive atestado médico, passado mediante exame radiográfico, onde a existência das agulhas fundamente penetradas na carne foi comprovada.
Rita de Cássia, um espinho. Maria José, pregos. Lucrécia, agulhas.
Embora no primeiro caso a motivação tenha sido outra, tecnicamente o fenômeno é o mesmo.
setembro/1979


 Parte IV
Santa Rita de Cássia
Santa Rita de Cássia, conforme vimos no número anterior, produziu também fenômenos de voz direta.
É um fenômeno que difere do de clariaudiência, pois que neste o médium "ouve" o que os Espíritos falam, mas o "som" ouvido não tem objetividade. Trata-se de fenômeno subjetivo. Falando dos médiuns auditivos, Kardec diz que algumas vezes a percepção é de uma voz íntima, que se faz ouvir na consciência, e de outras vezes é uma voz exterior, clara e distinta, como a de uma pessoa próxima. O grande instrutor André Luiz viria, um século depois, complementar essa informação, com riqueza de detalhes, dizendo que pela associação dos raios mentais entre a entidade comunicante e o médium, a audição se faz direta, do exterior para o interior, graduando-se, contudo, em expressões variadas.
Escasseados que estejam nos médiuns os recursos ultra-sensoriais, nasce essa categoria de audição interna, mais intimamente ligada à conjugação de ondas.
Atuando sobre a mente do organismo mediúnico, os Espíritos transmitem-lhe vozes e sons, aproveitando-se dos centros autônomos da audição, localizados no diencéfalo, utilizando-se da cóclea, de forma tão mais perfeita quanto melhor se dê a identidade vibratória, qual se o médium possuísse uma caixa acústica na intimidade do ouvido.
Entretanto, temos visto que em Rita de Cássia prevaleciam os fenômenos de efeitos físicos, e por tal motivo é lícito supor que tenha havido, no caso, uma autêntica "voz direta". Note-se que o fato se deu quando Rita produzia uma materialização.
Este fenômeno, quando feito em sessão regular e com finalidade elevada, exige dos cooperadores espirituais intenso trabalho. André Luiz descreve com pormenores surpreendentes o trabalho da equipe espiritual em uma sessão de materialização. Para a produção de "voz direta", conta-nos o que observou:
"A força nervosa do médium é matéria plástica e profundamente sensível às nossas criações mentais".
"Logo após (o mentor espiritual) tomou pequena quantidade daqueles eflúvios leitosos que se exteriorizavam (...) do aparelho mediúnico, e, como se guardasse nas mãos reduzida quantidade de gesso fluido, começou a manipulá-lo (...) pensando, em absoluto domínio de si mesmo, sobre a criação do momento".
"Aos poucos, vi formar-se sob meus olhos atônitos, um delicado aparelho de fonação. No íntimo do esqueleto cartilaginoso, esculturado com perfeição na matéria ectoplasmática, organizavam-se os fios tenuíssimos das cordas vocais, elástica e completas na fenda glótica (...). Formara-se, ao influxo mental e sob a ação técnica de meu orientador, uma garganta irrepreensível".
"Com assombro, verifiquei que através do pequeno aparelho improvisado (...) nossa voz era integralmente percebida por todos os encarnados presentes (...)".
Assim trabalham as entidades espirituais nos grupos organizados de trabalho mediúnico. Preciso é que não se esqueça, porém, que o fenômeno de "voz direta" tem ocorrido espontaneamente e à revelia dos presentes, mormente nos fenômenos de assombramento. Com maior ou menor assistência do plano espiritual, com menor ou maior apuro tecnológico, o princípio fenomênico é o mesmo, porém.
Produção de perfume
Outro fenômeno bastante conhecido dos que freqüentam sessões de efeitos físicos. Ondas de perfume costumam inundar o ambiente e por vezes a água ali deixada para ser fluidificada assume e conserva o aroma produzido no ambiente. René Sudre não deixa de registrar o fato:
"Home retirou, em várias ocasiões, o perfume das flores, separou o álcool da aguardente, extraiu a essência do limão. Stainton Moses produzia perfumes quer no ar, quer sobre seu corpo".
O mesmo fenômeno, ou por outra, fenômeno ainda mais complexo e mais maravilhoso, foi produzido no Brasil por Otília Diogo, essa médium tão difamada por parte de alguns repórteres que lhe assistiram aos trabalhos e por potências religiosas interessadas em ocultar uma verdade que ainda mais lhes arruinaria os alicerces. Ranieri dá testemunho de um desses fatos (Forças Libertadoras):
"A médium entrou no quarto e dirigiu-se para a criança. A luz do quarto talvez fosse luz de abajur ou uma luz vermelha; o corredor estava com a luz comum acesa".
"Com simplicidade, sem qualquer encenação, Otília iniciou o passe na presença de todos. Quase instantaneamente o quarto e em seguida todo o corredor foram invadidos por um cheiro forte, mas terrivelmente forte, de clorofórmio. (...) Nossas narinas ardiam ainda ao influxo daquele cheiro fortíssimo quando uma onda de perfume de flores, de rosas, percorreu a casa com intensidade (...). O clorofórmio havia desaparecido".
Outros casos poderiam ser citados. Evitemos, porém, prolixidade. O que vimos de narrar basta, cremos, para demonstrar que os fenômenos produzidos por Rita de Cássia nada têm de milagrosos, sendo ocorrências de caráter medianímico que, não obstante notáveis, atestam apenas a glória da imortalidade, não se prestando, por si sós, ao endeusamento de quem, como instrumento, os produziu.
outubro/1979
1


Parte V
Santa Thereza de Jesus
(Obra consultada: Recomposição da Vida da Seráfica Madre Santa Thereza de Jesus, de Antônio P. Carneiro Leão. Autorização de Alberto, Bispo Diocesano).
Esta foi, talvez, uma das maiores médiuns videntes que a história da Igreja registra em seus hagiológios.
Muitas vezes assediada por entidades obsessoras, foi tachada ironicamente pelos que não lhe entendiam a sensibilidade mediúnica, de "padroeira das histéricas".
Filha de numerosa família, desde cedo se impressionou com as cenas paradisíacas que os livros sacros prometiam aos seguidores da religião oficial. Ansiando por gozar as delícias do Céu, combinou com um de seus irmãos de irem à terra dos mouros, na esperança de serem decapitados.
Quando um pouco mais velha, perdeu parte de seus ardores religiosos, sendo levada por amizades levianas a cometer atos do que chamou de "vaidades mundanas". Conduzida que foi a um mosteiro, porém, readquiriu seu caráter místico.
Na vida austera que passou a levar, contraiu algumas moléstias. Eis como ela própria descreve suas dores:
"(...) parecendo-me algumas vezes que me mordiam o coração com agudos dentes, tanto que se temeu que fosse raiva. Com grande falta de virtude, sem nenhuma coisa poder comer, a não ser bebida, com grande fastio, com febre contínua e tão debilitada, porque me davam purgante todos os dias, durante quase um mês, estava tão escandecida que começaram a se me encolher os nervos com dores tão insuportáveis que nenhum sossego tinha de dia e de noite, e com mui profunda tristeza".
Esperamos que os leitores tenham para com os escritos da santa a mesma complacência que têm para com os nossos. Em verdade, alguém há de estar pensando em como faria Thereza de Jesus para comer a não ser bebida, ou como poderia ela sentir o encolher dos nervos, quando o que lhe encarangavam eram os músculos. Mas passemos adiante.
