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sábado, 19 de março de 2011

PADRE QUEVEDO E A NAVALHA DE OCKHAM

Sylvio Ourique Fragoso 

 Revista Internacional de Espiritismo

Parte I
Dentre os muitos atributos que rebrilham adornando a personalidade do padre Oscar Gonzalez Quevedo, parapsicólogo de nome, destaca-se a pertinácia.
Passam-se os anos, pune-o a Igreja impondo-lhe um silêncio impeditivo até de atender a um simples telefonema, e o ínclito sacerdote a tudo supera, seguindo firme e corajosamente em seu objetivo, que outro não é senão mostrar a imensa ignorância dos espíritas e o grande engano em que se constitui, segundo ele, o Espiritismo. Consta que, ao embarcar na Espanha com destino às plagas brasileiras, teria dito: - Vou para o Brasil acabar com o Espiritismo. Se o disse, mesmo, não sabemos, mas por esse ideal tem se batido há já muitos anos. E, incansável e pertinaz, escreve livros, redige artigos, faz conferências, vai à televisão, participa de mesas-redondas, comparece a congressos... Sua tônica é uma única: os Espíritos não só não se comunicam com os "vivos", como não podem fazê-lo. E para mostrar essa impossibilidade, o padre elenca (sem que as explicite) razões de ordem psicológica, fisiológica, filosófica, teológica, biológica, antropológica...

***
Ockham foi um filósofo inglês do século XIV. Partia do princípio, plenamente válido ainda hoje, de que, entre duas explicações possíveis para um mesmo fato, deve-se escolher a mais simples, evitando-se a multiplicação de palavras e o amontoamento de hipóteses. A este critério dá-se o nome de Navalha de Ockham, e o padre Quevedo acusa os espíritas, a partir de Kardec, de não usá-lo, visto que, para o sacerdote, a "hipótese espírita" é sobejamente mais complicada que as teses parapsicológicas. Mas será, mesmo? Tomemos um exemplo que o próprio padre Quevedo cita em A Face Oculta da Mente, das Edições Loyola, embora em sua narrativa, como sempre, faltem detalhes que lhe complicariam a explicação. É o seguinte:
O juiz Edmond, da Corte Suprema de Justiça de New York, tinha uma filha chamada Laura. A moça falava apenas o inglês, tal como o pai. Um dia, reunidos oito ou dez amigos, foi apresentado ao juiz um cidadão grego, de todos ali desconhecido, chamado Evangélides. Então Laura, para espanto dos presentes, entrou em transe e passou a conversar com o Sr. Evangélides em grego fluente. Todos os que ali estavam, inclusive Laura e o juiz, só ficaram conhecendo o teor da conversa depois que o Evangélides, já então muito emocionado, explicou o que se passara. É que, através de Laura em transe e falando em grego, alguém se apresentara dizendo chamar-se Marco Bozzaris, um conhecido de Evangélides há muito falecido. E foi Marco quem deu ao amigo a notícia: o filho de Evangélides acabara de morrer, na Grécia. O fato foi, depois, constatado como verídico.
Ora, parece que a hipótese mais simples, aqui, é aquela que os próprios detalhes do fenômeno indicam. Mas, para a Navalha de Ockham quevediana, a coisa não é assim. Diz o parapsicólogo (os grifos são nossos):
A notícia evidentemente é fruto de um conhecimento paranormal (...) muito mais provável que o Sr. Evangélides inconscientemente captasse a morte do filho (...) Laura captou a notícia no inconsciente do Sr. Evangélides por hiperestesia do pensamento inconsciente excitado (...) é lógico, pois, que no inconsciente do Sr. Evangélides captasse as expressões gregas (...) Claro está que Laura (...) captava só as frases que vinham ao caso, estando associadas estas frases no inconsciente do Sr. Evangélides às perguntas ou idéias que ele tinha no consciente.
