"Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros." (João 13:35) "Onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, lá estarei no meio deles." (Mateus 18:20)

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domingo, 4 de março de 2012

Questões Intrincadas sobre o Espiritismo


 
Amigos,
 
Recebemos recentemente uma série de questões, enviadas pelo Alan, que abordam temas interessantes da Doutrina Espírita. São questões muitas vezes colocadas por irmãos que chegam ao Espiritismo vindos de outras filiações cristãs e até mesmo de companheiros espíritas que são defrontados pelos mesmos problemas ao conversar com conhecidos que não conhecem a Doutrina.

Por este motivo, e como uma forma de aprendermos um pouco mais sobre estes temas, nos aventuramos a responder as questões - principalmente o  Alexandre, o Renato e o Ademir - com a colaboração do Paulo Neto. Esperamos que os esclarecimentos sejam úteis a todos e permitam ao Alan dirimir suas duvidas.
Muita Paz,
Os Editores

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1) Como saber se um espírito, ou mesmo uma legião de espíritos, são manifestações autênticas? Não poderiam ser demônios (ou qualquer outra entidade) se fazendo passar por seres bons e iluminados? Kardec se utiliza do critério da unanimidade [O evangelho segundo o espiritismo; Introdução; p.35], ou seja, se vários espíritos dizem a mesma coisa através de diferentes médiuns, em diferentes partes do globo, dá-se um atestado de autenticidade às revelações. Mas, afinal, se o mal pode ser também muito inteligente e procura arquitetar planos para desviar o homem do caminho, como saber se mesmo essa dita unanimidade não faz parte de um plano para nos enganar?
 
Caro amigo, para saber se as manifestações de Espíritos são autênticas ou não, Kardec recomenda muito mais que a prova da unanimidade. Ele nos recomenda a tudo o que ouvirmos submetermos à razão e ao bom senso. Para nos mostrar como utilizar esses critérios, o Codificador escreveu uma obra inteira, qual seja O Livro dos Médiuns. Recomendamos, em especial, os capítulos XXIV, XXVII, XXVIII e XXXI. 

A forma de sabermos se a unanimidade de comunicações sobre um tema faz ou não parte de um plano para nos enganar é, portanto, a análise racional e sensata de cada mensagem. Não basta somente a unanimidade. Há que haver a unanimidade de comunicações aprovadas pela razão e pelo bom senso. O Espiritismo sempre recomenda o que chamamos de "fé raciocinada", que nada mais é do que a atenção consciente, à luz da razão, para aquilo que cremos.
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A mensagem espírita autêntica repete em coro a necessidade da reforma moral dos seres humanos, que a evolução espiritual pede como condição o "amarmos os nossos inimigos com a nós mesmos", de reverenciarmos a figura do Senhor Jesus Cristo como modelo único para o verdadeiro ser humano consciente de sua tarefa no mundo e adorarmos a Deus acima de todos as coisas, além de outros conceitos de relevante valor ético. Segue daí a conclusão de que considerar  a mensagem espírita autêntica  "parte de um plano para nos enganar" é não só absurdo como completamente ilógico. 
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É preciso entender a Doutrina Espírita em seu todo consistente e não como um amontoado de ensinamentos que, tomados isoladamente, possam dar a impressão de serem facilmente contestados. A força da Doutrina Espírita está justamente nessa consistência lógica, na existência de vínculos entre conceitos aparentemente separados mas que, tomados em conjunto e sustentados empiricamente, formam uma rica doutrina que, se for bem desenvolvida, pode dar respostas consistentes e sem contradição com as descobertas da Ciência. 
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A experiência em utilizar os critérios propostos na Codificação nós dá suporte para identificar a verdadeira intenção de um Espírito. Tentaremos usar a própria mensagem que o irmão nos enviou para exemplificar como devemos proceder.
 
 
2) O próprio Jesus não disse: “levantar-se-ão falsos messias e falsos profetas e produzirão sinais formidáveis e prodígios, a ponto de induzir em erro, se fosse possível, até os eleitos” (Mt 24,24-25). Dentro disso, como saber se esta legião de espíritos, esta unanimidade, não são “sinais formidáveis e prodígios” para nos desviar do caminho?
 
