"Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros." (João 13:35) "Onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, lá estarei no meio deles." (Mateus 18:20)

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sábado, 26 de março de 2011

A morte de Agripa: Quem conta um conto, aumenta um ponto.

http://www.paulosnetos.net/artigos/assuntos_biblicos/A_morte_de_Agripa-quem_conta_um_conto....pdf



A verdade não pode existir em coisas que
divergem. (S. Jerônimo)

Introdução
A ingenuidade de muitos em acreditar piamente em todas as narrativas bíblicas, como
se fossem verdades irrefutáveis, é digna de pena. A grande maioria dessas pessoas, se nem
mesmo ousa admitir uma simples dúvida, que dirá contestar aquilo que se encontra relatado
na Bíblia, já que pressupõem que tudo que ali está é plena verdade proveniente de Deus.
Ainda não perceberam que, por conta da esperteza da liderança religiosa da antigüidade,
tacitamente incorporada pela atual, foi o que transformou a Bíblia num livro cujo conteúdo
passou a ser supostamente a palavra de Deus. Foi a forma fácil e prática que se encontrou
para manter sob seu domínio os fiéis: ovelhas que não berram.
A morte de Agripa
Leiamos esse acontecimento conforme a narrativa bíblica:
Herodes estava enfurecido com os habitantes de Tiro e Sidônia. Estes fizeram um
acordo entre si e se apresentaram diante de Herodes, depois de conquistarem as
graças de Blasto, o camareiro real. Eles pediam a paz, já que seu país recebia
mantimentos do território do rei. No dia marcado, Herodes vestiu-se com os trajes
reais, tomou seu lugar na tribuna, e lhes dirigiu a palavra oficial. O povo começou a
clamar: "É a voz de um deus, e não de um homem!" Mas, imediatamente, o anjo do
Senhor feriu Herodes, porque ele não tinha dado glória a Deus. E Herodes
expirou, carcomido por vermes. (At 12,20-23)
Segundo os tradutores da Bíblia Anotada, esse personagem é “Herodes Agripa I, neto
de Herodes, o Grande, que reinara ao tempo do nascimento de Cristo. Agripa, pelo menos
exteriormente, era um zeloso praticante dos rituais judaicos e era um patriota em questões
religiosas” (p. 1378). E, em relação à sua morte, completam: “Josefo afirma que Herodes
adoeceu subitamente durante seu discurso e, depois de cinco dias de sofrimento, morreu (44
A.D.)” (p. 1379).
Vejamos então, para conferir, o que Josefo (37 a 103 d.C.), o historiador hebreu, fala a
respeito desse assunto. A versão de Josefo, parece-nos ser bem diferente dessa que acabamos
de citar. Vamos iniciar seu relato após Agripa ter sido preso, acusado por um liberto de nome
Eutico, de desejara  morte do imperador Tibério, para que seu amigo Caio o substituísse no
poder:


Um dia, quando Agripa estava com outros prisioneiros diante do palácio, a fraqueza, que lhe
causava a tristeza, fez que ele se apoiasse a uma árvore sobre a qual uma coruja veio pousar.
Um alemão, que era do número desses prisioneiros, tendo-o notado, perguntou a um soldado que
o olhava e que estava acorrentado com ele, quem era aquele homem; tendo sabido que era
Agripa, o mais notável de todos os judeus pela glória de sua origem, rogou-lhe que se aproximasse
dele, a fim de que pudesse ouvir de sua boca alguma coisa sobre os costumes de seu país. O
soldado assim fez; o alemão, então, disse a Agripa, por meio de um intérprete: “Bem vejo que uma
mudança tão grande e tão repentina de vossa sorte vos aflige, e que dificilmente acreditaríeis que
a divina providência vos dará a liberdade, muito em breve. Mas eu tomo os deuses como
testemunhas, os deuses que eu adoro e os que são reverenciados neste país, que me puseram
nestas cadeias, de que, o que eu vos tenho a dizer, não é para vos dar uma vã consolação,
sabendo, como eu sei, que quando as predições favoráveis não são seguidas de seus efeitos só
servem para aumentar a nossa tristeza. Quero pois dizer-vos, embora com perigo, o que essa ave
que acaba de voar sobre vossa cabeça vos pressagia. Estareis bem depressa em liberdade e
elevado a tão grande poder, que sereis invejado por aqueles que agora têm compaixão de vossa
infelicidade. Sereis feliz durante todo o resto de vossa vida e deixareis filhos que sucederão à
vossa felicidade. Mas quando virdes aparecer de novo essa mesma ave, sabei que somente
vos restarão cinco dias de vida. Eis o que os deuses vos pressagiam e como eu tenho
conhecimento disso, julguei dever dar-vos essa alegria, para amenizar vossos males presentes,
com esperança de tantos bens futuros. Quando vos encontrardes em tão grande prosperidade não
nos esqueçais, eu vos rogo, e trabalhai para nos tirar da miséria em que nos encontramos”. A
predição desse alemão pareceu tão ridícula a Agripa, que provocou nele, naquele instante, uma
gargalhada, tão forte que depois causou-lhe a ele mesmo, espanto e admiração. (JOSEFO, 2003,
p. 425-426)