Thereza acabou por ficar em tal estado de debilidade que se viu forçada a andar de gatinhas. Espíritos obsessores a assediavam continuamente. Afeita às idéias religiosas a pobre mulher julgava-se perseguida pelo diabo. Assim descreve ela uma dessas aparições:
"Achava-me uma ocasião num oratório e apareceu-me ele (o demônio) do lado esquerdo, de abominável figura; e porque me falou, olhei-lhe especialmente a boca, que tinha espantosa. Parecia que lhe saía uma grande chama do corpo e que era toda clara, sem sombra; disse-lhe espantosamente que eu me havia livrado de suas mãos, mas que ele me tornaria a elas. Tive grande temor, benzi-me como pude, ele desapareceu e logo voltou; por duas vezes me aconteceu isto; não sabia o que fazer de mim. Tinha ali água benta; lancei-a para aquele lado e nunca mais ele voltou".
Não obstante a água benta e a declaração de Thereza de que "nunca mais ele voltou", prossegue a religiosa na mesma linha:
"Outra vez esteve me atormentando durante cinco horas (...)".
E mais adiante:
"Quis o Senhor que eu entendesse como era o demônio, porque vi junto de mim um negrinho muito abominável, arreganhando-se por onde pretendia me ganhar. Como o vi, ri-me e não tive medo porque havia ali algumas comigo que não se podiam valer, nem sabiam que remédio darem a tanto tormento, pois eram grandes os golpes que ele me fazia dar, sem poder opor-lhe resistência, com o corpo, cabeça e braços, e o pior era a agitação interior, pois de forma alguma podia ter sossego".
Note-se que a pobre enferma ao ver a entidade que a perseguia, riu-se e não teve medo "porque havia algumas (freiras) com ela". Na verdade, qualquer pessoa sente-se mais valente se contar com outras presenças humanas a seu lado no momento de enfrentar o pouco usual.
Vemos por essa descrição que Thereza já estava praticamente a braços com a obsessão, pois não só enxergava a entidade arreganhada, como também era forçada a dar golpes com os braços e a cabeça, sem poder opor-lhe resistência, possivelmente já incorporada. Mas pediu ainda às religiosas que lhe trouxessem água benta, em que depositava tanta fé. É aspergida com ela, mas nada valeu. Aí ela própria jogou a água sobre o Espírito, que a deixou."Fiquei cansada como se me tivessem dado muitas pancadas", declara Thereza de Jesus.
Esta última declaração parece confirmar que a monja estivesse realmente obsedada. A sensação de ter levado muitas pancadas é característica daqueles que se libertam, ainda que temporariamente, de entidades espirituais de baixo teor vibratório. Já no Evangelho de Marcos (Mc 9, 14-27) vemos um homem, aproximando-se de Jesus, declarar:
- Mestre, eu te trouxe meu filho, que tem um Espírito mudo. Este, onde quer que o apanhe, lança-o por terra e ele espuma, range os dentes e fica endurecido.
- Trazei-mo cá, disse Jesus.
- Eles Lho trouxeram. Assim que o menino avistou Jesus, o Espírito o agitou fortemente. Caiu por terra e revolvia-se espumando. Jesus perguntou ao pai:
- Há quanto tempo lhe acontece isto ?
- Desde a infância, respondeu-Lhe, e tem-no lançado ao fogo e à água para o matar.
Vendo Jesus que o povo afluía, intimou o Espírito imundo e disse-lhe:
- Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: sai deste menino e não tornes a entrar nele.
E gritando e maltratando-o extremamente, saiu. O menino ficou como morto, de modo que muitos diziam:
- Morreu...
O acontecido com Thereza de Jesus não é, pois, novidade. Já os discípulos do Divino Mestre o registraram e cenas semelhantes ainda acontecem nos trabalhos de desobsessão.
Mas a freira prossegue a narrar seus infortúnios:
"Outra vez estava eu no coro e deu-me um grande ímpeto de recolhimento; retirei-me dali a fim de que não o entendessem as outras que ali se achavam, apesar de que perto do lugar onde eu estava ouvirem todas darem grandes pancadas; e eu ouvi falarem perto de mim".
Não sabemos o que, exatamente, a religiosa chama de "grande ímpeto de recolhimento". Poderia ser um assédio de Espíritos malfeitores para afastá-la dos serviços religiosos, como também poderia ser a sensação, muito freqüente nos médiuns, de notar que um Espírito pretende dar uma comunicação, principiando o envolvimento fluídico. De qualquer sorte, Thereza revela-se aqui também como médium de efeitos físicos, pelas "grandes pancadas" que se faziam ouvir perto de onde estava. E vê-se que a monja era ainda médium auditiva. Pena é que Thereza não revelasse o que ouviu falarem perto de si, talvez por não ter entendido. De qualquer forma, é também freqüente aos médiuns auditivos esquecerem quase instantaneamente o que os Espíritos lhes ditam, ficando a mensagem como que arquivada na sub-consciência, para influir, depois, no comportamento, como intuição do momento.
Raramente um médium obsedado se vê perseguido por uma única entidade. Os malfeitores do espaço, como os da terra, muito freqüentemente se agrupam em bandos. É a atração do semelhante pelo semelhante. Diz Thereza:
"Outra vez via uma grande multidão deles ao redor de mim e parecia-me haver uma grande claridade que me cercava toda e que não consentia que se chegasse a mim".
Nota-se que Thereza de Jesus, a exemplo do que infelizmente acontece com tantos médiuns, vacilava em sua fé. No caso aqui exposto, ocorrido possivelmente num dos momentos em que ela se achava em melhores condições espirituais, seu próprio campo áurico a defendia do assédio das sombras.
Na verdade, houvesse sempre equilíbrio, elevação espiritual, bons pensamentos e estado de prece, e ninguém se veria subjugado por Espíritos inferiores, que não conseguiriam entrar em sintonia com uma aura de vibrações mais altas, o que os manteria afastados, a espreita de uma oportunidade para o ataque. Quando a ocasião surge, quando o assédio se concretiza, a culpa é do médium, que esqueceu o preceito de Jesus, o "orai e vigiai". Então acontece o que se deu com Thereza de Jesus que em outra oportunidade assim se expressa:
"Às vezes nas tentações de que já falei me parecia que eles tornavam a despertar em mim todas as vaidades e fraquezas dos tempos passados".
Mas não só de Espíritos malfeitores eram constituídas as visões de Thereza. Nessas ocasiões ela supunha estar no Céu:
"Estando uma noite tão doente que queria me escusar de ter oração, tomei um rosário para ocupar-me vocacionalmente. Estive assim um pouco e veio-me um arroubamento de espírito com tanto ímpeto que não me foi possível resistir-lhe. Parecia-me estar metida no Céu e as primeiras pessoas que ali vi foram meu pai e minha mãe".
novembro/1979
1


Parte VI
Santa Thereza de Jesus
Eis outra faceta da faculdade mediúnica de vidência de Thereza de Jesus:
"Outra ocasião me aconteceu outra coisa assim, que muito me espantou: achava-me num lugar onde morreu uma certa pessoa que tinha vivido muito mal, segundo o soube, e por muitos anos; mas havia já dois anos que tinha estado enferma e parece que alguma coisa se achava emendada. Morreu sem confissão, mas apesar disto não me parecia que havia de se condenar. Estando se amortalhando o corpo, vi que muitos demônios tomavam aquele corpo, parecendo que com ele jogavam e nele faziam justiça, o que me causou grande temor (...). Depois, quando lançavam o corpo na sepultura, tanta era a multidão dos que estavam dentro dela para recebê-lo que estava fora de mim de vê-lo e não se fazia mister pouco ânimo para dissimulá-lo".
Esta visão que teve Santa Thereza no cemitério, ao notar que muitos "demônios" aguardavam o corpo daquela pobre pessoa "que tinha vivido muito mal", poderia causar estranheza aos poucos afeitos aos ensinamentos doutrinários do Espiritismo, e aos teólogos, menos afeitos ainda. Com efeito, por que os "demônios" (Espíritos maus, pouco evoluídos) iriam se ocupar com o corpo do recém desencarnado, quando agora teriam maior facilidade em lhe assediar a alma, sem o entrave da matéria? Não ensinam as religiões que é a alma dos que "viveram mal" que o demônio conquista para as suas caldeiras? Então por que aguardar o cadáver na sepultura, quando o Espírito já ali não se achava?
