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domingo, 27 de março de 2011

Reencarnação no contexto histórico


“Pois não há nada de escondido que não venha a
ser revelado, e não existe nada de oculto que não
venha a ser conhecido”. (JESUS, Mt 10,26).


A cada dia que desenvolvemos nossos estudos sobre o tema reencarnação estamos
vendo que, infelizmente, muitas coisas foram expurgadas das Sagradas Escrituras, a verdade
pouco lhes importa, com o objetivo de justificar a manutenção de dogmas religiosos. Dogmas
esses que ainda servem aos interesses das lideranças religiosas, que buscam de todas as
formas fazer com que seus fiéis permaneçam na ignorância e assim sigam acreditando nessa
teologia “Adão e Eva”.
Assim, é que já em Êxodo 20, 5, mudaram a preposição, que fatalmente nos levaria à
conclusão da existência da reencarnação, quando trocam o “na” por “até”, vejamos:
“... porque eu, Iahweh teu Deus, sou um Deus ciumento, que puno a iniqüidade dos
pais sobre os filhos até a terceira e quarta geração dos que me odeiam”.
Só que, com essa mudança, o texto entra em conflito com outra passagem bíblica:
“Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos em lugar dos pais. Cada
um será executado por seu próprio crime”. (Dt 24, 16) [
1
.[
Entretanto, se colocarmos a preposição “na” em lugar da usada no texto, ficaremos
perfeitamente coerentes com essa passagem anterior e a justiça divina não puniria um
inocente, mas o próprio espírito culpado que nasceria como neto ou bisneto dele mesmo, ou
seja, o próprio criminoso reencarnado como um de seus descendentes.
Sempre lemos, de outros autores, que a idéia da reencarnação existia no cristianismo
primitivo e existe no judaísmo, como por exemplo, Dr. Severino Celestino da Silva, em
Analisando as Traduções Bíblicas, H. Spencer Lewis, F.R.C, Ph.D., no livro A Vida Mística de
Jesus e o teólogo alemão Holger Kersten, autor de Jesus Viveu na Índia, do qual
transcrevemos:



“Até agora, quase todos os historiadores da Igreja acreditaram que a doutrina da reencarnação
foi declarada herética durante o Concílio de Constantinopla em 553. No entanto, a condenação da
doutrina se deve a uma ferrenha oposição pessoal do imperador Justiniano, que nunca esteve
ligado aos protocolos do Concílio. Segundo Procópio, a ambiciosa esposa de Justiniano, que, na
realidade, era quem manejava o poder, era filha de um guardador de ursos do anfiteatro de
Bizâncio. Ela iniciou sua rápida ascensão ao poder como cortesã. Para se libertar de um passado
que a envergonhava, ordenou, mais tarde, a morte de quinhentas antigas ‘colegas’ e, para não
sofrer as conseqüências dessa ordem cruel em uma outra vida como preconizava a lei do Carma,
empenhou-se em abolir toda a magnífica doutrina da reencarnação. Estava confiante no sucesso
dessa anulação, decretada por ‘ordem divina’”.

“Em 543 d.C. o imperador Justiniano, sem levar em conta o ponto de vista papal, declarou
guerra frontal aos ensinamentos de Orígenes, condenando-os através de um sínodo especial. Em
suas Obras De Principiis e Contra Celsum, Orígenes (185-235 d.C.), o grande Padre da Igreja,
tinha reconhecido, abertamente, a existência da alma antes do nascimento e sua dependência de
ações passadas. Ele pensava que certas passagens do Novo Testamento poderiam ser explicadas
somente à luz da reencarnação”.
“Do Concílio convocado pelo imperador Justiniano só participaram bispos do Oriente
(ortodoxos). Nenhum de Roma. E o próprio Papa, que estava em Constantinopla naquela ocasião,
deixou isso bem claro”.
“O Concílio de Constantinopla, o quinto dos Concílios, não passou de um encontro, mais ou
menos em caráter privado, organizado por Justiniano, que, mancomunado com alguns vassalos,
excomungou e maldisse a doutrina da pré-existência da alma, apesar dos protestos do Papa
Virgílio, com a publicação de seus Anathemata”.
“A conclusão oficial a que o Concílio chegou após uma discussão de quatro semanas teve que
ser submetida ao Papa para ratificação. Na verdade, os documentos que lhe foram apresentados
(os assim-chamados ‘Três Capítulos’) versavam apenas sobre a disputa a respeito dos três
1
 Ver tb: Ex 34, 7; Nm 14, 18; Jr 31, 29-30 e Ez 18, 2-4, 20.

eruditos que Justiniano, há quatro anos, havia por um edito declarado heréticos. Nada continham

sobre Orígenes. Os Papas seguintes, Pelágio I (556-561), Pelágio II (579-590) e Gregório (590-
604), quando se referiram ao quinto Concílio, nunca tocaram no nome de Orígenes”.
“A Igreja aceitou o edito de Justiniano – ‘Todo aquele que ensinar esta fantástica pré-existência
da alma e sua monstruosa renovação será condenado’ – como parte das conclusões do Concílio.
Portanto, a proibição da doutrina da reencarnação não passa de um erro histórico, sem qualquer
validade eclesiástica”. (KERSTEN, 1988, p. 240-241).


E especificamente quanto ao judaísmo podemos comprovar pelo historiador judeu
Flavius Josephus, citado por Dr. Hernani de Guimarães Andrade, no livro Você e a
Reencarnação, à página 28. Dr. Hernani em referência a WHISTON (The Works of Flavius
Josephus, trad. Willian Whiston, M.A., London: War, Loc & Co. Limited.), diz-nos:
Flavius Josephus (37 a 95 a.D.), intelectual e historiador judeu, em sua famosa obra De Bello
Judaico, faz a seguinte advertência aos soldados judeus que preferiam desertar, suicidando-se:
"Não vos recordais de que todos os espíritos puros que se encontram em conformidade com a
vontade divina vivem no mais humildes dos lugares celestiais, e que no decorrer do tempo eles
serão novamente enviados de volta para habitar corpos inocentes? Mas que as almas daqueles
que cometeram suicídio serão atiradas às regiões trevosas do mundo inferior?" (Josephus, 1910).