Como se vê, tudo muito claro, lógico e evidente. Só que o padre não diz por qual razão dois inconscientes tão portentosos como os de Laura e Evangélides, não revelaram de uma vez o fato em si, que era a morte do rapaz, ou não se identificaram logo como sendo apenas os inconscientes dos conversadores, em vez de ficarem brincando de Espírito de um morto há tantos anos e que vem trazer a notícia da morte recente de alguém. Além do mais, se Laura só captava as frases "que vinham ao caso", o que é que tinha o Marco Bozzaris de se intrometer na conversa? E o padre também não esclarece quais eram os "pensamentos ou idéias" que Evangélides teria no consciente uma vez que, segundo o próprio Quevedo, ele havia captado a morte do filho inconscientemente. E são os espíritas que, por ignorância ou má fé, não usam a Navalha de Ockham!
Se as coisas houvessem ocorrido como o padre afirma, o inconsciente de Evangélides teria captado uma só idéia: meu filho morreu. E se Laura captasse na mente de Evangélides essa idéia ou sensação e fosse, já por um prodígio, capaz de enunciá-la em grego, sem tropeços, haveria de repetir, como um papagaio: meu filho morreu. Seria espantoso e inexplicável que a moça fosse capaz de substituir o pronome, dizendo: seu filho morreu. Muito mais inexplicável e espantoso seria Laura começar a falar como Marco Bozzaris, de quem o Evangélides não iria cogitar ante o impacto do fato que captara, e depois de se identificar como o amigo morto há anos, depois de conversarem sobre outros assuntos, só então viesse a dar a notícia da morte do rapaz. Este detalhe é tão intrigante e embaraçoso para os teólogos, que o padre Quevedo prefere omiti-lo totalmente quando narra o fato. Pode-se chamar a isto de honestidade científica?
Mas o padre Quevedo é incansável. Acabou de publicar uma obra em cinco volumes com o título geral de Os Mortos Interferem no Mundo? das Edições Loyola. A técnica é a mesma de sempre: o autor embola tudo, pesca frases em livros espíritas, as quais, por ficarem dissociadas do seu contexto, parecem contraditórias quando comparadas a outras também fisgadas alhures, enfim, faz tamanha paçoca que pode confundir um leitor menos atento. Seriam necessários outros tantos volumes para mostrar todos os sofismas, os apriorismos científicos, as inverdades e os pressupostos de que se vale para "acabar com o Espiritismo". Vejamos alguma coisa do 4º volume desse Pentateuco parapsicológico, chamado As Provas da Ciência.
Já em sua página 41 temos uma informação bombástica, para dizer o mínimo: - Todos sabem que mediunidade e homossexualidade caminham juntos. Uma coisa explica a outra, mutuamente.
Todos sabem disso? O autor dessas linhas não o sabia. E o leitor? Aliás, essa perspicácia do padre Quevedo não a tiveram Freud, Jung, Adler, Ey, nem nenhum dos autores, clássicos ou não, que investigaram tal problemática. Mas, ao menos da parte dos espíritas, não é de se estranhar esse desconhecimento. Em vários pontos de sua obra (e esta é a tônica martelante que usa), o padre Quevedo não se cansa de rotular os espiritistas de ignorantes. E nessa mesma página 41 aprendemos mais uma: Chico Xavier diz ser inspirado pelo Espírito de um senador romano por puro narcisismo.
Pobre Chico Xavier, tão bom, tão humilde (e sem nenhum constrangimento poderíamos dizer - tão santo!), está tão à frente de todos nós que dói profundamente notar que, mesmo no fim de sua gloriosa vida, toda dedicada ao bem, ainda sofre as calúnias e injúrias de quantos, incapacitados ao menos de avaliar-lhe a grandeza interior, babujam sobre seu nome o fel pestilento da maledicência gratuita!