Referindo-se aos ensinamentos de Jesus, o sábio rabino Gamaliel afirmou, em defesa dos apóstolos e que muito bem se aplica à Doutrina Espírita, que: ”Quanto ao que está acontecendo agora, dou-lhes um conselho: não se preocupem com esses homens, e os soltem. Porque, se o projeto ou atividade deles é de origem humana, será destruído; mas, se vem de Deus, vocês não conseguirão aniquilá-los. Cuidado para não se meterem contra Deus!...” (Atos 5,38-39). Não se esqueça que Jesus também disse: “Conhece-se a árvore pelos seus frutos” (Lucas 6, 43-45). Assim, se conhece o bom espírita pela sua capacidade de praticar o bem, isto é, pela caridade com que se relaciona com seus irmãos.

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Se Jesus disse que poderão aparecer falsos profetas que produzirão "sinais formidáveis e prodígios", ele, claramente, isto é, sem metáforas nem simbologia, nos disse que esses sinais não são critérios para saber se algo é bom ou não. Ora, outra coisa não nos ensina o Espiritismo! Quando aquilo que é ensinado pelos Espíritos (independentemente de unanimidade, de sinais ou de prodígios) proporcionar conseqüências boas para as pessoas, então é bom. Mas se tivermos dúvidas quanto às conseqüências futuras de uma comunicação, o Espiritismo recomenda que deixemos a mesma “de molho", aguardando que o assunto possa ser melhor estudado, se for verdadeiro, ou que caia no esquecimento, se for falso.

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Com todo respeito, gostaríamos de acrescentar uma reflexão. As frases de Jesus, a nosso ver,  aplicam-se igualmente bem àqueles que, em seu nome, semearam e aos que hoje semeiam o mal e a separação entre as pessoas, àqueles que, em nome da religião, procuram designar-se "eleitos" ou "de posse da herança da salvação" e, também, aos que se escoram uns nos outros por falta de uma fé mais vigorosa, que possa enfrentar as revelações da Ciência, em franca contradição com essa fé. 

Muito mal fazem aos outros e a si mesmo os encarnados que se escoram em interpretações absolutamente literais, anti-históricas dos textos evangélicos para satisfazer e conduzir as massas, extorquindo delas altas somas financeiras e flertando com o poder temporal nas altas esferas do poder constituído, como ontem faziam nas cortes imperiais. Esses são, em nossa opinião, os verdadeiros "falsos profetas", que incendeiam as massas, fazendo irmãos que crêem no mesmo Cristo e que a ele somente deveriam seguir odiarem-se mutuamente, ignorando que, para seguir Jesus, bastaria a eles viver a lei do Amor Universal que o Mestre personifica. 

Não seria muito, portanto, muito mais lógico concluir que os falsos profetas estão na figura daqueles vivos que se auto intitulam representantes de Deus e que, diante de todo o mal que a religião de massa já propagou (lembrando as abundantes evidências históricas - guerra dos 30 anos, cruzadas, conflitos irlandeses, processo de Galileu, inquisição), eles são na verdade "parte do plano para nos enganar" do que colocar a culpa nos Espíritos, com sua mensagem branda e pacífica? Quanto ainda a religião de massa terá que falhar e verter sangue a fim de que a Humanidade se convença quanto a de que lado se encontram, de fato, os falsos profetas? 

3) A doutrina espírita foi revelada (e as obras continuam a ser ditadas) pelos espíritos superiores. No entanto, se observarmos o que ocorre no movimento espírita, notamos que a razão humana sempre prevalece, sempre dá a última palavra. Kardec disse o seguinte: “Não é somente porque veio dos Espíritos que nós e tantos outros nos fizemos adeptos da pluralidade das existências. É porque essa doutrina nos pareceu a mais lógica e porque só ela resolve questões até então insolúveis. Ainda quando fosse da autoria de um simples mortal, tê-la-íamos igualmente adotado e não houvéramos hesitado um segundo mais em renunciar às idéias que esposávamos [O Livro dos Espíritos; p.152; §222]. Se é assim, qual a utilidade dos espíritos superiores? Qual a importância da fonte das mensagens, se sempre ficamos com aquilo que, humanamente, achamos mais lógico? Afinal: aceitamos as revelações pela autoridade dos espíritos ou pela lógica do conteúdo? 
Definitivamente, e assim nos ensinou Kardec, aceitamos as revelações pela lógica do conteúdo. E é pela lógica do conteúdo que sabemos que elas vieram de Espíritos superiores. Mais uma vez, remetemos o irmão ao O Livro dos Médiuns pois ali está claro o porque de sabermos que os Espíritos que ditaram a Codificação eram de elevado saber e bondade.

