"Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros." (João 13:35) "Onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, lá estarei no meio deles." (Mateus 18:20)

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terça-feira, 15 de março de 2011

Kardec renegou o Espiritismo?

http://www.apologiaespirita.org/apologia/artigos/025_Kardec_suicidou-se,_renegou_a_reencarnacao_e_arrependeu-se_do_Espiritismo.pdf
Acreditamos que a origem da afirmação, de que Kardec teria renegado o Espiritismo,
tenha vindo dessa fala do Sr. Quevedo:

… RENEGADA PELO PRÓPRIO KARDEC
Há uns episódios na autobiografia de Home, enormemente embaraçantes
para os espíritas
:
No mesmo dia da morte de Allan Kardec, na mesma hora, no mesmo
minuto, o médium Home recebeu uma mensagem do espírito de Kardec:
"Arrependo-me de ter ensinado a Doutrina Espírita". A mensagem foi
recebida na presença do Conde Dunraven. (30)
Mais ainda. Home transcreve uma mensagem psicografada pelo médium
Morin, considerado por Kardec "um dos seus melhores médiuns".
Na mensagem o espírito de Allan Kardec também se mostra
"arrependido da doutrina que difundi em vida", repudia esses
ensinamentos e confessa seu "orgulho insensato" por haver ansejado (sic)
passar por "um semideus, salvador da humanidade", quando na realidade
tudo não passava de "egoísmo ridículo".
§§ (Do ponto de vista parapsicológico, não trata-se de mensagens do
além. E no caso de Home, sendo "no mesmo dia e momento da morte"
de Kardec, isto é, no início da morte aparente, evidentemente não podia
se tratar de comunicação de morto, de espírito do além).
§§ Para os espíritas é que a situação é embaraçante. Mensagens recebidas
por Home e por Morin. Nada menos! Ou será que os espíritas vão pôr em
dúvida a mediunidade ou considerar "médiuns não genuínos"
a Home, o
maior dos médiuns, "o príncipe dos apóstolos", e a Morin, um dos médiuns
preferidos do próprio A. Kardec? Ou será que não consideram o de Allan Kardec
um Espírito Superior?
Tanto no caso de Home como no de Morin, poderia ser captação do
arrependimento de Kardec ou dos seus últimos assaltos de dúvidas e angústias
de consciência, no momento da verdade, sabendo-se às portas do Tribunal de
Deus.
(Não há, porém, certeza. Os dois episódios poderiam ser também
simples adivinhações da morte de Kardec e projeção da dramatização
pelo inconsciente de Home e de Morin, do seu próprio repúdio do
Espiritismo. Aí está, em todo caso, a rejeição do Espiritismo por ambos
os grandes médiuns).
*** Como sempre, com a mesma falta de lógica com que pretenderam safarse
das retratações das irmãs Fox e do próprio Home perante o Dr. Philips Davis
etc, também aqui os espíritas caluniam Daniel D. Rome de imperícia e mesmo
de mentiroso. O mestre brasileiro Hermínio C. Miranda, por exemplo,
simplesmente dá por supostos ambos os grandes defeitos. Sem perceber,
projeta sobre Home a alienada paixão típica dos espíritas: "Como as nossas
paixões são artificiosas e como descobrimos mil modos e meios para satisfazêlas!
( ... ) O próprio Home, que em exemplos pelo seu livro a fora, recomenda
que se acautele o médium com o exame cuidadoso do que dizem os espíritos
( ... ), quando chega, porém, o momento de manifestar um ponto de vista que
lhe é próprio, qualquer mensagem é considerada autêntica". Isso a respeito da
mensagem escrita pelo próprio Home. E a respeito da psicografia de Morin: "A
evidente falsidade da mensagem e sua total discordância com o verdadeiro
espírito de Kardec, não impressionam ao médium Home, que não põe em dúvida
a sua autenticidade". (31).
§ § O que pretende dizer o mestre espírita com os termos "autêntica" e
"autenticidade"?
*** Que não foi mensagem do espírito do morto?
§§ Evidente. Nunca.
*** Que o conteúdo não corresponde ao pensamento de Kardec, moribundo
ou durante a morte aparente?
§§ Não tem nenhum argumento para tal negação, e seria negar a capacidade
de adivinhação (de comunicação entre espíritos! de vivos!) e a perícia no
discernimento de espíritos nada menos que de Home e de Morin.
*** Que foi tudo inventado por Home?
§§ Além de acusação muito grave, doentia na realidade, manifesta a típica
falta de lógica espírita: o livro de Home saiu e foi divulgadíssimo sete anos
somente após a morte de Kardec, quando vivia a testemunha Conde Dunraven,
o próprio Morin, e centenas de parentes e conhecidos. Se fosse mentira de
Home, haveria sido logo denunciada.
Os fatos, portanto, como fatos são absolutamente históricos.
Aí fica a força deletéria contra o Espiritismo em qualquer das interpretações
possíveis; negar o fato é que não é lícito.
______
(30) HOME, op. cit., (francês) p. 114.
(31) MIRANDA, Hermínio C.: Sobrevivência e Comunicabilidade dos Espíritos, Rio de
Janeiro, FEB, 1975, p. 257.
(QUEVEDO, 1993, p. 185-187) (grifo nosso).