A primeira vez em que Chico Xavier viu Emmanuel, foi em fins de 1931. Era um entardecer e o Chico, sozinho, orava sob uma árvore às margens de um açude, em Pedro Leopoldo. Emmanuel apareceu-lhe envolto em uma luminosidade que tomava a forma de uma cruz, e tinha o aspecto de um ancião, trajando uma túnica branca. Nada que lembrasse um senador romano. Parecia, antes, um sacerdote católico ou algo assim. E Emmanuel impôs ao Chico três condições, caso estivesse, de fato, disposto a trabalhar mediunicamente, a serviço de Jesus. A primeira condição era disciplina, a segunda, disciplina e a terceira, disciplina. E até hoje Chico Xavier, humilde e pacientemente, segue essa orientação.
Só mais tarde o Chico veio a saber que aquele ancião que lhe aparecera houvera sido senador na antiga Roma. Mas não foi só senador: foi escravo, foi padre católico... E agora, aonde fica o "narcisismo" do Chico Xavier?
Se Emmanuel prefere se apresentar na forma perispiritual do senador romano é porque foi nessa condição que conheceu o Cristo e porque, nessa mesma oportunidade, perdeu ele chances valiosas, subjugado pelo orgulho. Portanto, é por humildade que assim se apresenta, e não por vaidade. Narcisismo, pois, nenhum. Nem no Chico, nem em Emmanuel. Talvez encontremos traços narcísicos em quem se apresenta publicamente com uma agulha espetada na pelanca do pescoço, para dizer que não sangra nem faz dodói, coisas que nada têm a ver com a parapsicologia.
Mas as descobertas surpreendentes do padre Quevedo não param por aí. Diz ele que em obras como Há Dois Mil Anos, 50 Anos Depois e Ave, Cristo, há uma violenta e exagerada sexualidade.
Acredite o leitor que não estamos aumentando nada. Foi o padre Quevedo quem falou.
Magister dixit!


janeiro/1995

A NAVALHA DE OCKHAM
Parte II
Estamos vendo o denodo do padre Quevedo em seu propósito de "acabar com o Espiritismo". E nesse afã, diz ele à página 43 de suas Provas da Ciência, algo que vale como uma espantosa confissão. Espantosa por vir de alguém que se apresenta em público arvorado em cientista, mas, na verdade, novidade nenhuma para quem já o conhecia. Eis sua confissão: Pessoalmente reconheço que uma das principais causas da profunda antipatia e desprezo que sinto pelo Espiritismo (...) é que com essa sobrevivência totalmente idiota e aviltante apresentada pela doutrina espírita tenha substituído em milhões de pessoas de boa fé a sublime Doutrina Cristã (...)
A "Doutrina Cristã" a que o padre alude é o Catolicismo, segundo o qual (note-se que o padre Quevedo é doutor em teologia) não há separação do Espírito e do corpo sem morte (página 62), não existem Espíritos desencarnados (página 76) e é doentio e anticientífico não querer aceitar os milagres na expectativa de alguma causa desconhecida etc.
Sobre este último tópico teremos oportunidade de ver como o prezado parapsicólogo mostra-se contraditório. Mas o mais espantoso é um pesquisador, com pretensões a fazer ciência, ter "profunda antipatia e desprezo" por aquilo que é objeto de suas pesquisas. Ora, a antipatia e o desprezo implicam numa tomada de posição prévia. De que forma esse pesquisador terá a isenção de ânimo que se requer numa pesquisa científica, se sua postura íntima já está definida? E no entanto, no volume 5º de sua obra, o padre Quevedo afirma que quem for espírita não pode ser cientista (página 7). Para ele, o pesquisador ideal é o católico. Sabem por quê? É que nestes, suas idéias religiosas e filosóficas prévias podem perfeitamente estar de acordo com os fenômenos (...) inclusive com referência a possíveis milagres dos tempos modernos. Pronto! No entanto, vimos no caso de Laura e Evangélides como a ótica dos católicos pode estar "de acordo" com os fenômenos. Na verdade essa opinião é tão disparata que nem vale à pena maior aprofundamento da questão.