A resposta nos é fornecida, com riqueza de detalhes, por André Luiz (Obreiros da Vida Eterna) o amorável instrutor espiritual, através do fiel medianeiro Francisco Cândido Xavier.
A cena descrita por André Luiz é também a de um enterro, que vamos resumir para aqueles que não conhecem a obra citada:
Dimas, recém desencarnado, acompanhava seu próprio féretro, como tão freqüentemente acontece, amparado por diversos amigos espirituais, entre os quais sua mãe, o ex-padre Hipólito e o próprio André Luiz. Leiamos o livro:
Seguíamos, ao fim do cortejo, em número superior a vinte entidades desencarnadas, inclusive o irmão recém liberto.
Abraçado à genitora, Dimas, em passos incertos e vagarosos, ouvia-lhe discretas exortações e sábios conselhos.
Entre os muitos afeiçoados do círculo carnal, reinava profundo constrangimento, mas, entre nós, imperava tranqüilidade efetiva e espontânea.
Prosseguíamos com as melhores notas de calma, quando nos acercamos do campo-santo.
Estranha surpresa empolgou-me de súbito. Nenhum dos meus companheiros, exceção de Dimas, que fazia visível esforço para sossegar a si mesmo, exteriorizou qualquer emoção, diante do quadro que víamos. Mas não pude sofrear o espanto que me tomou o coração. As grades da necrópole estavam cheias de gente da esfera invisível, em gritaria ensurdecedora. Verdadeira concentração de vagabundos sem corpo físico apinhava-se à porta. Endereçavam deletérios e pilhérias à longa fila de amigos do morto. No entanto, ao perceberem a nossa presença, mostraram carantonhas de enfado, e um deles, mais decidido, depois de fitar-nos com desapontamento, bradou aos demais:
- Não adianta! É protegido...
Voltei-me preocupado, e indaguei ao padre Hipólito o que significava tudo aquilo.
O ex-sacerdote não se fez de rogado.
- Nossa função, acompanhando os despojos - esclareceu ele, afavelmente, - não se verifica apenas no sentido de exercitar o desencarnado para os movimentos iniciais da libertação. Destina-se também à sua defesa. Nos cemitérios costuma congregar-se compacta fileira de malfeitores, atacando vísceras cadavéricas, para subtrair-lhes resíduos vitais.
Ante minha estranheza, Hipólito considerou:
Não é para admirar. O Evangelho, descrevendo o encontro de Jesus com endemoninhados, refere-se a Espíritos perturbados que habitam entre os sepulcros.
Mais adiante, prossegue André Luiz na narrativa:
Logo após, ante meus olhos atônitos, Jerônimo inclinou-se piedosamente sobre o cadáver, no ataúde momentaneamente aberto antes da inumação e, através de passes magnéticos longitudinais, extraiu todos os resíduos de vitalidade, dispersando-os, em seguida, na atmosfera comum, através de processo indescritível na linguagem humana, por inexistência de comparação analógica, para que inescrupulosas entidades inferiores não se apropriassem deles.
Eis aí a explicação daquilo que Thereza de Jesus vira, e que tanto espanto lhe causou. Entidades inferiores, num processo de vampirização, tomaram de assalto os despojos carnais do recém desencarnado que, por ter "vivido mal", não contava com a proteção de benfeitores espirituais, com os quais não se sintonizara. Aqueles Espíritos estavam sôfregos por absorver ao cadáver os últimos resíduos de fluido vital de que sentiam necessidade pelo grau de materialidade em que ainda se encontravam.
Vê-se assim que os feitos ditos milagrosos dos santos encontram total apoio e explicação nos ensinamentos que os Espíritos nos legam para nossa instrução. Mas Thereza de Jesus prossegue em suas narrativas:
"Já que comecei a dizer sobre visões de defuntos, quero dizer algumas coisas que a respeito de algumas tem sido servido o Senhor que eu veja de algumas".
E dentro da redundância, que lhe caracterizava os escritos, narra a seguir a visão que teve do Espírito do antigo Provincial, já desencarnado. Thereza orava por ele quando o vê à sua direita. Conta também que, certa feita, quando se diziam lições no coro sobre uma freira morta há dois dias, esta lhe aparece em Espírito. E Thereza conclui:
"Não quero dizer mais sobre estas coisas porque, como tenho dito, não há para que dizê-las, conquanto sejam muitas as que o Senhor me tem feito mercê de ver".
Ao contrário de Thereza de Jesus, achamos que há muitos motivos para que se diga das coisas de Deus e do Espírito. Servem elas para nos alertar da bênção da sobrevivência, das conseqüências de nossas atitudes para o destino de nossas almas, conseqüências que serão benéficas ou danosas conforme o uso que fizermos de nosso livre arbítrio, consoante o caminho que escolhermos quando de nossa jornada pelo invólucro físico. As vidências de Santa Thereza de Jesus servem para lembrar que as almas dos que morreram não vão para um lugar de eterna beatitude, o que vale dizer, de eterna inutilidade, nem para um lugar de eterno sofrimento, não menos inútil. Tampouco entram as almas em um estado de inconsciência, igualmente sem sentido, no aguardo de um "juízo final", após o que a imutabilidade das condições bem atestariam a falta de objetivo da Criação. Mas em lugar disto, as vidências de Thereza de Jesus são mais uma prova de que, após a morte, as almas continuam interagindo conosco e entre si, conscientes, individualizadas, sensíveis e livres, gozando o mérito de seus bons feitos e arcando ao peso da responsabilidade dos erros cometidos.
Thereza de Jesus, antes de deixar de narrar as visões que tivesse e de que "o Senhor foi servido", conta ainda ter visto o Espírito de outra freira, de 18 ou 20 anos, que lhe apareceu cerca de quatro horas após a morte física. Diz ter visto também, no Colégio da Companhia de Jesus, a alma de um irmão daquela casa, recém falecido, e ainda o Espírito de um frade, na hora mesmo em que este desencarnava.
Sobre seus dotes de vidência, diz a religiosa:
"Esta visão (...) jamais a vi com os olhos do corpo, nem nenhuma outra, e sim com os da alma. Os que sabem melhor que eu dizem que a passada é mais perfeita do que esta, sendo esta muito mais perfeita do que as que se vêem com os olhos do corpo. Dizem que estas últimas são as mais baixas e onde mais ilusões pode o demônio fazer (...) aliás desejada (...) fosse (...) com os olhos corporais, para que o confessor não me dissesse que era representação de minha imaginação (...)".
Como se nota, Thereza de Jesus andou sofrendo com a incredulidade dos que não lhe compreendiam a sensibilidade mediúnica.
Entidades inferiores andaram tentando aparecer à santa em forma de um Espírito luminoso, que ela julgava ser o próprio Cristo. Não o conseguiram, porém, como diz a religiosa:
"(...) toma a forma da carne, mas não pode contrafazê-la com a glória que se nota quando é de Deus".
Normalmente os médiuns videntes guardam a impressão de que podem ver os Espíritos pelos olhos físicos, e nisto Thereza mostrou estar bem informada. Efetivamente, Kardec (O Livro dos Médiuns) viria a ensinar, séculos mais tarde, que o "médium vidente julgava ver com os olhos, como aqueles que têm a dupla vista; mas na realidade é com a alma que vê, e essa é a razão pela qual eles vêem tanto com os olhos abertos como com eles fechados".