Episódios embaraçantes para os espíritas??? Somente por delírio do nosso antagonista nº 1, Quevedo. Aliás, já vimos que ele não se preocupa em pesquisar e por isso acaba espalhando mentiras, fato lamentável levando-se em conta a causa que diz defender: o catolicismo. Certamente não irá gostar, mas temos informações que irão fazer com que prove do seu próprio veneno, uma vez que quem ficará completamente embaraçado é ele mesmo. Transcrevemos da Revista Espírita, o seguinte trecho publicado no Le Journal de Paris no dia 03 de abril de 1869; portanto, no quarto dia após o desencarne de Kardec:
Resignados pela fé numa vida melhor e pela convicção da imortalidade da
alma, numerosos discípulos tinham vindo dar um último olhar àqueles lábios
descoloridos que, ontem ainda, lhes falava a linguagem da Terra. Mas tinham
já a consolação de além-túmulo; o Espírito de Allan Kardec tinha vindo
lhes dizer como tinha sido o seu desprendimento, quais as suas
impressões primeiras
, quais de seus predecessores na morte tinham vindo
ajudar sua alma a se libertar da matéria. Se “o estilo é o homem”, aqueles que
conheceram Allan Kardec vivo, não podem senão estar emocionados pela
autenticidade desta comunicação espírita. (KARDEC, 2001a, p. 147) (grifo
nosso).

Não nos parece que Kardec, recém-desencarnado, tenha renegado alguma coisa. Ainda nessa mesma revista, um pouco mais à frente lemos:

DISSERTAÇÕES ESPÍRITAS
A abundância das matérias não nos permitindo publicar atualmente todas as
instruções ditadas por ocasião dos funerais do Sr. Allan Kardec, nem mesmo
todas aquelas que ele mesmo deu, reunimos, numa só e mesma
comunicação, os ensinamentos de um interesse geral, obtidos por
intermédio de diferentes médiuns.
(Sociedade de Paris, abril de 1869.)
Como vos agradecer, senhores, pelos vossos bons sentimentos e das
verdades eloquentes expressadas sobre meu despojo mortal; disto não duvideis,
eu estava presente e profundamente feliz, tocado pela comunhão de
pensamentos que nos unia pelo coração e pelo espírito.
Obrigado, meu jovem amigo (Sr. C. Flammarion), obrigado por vos haverdes
afirmado como o fizestes; vós vos exprimistes com calor; assumistes uma
responsabilidade grave, séria, e esse ato de independência vos será duplamente
contado; não tereis nada perdido em dizer o que as vossas convicções e a
ciência vos impõem.
Em agindo assim, podeis ser discutido, mas sereis honrado a justo título.
Obrigado a vós todos, caros colegas, meus amigos; obrigado ao jornal Paris,
que começa um ato de justiça, pelo artigo de um bravo e digno coração.
Obrigado, caro vice-presidente; Srs. Delanne e E. Muller, recebei a expressão
de meus sentimentos de viva gratidão, vós todos que apertastes afetuosamente,
hoje, a mão de minha corajosa companheira.
Como homem, estou muito feliz pelas boas lembranças e pelos testemunhos
de simpatia que me prodigalizais; como espírita, eu vos felicito pelas
determinações que tomastes para assegurar o futuro da Doutrina; porque, se o
Espiritismo não é minha obra, pelo menos, eu lhe dei tudo o que as forças
humanas me permitiram lhe dar. É como colaborador enérgico e convicto, como
combatente de todos os instantes, da grande Doutrina deste século que eu a
amo, e ficaria infeliz se a visse perecer, se tal coisa fosse possível.
Ouvi, com um sentimento de profunda satisfação, meu amigo, vosso novo e
digno presidente vos dizer: "Ajamos de acordo; vamos despertar os que há
muito tempo não raciocinam mais; vamos reavivar os que raciocinam! Que não
seja Paris, que não seja a França que sejam o teatro de vossa ação; vamos por
toda a parte! Vamos dar à Humanidade inteira a mão que lhes faz falta; vamos
dar o exemplo da tolerância que ela esquece, da caridade que ela conhece tão
pouco!"
Agistes para assegurar a vitalidade da Sociedade; está bem. Tendes o desejo
sincero de caminhar com firmeza no sulco traçado, está ainda bem; mas não
basta querer hoje, amanhã, depois de amanhã; para ser digno da Doutrina é
preciso querer sempre! A vontade, que age por impulsos, não é mais vontade; é
o capricho do bem; mas, quando a vontade se exerce com a calma que nada
perturba, com a perseverança que nada detém, ela é a verdadeira vontade,
inabalável em sua ação, frutífera em seus resultados.
Sede confiantes em vossas forças; elas produzirão grandes efeitos se as
empregardes com prudência; sede confiantes na força da ideia que vos reúne,
porque ela é indestrutível. Pode-se ativá-la ou retardar-lhe o desenvolvimento,
mas detê-la é impossível.
Na fase nova em que entramos, a energia deve substituir a apatia; a calma
deve substituir o ímpeto. Sede tolerantes uns para com os outros; agi sobretudo
pela caridade, pelo amor, pela afeição. Oh! se conhecesses todo o poder desta
alavanca! Foi dela que Arquimedes pôde dizer, que com ela ergueria o mundo!
Vós o erguereis, meus amigos, e essa transformação esplêndida, que se
efetuará por vós em proveito de todos, marcará um dos mais maravilhosos
períodos da história da Humanidade.
Coragem, pois, e esperança. A esperança!... Esse facho, que os vossos
irmãos infelizes não podem perceber através das trevas do orgulho, da
ignorância e do materialismo, não os afasteis ainda mais de seus olhos. Amaios;
fazei com que vos amem, que vos escutem, que vos olhem! Quando eles
tiverem visto, ficarão deslumbrados.
Quanto serei feliz então, meus amigos, meus irmãos, ao ver que
meus esforços não terão sido inúteis, e que o próprio Deus terá
abençoado a nossa obra!
Naquele dia, haverá no céu uma grande alegria,
uma grande ebriedade! A Humanidade será libertada do jugo terrível das
paixões, que aprisionam e pesam sobre ela com um peso esmagador. Não
haverá mais, então, sobre a Terra, nem mal, nem sofrimento, nem dor; porque,
os verdadeiros males, os sofrimentos reais, as dores cruciais vêm da alma. O
resto não é senão o roçar fugitivo de uma sarça sobre uma veste!...
Ao clarão da liberdade e da caridade humanas, lodosos homens se
reconhecendo, dirão: "Nós somos irmãos" e não terão mais no coração senão
um mesmo amor, na boca, senão uma só palavra, nos lábios, senão um único
murmúrio: Deus!
ALLAN KARDEC.
(KARDEC, 2001a, p. 157-159) (grifo nosso).
E apenas para reforçar a estultice dita por Home e espalhada por Quevedo, trazemos o testemunho de Léon Denis, que se tornou o sucessor de Kardec na divulgação do Espiritismo. Em sua obra O gênio céltico e o mundo invisível, Denis confessa:
Com efeito, é pelo estímulo do Espírito de Allan Kardec que realizei
este trabalho
, em que se encontrará uma série de mensagens que ele nos
ditou, por incorporação, em condições que excluem toda fraude”. (DENIS,
2001, p. 28) (grifo nosso).
Então, ao se aproximar o Congresso de 1925, foi o grande Iniciador, ele
mesmo, que veio nos certificar de seu concurso e nos esclarecer com seus
conselhos. Atualmente ainda é ele, Allan Kardec, quem nos anima a
publicar este estudo sobre o gênio céltico
e a reencarnação, como se
poderá verificar pelas mensagens publicadas mais adiante. (DENIS, 2001, p.
259). (grifo nosso).
À página 168, dessa mesma obra, citando uma mensagem de Allan Kardec, datada de
25 de novembro de 1925, quando trata das mensagens do invisíveis, Denis diz:

Publicamos aqui a série de mensagens ditadas, por meio da incorporação mediúnica, pelos grandes e generosos espíritos que quiseram colaborar com a
nossa obra. A autenticidade desses documentos reside não somente
neles mesmos, pelo fato de ultrapassarem, em muitos pontos, o alcance
das inteligências humanas, mas, também, nas provas de identidade que
a eles se ligam.
Assim é que no curso de nossas conversas com o Espírito
Allan Kardec,
este entrou em certos detalhes preciosos sobre sua sucessão e
as discussões que surgiram, sobre este assunto, entre duas famílias espíritas,
com particularidades que o médium não podia, absolutamente, conhecer, pois
era somente uma simples criança, filha de pais que ignoravam completamente o
Espiritismo. Esses detalhes se apagaram da minha memória e não pude
reconstituí-los senão após pesquisas e investigação.
[...]
[...] Além disso, Allan Kardec não se comunica unicamente em Tours,
mas também em muitos outros grupos espíritas da França e da Bélgica.
Em todos esses lugares, ele se afirma pela autoridade de sua palavra e a
prudência de suas observações. (DENIS, p. 277-279) (grifo nosso).
Na sequência, Léon Denis transcreve treze mensagens de Allan Kardec datadas de: 15 de janeiro de 1926 (p. 281-284), 12 de junho de 1926 (p. 285-288), 2 de março de 1926 (p.288-291), 23 de abril de 1926 (p. 291-293), 22 de maio de 1926 (p. 293-296), 4 de junho de 1926 (p. 297-298), 25 de junho de 1926 (p. 301-305), 9 de julho de 1926 (p. 305-310), 25 de julho de 1926 (p. 310-311), 20 de agosto de 1926 (p. 312-315), 3 de setembro de 1926 (p.315-321), 15 de outubro de 1926 (p. 322-328) e 29 de outubro de 1926 (p. 328-332).
Eduardo Carvalho Monteiro, em Allan Kardec (o druida reencarnado), narra, do resultado de suas pesquisas, o seguinte:

Na obra O Gênio Céltico e o Mundo invisível do mestre Léon Denis, só há pouco tempo disponível ao público brasileiro, o autor reproduziu uma série de mensagens do Espírito de Allan Kardec que, em verdade, escreveu a parte final de O Gênio Céltico. Madame Baumard, esta que o acompanhou nos últimos anos de vida como sua secretária, assim descreveu o processo
criativo do grande escritor: “Durante os anos de 1926-1927, Denis manteve constantes contatos com o invisível. O interesse de Allan Kardec para com a obra em elaboração era “intenso”: apresentava-se a cada quinze dias e se encarregou, por ditado mediúnico, da parte final do livro” (MONTEIRO,1996, p. 74). (grifo nosso).

Confirma-se, portanto, o que acabamos de colocar.

O biógrafo André Moreil, em Vida e Obra de Allan Kardec, afirma:

Na segunda-feira da Páscoa de 1910, no centro “Esperança” de Lião, por
intermédio da Srta. Bernadette em estado de sonambulismo, Allan Kardec
manifestou-se
para agradecer ao que fora até então o seu único biógrafo, o
espírita Henri Sausse. (MOREIL, 1986, p. 174) (grifo nosso).