Mas como disparates não faltam no pentateuco quevediano, colhamos alguns outros, dentre os mais gritantes.
Não basta ao parapsicólogo Oscar Quevedo torcer os fatos espíritas e os postulados dessa Doutrina para amoldá-los às explicações que já traz na algibeira. Por vezes ele faz afirmações tão descabidas que, a um leitor menos atento ou já aturdido pela enxurrada de sua verborragia estapafúrdia, poderão passar despercebidas. E assim é que à página 50 de suas Provas da Ciência, diz ele: - André Luiz, que afirma ser o espírito de Oswaldo Cruz (...) É o caso de se convidar o ilustre sacerdote a que prove quando, onde e por qual forma André Luiz fez tal afirmativa. É verdade que nos meios espíritas houve quem cogitasse dessa possibilidade, mas André Luiz jamais disse tal coisa. E nem poderia tê-la dito, já que essa não é a verdade. Basta uma leitura atenta de Nosso Lar e um pequeno conhecimento da biografia de Oswaldo Cruz para se ver que são personalidades distintas uma da outra. André Luiz fora filho de um comerciante (Nosso Lar, páginas 78 e168), enquanto que Oswaldo Cruz era filho de Bento Gonçalves Cruz, médico veterano da Guerra do Paraguai. Oswaldo Cruz morreu em 1917, vítima de insuficiência renal, sendo que André Luiz desencarnou em decorrência de oclusão intestinal (página 26, obra citada) e, tendo passado "mais de oito anos" nas regiões umbralinas (página 40), estava ainda se adaptando à vida em Nosso Lar, para onde acabara de ser levado, quando recebeu a notícia de que era agosto de 1939 (página 115). Portanto, deve ter morrido aí por 1929 ou 1930.
Onde, pois, o cientista Quevedo viu André Luiz afirmando ser Oswaldo Cruz?
Mas as inverdades e incoerências nos escritos do padre Quevedo não param por aí. Esboçando pequena biografia de Allan Kardec, diz o sacerdote à página 64 de suas Provas:
Kardec foi filho de pais católicos. No Catolicismo foi educado em criança. Viveu num país fundamentalmente católico.
E no entanto, duas páginas depois, vem afirmado que Allan Kardec já desde a infância foi se imbuindo de ódio ao Catolicismo.
Onde, perguntamos nós, nos escritos e nas atitudes de Kardec, vislumbramos ódio pelo Catolicismo ou seja lá pelo que for? Mas o padre prossegue: Nos escritos de Kardec reconhecemos claramente um Espiritismo liberal e maçônico.
Ora, se o Espiritismo de Kardec era "liberal", deveria haver um outro que não o fosse. Alguém sabe dizer que Espiritismo era esse? E, a propósito: o que vem a ser "Espiritismo maçônico"?
Mas ainda há muito mais: Em Chico Xavier os espíritos não fazem abertamente apologia do Espiritismo kardecista. Chico é mais sutil (página 22).
No entanto, pelo menos há bem pouco tempo, Chico Xavier ainda folheava diariamente O Livro dos Espíritos, afirmando que nessa obra sempre há o que se aprender. E Emmanuel, em uma mensagem aos espíritas, recomendou que:Se algum dia eu me afastar de Jesus e de Kardec, vocês fiquem com Kardec e Jesus e me deixem.
À página 317 o padre Quevedo (que parece ir perdendo a paciência à medida em que escreve), declara: As explicações apresentadas pelos espíritas são todas apriorísticas. Algumas só servem para fazer rir. Quem as apresenta e nelas crê, se não é totalmente ignorante, deve ser considerado louco (...) Realmente o Espiritismo está enchendo o mundo de loucos.
Então os espíritas são ignorantes, loucos, fanatizados, mentirosos... Melhor faríamos todos, pelo visto, entregando-nos à polícia ou internando-nos em algum sanatório!
Mas vamos ver ainda as estranhíssimas idéias que o nosso amigo teólogo faz do que chama de "espíritos dos mortos".