Sobre a identificação de um mau Espírito, o Codificador foi instruído no sentido de que "muitos médiuns reconhecem os bons e os maus Espíritos pela impressão agradável ou penosa que experimentam à sua aproximação".Além disso, embora um Espírito inferior possa imitar, no aspecto, um que lhe seja superior, não consegue imitar-lhe a luminosidade da aura, e assim um médium experiente pode desmascará-lo como o fez Thereza de Jesus, que não se deixou enganar pelos que "não eram de Deus", como disse.
dezembro/1979
1


Parte VII
Santa Thereza de Jesus
Deixando de falar de suas visões, Thereza de Jesus descreve também fenômenos de levitação que apresentou em momentos especiais, que chamou de "arroubamentos". Diz ela:
"(...) no arroubamento não há meio de resistência (...) e é tal sua violência que muitas vezes queria eu resistir e empregava todas as minhas forças, especialmente algumas vezes, que se dava o fato em público (...) algumas vezes se me erguia todo o corpo (...) outras vezes, como começasse a ver que o Senhor ia fazer o mesmo, sendo uma delas na ocasião em que se achavam senhoras das principais famílias (...) deitava-me no chão e chegava a suspender-me o corpo (...)".
Santa Thereza chegava a pedir a Deus que a livrasse do que denominou de "mercês que produzissem sinais exteriores", porque, dizia, estava "já cansada de andar com tanta fama".
Mais adiante a santa descreve com pormenores as sensações que experimentava durante as levitações. Leiamo-la:
"É certo que quando queria resistir, parecia que debaixo dos pés me levantavam forças tão grandes que não sei com que compará-las, tal a impetuosidade com que isto se dava".
Houve ocasiões em que, mesmo com muito medo, Thereza de Jesus não opôs resistência:
"(...) eu confesso ainda o grande, enormíssimo temor que senti no princípio e que causa o fato de se ver assim levantar um corpo da terra, pois não se perdem os sentidos, apesar de levar o espírito o corpo consigo, e isto se dá com grande suavidade, uma vez que não haja resistência de nossa parte".
O fenômeno de levitação, embora menos freqüente que outros que temos aqui estudado, tem sido constatado ao longo dos tempos, entre todos os povos.
Consta que Simão, o Mago, depois de ter se elevado do solo perante Nero, despencou do ar, fraturando uma perna.
Sulpício Severo fala de um "possesso" que se elevou ao ar à simples aproximação das relíquias de São Martinho.
Quando Juliano, o Apóstata, era iniciado nos Mistérios de Diana, em Éfeso, seu iniciador se elevou pelos ares, juntamente com o iniciando.
Delacour fala de um índio de 19 anos que foi alçado até o teto de uma igreja, onde teria permanecido, sem apoio algum, por cerca de meia hora.
Calmeil (De la Folie) fala de um convento em Uvertat onde, no século XVI, após um jejum austero mantido na quaresma, as freiras passaram a crises convulsivas, sendo algumas arrastadas pelo chão como se puxassem pelas pernas, outras subiam em árvores, de onde desciam de cabeça para baixo, enquanto que outras ainda tinham seus corpos elevados no ar, caindo depois pesadamente. Quase todas sentiam, nesses momentos, uma sensação de queimadura ou formigamento nos pés.
Lembrar-se-ão os leitores que Thereza de Jesus dizia que "debaixo dos pés se levantavam forças tão grandes" que ela não sabia com que as comparar.
A experiência de Dunglas Home é célebre, e dela foi feito um relatório para a Sociedade Dialética de Londres. Esse famoso médium teve seu corpo levantado do solo, saiu flutuando no ar por uma janela do aposento onde estava, entrou por outra, e foi conduzido até uma cadeira onde se sentou. Eis como ele descreve suas sensações:
"Durante essas elevações ou levitações, nada sinto de particular em mim, exceto a sensação do costume, cuja causa atribuo a uma grande abundância de eletricidade nos meus pés (...)".
A sensação nos pés, então, parece ser freqüente em quem experimenta esse tipo de fenômeno.
São muitas as explicações sobre o mecanismo da levitação. O Dr. Fugairon, considerando a repulsão que se exerce entre o ar eletrificado e as pontas de um torniquete fixado sobre o condutor de uma máquina elétrica, julga não ser impossível que uma pessoa perelectrógena, posta em pé sobre um piso mau condutor, possa produzir um fluxo elétrico tal que a eleve do solo.
Outra hipótese, considerando o corpo dos animais como sendo diamagnético, e agindo a Terra como um ímã, explica a levitação como decorrente de uma identidade de polaridade, atingida pelo estado de transe, que provocaria a repulsão dos corpos.
Os experimentos de Crawford (Mecânica Psíquica) demonstram que nos fenômenos de levitação de objetos há uma expansão ectoplasmática (pseudópode) que, saindo do médium, colhe o móvel elevando-o; quando o objeto a ser levantado é muito pesado, o pseudópode ectoplásmico apoia-se no chão e dobrando-se em L, impulsiona o móvel para cima, como o faria uma alavanca. Não é impossível, então, que nos fenômenos de auto-levitação a extensão ectoplasmática, firmando-se no solo pela sua extremidade mais distante do corpo do médium, eleva-o no ar onde o sustenha pela sua outra extremidade, que está em contato íntimo com a organização mediúnica.
Se a expulsão do ectoplasma, nessas ocasiões, se fizer pelos pés, talvez consigamos explicar as sensações que Thereza de Jesus, as freiras de Uvertat e Dunglas Home experimentaram.
De qualquer forma, deve-se lembrar que, considerando em si mesmo, um corpo só é pesado quando se acha na vizinhança de outro, que o atraia. Se de alguma forma a atração gravitacional puder ser anulada, os corpos deixarão de ter peso, pois que este não é uma propriedade que possuam, na verdade. Como bem argumenta Carl Du Prel, é a nossa linguagem que transforma o fato da atração passiva em uma propriedade dos corpos, colocando nestes a causa do peso, que reside fora deles.
Qualquer que seja a mecânica, porém, o certo é que a levitação não é privativa dos santos, ocorrendo igualmente com os chamados "possessos", com heréticos, com índios, com histéricas e com bruxos, o que basta para demonstrar que o fato, conquanto extraordinário, não pode ser considerado milagroso, ao menos no sentido que dão à esta palavra as religiões organizadas.
No Brasil, o médium Mirabelli ficou famoso por suas levitações, de que há fotografias. Consta que também o Pe. José de Anchieta teria levitado algumas vezes e nos registros hagiológicos, parece que ninguém conseguiu exceder a São José de Cupertino, pelos espetaculares vôos que realizava, chegando algumas vezes a carregar consigo pessoas às quais se agarrava, com o medo que a experiência lhe causava.
Não sabemos se os pedidos de Thereza de Jesus para que lhe fossem suprimidos os dotes que produzissem "sinais exteriores" foram atendidos.
Esperemos ao menos que lhe tenham servido para manter o Espírito em elevação, a exemplo do que ocorria com seu corpo enfermo e alquebrado.
janeiro/1980



Parte VIII
Santa Liduína
(Obra consultada: A Santa dos Doentes - Liduína de Schiedam , do Pe. Arlindo Rupert. Nihil Obstat, Pe. Leônidas Didonet. Imprimatur, Mons. Floriano P. Cordemunsi - Vigário Geral).
Filha de Pedro e Pedronila, pobres, honrados e piedosos, nasceu Liduína em Schiedam, na Holanda, em 1380.
Aos 15 anos é vítima de uma enfermidade que lhe produz uma deformação óssea, que faz com que seus pretendentes se afastem, coisa que em absoluto não desagrada a Liduína, que pretendia votar sua vida às práticas religiosas.
Gostava, porém, a menina, de brincar com as companheiras, e assim é que um dia vêmo-la a patinar no gelo. Uma amiga, em meio ao folguedo, dá-lhe um empurrão e Liduína cai, fraturando uma costela. Os esforços médicos não lhe conseguem minorar a dor (estávamos em 1395 ou 96). O ferimento produzido pela costela fraturada foi se agravando, produzindo-lhe dores atrozes, que não lhe permitem encontrar no leito posição que dê conforto.