Será que essa profecia foi cumprida? Para sabermos o que aconteceu, continuemos o
relato de Josefo um pouco mais à frente, cujo tempo decorrido é cerca de seis meses depois:
Trouxeram nesse mesmo tempo duas cartas de Caio; uma endereçada ao senado, com a qual
lhe dava o anúncio da morte de Tibério e de que ele o havia escolhido para substituí-lo no império;
a outra, a Pisão, governador da cidade, que dizia a mesma coisa, ordenando-lhe tirar Agripa da
prisão e permitir-lhe voltar à sua casa. Assim ele se viu livre de todo temor: e embora estivesse
ainda guardado, vivia no resto, como queria. Pouco depois, Caio veio a Roma para onde fez trazer
o corpo de Tibério, mandando fazer-lhe, segundo o costume dos romanos, soberbos funerais. Ele
quis pôr Agripa em liberdade, no mesmo dia, mas Antônia aconselhou-o a diferir, não, porque não
sentisse afeto por ele, mas porque julgava que aquela precipitação iria contra o decoro, porque
não se podia apressar tanto a liberdade daquele a quem Tibério conservava preso, sem manifestar
ódio por sua memória. No entanto, alguns dias depois, Caio mandou chamá-lo e não se
contentou em dizer-lhe que mandasse cortar os cabelos, mas lhe pôs a coroa na cabeça; depois
fê-lo rei da tetrarquia que Felipe havia possuído e acrescentou-lhe ainda a de Lisânias. Quis
também como sinal de seu afeto dar-lhe uma cadeia de ouro do mesmo peso da de ferro que ele
havia usado e mandou em seguida Marullhe, como governador da Judéia. (JOSEFO, 2003, p. 427)
Então se a primeira parte da profecia, dita pelo alemão, foi cumprida, fica provado que
os deuses que lhe passaram a informação estavam certos. Mas, e quanto à segunda parte da
profecia, a que dizia a respeito de sua morte? Será que Agripa ouviu a coruja piar novamente?
Voltemos à Josefo e leiamos:


No terceiro ano do seu reinado ele celebrou na cidade de Cesaréia, que antigamente era
chamada a Torre de Estratão, jogos solenes em honra do imperador. Todos os grandes e toda a
nobreza da província, reuniram-se nessa festa; no segundo dia dos espetáculos Agripa veio bem
cedo, pela manhã, ao teatro, com uma veste cujo forro era de prata trabalhada com tanta arte, que
quando o sol o iluminava com seus raios, desprendiam-se reflexos tão vivos de luz, que não se
podia olhar para ele sem se sentir tomado de um respeito, misto de temor. Mesquinhos
bajuladores, então, com palavras melífluas que destilam veneno mortal no coração dos príncipes,
começaram a dizer que até então haviam considerado seu rei, como um simples homem, mas que
agora viam que o deviam reverenciar como um deus, rogando-lhe que se lhes mostrasse
favorável, pois parecia que ele não era como os demais, de condição mortal. Agripa tolerou essa
impiedade, que deveria ter castigado mui rigorosamente. Mas, logo levantando os olhos, viu uma
coruja, por sobre sua cabeça, pousada numa corda estendida no ar e lembrou-se de que aquela
ave era um presságio de sua infelicidade como outrora tinha sido de sua prosperidade. Soltou,
então, um profundo suspiro e sentiu, ao mesmo tempo, as entranhas roídas por uma dor horrível.
Voltou-se para seus amigos e disse-lhes: “Aquele que quereis fazer acreditar que é imortal, está
prestes a morrer e essa necessidade inevitável não podia ser uma mais pronta convicção de vossa
mentira. Mas é preciso querer tudo o que Deus quer. Eu era muito feliz e não havia príncipe de
quem eu devesse invejar a felicidade”. Dizendo estas palavras, sentiu que as dores cresciam cada
vez mais; levaram-no ao palácio e a notícia espalhou-se imediatamente, de que ele estava prestes
a exalar o último suspiro. Logo todo o povo, com a cabeça coberta de um saco, segundo costume
de nossos pais, fez oração a Deus pela saúde e todo o ar ressoou com gritos e lamentações. O
príncipe que estava no quarto mais alto do palácio, vendo-os de lá, prostrados por terra, não pôde
reter as lágrimas; as dores, porém, continuaram por cinco dias a fio e o levaram, aos
cinqüenta e quatro anos de sua vida, sétimo do seu reinado, pois reinara quatro sob o imperador
Caio, nos três primeiros dos quais ele só tinha a tetrarquia, que fora de Filipe, e no quarto,
acrescentaram-lhe a de Herodes; nos três anos em que reinou sob Cláudio, esse imperador deulhe também a Judéia, a Samaria e Cesaréia. Mas, embora suas rendas [*] fossem muito grandes,
ele era liberal e tão magnânimo que era obrigado ainda a pedir emprestado.
______
[*] O grego diz: Mil e duzentas vezes dez mil, sem nada mais especificar.
(JOSEFO, 2003, p. 453).