À página 58 de Provas ele diz que: Se dermos uma olhada (...) em todas as supostas interferências dos espíritos, veremos imediatamente destacar-se a revelação de fatos emotivos: mortes, acidentes graves, crianças desaparecidas. E então vem a conclusão do teólogoSe analisarmos as mensagens a respeito desses acontecimentos imediatamente veremos que esses fatos são emotivos e importantes para os vivos (...) Os sentimentos dos mortos a respeito (...) logicamente teriam de ser muito diferentes, freqüentemente até opostos aos dos vivos.
Essa "lógica" é que não alcançamos. Quer dizer que, após a morte, perde-se o amor, o interesse, o cuidado que se tinha em vida terrena pelas pessoas que conhecemos, que amamos? Os nossos sentimentos, depois da morte, "logicamente" teriam que ser opostos aos sentimentos acalentados quando aqui vivíamos? Se assim fosse, este mundo seria um grande circo e a vida, uma brincadeira cruel e sem sentido, ideada por um Deus maléfico, sádico e perverso. De que nos valeria, na Terra, acumular tesouros que os ladrões não roubam, se depois da morte seremos transformados em seres apáticos e indiferentes à sorte, boa ou má, que tiverem aqueles mesmos a quem aprendemos a amar, um dia? Por qual motivo iríamos tentar amar os nossos inimigos e perdoar aos que nos ofendem, uma vez que essas sentimentos serão, depois, modificados?
Mas como os teólogos fazem do pós-morte uma idéia embaralhada e estapafúrdia, onde existem "corpos gloriosos" submersos na "Infinita Beleza" e fadados a uma eterna ociosidade contemplativa, às páginas 70 e 71 o nosso Quevedo fala, entre irônico e indignado, do papa Alexandre I que, tendo vivido "humilde e santamente" até ser martirizado pelo imperador Trajano, teria cometido o deslize teológico de, após a morte, dar notícias por via mediúnica. Muito irritado, protesta o padre Quevedo: - Seria contraditório que, tendo o mártir dado a sua vida em defesa da Fé (...) depois o seu espírito apostatasse dessa mesma fé e viesse do além participar das heréticas sessões do Espiritismo (...).
Mas o que queria o padre Quevedo? Alexandre I estava preocupado com a Verdade. Enquanto julgou poder encontrá-la nos ensinamentos de então (século II), defendeu aquilo em que acreditava, chegando a ser martirizado por tal razão. Depois, no mundo espiritual, a realidade que encontrou foi outra. Qual o problema de vir nos falar de erros cometidos no passado e narrar aquilo que encontrou após a morte? Isso não é apostasia, é o mesmo compromisso com a Verdade que traz o antigo papa de volta para dar testemunho de uma realidade que talvez antes não conhecesse, muito embora o Cristianismo do século II fosse bem diferente do que dele fizeram, depois, outros papas, bispos, padres e teólogos.
O mesmo raciocínio vale para outro fato que escandalizou o parapsicólogo Quevedo, e que vem narrado a partir da página 196. É o seguinte:
No começo deste século um arquiteto fazia escavações no local onde presumia ter existido a Abadia de Santa Maria, em Glastonbury, mas nada estava encontrando. Um seu amigo, através da psicografia, recebeu indicações exatas de onde a abadia existira, indicações estas acompanhadas de desenhos que forneciam detalhes sobre a antiga edificação. O fato é que inúmeros arqueólogos, há mais de sessenta anos, procuravam pela abadia mas em vão. As mensagens agora recebidas vinham em latim e em inglês medieval e seu autor identificava-se como um monge que lá vivera. Dessa forma a abadia, ou o que dela restava, foi encontrada no local exato em que o Espírito indicara. O ser comunicante declarou que ele e outros monges ali continuavam "em ambiente de oração e de trabalho".