Desesperada, Liduína atira-se um dia da cama e na queda rompe-se-lhe o abscesso que se havia formado.
A moça agora arde em febre. Seu corpo exala mau cheiro, e seus amigos evitam quanto pode sua presença, o que faz com que ela sofra física e moralmente.
Entre suas virtudes os biógrafos narram algumas de suas rebeldias, que lhe desmentiriam a santidade, não fora a puerícia do caso narrado. Trata-se, possivelmente, de uma lenda, como as muitas encontradas nos hagiógrafos, mas que a Igreja tem como verdadeira. Vejamos o que diz Arlindo Rubert:
"Ao vigário avarento, pedira Liduína que lhe remetesse um pouco de graxa de uns frangos que ele mandara preparar. Precisava para medicar a ferida. Desculpou-se o religioso dizendo que eram magros e a pouca graxa que deram, mal bastava para os fritar. Liduína fitou-o um instante e disse:
- Vós me recusais o que peço, a título de esmola, em nome de Jesus. Bom, eu peço a nosso Salvador para que vossas aves sejam devoradas pelos gatos"!
"Na manhã seguinte, ao abrirem o armário, encontraram apenas os ossos, pois os gatos haviam comido tudo"!
Não vamos nos deter a comentar essa estorieta. Mas se alguém duvida que muitos a aceitam como verossímil, basta procurá-la na obra em que nos baseamos...
Após muito sofrer, Liduína acaba por se conformar e a desejar, mesmo, o sofrimento, como meio de purificação. Em seu leito de dor permaneceu por trinta e oito anos. Seu estômago não aceitava alimento algum e, com as dores que tinha de suportar, Liduína quase não dormia. Nesse estado de coisas, morre-lhe a mãe. O pai, já velho e alquebrado, mal pode prestar cuidados à filha.
Certa noite, uma vela põe fogo em seu leito, queimando-lhe um braço. Era mais um sofrimento que vinha se somar aos antigos, que já tanto lhe doíam.
Entre as graças que lhe atribuem os biógrafos, uma foi a de apresentar no corpo, as chagas de Cristo. Como Antônio de Pádua, produzia bilocações. Entrava em transes e, mais nitidamente, se observava seu potencial mediúnico. Vejamos o que diz, literalmente, a obra consultada:
"Caía freqüentemente em êxtase e arrebatamento, falava com os celícolas, recebia e transmitia importantes revelações, predizia coisas futuras, gozava da presença de seu Anjo da Guarda e via a sorte de muitas almas na outra vida".
Constituirá novidade algum desses fenômenos aos espíritas? Excetuando a denominação de "celícolas", dir-se-ia que o trecho acima fora extraído de alguma obra espírita, onde se analisasse a produção mediúnica de alguém.
Com relação aos estigmas, deve-se considerar, por economia de hipóteses, terem sido simples escaras produzidas pela prolongada permanência no leito. De qualquer forma, um alto grau de sugestionabilidade pode fazer com que eles apareçam, independentemente de um contingente mediúnico. Por hipnose já se produziram estigmatizações à simples indução verbal. No caso das chagas imitarem os ferimentos de Jesus, por exaltação religiosa, elas se formam no local em que se supunha que Cristo as tivesse sofrido, isto é, nas palmas das mãos, e não nos carpos, onde verdadeiramente os cravos foram pregados.
Muito provavelmente Liduína, durante seus "arrebatamentos", ao transmitir as tão importantes revelações (que infelizmente ficaram em segredo), estivesse incorporada. O biógrafo não fornece maiores detalhes sobre a maneira como ela recebia e transmitia suas mensagens, mas a condição estática sugere obnubilação da consciência, e a incorporação parece ser o que tenha ocorrido.
Dentre suas previsões, uma foi a de um incêndio na cidade. Quando o fogo atingiu sua casa, os parentes quiseram removê-la, mas Liduína afirmou que nada sofreria e, de fato, o incêndio não chegou a lhe causar danos.
De outra feita, uns homens numa taverna falavam sobre ela, com comentários desairosos, chamando-a de hipócrita e fingida. Um dentre eles, porém, a defende, dizendo serem autênticos os fenômenos que produzia. Otagero era seu nome. No outro dia, Liduína chama seu confessor (não o das galinhas) e pede que vá agradecer àquele homem o que por ela fizera na véspera.
Em outra oportunidade, Liduína assiste à morte de um conhecido, Gerardo, sem sair de seu leito.
Em certa ocasião, ao ser visitada por uns religiosos, passou a lhes descrever o interior de seu convento, onde nunca havia estado.
Liduína enxergava, freqüentemente, seu "Anjo da Guarda", com o qual por vezes dialogava. Certa feita, Catarina de Simon, amiga da enferma, mostrou desejos de ver o anjo de que Liduína tanto falava. A doente pede e o "anjo" aparece, chegando a causar perturbação em sua amiga, principalmente pela expressão de seu olhar. Foi ele visto na aparência de um jovem, envergando uma túnica branca. Nada de asas ou auréolas.
Em certa noite, notam os moradores da casa que do quarto de Liduína vinha um estranho clarão. Pensando ser um incêndio, correm para lá, mas a enferma os tranqüiliza, pois que nada havia ali. Pouco depois, lá estava ela a conversar com seu anjo protetor, cujo manto resplandecia.
Sobre o Anjo da Guarda, a obra que estamos consultando traz curiosíssimos e instrutivos comentários. Sobre a maneira como Liduína o via, diz o livro:
"Ela o percebia nas aparências de um jovem que trazia na fronte uma cruz resplandecente. Graças a este sinal, podia distingui-lo do anjo das trevas, quando se disfarçava em anjo de luz, para melhor a enganar".
Tudo isto, como se vê, está perfeitamente concordante com os ensinos espíritas. Na verdade, embora a um Espírito inferior não seja impossível alterar sua forma perispiritual de sorte a se assemelhar a outra entidade, para assim mistificar os médiuns, jamais consegue imitar a luz que portam os Espíritos superiores, pois que esta é um patrimônio que se conquista.
Eis outro comentário digno de nota:
"Infelizmente em nossos dias parece muito diminuída a fé e a crença no doce companheiro de todos os nossos passos, o fiel Anjo da Guarda, dado por Deus a todos. Às mais das vezes pensamos que é uma devoção boa para as crianças, assim que a arte cristã se limita a representar o Santo Anjo apenas como protetor e defensor dos pequenos. É um erro, pois o celestial amigo nos acompanha até ao túmulo e, segundo visões de Santa Liduína, até no Purgatório, deixando-nos somente ao ingressarmos no Céu".
Mais adiante, diz o biógrafo:
"O Anjo de Liduína afastava-se e desaparecia toda vez que ela cometia alguma imperfeição".
Não resistimos à tentação de transcrever aqui um trecho de O Livro dos Espíritos de Kardec, cujo sentido tão próximo está do que foi escrito sobre Liduína, que quase diríamos não ser a obra basilar do Espiritismo desconhecida do autor que escreveu sobre a "santa dos doentes".
Vejamos o que diz a primeira obra espírita publicada, a partir da questão 490:
"Que se deve entender por anjo da guarda?"
"O Espírito protetor de uma ordem elevada".
"O Espírito protetor é ligado ao indivíduo desde o nascimento?"
"Desde o nascimento até a morte, e freqüentemente o segue depois da morte, na vida espírita e mesmo através de numerosas existências corpóreas (...)".
"O Espírito protetor abandona às vezes o protegido, quando este se mostra rebelde às suas advertências?"
"Afasta-se, quando vê que seus conselhos são inúteis e é mais forte a vontade do protegido em submeter-se à influência dos Espíritos inferiores, mas não o abandona completamente e sempre se faz ouvir (...)".