Na seqüência da mencionada fala de Kardec, lemos: “Do mesmo modo nós a teríamos repelido, embora vinda dos Espíritos, se nos parecesse contrária à razão, como repelimos tantas outras, porque sabemos por experiência que não é preciso aceitar cegamente tudo o que vem deles, como aquilo que vem da parte dos homens”. Vê-se, portanto, que não há fanatismo cego que embota a nossa visão para aceitar tudo só porque vem de Espíritos, como, infelizmente, fazem muitos em relação à Bíblia.

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Uma utilidade primeira e fundamental das comunicações é a certeza da sobrevivência da alma após a morte do corpo físico. Jamais teríamos essa certeza somente pela razão e raciocínio. Por mais lógica que fosse a idéia da sobrevivência da alma e a conservação de sua identidade, isso seria apenas "teoria". Se a Doutrina Espírita fosse apenas mais uma doutrina teórica, como saberíamos se ela, de fato, responde às questões sobre a vida e a morte que eram consideradas insolúveis antes que ela fosse revelada à Humanidade? 

Há que ser levado em conta, igualmente, que os Espíritos, estando separados da matéria e quando dispõem de autorização para tanto, estão em maiores condições, como observadores privilegiados, de nos repassar informações  ou desenvolver conceitos relacionados às questões espirituais do ser humano e de sua relação com o mundo espiritual. Mas a autoridade da Doutrina, é bom que fique claro, se liga ao todo consistente, à lógica entre seus conceitos que não se consegue enfraquecer isoladamente. Por isso é que Kardec descreve o fato de que a adoção da idéia da reencarnação não se deveu à autoridade deste ou daquele Espírito.

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No tocante à utilidade dos Espíritos superiores, perguntamos: qual é a utilidade de um professor na vida dos alunos ou a de um orientador na vida de um recém-formado profissional? Desde que somos todos "alunos" na "escola da vida", aprendendo lições de amor e estudo e, desde que os Espíritos nada mais são que os homens e mulheres despojados do corpo físico, a utilidade dos Espíritos superiores é orientar-nos em nossa caminhada e aprendizado da mesma forma que o professor na escola comum orienta e conduz o aprendizado dos alunos; da mesma forma que orientadores aconselham e dividem suas experiências com os mais novatos. A "especialidade" dos Espíritos superiores é o bem-comum, é a prática da caridade em todo os seus aspectos.
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A Doutrina Espírita, tal como a ciência, é uma doutrina que deve primar pela lógica, e esse é um segundo ponto a respeito do critério da concordância. Quando a mensagem que nos chega contém erros lógicos, é sinal de que o comunicante tem falha de compreensão ou intenção, devendo a mesma ser "rejeitada". A concordância formada nos últimos 100 anos a respeito dos conceitos morais é tamanha e em tão bom acordo com as máximas morais evangélicas, que  não temos dúvida alguma da excelente intenção dos Espíritos Superiores em nos querer o bem e de estarem eles, muito mais que os falsos profetas (materiais) da questão 2, em  condição muito melhor de nos orientarem espiritualmente. 

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Ainda sobre a questão da fé raciocinada, isto é, da importância de se analisar, questionar e entender o valor de cada ensinamento, citaremos uma passagem evangélica conhecida como “Jesus e o Centurião”: 

"Tendo Jesus entrado em Cafarnaum, chegou-se a ele um centurião e rogou-lhe: Senhor, o meu criado jaz em casa paralítico, padecendo horrivelmente. Disse-lhe: eu irei curá-lo. Mas o centurião respondeu: Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; mas dize somente uma palavra e o meu criado há de sarar. Porque também eu sou homem sujeito à autoridade e tenho soldados às minhas ordens, e digo a um: vai ali, e ele vai; a outro: vem cá, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz. Jesus ouvindo isto admirou-se e disse aos que o acompanhavam: Em verdade vos afirmo que nem mesmo em Israel encontrei tamanha fé. E digo-vos que muitos virão do Oriente e do Ocidente, e hão de sentar-se com Abraão, Isaac e Jacó no Reino dos Céus; mas os filhos deste reino serão lançados nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes. Então disse Jesus ao centurião: Vai-te, e como crêste, assim te seja feito. E naquela mesma hora sarou o criado." (Mateus, VIII, 5-13.) 