Mas isto tudo é demais para uma mentalidade científica como a do padre Quevedo, que comenta admirado: - Na realidade, se aqueles espíritos (...) estivessem lá, teria sido terrível decepção. Dedicaram toda a vida a Deus na esperança do Céu mas teriam passado a viver naquelas ruínas em vez de passarem a contemplar e submergir-se na Infinita Beleza, Bondade, Amor, Plenitude Personificada que é Deus. E pergunta, indignado: -Pode haver maior decepção?
De fato, a decepção deve ter sido grande. E, com certeza, foi essa mesma decepção de quem dedicou a vida toda "na esperança do Céu", que levou os monges a permanecerem imantados ao local onde viveram a ilusão de uma fé que lhes prometia o que não existe. Como, após a morte, os monges não se submergiram em nenhuma "Plenitude Personificada", ali continuaram, numa falsa felicidade, no mesmo ambiente de "oração e trabalho". Talvez acreditassem que seria preciso mais tempo para que alcançassem o Céu.
Os estudioso do Espiritismo conhecem casos assim às carradas, mas o teólogo Quevedo não se conforma com tamanho "absurdo". Sua ciência parapsicológica permanece impregnada pelos dogmas católicos. E, para a moderna teologia, a alma não pode agir sem o cérebro físico, o que vale dizer que, após a morte, a alma se desmantela e fica inativa, transformada em não sei quê, até que venha a ressurreição da carne, quando, reunida ao corpo ou revestida por um "corpo glorioso", pode reaver sua individualidade.
É assim que se faz ciência parapsicológica no Brasil e onde quer que ela ande de mãos dadas com a teologia. Pouco importa que Rhine, o chamado "pai da parapsicologia", haja comprovado e afirmado que "a mente não é física e age sobre a matéria por vias não físicas". Há um materialismo disfarçado de teologia que não admite que a mente, ou o Espírito, atue sem o concurso do cérebro físico, de sorte que, morto este, adeus faculdades mirabolantes que a parapsicologia observa, classifica e rotula.
Mas vejamos, para terminar, o que o padre Quevedo aceitaria como prova da existência e da comunicabilidade dos Espíritos.
fevereiro/1995

A NAVALHA DE OCKHAM
Parte III
Ficamos de ver o que o padre Quevedo consideraria como prova de que o Espírito sobrevive ao corpo, como uma individualidade sensível e pensante.
A partir da página 19 de sua obra Palavra de Iahveh, diz o autor:
Posso afirmar, sem medo de errar, que hoje não há nenhum tipo de fenômeno espiritóide que a Parapsicologia (...) não saiba explicar.
No entanto, pouco depois, ele reconhece que o que há hoje (...) são alguns aspectos ainda por desvendar (...). Falamos de comunicação mas não conhecemos nem sequer os termos da relação nem o modo como se estabelece uma comunicação (paranormal).
Não obstante essas palavras sensatas, diz o padre: - Se a Parapsicologia não sabe, não responde. Talvez se explique no século LVIII.
E no entanto, com relação ao milagre, vimos como o teólogo quer que seja aceito pura e simplesmente, considerando "doentio e anticientífico" não aceitá-lo, na expectativa de uma explicação futura. Dois pesos e duas medidas. Mas vamos ao mais importante. Diz o sacerdote à página 264 de suas Provas que: Os pretendidos espíritos dos mortos nunca revelaram nada fora do nosso mundo, o mundo deles (...) Nunca. Nem uma só vez. Em toda a história.
Eis aqui outra inverdade absurda. André Luiz, por exemplo, trouxe tantas revelações de "fora do nosso mundo", que chegou a causar polêmica entre os próprios espíritas. Chico Xavier conta que, para bem captar tantas "novidades", precisou ser levado, em espírito, para os mesmos lugares que André Luiz descreveria. De fato, quem, antes da publicação de Nosso Lar, falava dessa colônia espiritual (uma, dentre tantas), de sua organização, sua arquitetura, e também do Umbral e das Trevas? E, antes de Yvonne Pereira psicografar Memórias de um Suicida, quem sabia do "Vale" tenebroso que Camilo Castelo Branco descreveu, causando espanto, horror e piedade? E a própria Yvonne Pereira, em Devassando o Invisível, não nos mostra fatos e paisagens que pôde conhecer através de sua mediunidade? E Arthur Findlay, em No Limiar do Etéreo, também já não havia transmitido informações sobre o "outro mundo", informações estas que os Espíritos lhe trouxeram? E assim tantos e tantos outros!