"Há uma doutrina que deveria converter os mais incrédulos, por seu encanto e por sua doçura: a dos anjos da guarda. Pensar que tendes sempre ao vosso lado seres que vos são superiores, que estão sempre ali para vos aconselhar, vos sustentar (...) que são amigos mais firmes e devotados que as mais íntimas ligações que se possam contrair na Terra, não é essa uma idéia bastante consoladora? Esses seres ali estão por ordem de Deus".
Como se vê, alguns irmãos de outros credos, que esconjuram o Espiritismo ou escarnecem dos que nele crêem, ou não entendem nada do Espiritismo, ou não entendem nada de suas próprias religiões. Mas pode ser também que não entendem das duas coisas...
fevereiro/1980



Parte IX
Santa Liduína
Liduína, não obstante sua paciência e resignação, teve, em muitos momentos, crises de revolta. Quando desencarnou seu irmão Guilherme, ela não se conformou. E sucedeu como acontece ainda com muitos médiuns. Assim se expressa seu biógrafo:
"Às vezes se mostrava um tanto leviana e imprudente. Mostrou também pouca resignação em certos períodos de seus sofrimentos, tempo que estava purificando a alma. Quando, mais tarde, ela se viu privada dos dons extraordinários que Deus lhe outorgara, reconheceu, por um secreto remorso, que tal privação fora motivada pela sua falta de resignação e conformidade (...)".
Um bispo inglês que peregrinava nas imediações do Monte Sinai, encontrou um eremita que havia dezessete anos ali morava e que comentou:
- "Na Holanda, numa pequena cidade chamada Schiedam, há uma virgem muito doente que desde muitos anos vive em jejum. Muitas vezes nos comunicamos mutuamente na luz incriada. Ultimamente uma coisa me admira: de uns dias para cá ela já não se eleva da terra e eu não percebo mais, durante o êxtase, a sua presença".
Responde o bispo:
- "Eu penso que ela se aflige mais do que convém pela perda de um parente. Deus permite isso para a humilhar. Julgo que é devido à intemperança de suas lágrimas que o Senhor a priva momentaneamente de suas graças".
Veremos logo mais que o bispo não estava longe da verdade.
Finalmente, após 38 anos de sofrimento, Liduína entra em agonia. Das sete horas da manhã até às quatro da tarde, a pobre mulher vomita quase sem cessar. Às 16 horas seu Espírito se liberta. Era o dia 14 de abril de 1.433.
Não temos notícia de como aquela alma retornou ao seu estado natural, livre da matéria. A deduzir de todo o sofrimento, Liduína traria, de existências pretéritas, imensas dívidas que veio resgatar num corpo enfermiço. Não obstante algumas rebeldias, possivelmente a moça terá encontrado a paz, pois que bem pôde suportar a maior parte de seus infortúnios. Para amenizar-lhe o sofrimento e promover-lhe o progresso mais rápido foi dotada, como vimos, de dons mediúnicos que lamentavelmente veio a perder já no fim de sua existência corpórea.
Entre os fenômenos apresentados por Liduína, podemos enumerar:
Incorporação
Clariaudiência
Clarividência
Premonição
Bilocação
Estigmatização
Vejamos, em breves linhas, alguma coisa sobre essas ocorrências.
Sobre a estigmatização, já vimos não ser, necessariamente, um fenômeno mediúnico, pois que se pode reproduzi-lo experimentalmente desde que se conte com uma personalidade altamente sugestionável.
Com respeito à audição e à visão mediúnica também já falamos. A bilocação será comentada quando expusermos a vida de Antônio de Pádua. Vejamos algo sobre a incorporação e a premonição.
André Luiz assim comenta o fenômeno da incorporação:
"Reconheci que o processo da incorporação comum era mais ou menos idêntico ao da enxertia da árvore frutífera. A planta estranha revela suas características e oferece frutos particulares mas a árvore enxertada não perde sua personalidade e prossegue operando em sua vitalidade própria".
Léon Denis faz interessante comentário sobre a forma pela qual se dá a comunicação mediúnica por esta modalidade:
"Sabemos que a mediunidade, no maior número de suas aplicações, é a propriedade que têm alguns dentre nós de se exteriorizar em graus diversos, de se desprender do envoltório carnal e imprimir mais amplitude às suas vibrações psíquicas. Por seu lado, o Espírito libertado pela morte se impregna de matéria sutil e atenua suas radiações próprias, a fim de entrar em uníssono com o médium".
"Aqui se fazem necessários uns algarismos explicativos. Admitamos, a exemplo de alguns sábios, que sejam de 1000 por segundo as vibrações normais do cérebro humano. No estado de "transe", ou de desprendimento, o invólucro fluídico do médium vibra com maior intensidade, e suas radiações atingem a cifra de 1500 por segundo. Se o Espírito, livre no espaço, vibra à razão de 2000 no mesmo lapso de tempo, ser-lhe-á possível, por uma materialização parcial, baixar esse número a 1500. Os dois algarismos vibram então simpaticamente; podem estabelecer-se relações e o ditado do Espírito será percebido e transmitido pelo médium em transe sonambúlico".
Aliás, é essa necessidade de baixamento vibratório que faz com que a entidade comunicante por vezes incida em erros, tão a gosto dos detratores de má fé ou pouco esclarecidos.
O fenômeno da incorporação é sobejamente conhecido para que citemos algum exemplo, de que haveria uma infinidade para narrar. Fiquemos, pois, com a exposição teórica de seu mecanismo.
Premonição
Esta faculdade do Espírito, constatada através dos anos e negada por aqueles que teimavam em não admiti-la, por não poderem compreendê-la, já levou muita gente às fogueiras da Inquisição e aos altares das igrejas. Hoje, a realidade de sua existência está cientificamente demonstrada e ninguém, de razoável cultura, a põe em dúvida, a não ser que interesses mais fortes o motivem.
Muitas e muitas experiências foram feitas em laboratórios e fora deles, dentro de todo o rigor científico, antes de se anunciar oficialmente a realidade das manifestações precognitivas. Tyrrel, por exemplo, fez experiências com uma máquina mandada construir especialmente para esse fim, na qual uma lâmpada se acendia em um entre cinco dispositivos. Havia também cinco botões, sendo que qualquer um deles podia por o aparelho em funcionamento. Um misturador automático fazia com que nenhum cálculo pudesse permitir saber para onde seria desviada a corrente elétrica, de sorte que se o percipiente apresentasse um número de acertos superior ao previsto matematicamente pelo acaso, era indício da paranormalidade que o levara a acertar. Um dos "sujets", Miss Johnson, ultrapassou o acaso na proporção de 100.000.000.000.
Com Croiset, o Dr. Tenhaeff realizou experiências notáveis, de que falaremos no próximo número.
março/1980





Parte X
Santa Liduína
Havíamos visto que Liduína apresentou por várias vezes fenômenos de premonição, que foram considerados como milagres. Entretanto, esta faculdade tem sido encontrada em muitas pessoas, e nos mais diversos graus. Croiset, por exemplo, era um sujet que havia demonstrado possuir uma alta sensibilidade para predição de coisas futuras. Com ele o Dr. Tenhaeff realizou o seguinte experimento:
Tratava-se de acertar, com três dias de antecedência, qual pessoa se sentaria numa, dentre trinta cadeiras de uma determinada sala de espetáculos públicos. Sorteou-se o número dezoito. Croiset responde que em relação àquela cadeira não recebia impressão alguma. Sorteou-se outra e o sensitivo, então declara que aquele assento seria ocupado por uma mulher que teria o rosto marcado em conseqüência de um acidente.
Na noite da reunião, seu prognóstico confirmou-se integralmente. Com relação à cadeira dezoito, sobre a qual Croiset nada sentira, foi a única, em toda a sala, a permanecer desocupada aquela noite.