Analisando os fatos


Interessantíssimo é que as duas previsões, constantes da profecia, que foram ditas pelo
alemão a Agripa, se cumpriram. Ora, ele mesmo afirmou a ter recebido dos deuses, o que
então prova que não era somente o Deus dos hebreus que tinha profetas aqui na terra. Será
que havia um acordo entre os deuses de ambos – o do alemão e o dos hebreus?
Provavelmente; haja vista o cumprimento integral da profecia.
Vejamos, agora, os pontos que foram aumentados:
Lucas: Herodes estava enfurecido com os habitantes de Tiro e Sidônia. Estes fizeram
um acordo entre si e se apresentaram diante de Herodes, depois de conquistarem as graças de
Blasto, o camareiro real. Eles pediam a paz, já que seu país recebia mantimentos do território
do rei.
Josefo: Nada fala desse assunto. Coloca o evento quando do acontecimento de jogos
solenes oferecidos por Agripa em honra ao imperador, ocasião em que se reuniram vários
príncipes e toda a nobreza para essa majestosa festa.
Lucas: No dia marcado, Herodes vestiu-se com os trajes reais, tomou seu lugar na
tribuna, e lhes dirigiu a palavra oficial
Josefo: Fala que Agripa chegou ao local dos jogos de manhã usando “uma veste cujo
forro era de prata trabalhada com tanta arte, que quando o sol o iluminava com seus raios,
desprendiam-se reflexos tão vivos de luz, que não se podia olhar para ele sem se sentir
tomado de um respeito, misto de temor.” Não diz absolutamente nada de que Agripa tenha
feito, da tribuna, algum tipo de discurso oficial.
Lucas: O povo começou a clamar: "É a voz de um deus, e não de um homem!"
Josefo: O motivo para que alguns o elevaram à categoria de um deus, foi justamente a
roupa brilhante citada anteriormente. Condição não contestada por Agripa, que ainda, segundo
Josefo, deveria tê-los castigados. E quem disse alguma coisa foram os mesquinhos
bajuladores, o que pode não significar necessariamente que teria sido o povo, que dá uma
idéia de que todos, ou pelo menos, a maioria dos que ali estavam.
Lucas: Mas, imediatamente, o anjo do Senhor feriu Herodes, porque ele não tinha dado
glória a Deus. E Herodes expirou, carcomido por vermes.


Josefo: Após o episódio acima, Agripa vê uma coruja o que o faz lembrar-se da
profecia que ouvira do alemão; daí sim é que ele fala ao povo contestando a sua condição de
deus, assumindo sua condição de mortal e dizendo-lhes que brevemente estaria morto. O fato
imediato é que ele começou a passar mal, sentindo muitas dores. Nesse estado, Agripa
permaneceu por cinco dias, quando finalmente dá o seu último suspiro. Embora Josefo não fale
nada sobre o enterro de Agripa, é de se presumir que aconteceu, pois, se tivesse ocorrido algo
em contrário, seria ponto de destaque que não passaria despercebido por um historiador.
Assim, Agripa não foi imediatamente carcomido por vermes, fato que, para salvar o texto
bíblico, devemos considerar como épico. E mais: o motivo da morte de Agripa nada tem a ver
com ele não ter dado glória a Deus.

Conclusão
Por aqui provamos que, no presente caso, quem contou o conto, aumentou não foi um
só ponto, mas vários. Os relatos históricos não podem ser preteridos às narrativas bíblicas,
cujos autores não se preocuparam nem com a verdade histórica, nem mesmo com a ordem
cronológica dos acontecimentos, a eles só interessavam os seus heróis enaltecidos.
Sempre estamos ouvindo dogmáticos querendo salvar a veracidade dos textos bíblicos,
relegando os fatos históricos, arqueológicos e mesmo científicos, na doce ilusão de que “tá na
Bíblia é verdade”. Coitados, pois ainda acham que conseguirão tapar o Sol com uma peneira!
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Dez/2005. (revisado jan/2007)

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