Mas um parapsicólogo que se preza não perde tempo lendo essas coisas. E se as lê, põe tudo na conta de criações fantasiosas do inconsciente dos médiuns. Curioso é que o padre Quevedo, atribuindo ao inconsciente tantos poderes extraordinários, que lhe permitem conhecer o presente, o passado e o futuro, aprender línguas instantaneamente, ler cartas fechadas, captar o que foi pensado por alguém ou abiscoitar o que esse alguém nunca sequer pensou mas que, por sua vez, surrupiou do inconsciente de outrem, não explique a razão pela qual esse mesmo inconsciente, tão prodigioso, não pode captar nada da realidade espiritual, nem nunca saiba de sua própria existência e teime sempre, em todas as épocas, em todos os povos, em se apresentar fingindo-se de Espírito de alguém que já morreu. Para os teólogos dedicados à parapsicologia, parece que a morte cria uma barreira mais intransponível que a Câmara de Faraday, aquela que bloqueia até raios cósmicos, e que os parapsicólogos russos esperavam que bloqueassem também a telepatia, o que não aconteceu, mostrando assim que as chamadas "faculdades psi" não são físicas.
Mas o padre Quevedo acusa ainda os Espíritos de nada captarem ou revelarem além do que chama de "prazo existencial", que cobriria, aproximadamente, dois séculos. Essa "relação psíquica" ele a estabelece assim: avô-pai-adivinho-filho-neto do adivinho. Ou então "quaisquer coetâneos, em qualquer parte da Terra". Se esse prazo fosse superado, então o padre creria que os Espíritos sobrevivem ao corpo. Pouco importa que o Espírito Conan Doyle tenha comunicado à médium Eillen Garret a existência de um cinto de radiações ao redor do globo terrestre, quase trinta anos antes da ciência descobrir e divulgar a existência de tal cinto. E pouco interessa que o Espírito Stattford tenha revelado à médium D’Esperance o princípio da telefonia, também trinta anos antes da invenção do telefone. Para o Quevedo tudo isso está dentro do "prazo existencial" e bastaria o "talento do inconsciente" para descobrir tais coisas de que ninguém suspeitava, e "só por muita ignorância", diz o padre, alguém poderia acreditar que nesses casos tenha havido uma verdadeira comunicação mediúnica (página 224).
Mas há casos em que o tal prazo existencial foi ultrapassado, e muito. Por exemplo, vejamos o ocorrido com o Dr. Wood. Este caso, extraordinário do ponto de vista mediúnico, vem narrado por Francisco Lorenz em A Voz do Antigo Egito, obra baseada em After Thirty Centuries (Após Trinta Séculos), livro este escrito pelo próprio Dr. Wood. Em resumo, é o seguinte:
O Dr. Frederic Wood era doutor em música e assim foi que ficou conhecendo a jovem Rosemary, que também muito se interessava por aquela arte, e nada por Espiritismo. Lá um dia, eclodiu na moça a mediunidade psicográfica. O Espírito que se apresentou através de Rosemary declarou que a médium estava sendo preparada para uma missão importante. Um ano mais tarde apresentou-se outro Espírito, sob o cognome de Lady Nona, e que teria vivido no Egito há muitos séculos, quando, então, seu nome era Telika. De início esse Espírito pouco falou de si, mas Rosemary desenvolveu também a psicofonia e então Lady Nona, ou Telika, passou a fornecer dados pessoais, bem como sobre seu marido e demais personalidades de quando fora rainha no Egito, sendo que muitas dessas informações puderam ser confirmadas, após árduas pesquisas.