Croiset chegou a prestar inestimáveis serviços à polícia, em virtude de seus dotes mediúnicos ou paranormais, se o preferirem. Edsall (O Mundo dos Fenômenos Psíquicos) nos brinda com este caso, particularmente curioso:
Em dezembro de 1946, em Wierden, uma jovem foi brutalmente agredida a marteladas por alguém que ela não chegou a ver. O agressor conseguiu fugir, deixando como pista apenas o martelo. Sendo baldos os esforços da polícia para identificar o assaltante, o prefeito de Wierden, conhecendo a fama de Croiset, pediu seu concurso. O médium apanhou o martelo, segurou-o por momentos e declarou, ao estilo de Sherlock Holmes:
- "O criminoso é um homem de quase trinta anos. É alto, escuro e tem uma orelha um tanto deformada. Usa um anel com uma pedra azul. Este martelo não lhe pertence. Seu dono é um homem de cinqüenta e cinco anos, que vive numa das três casas que são vizinhas umas das outras. São todas chalés com telheiros baixos".
Baseada nessas informações, a polícia não tardou a por as mãos no agressor, que acabou por confessar o crime.
As sociedades de pesquisas psíquicas andam com seus arquivos repletos de fatos dessa ordem. A premonição em casos de acidentes é bastante freqüente. A Society for Psychical Research de Londres, tem arquivada, entre muitas outras, a previsão do Sr. O’Connor sobre o naufrágio do Titanic, mediante a qual ele pôde se salvar, cancelando a tempo sua reserva de passagem.
Liduína foi canonizada, entre outras coisas, pelas suas faculdades precognitivas. Já vimos que a capacidade paranormal de antevisão nada tem de miraculosa. Ninguém pensaria em colocar os sensitivos com que Rhine fazia suas experiências de parapsicologia ao lado dos santos da Igreja. Ninguém pensaria, tampouco, em mandar queimar em praça pública o Sr. O’Connor por ter pressentido a tragédia marítima do famoso navio. Triste destino, contudo teriam essas pessoas se vivêssemos ainda no tempo da "Santa" Inquisição. Mas se O’Connor, entretanto, vivesse em ambiente monástico, certamente seus pressentimentos seriam tidos à conta de avisos que Deus, não se sabe por qual deferência, lhe teria enviado.
A precognição, bem como as demais faculdades paranormais, muito embora estejam demonstradas à farta, terão sua causa íntima, seu mecanismo, sua gênese, envoltas em trevas para a Ciência até que o homem se curve à realidade do Espírito imortal. Atribuir um fenômeno dessa natureza a alguma espécie de "talento" do inconsciente, é dar a algo que não se conhece uma origem que se conhece menos. E muitos "parapsicólogos" assim procedem, como se o simples fato de se batizar um fenômeno fosse o bastante para lhe explicar a origem, o mecanismo, o fim e a causa.
Kardec, porém, perguntara aos Espíritos qual a causa primária da inspiração, e obteve a seguinte resposta:
- "O Espírito que se comunica pelo pensamento".
É que, transpondo a barreira do tempo, o Espírito pode ter como presente aquilo que para o homem, preso ainda às limitações da veste física, é futuro.
Vejamos, entretanto, para terminar, o que pode ter ocorrido com a sensibilidade mediúnica de Liduína que, conforme foi dito, não mais lhe permitia as ocorrências fenomênicas que a celebrizaram, levando o eremita do Sinai a lamentar o fato de que com a santa já não mais se comunicava na "luz incriada".
Sobre a perda da mediunidade, diz Kardec (O Livro dos Médiuns) que ela está sujeita à intermitências e a suspensões momentâneas, muitas vezes porque os Espíritos não podem ou não querem mais servir-se daquele médium. Quase sempre, quando o sensitivo se vale de sua mediunidade para coisas frívolas, quando faz mau uso dos dotes mediúnicos que possua, quando já não mais corresponde aos fins que a Espiritualidade espera, os Espíritos bons se afastam dando lugar aos menos sérios. Porém ocorre igualmente que os Espíritos ao se afastarem temporariamente, privem o médium de suas aptidões, para que isto lhe sirva de lição e aprenda que a faculdade não depende dele, razão pela qual não deve envaidecer-se. Outras vezes a mediunidade desaparece para que o médium seja forçado a um repouso ou ainda para que lhe sejam testadas a paciência e a perseverança, ou para que o médium tenha tempo de meditar sobre as instruções que lhe foram dadas. Ensinaram os Espíritos ao Codificador que se pode distinguir a perda da mediunidade por efeito da censura, quando o médium interroga a sua consciência e pergunta que uso fez de seus dotes mediúnicos, que bem resultou daí para os outros e que proveito tirou dos conselhos que lhe foram dados.
Possivelmente o inconformismo de Liduína ante à morte de seu irmão tivesse concorrido para a suspensão de suas faculdades, como bem antevira o bispo da Inglaterra. Ela, que "podia ver o destino de muitas almas", entrava agora em desespero, porque a morte lhe arrebatara alguém que muito amava, e seu desconsolo deve ter levado seus protetores espirituais a se afastarem, até que maior serenidade e confiança em Deus permitissem a Liduína prosseguir gozando as graças da presença de seu tão querido Anjo da Guarda.
As forças físicas, porém, se lhe exauriram antes que recobrasse os dotes mediúnicos, consolo único que pôde ter em toda a sua vida.
abril/1980.

Parte XI


Santo Antônio de Pádua
(Obra consultada: História de Santo Antônio de Pádua, do Revmo. Pe. At. Imprimatur, de Monsenhor Castro, Vigário Geral).
Este, um dos maiores taumaturgos da Igreja. Incorporado às tradições populares do Brasil e de Portugal, é dos mais simpáticos à alma do povo e depositário da esperança de quantos se desesperam de casar.
Nasceu em 1195, em Lisboa, recebendo o nome de Fernando de Bulhões. Aos quinze anos entrou para o convento dos Cônegos de Santo Agostinho, transferindo-se depois para o Mosteiro de Coimbra, onde esperava se ver livre do assédio de parentes, a fim de poder mais se dedicar às orações e ao estudo da Teologia. Em 1220, após contemplar os cadáveres de cinco missionários franciscanos, mortos em Marrocos, mudou-se para o Convento dos Franciscanos, adotando o nome de Antônio.
Famoso por seus dotes oratórios, por seu intermédio muitos fenômenos mediúnicos tiveram lugar, o que fez com que São Boaventura escrevesse: - "Se procurais milagres, ide a Antônio". Vejamos alguns.
Na Abadia de Solignac, diocese de Limoges, havia um monge "atormentado pelas tentações da carne". De nada lhe valiam os jejuns, as orações, vigílias e macerações. O pobre religioso procurou, então, a Antônio, cuja fama já era grande, e pediu ajuda. Tirando a túnica que usava, o taumaturgo manda que o monge com ela se vista. Vejamos o que diz textualmente a obra que consultamos:
"Apenas o religioso fez o que Antônio ordenara, uma virtude poderosa comunicou-se das dobras da pobre túnica. Era como uma emanação da castidade de alma e de corpo daquele a quem ela pertencia. O efeito não se fez esperar. A tempestade dos sentidos aplacou-se logo no religioso, que não sentiu mais agitações de tal ordem".
Consideremos o que terá havido aqui.
Embora sem perder de vista a possibilidade de que tudo não tenha passado de uma auto-sugestão sofrida pelo monge, ao vestir o manto de quem tinha em alta conta, o fenômeno tem muita característica daqueles em que há transmissão de energias fluídicas. No Ato dos Apóstolos encontramos fato semelhante:
Deus fazia milagres extraordinários por intermédio de Paulo, de modo que lenços e outros panos que tinham tocado seu corpo eram levados aos enfermos; e afastavam-se deles as doenças e retiravam-se os espíritos malignos. (At.19,11 e12).
Na obra de Roque Jacintho Passe e Passista, lemos:
"As peças do vestuário, assim como os objetos de uso pessoal, são condutores de fluidos. Justapostos ao corpo, transmitir-lhe-ão os recursos de cura ou de melhora de suas enfermidades orgânicas ou psíquicas, influindo inclusive nos acompanhantes desencarnados em estado de infeliz desequilíbrio".