Garcia é outro que também nos informa sobre as manifestações de Kardec:

Os registros de comunicações dadas por Kardec já na condição de
Espírito fora do corpo físico não ficam apenas no período imediatamente
posterior à sua desencarnação
. Avançamos no tempo e uma dessas
mensagens merece destaque, apesar de ser bem conhecida dos estudiosos. Foi
dirigida ao extraordinário filósofo Léon Denis no ano de 1925 (mais uma vez,
anote o leitor a data), contendo um veemente apelo de Kardec para que
comparecesse ao congresso espiritualista daquele ano, em virtude da
importância do evento para o Espiritismo. [...] (GARGIA, 1999, p. 143). (grifo
nosso).

O que nos causa espécie em relação ao Sr. Quevedo é o que afirma: “evidentemente não podia se tratar de comunicação de morto, de espírito do além”. Ora, se ele faz essa afirmação, como utiliza uma outra mensagem de Kardec para contrariar o que é dito nas outras? Há contradição maior?!
Não precisamos colocar em dúvida a mediunidade de Home e do Sr. Morin como sugere o prelado; porém, como estudioso das obras de Kardec, podemos afirmar que não somos tão tolos assim para acreditar nelas, pouco importando a sua origem, porquanto, elas contrastam com o caráter e o pensamento de Kardec quando vivo e com as mensagens autenticas por ele
transmitidas após o seu desencarne. Assim, estamos, seguramente, diante de uma mistificação que somente os néscios caem por inocentes que são.
Meu Deus!!! Se o próprio Quevedo coloca sob suspeita essas comunicações, considerando-as como podendo ser originadas do inconsciente dos médiuns, então, por que motivo as apresenta como se fossem fala de Kardec? Haja incoerência!!!
Uma vez que cita o escritor Hermínio C. Miranda, vamos transcrever o que ele disse para que você, leitor, tome pé da situação e não se deixe enganar. Tecendo cometário sobre o  livro de Home Luzes e Sombras do Espiritualismo, a certa altura diz:

[…] Julga-se com direito a fazer essas críticas ao dizer: “Sou conhecido por
ser o que se convencionou de chamar um clarividente; tenho, assim, o direito de
falar com o conhecimento de causa quanto a essa fase particular da Psicologia”.
E volta a insistir na sua tese: Kardec não era médium, e sim um mero
magnetizador. "Sob o império de sua vontade enérgica, seus médiuns não
passavam de máquinas de escrever, que reproduziam servilmente seus próprios
pensamentos". E junta um testemunho pessoal, da seguinte maneira: "Atesto a
veracidade do seguinte fato. Antes mesmo que eu tivesse conhecimento da
morte de Allan Kardec, recebi dele, na presença do Conde de Dunraven, hoje
Visconde Adare, uma mensagem nos seguintes termos: "Lamento haver
ensinado a Doutrina Espírita. Allan Kardec".
Como as nossas paixões são artificiosas e como descobrimos mil modos e
meios para satisfazê-las... O próprio Home, em exemplos pelo seu livro a
fora, recomenda que se acautele o médium com o exame cuidadoso do
que dizem os Espíritos e tome suas precauções contra as falsas
identidades e fantasias. Quando chega, porém, o momento de
manifestar um ponto de vista que lhe é próprio, qualquer mensagem é
considerada autêntica.
Essa mensagem, no entanto, nem o Sr. Jean Vartier
(1), um século depois, conseguiu aceitar como autêntica. Não era mesmo para
desconfiar que logo em seguida à sua desencarnação, a primeíra coisa
que o Espírito Kardec se lembra de fazer é vir atestar junto a Home o
seu arrependimento por ter pregado o Espiritismo?
Mas isso ainda não é tudo. Home reproduz uma mensagem que teria
sido recebida por Morin
que, segundo ele, Kardec considerava "um dos seus
melhores médiuns". Nessa mensagem, Kardec, também arrependido, teria feito
sua "confissão póstuma", repudiando os ensinamentos que difundira "em vida" e
se acusando de "orgulho insensato" por ter desejado passar por um semideus
salvador da Humanidade quando tudo não foi além de um egoísmo ridículo que
somente conseguiu impressionar as classes mais humildes da população!
A evidente falsidade da mensagem e sua total díscordância com o
verdadeiro espírito de Kardec, não impressionam ao médium Home, que
não põe em dúvida sua autenticidade.
_____
(1) Vide o artigo "Allan Kardec e o Mistério de uma Fidelidade Secular", publicado em
"Reformador" de abril de 1973, pág. 101.
(MIRANDA, 1990, p. 256-257). (grifo nosso).
Assim, é perfeitamente cabível colocar sob suspeita as mensagens recebidas por Home e Morin, que, para nós, não são médiuns infalíveis, devendo-se criticar toda e qualquer mensagem recebida, recomendação que vale indistintamente para qualquer médium, se não quiser ser enganado pelos espíritos ou pelos próprios médiuns. Ademais, o fato de ter havido
“testemunha” do recebimento da mensagem não faz dela uma verdade; até mesmo porque, no máximo, o que se poderia atestar, é que o médium estava escrevendo; portanto, nada poderá ser afirmado sobre a sua origem, se é desse ou daquele espírito.
As informações que apresentamos sobre as manifestações do Espírito Kardec provam que essas comunicações recebidas por Home e Morin são totalmente destituídas de verdade. Quem mentiu?? Ou foram os médiuns ou os supostos “Allan Kardecs” que se manifestaram por eles, como disse o Espírito Erasto: “Somente lobos caem em armadilhas para lobos”.
Se esse tipo de procedimento fosse algo importante poderíamos, por nossa vez, levantar todos os católicos que se converteram ao Espiritismo ou, talvez, apresentar uma vasta lista de prelados que do além-túmulo reconheceram seu erro. Porém, esse tipo de argumento só serve a pessoas do tipo “maria vai com as outras”. Entretanto, iremos colocar apenas uma, visando demonstrar que não espalhamos boatos, mas trazemos provas produzidas por católicos, em publicação que tem todo o respaldo eclesiástico; portanto, longe de qualquer suspeita de fraude. Trata-se da obra O Espiritismo do convertido católico escritor alemão J. Godfrey Raupert, da qual transcrevemos:
Era eu hospede de Sua Eminencia o Cardeal Vaughan, fallecido Arcebispo
de Westminster
. Tinha acceitado o seu amavel convite, de fazer um retiro
durante algumas semanas em sua residencia, para preparar-me quanto a minha
conversão á Egreja Catholica. Dominava então na Inglaterra, em todas as rodas,
um interesse extremamente accentuado pelo espiritismo, cujos phenomenos se
tornaram conhecidos pelas publicações da sociedade psychica, e, em casa do
Arcebispo, á meza, pertencia á ordem do dia a conversa sobre o espiritismo.
Tinha eu que contar repetidamente as minhas proprias experiencias; e não
tinham fim as questões, que se me propunham. Fallou-me varias vezes o
Cardeal das suas preoccupações em vista desse interesse crescente, e pensava
nos meios e caminhos pelos quaes se pudesse combater melhor esse movimento
e esclarecer os curiosos. Observei, que um dos secretarios de Sua Eminencia,
que tratava dos seus negocios particulares e gosava de toda sua confiança,
estava por demais informado sobre o espiritismo e parecia conhecer
perfeitamente que as doutrinas deste davam logar a questões muito graves.
Pouco depois de minha conversão, pediu-me o Cardeal que fizesse aos
estudantes catholicos da Universidade e aos seminaristas, algumas palestras
sobre o espiritismo, narrando os factos que me eram conhecidos e chamando a
attenção sobre o erro da explicação popular e o perigo das experiencias.
Convidou ainda os sacerdotes da Archidiocese para uma conferencia em palacio,
presidida por elle mesmo, a qual, si me não engano, foi a ultima vez que elle
appareceu em publico.
Mais ou menos, dous annos depois, achava-me em uma sessão nocturna
em Londres, na qual uma dama edosa, deante de um grande Circulo de
ouvintes,
fazia comunicações espiritas, quando a mesma affirmou
achar-se presente um sacerdote catholico.
Como sabia eu que um decreto da Egreja prohibe aos catholicos tomarem
parte nessas experiencias, acreditei que a dama se referia a um sacerdote
anglicano da High Church Party; e temendo a má impressão sobre os ouvintes,
manifestei as minhas duvidas sobre a verdade dessa affirmação. A dama insistiu
no affirmado e, com espanto meu, foi commigo até um dos lados e deu-me o
nome do jovem Monsenhor. Era o secretario do Cardeal, com que estivera eu
em relações diarias. O fallecimento do Cardeal libertara esse sacerdote do
secretariado, e era então cura d'almas em outra zona da cidade. Uma tarde,
fiz-lhe uma visita e pedi-lhe que me communicasse as suas
experiencias.
Lamentou elle a loquacidade das mulheres, que lhe não perrnittia
guardar segredo, e manifestou o seu grande prazer em que lhe fosse dada
occasião de fallar sobre as suas experiencias com um experiente. E era fóra de
duvida que taes experiencias tinham feito sobre elle profunda impressão.
Contou-me, que não tinha podido resistir ao desejo de examinar elle mesmo os
phenomenos e que, em casa de um conhecido e bem conceituado militar,
encontrára uma occasião excepcionalmente feliz para satisfazer os seus desejos.
O que lhe havia acontecido, era o seguinte:
O medium, que servia na primeira sessão, um homem de meia edade;
submettera-se de boamente a todas as condições. O dono da casa, um general
de merecimento, havia aggravado essas condições para plena tranquillidade dos
circumstantes; estes, antes da sessão, não se conheciam. A sessão se realizava
em aposento fechado e em uma semi-obscuridade. O medium estava apenas em
parte encoberto por uma estreita cortina, e entrou facilmente em transe.
Com o maximo espanto do jovem sacerdote, surgiu detraz da cortina
uma figura perfeitamente materialisada, com a forma e os traços da
physionomia do fallecido Cardeal,
foi directarnente a elle e segredou-lhe
mais ou menos o seguinte: " - Tenho uma communicação importante a
fazer-lhe. O que ensinei durante a minha vida terrena, não é verdadeiro.
Reconheci isso, apenas entrei no mundo, em que agora vivo. Dizei a
todos, que me fallastes, e communicai-Ihes o que disse".
Depois destas palavras, desvaneceu-se o phantasma, appareceram outras
formas materialisadas que se entreteram com os presentes.
Como é facil comprehender, esse facto impressionou profundamente o jovem
Monsenhor, fazendo com que o mesmo tomasse parte em outras sessões, para
examinar melhor o caso e formar sobre o mesmo um juizo. Verificou, que tudo
gyrava em torno da questão de identidade, da prova de identificação,
reconhecendo, entretanto, as dífficuldades para isso. Após longas hesitações,
resolveu consultar um velho Prelado
, muito ligado a elle, grande conhecedor
da theologia, que fôra, por longos annos, o consultor do fallecido Cardeal, para
narrar-lhe o occorrido e pedir-lhe conselho. Este não duvidou um momento
de que fosse authentico o phenomeno, mas, evidentemente, era de
opinião que se tratava de
uma fraude, nada tendo o phantasma
apparecido com o Cardeal morto
. Verificou, porem, ser-lhe impossível
convencer disso o jovem ecclesiastico. E como se repetissem os phenomenos e
pudessem repetir-se ainda, formulou uma serie de perguntas que deviam
ser feitas ao phantasma e pelas quaes esperava obter a prova do
engano
.
Ignoro de que natureza eram taes perguntas; sei, porem, que foram
respondidas mais ou menos satisfactoriamente.
Já tinham sido empregados objectos da casa do Arcebispo com o fim de
desmascarar o pretenso Cardeal. Entre esses objectos figurava um solideo
vermelho do Cardeal, que se conservava na casa do morto.
O Monsenhor collocou no bolso interior do paletot esse ubjecto, sem mesmo
ter pensado no melhor uso a fazer do mesmo, para o fim em vista. Sobre isso
guardou segredo. O phantasma, contou-me elle, appareceu como de
costume, foi directamente a mim e disse-me: Ao que me parece, tens
ahi, no bolso, um objecto que me pertence
; desabotoou o paletot, retlrou
da algibeira o solideo, mostrando-o. Logo desrnaterialisou-se o phantasrna e o
solideo cahiu no tapete.
Para o joven sacerdote, tomou o caso um aspecto grave, e comprehende-se
que deveria tornar-se indispensavel a elle continuar as observacões.
Depois de deliberar sobre o caso, formulou elle uma pergunta relativa a um
assumpto que só era conhecido de tres pessoas – o fallecido Cardeal, o
Monsenhor em questão, e o Duque de Norfolk, então chefe dos catholicos leigos
na Inglaterra. Como não houvesse sido levado a effeito o plano forrnulado por
essas tres pessoas, ninguém tivera conhecimento disso. As perguntas
baseavam-se sobre as difficuldades que, na opinião das tres pessoas citadas,
desaconselhavam a realização do plano.
O phantasma, continuou o Monsenhor, respondeu as questões de um
modo que não deixava duvida que tratassemos com o proprio Cardeal.
E
com isso se deu o naufragio total da sua convicção catholica. Abandonou a
Egreja, retirando-se á vida privada, convencidamente espírita. Meus esforces no
sentido de fazel-o recuar, graças á minha expericencia na matéria, falharam
completamente. (RAUPERT, 1930, p. 80-83) (grifo nosso).
É bom tomar também de Cícero Valério o que ele fala a respeito do livro de Raupert em sua obra Fenômenos parapsicológicos e Espíritas, da qual transcrevemos essa narrativa:

O livro "O Espiritismo" editado em 1930 pela tipografia do "Lar Católico", de
Juiz de Fora, foi traduzido do alemão pelo Dr. Lúcio dos Santos, engenheiro de
Minas de Ouro Preto, grande católico, sendo mais tarde reitor da Universidade
de Minas Gerais.
A publicação desse livro foi autorizada pelo censor Eclesiástico P.
Alphonsus M. Wenger e por Antonius, Archiepiscopus Belo Horizontinus.
Recebeu o autor, além do mais, o endosso valioso de uma carta do
Cardeal Gasparri, em nome do Papa Pio X, tendo portanto o livro, para sua
divulgação, a autorização das mais altas autoridades da Igreja Católica. Foi
editado e depois traduzido, como arma de combate ao Espiritismo. Deixando
entrever, no entanto, grandes verdades a favor da doutrina espírita, talvez por
este fato deixou de ser reeditado. (VALÉRIO, s/d, p. 153-154). (grifo nosso).

Esperamos, com isso, ter demonstrado que mais do que colocar algo é citar uma fonte insuspeita, na qual ele poderá ser encontrado.
E para terminar nossos argumentos contra a fala do Sr. Quevedo, trazemos aqui dois de seus pensamentos, para demonstrar que de cientista ele nada tem, embora queira se passar por um:
[…] Mas nunca jamais ninguém na Igreja pretendeu nem pretenderá negar nem mesmo discutir uma vírgula clara e certamente constante da Revelação Bíblica ou daquela transmitida unanimemente pelos SS. Padres e Escritores Eclesiásticos desde os Primeiros Cristãos. […] (QUEVEDO, 1993, p. 193). (grifo
nosso).
  O conteúdo da Revelação Bíblica é sobrenatural, inobservável, e por isso incriticável. Como tal, a Revelação pode se incompreensível, mas se verifica que nunca é contraditória. […] (QUEVEDO, 1993, p. 236). (grifo nosso).