As coisas seguiam dessa forma, até que um dia Lady Nona começou a falar em egípcio faraônico! Ora, os maiores egiptólogos, mesmo tendo descoberto as regras gramaticais dessa língua morta há séculos, tinham grande dificuldade quanto à pronúncia das palavras, porque os hieróglifos, que era a escrita dos antigos egípcios, não registraram as vogais. Então os estudiosos haviam estabelecido como regra que certos sinais seriam lidos como a, outros como e e assim por diante. Por esse acordo, ns era lido nes (língua); rn, como ren (nome) etc. Mas o Espírito corrigiu: ns pronunciava-se nisrn era ran e por aí a fora. Além disso, muitas palavras escritas em hieróglifos tinha mais de uma pronúncia, conforme o sentido, e assim mr é mer quando quer dizer "amar", mârli, no sentido de "estar doente" e mári quando significa "pirâmide".
O Dr. Wood não entendia nada de egípcio antigo e nem conhecia quem compreendesse tal linguagem, até que um dia apareceu um Sr. Hulme, autor de um dicionário dessa língua. A partir daí começaram ambos a trocar correspondência. O que Lady Nona falava, o Dr. Wood escrevia em ortografia inglesa e o Sr. Hulme traduzia, ou tentava fazê-lo.
Em 1936 Rosemary foi levada ao Instituto Internacional para Pesquisas Psíquicas, de Londres, onde Lady Nona falou longamente em egípcio, tendo sido, na ocasião, gravado um disco com sua voz, que ficou à disposição dos egiptólogos interessados.
A história ainda vai longe, com muitos detalhes interessantes, mas fiquemos por aqui. Esta seria a prova que o padre Quevedo queria: o prazo existencial estaria superado por muito longa margem, e o Espírito trouxera revelações que ninguém conhecia e, dessa forma, não havia no mundo nenhum inconsciente onde a médium pudesse buscar as informações que trazia. Mas qual! Para o sacerdote, o fato de existir em alguma biblioteca do mundo um livro esquecido, poeirento e embolorado sobre o egípcio antigo, seria o bastante para que o inconsciente de uma jovem que até então só estava preocupada em estudar música, captasse o seu conteúdo e passasse a revelá-lo ainda que, mais uma vez, fingindo-se de Espírito. Restaria por explicar a correção da pronúncia de palavras egípcias, coisa que não se acha em livro algum, mas o padre Quevedo, prudentemente, passa por cima desses detalhes. Também nada lhe custaria atribuir tal fato a uma "fantasia subliminar", ou outro nome qualquer de que a parapsicologia está referta.
Da Navalha de Ockham esquece-se o padre Quevedo do princípio de que não se deve multiplicar as palavras, na tentativa teimosa de uma explicação. E as "explicações" da parapsicologia são assim, longas e emaranhadas, como vimos no caso de Evangélides. São tantas as hiperestesias, as telepatias em L, as HIE, as HIP e mais as PC, PT, Pcg, ST e mais as projeções da ESP, as Super-ESP e quejandas que, ao lê-las, não se sabe se estamos consultando um catálogo de farmácia ou um rol de coligações políticas.
Ephraim Alves, em A Fé do Cientista e a Fé do Crente da Editora Vozes, bem que alertou: deve-se explicar o mundo com o máximo de simplicidade possível. Use a navalha (de Ockham) para aparar a barba do filósofo, não para cortar-lhe o pescoço.
Mas o padre Quevedo é pertinaz e não se dá por vencido, qualquer que seja a evidência que lhe salte aos olhos. Mas não faz mal, caro leitor. Se Kardec, Denis, Bozzano, Flammarion, Aksakof, Chico Xavier e tantos outros, eram ou são loucos, fanáticos, ignorantes e mal-informados, resta-nos o consolo, não pequeno, de estarmos em muito boa companhia.


março/1995
1

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