É o que parece ter havido no caso que narramos. O monge deveria ter seus instintos açulados por um desequilíbrio emocional de que se valiam entidades obsessoras. Note-se a maneira como o religioso procurava se libertar de seus tormentos: vigília, jejum, macerações. Que mais seria preciso para um depauperamento físico e psíquico? A capa de Antônio, impregnada que estava de seus fluidos, teria bastado para restabelecer o equilíbrio psico-físico, e afastar as entidades perturbadoras, dando ao monge a calma que almejava.
Dos milagres de Antônio de Pádua, o mais famoso porém, talvez seja o da bilocação, mediante o qual, estando a orar na Espanha, apareceu em Pádua, a tempo de interceder em favor de seu pai, que ia ser enforcado injustamente. Esse tipo de fenômeno, bastante comum, tem constituído motivo para muitas e muitas páginas escritas por pesquisadores de todas as partes do mundo. Durville ao fazer experiências com duas pacientes magnetizadas, Minette e Marta, notava que delas se desprendia como que um vapor que se adensava e assumia a forma física das pacientes adormecidas, afastando-se de seus corpos.
O caso de Émile Sagée é famoso. Narrado por Aksakof (Animismo e Espiritismo) foi alvo de comentário de muitos outros autores. Em 1945 lecionava ela em Riga, no Colégio Neuwelcke. Por seus dotes era muito estimada, mas as alunas do colégio viviam assustadas, pois costumavam ver a professora em lugares diferentes e ao mesmo tempo. De uma feita, 42 alunas viram que enquanto o corpo físico de Émile estava sentado em uma cadeira, imóvel, no jardim seu duplo fluídico passeava a brincar com as flores. No momento em que uma das alunas, vencendo o espanto, tocou o corpo de Sagée, na cadeira, instantaneamente sua imagem desapareceu no jardim, como uma bolha de sabão que rebentasse.
Como os pais de muitas alunas começassem a retirar suas filhas do colégio, onde as moças viviam apavoradas, Émile teve de ser despedida. Era a 19ª vez que isto se dava, pelo mesmo motivo.
Voltemos ao nosso biografado.
Finalmente, depois de uma vida de sacrifícios e de abnegação, o grande médium está à morte. Longe dali, o abade de Vercelli orava em seu quarto, quando Antônio entrou, saudou-o e disse:
- "Sr. abade, comunico-lhe que deixei o meu asno (o corpo) em Pádua; parto pressuroso para a minha pátria".
E desapareceu.
O abade tomou nota do dia e hora do acontecido, constatando posteriormente ter havido coincidência entre a aparição e a morte de Antônio.
Não se pode deixar de encomiar ao abade de Vercelli pela sua lembrança de anotar o momento em que o fenômeno se deu. Em 1231 já existiam pessoas com pendores para as pesquisas psíquicas...
Quanto ao fenômeno em si, por certo nenhuma estranheza há de causar ao leitor que bondosamente nos acompanha, pois que as manifestações desse gênero, no momento da morte, são tão freqüentes que cremos ser rara a família que não tenha fato análogo em sua história. De incidentes dessa ordem estão repletos os livros espíritas e os de pesquisas paranormais. Flammarion dedicou todo o segundo volume de A Morte e o Seu Mistério a tais fatos. Nihil novum sub solem... Mas Antônio não só apareceu de forma inequívoca, como também falou. Será isto muito extraordinário?
Embora menos comum que a simples aparição no momento da morte, o fato do fantasma falar não é, contudo, inédito. Vejamos o caso seguinte, que Flammarion retira de Coisas Vistas, de Victor Hugo:
A Sra. Guérin, de 66 anos estava enferma. Às cinco horas da manhã, como sua filha se dispusesse a ir visitar a Sra. Lanne, antiga tendeira que àquela hora deveria estar de volta do campo, a Sra. Guérin diz à filha:
- "É inútil. A Sra. Lanne morreu. Às quatro horas da manhã, estando bem acordada, vi a Sra. Lanne passar e dizer: - Vou partir. Vindes também?"
Constatou-se depois que a velha tendeira havia, de fato, desencarnado naquele horário.
É ainda Flammarion que nos brinda com este outro caso, que lhe foi narrado por carta:
Um tenente de São Luiz do Senegal havia se deitado lá pelas onze horas. Acordou, depois, sentindo forte pressão no peito e, bruscamente sacudido, sentou-se na cama, tendo à frente a sua avó que lhe diz:
- "Venho dizer-te adeus, meu querido menino; nunca mais tornarás a ver-me".
O horário da aparição coincidiu com o da morte da anciã.
Ao abade de Vercelli, o Espírito de Antônio diz que parte pressuroso para sua pátria, e este fato foi tido como milagroso. Esta aparição a Igreja reconhece como verdadeira. Mas vá alguém falar de uma avó que venha dizer adeus ao neto querido, antes de partir, ela também, para a sua pátria...
Aí ficou, num exame "à vol d’oiseau", a biografia de alguns vultos notáveis dentre as muitas centenas que ilustram o vasto acervo hagiológico, e os principais feitos mediúnicos que os celebrizaram. Em rápidas pinceladas pôde-se comparar os fatos ditos milagrosos e a fenomenologia espírita, de montante não menos rica. Qualquer dos fenômenos analisados poderia, sem dúvida, receber maior aprofundamento, mas a literatura especializada é facilmente disponível e nela o leitor interessado encontrará melhor exposição que aquela que poderíamos fazer.
Do enorme volume hagiológico, apenas tratamos de uns poucos santos, dentre os mais conhecidos, mas em todos a tônica é a mesma: intuições, premonição, visões, levitação, curas, aparições, etc.
Um fato é notório, e ele sintetiza todo o objetivo destas nossas linhas. Se qualquer dos médiuns cuja memória o Espiritismo guarda em seus anais, vivesse em ambiente monástico, se andassem eles a braços com a Igreja que tão asperamente os repudia, então sua visões, suas mensagens, suas produções mediúnicas, enfim, seriam tidas na conta de milagres. As almas que por eles se manifestassem, o teriam feito "por permissão de Deus" e seriam almas de santos ou seriam anjos. Os Espíritos endurecidos doutrinados ou afastados, seriam "demônios" e as mensagens que esses médiuns recebessem seriam "revelações divinas", ciosamente guardadas na sombra dos monastérios. E sem dúvida tais médiuns, após a formalização dos processos canônicos, seriam beatificados e depois canonizados, podendo então interceder por nós junto a Deus. Essencialmente, seriam de natureza tão espiritual quanto qualquer outro que deste planeta de ilusões e preconceitos tenha partido, e biologicamente estariam tão mortos quanto os antepassados que os leitores, como nós, relembramos saudosos. Mas aqueles outros teriam direito a falar, aparecer, intuir-nos, materializarem-se, dar-nos proteção e nos acolher quando a nossa hora também fosse chegada. Porque, para isso, julgamentos humanos haviam dado a devida concessão, através de um ato litúrgico e de um título conferido. E com toda a certeza teríamos para logo o santo brasileiro, que tantas pessoas desejam. Provavelmente viria ele dos cafundós das Minas Gerais que, esgotados os filões auríferos que lhes deram o nome, teriam produzido um ouro espiritual, muito mais precioso, porque os ladrões não roubam e nem o tempo esfarela.
Como, porém, a ideologia filosófico-religiosa é outra, temos de permanecer anatematizados, excomungados, e olhados com suspeita. Livre-nos Deus de voltarem a arder as fogueiras da Inquisição, também chamada santa, pois que aí seríamos, nós por termos escrito, e os leitores por haverem lido, devidamente churrasqueados em praça pública, tudo em nome da fé, da moral e dos costumes.

FINAL
maio/1980


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