Assim, percebe-se que Quevedo é apenas um “seu vigário”, que acredita piamente na Revelação bíblica, como de origem divina, querendo travestir-se de cientista. A ele, sem dúvida, cabe como uma luva essa fala de Radot Vallery, que lemos alhures: “Com efeito no dia em que o sábio apoiar seus estudos em tal ou tal sistema religioso ou filosófico, ele abdica, por
isso mesmo, do seu título de sábio. Ele advogará uma causa, não mais buscará a verdade pela  verdade sem fito que não interrogar a Natureza”.
Usando de seu próprio pensamento de que “O cientista na observação não pode ser estúpido na conclusão”. (QUEVEDO, 1993, p. 337) e que se “O 'onus probandi' corresponderia aos espíritas. São os espíritas que deveriam provar inapelavelmente a comunicação dos mortos”. (QUEVEDO, 1993, p. 247), então vale para ele trazer as suas provas para tudo isso que afirma:
[…] Não há nem pode haver espíritos humanos sem corpo. [...[ Não pode existir alma humana sem seu corpo, que exige por natureza. A chamada ressurreição da carne é uma exigência que não pode ser frustrada. (QUEVEDO, 1993, p. 250).
[…] a alma não pode pensar nem conhecer sem o concurso cerebral, corporal. (QUEVEDO, 1993, p. 251).
[…] analogamente, à medida que o homem vai deixando o corpo material e ressuscitando num corpo espiritualizado, luminoso, as faculdades parapsicológicas podem manifestar-se mais e melhor até poderem manifestar-se plenamente todas as faculdades quando totalmente transformadas em homem luminoso.
Com corpo, limitante, e com corpo espiritualizado, libertador. Mas sempre homem inteiro. Corpo-alma, ação do conjunto. (QUEVEDO, 1993, p. 257)
Os espíritos humanos desencarnados (nem poderiam chamar-se humanos) não poderiam conhecer, sentir, amar, lembrar... Nada poderiam pensar. Nada poderiam fazer. Portanto, nem ativa nem passivamente poderiam comunicar conosco. Nem entre si. Total inatividade física e psíquica. Existência totalmente em vão. Impossível. Não existem espíritos desencarnados. (QUEVEDO, 1993, p.259).
Encontram-se mais pessoas incapazes de elevar-se sobre as imagens sensoriais para submergir-se na certeza racional da fé, por exemplo da presença espiritual de Deus ou na presença real de Cristo na Eucaristia; […] (QUEVEDO,1993, p. 261).
[…] a maioria dos planetas não tem atmosfera. (QUEVEDO, 1993, p. 266)
[…] Quem sobrevive é o homem inteiro, mas sendo a sobrevivência em corpo glorioso, as ações dos que morrem são em plano completamente diferente das ações dos vivos. (QUEVEDO, 1993, p. 273).
[…] O corpo dos que morreram, sendo transformado, “espiritualizado”, é útil, sem dúvida, para eles, para a comunicação entre eles. Mas com respeito a nós é como se não tivessem corpo. (QUEVEDO, 1993, p. 273).
Mas no conceito real, cristão, católico, de ressurreição do homem inteiro,alma espiritual com seu corpo espiritualizado, a comunicação dos mortos é só naturalmente impossível. […] (QUEVEDO, 1993, p. 277).
Saintyves e os racionalistas confundem, aliás, revitalização (= voltar à vida neste mundo) com a Ressurreição de Cristo (= transformação do cadáver em corpo glorioso para a vida no outro mundo, na eternidade). […] (QUEVEDO,1993, p. 285).
Na verdadeira Filosofia, porém, entre alguns grandes pensadores antigos e entre muitos dos modernos, como também no mais característico conceito bíblico, o espírito humano é inseparável do corpo, o homem é essa alma e, ao menos, parte deste corpo. Esta alma determinada não existe sem algum estado deste corpo determinado. Tal alma com tal corpo é tal ser humano. Tal espírito deixar todo seu corpo é impossível. Acabaria tal pessoa, que por contar com espírito, é indestrutível e imortal e exige seu corpo. Por isso a reencarnação – a  mesma alma com outro corpo – é impossível. E a ressurreição é uma exigência
essencial, que não pode ser frustada. Há ressurreição em outro estado. A mesma alma e o mesmo corpo “espiritualizado” (glorioso). À medida em que o homem vai morrendo, durante a morte aparente, vai ressuscitando em outro estado: o espírito vai deixando de animar um corpo corruptível ao mesmo tempo que vai formando um corpo incorruptível. O homem vai transformado para outro estado. […] (QUEVEDO, 1993, p. 304-305).
Esperamos que ele não fique totalmente embaraçado com nossa proposta. Por outro lado, consultando a mencionada obra de Daniel Dunglas Home (1833-1886),em sua versão inglesa intitulada Lights and Shadows of Spiritualism6, ainda deparamos com a seguinte fala dele sobre a “mensagem” de Kardec: “Eu não poderia, ao recebê-la, dar crédito a mensagem”7. (HOME, 1878, p. 224) (grifo nosso). Ora, isso muda completamente o sentido do que querem atribuir ao espírito Kardec, pois nem o próprio Home, que diz ter recebido uma mensagem dele, acreditou nela, mas os “espertos” de hoje aceitam que ele tenha acreditado. Além disso, podemos ainda argumentar que tal mensagem de “Kardec” está inserida em capítulo que trata das desilusões; portanto, não de coisas verdadeiras, mas de falsidades (desilusões) que, muitas vezes, andam por detrás das comunicações de espíritos ou de falsos médiuns, sobre cujo conteúdo não se fez uma análise crítica, aceitando-se cegamente, ora por falta de conhecimento do plano espiritual, ora por crença exagerada nos  espíritos.
Sobre a mensagem recebida pelo Sr. M. Morin, eis o que disse Home: O acréscimo mais notável dessa comunicação foi ditado através de M. Morin, que Allan Kardec em sua vida terrena considerava como um de seus melhores médiuns, e confiava grandemente. Para dizer o mínimo, é razoável, e ostenta a marca da verdade. (HOME, 1878, p. 224). (grifo nosso).
Engraçado que para ser um dos melhores médiuns de Kardec ele, Morin, até que não foi tão usado assim, pois, em 1868, último ano de atividade do Codificador, ele só recebeu quatro mensagens, uma em cada um dos seguintes meses: fevereiro, março, maio e novembro. Por outro lado, Kardec também não considerava nenhum dos médiuns, que utilizava para o contato com os espíritos, como infalível; todos eles eram passíveis de erros, fora a questão de poderem estar sobre graves obsessões de espíritos inferiores. Vejamos a suposta mensagem de Kardec recebida pelo Sr. Morin:
“All. Kardec.
"M. Morin, médium por inspiração.
"Comunicação dada na casa de M. Caussin, Rue St. Denis, 345, 06 de novembro de 1869.
"Allan Kardec falando através M. Morin.
Sua confissão póstuma.
Durante os últimos anos de minha vida, eu busquei cautelosamente manter em segundo plano todos os homens de inteligência que mereciam estima pública, os quais eram investigadores da ciência do Espiritismo e poderiam ter tomado por si uma parte dos créditos que eu desejei apenas para mim.
Não obstante, muitos destes, ocupando posições altas na literatura e na ciência, teriam ficado perfeitamente satisfeitos, ao dedicarem-se ao Espiritismo e terem brilhado no segundo grau; mas, em meu medo de ser eclipsado, preferi permanecer sozinho na liderança do movimento, ser ao mesmo tempo o cérebro pensador e o braço de ação.
Sim, eu reconheço a minha culpa se o Espiritismo nos dias atuais não soma em seus postos nenhum daqueles campeões - príncipes da língua ou do pensamento; comigo, o homem (ou minha humanidade) superou minha inteligência.
Enquanto eu sustentei o Espiritismo, conforme eu o concebia, pareceu-me como tudo o que a humanidade poderia imaginar de mais importante e mais vasto; minha razão estava confusa.
Agora que, livre do invólucro material, eu assisto a imensidão dos mundos diferentes, pergunto-me como pude ter me vestido no manto, como isso era, de um semideus; acreditando-me ser um segundo salvador da humanidade.Orgulho monstruoso que eu amargamente lamento. Eu agora vejo o Espiritismo, como eu o imaginava, tão pequeno, tão contraído, até sobre as perfeições que deveriam se atingir. Levando em
 Obra disponível em
http://ia311006.us.archive.org/2/items/lightsshadowsofs00homerich/lightsshadowsofs00homerich.pdf
Traduzida por Lúcia da Silveira Sardinha Pinto Souza.