Entretanto, até nessa clássica obra desse autor da antiguidade modificaram o texto
para, obviamente, fugir da idéia da reencarnação, conforme podemos comprovar pela tradução
de Vicente Pedroso, publicada no livro História dos Hebreus, que diz o seguinte:
Não sabeis que Ele difunde suas bênçãos sobre a posteridade daqueles, que depois de ter
chamado para junto de si, entregam em suas mãos, a vida, que, segundo as leis da natureza, Ele
lhes deu e que suas almas voam puras para o céu, para lá viverem felizes e voltar, no correr dos
séculos, animar corpos que sejam puros como elas (*) e que ao invés, as almas dos ímpios, que
por uma loucura criminosa dão a morte a si mesmos são precipitados nas trevas do inferno.
______
(*) Parece, segundo estas palavras, que Josefo acreditava na metempsicose.
(JOSEFO, 2003, p. 600)

Observar que apesar dos textos serem bem semelhantes, mudaram todo o sentido do original para fugir da idéia da reencarnação. Dúvida que envolveu até o próprio editor:
“Parece, segundo estas palavras, que Josefo acreditava na metempsicose”, querendo dissimular o pensamento sobre a reencarnação.
Mas se esqueceu de modificar o que disse Josefo, quando fala no que acreditavam os fariseus: “Eles julgam que as almas são imortais, que são julgadas em um outro mundo e recompensadas ou castigadas segundo foram neste, viciosas ou virtuosas; que umas são eternamente retidas prisioneiras nessa outra vida e que outras voltam a esta”. (JOSEFO, 2003, p. 416).
Entretanto, o mesmo não aconteceu com a tradução do livro Atos dos Apóstolos 23, 8, onde se diz que os fariseus sustentam “a ressurreição”, quando, na verdade, deveria ser “a reencarnação”, conforme nos informa o historiador judeu.
Podemos ainda acrescentar as informações contidas no livro As Rodas da Alma, onde o
Rabino Philip S. Berg desenvolvendo o tema dentro da ótica cabalista, diz a certa altura:
“Entre todos os que aceitam a doutrina da reencarnação, talvez os cabalistas sejam os únicos
que acreditam que uma alma pode retornar num nível inferior daquele que deixou em uma vida
anterior. Efetivamente, se o peso do tikun (correção) for suficientemente pesado, uma alma
humana poderá se encontrar reencarnada no corpo de um animal, de uma planta ou até mesmo
de uma pedra”. (BERG, 1998, p. 29)





“A Cabala é o significado mais profundo e oculto da Torá, ou Bíblia”, diz Berg, o que
confirma que é um conhecimento do judaísmo místico, segundo suas próprias palavras.
Trazemos também a opinião de Sérgio F. Aleixo, escritor e estudioso da Bíblia, que em
seu livro Reencarnação – Lei da Bíblia, Lei do Evangelho, Lei de Deus, diz o seguinte: “Neste
trabalho, queremos demonstrar que a cultura judaico-cristã tem precedentes
reencarnacionistas incontestáveis, a despeito de as políticas igrejeiras, sustentadas pelos mais
absurdos teologismos, se obstinarem ainda em negá-los”. (ALEIXO, 2003, p. 21).
É comum a certas pessoas advogarem que devemos, para interpretar a Bíblia, levar em
conta o contexto histórico, mas quando o fato é reencarnação não seguem a sua própria
recomendação. Os fatos históricos estão aí relatados, e não há como mudá-los. Resta então
aos fanáticos a humildade de mudarem de posicionamento em relação ao assunto. Embora
sinceramente achamos isso muito difícil, pois são completamente cegos, cuja única verdade
que aceitam é a que lhes ensinaram, pouco importa se corresponde à realidade ou não. Todos
os que pensam diferente deles são “heréticos” que precisam ser combatidos.
Aos que ainda nos dias de hoje perseguem os Espíritas por causa desse princípio
doutrinário do Espiritismo, recomendamos que leiam mais, mas saiam da literatura de autores
“recomendados” e busquem a verdade em outras obras, principalmente de outros autores,
estudiosos e pesquisadores da reencarnação, que não os de sua corrente religiosa. Somente os
que temem a verdade é que proíbem a leitura de obras fora do “nihil obstat” de sua liderança
religiosa.
Paulo da Silva Neto Sobrinho
Jan/2004.

Referências Bibliográficas:
ALEIXO, S.F. Reencarnação – Lei da Bíblia, Lei do Evangelho, Lei de Deus, Niterói, Lachâtre,
2003.
ANDRADE, H.G. Você e a Reencarnação, Bauru, CEAC, 2002.
BERG, P. S. As Rodas da Alma, São Paulo, Centro de Estudos da Cabala, 1998.
CHAVES, J. R. A Reencarnação Segundo a Bíblia e a Ciência, São Paulo, 2002.
DIVERSOS. Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Paulus, 2002.
KERSTEN, H. Jesus Viveu na Índia. São Paulo, Best Seller, 1988.
JOSEFO, F.. História dos Hebreus. São Paulo: CPAD, 2003.
LEWIS, H.S. A Vida Mística de Jesus, Curitiba, AMORC, 2001.
SILVA, S. C. Analisando as Traduções Bíblicas. João Pessoa; Idéia, 2001.






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