consideração os resultados produzidos pela propagação das ideias espíritas, o que eu agora vejo?
O Espiritismo arrastou-se para a profundidade mais baixa do ridículo, ficou representado apenas por personalidades fracas, as quais me esforcei demais para elevar.
Eu, buscando fazer o bem, incitei muita produção aberrativa apenas do mal. Mesmo agora conforme a filosofia está relacionada a tão pequenos resultados!
Para poucas inteligências isso foi alcançado, quantos estão desavisados de sua existência!
De um ponto de vista religioso, nós encontramos o supersticioso partindo de uma superstição apenas para cair em outra. Consequências de meu egoísmo.
Não tivesse eu não mantido todas as inteligências superiores na sombra, o Espiritismo não seria representado, como a maioria de seus seguidores, por adeptos tirados do meio das classes operárias, as únicas onde minha eloquência e meu saber poderiam ter acesso. Allan Kardec"
(HOME, 1878, p. 224-225) (grifo nosso).
Basta comparar essa mensagem com aquela recebida na Sociedade espírita de Paris em abril de 1869, que transcrevemos um pouco atrás, para ver qual delas é a verdadeira. Apenas uma questão: por qual motivo o Sr. Morin não recebeu essa mensagem de Kardec, supondo-se que seja verdadeira, perante os membros da Sociedade Espírita de Paris, como fazia quando Kardec ainda era vivo?
Sobre a possibilidade dos médiuns serem enganados, Kardec várias vezes passou orientações, como, por exemplo, estas:
[…] Os Espíritos zombadores se atribuem também, algumas vezes, a qualidade de Puros Espíritos para inspirarem mais confiança às pessoas que querem enganar, e que não têm bastante perspicácia para julgá-los pela sua linguagem, na qual se traem sempre sua inferioridade. [´...] (KARDEC, 2001b, p. 257).
[…] Quantas vezes será preciso repetir que é necessário, quase absolutamente, desconfiar das comunicações espontâneas dadas a propósito de um fato, afirmando de propósito deliberado! Os Espíritos não enganam senão aqueles que se deixam enganar. (KARDEC, 1993, p. 80).
[…] mas sabe-se também que os Espíritos enganadores não fazem escrúpulo de se abrigarem sob nomes emprestados, para fazer aceitar as suas utopias. Disso resulta que, para tudo o que está fora do ensinamento exclusivamente moral, as revelações que cada um pode obter, têm um caráter individual sem autenticidade; que elas devem ser consideradas como opiniões pessoais de tal ou tal Espírito, e que haveria imprudência em aceitá-las e promulgá-las levianamente como verdades absolutas. (KARDEC, 1993e, p. 101).
As pessoas que não estudam Kardec, certamente, deixam portas abertas à mistificação dos espíritos enganadores.

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