Nesta passagem vemos que o centurião fez o seguinte RACIOCÍNIO:  "Porque também eu sou homem sujeito à autoridade e tenho soldados às minhas ordens, e digo a um: vai ali, e ele vai; a outro: vem cá, e ele vem; e ao meu servo: faze isto, e ele o faz." Não pode haver dúvida de que isso é um raciocínio. O centurião disse isso após Jesus ter dito que iria curar o seu criado e ele ter respondido que não era digno de receber o Mestre em sua casa. Mas o que este raciocínio quis dizer? O centurião quis dizer que sabia perfeitamente que, da mesma forma como ele tinha soldados às suas ordens, Jesus tinha autoridade para enviar mensageiros espirituais para curar o seu criado. Vemos então que o centurião fez uma ANALOGIA, fruto de um RACIOCÍNIO. O que queremos destacar é que Jesus disse com todas as letras que "Em verdade vos afirmo que NEM MESMO EM ISRAEL ENCONTREI TAMANHA FÉ". Portanto, a maior fé que Jesus encontrou não foi a dos seus discípulos nem a de Maria sua mãe, mas a de um homem que nada mais fez do que senão usar a razão. 

O centurião tinha fé, confiança, na ajuda que Jesus podia trazer e, longe de agir como Tomé (ver e tocar para crer), ele entendia racionalmente como Jesus podia ajudá-lo. É essa fé raciocinada, essa "tamanha fé" que não existia nem em Israel, que o Espiritismo ensina e orienta a ter.

4) Por que usar sempre a lógica da “justiça de Deus” para explicar a reencarnação? A reencarnação é tratada dentro do espiritismo como uma peça lógica para preencher a lacuna da justiça, para explicar, por exemplo, porque alguns nascem pobres e/ou doentes, outros ricos e/ou saudáveis. Mas essa é a única possibilidade de explicação justa e lógica? O que é justiça? Quem somos nós para avaliar a justiça de Deus? Por que temos necessidade de saber se esse ou aquele fato é justo e simplesmente não confiamos em Deus?

Nossa compreensão das leis de Deus é certamente limitada pelo nosso estágio evolutivo. No entanto, uma coisa sabemos: que qualquer virtude que possa ser atribuída a Deus há de ser mais perfeita que aquela que existe na Terra. Ora, um pai justo dá privilégio a um filho em prejuízo de outro? Certamente que não. Se um pai coloca um filho no melhor colégio, o veste com as melhores roupas e o alimenta com as mais requintadas iguarias, estará sendo justo se  colocar o outro no pior, vesti-lo com farrapos e dar-lhe a comida que sobra na mesa? Basta olhar para a sociedade humana e vermos que não pode haver justiça em uma única existência. A reencarnação pode não ser a única explicação lógica para uns nascerem assim e outros, assado, mas é a única que foi apresentada até agora. Sinceramente, você conhece alguma outra para nos apresentar? 

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A reencarnação é a única forma de verificarmos que Deus não é somente justo mas, também, bom e sábio. Mas a reencarnação não possui como base apenas tais conceitos. A reencarnação tem também como base a idéia de progresso. Segundo os Espíritos superiores, e isso é bastante racional, o nosso objetivo final é o progresso tanto em amor quanto em conhecimento. Como atingir grau máximo em uma só encarnação? Precisamos de muitas encarnações para aprender uma fração muito pequena das coisas. 

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Você nos pergunta “O que é justiça?”. A noção de justiça parece ser inata no ser humano. Experimente distribuir diferentemente brinquedos ou guloseimas entre as crianças (mesmo com menos de 2 anos de idade) para notar como a mente infantil percebe a incoerência de justiça. A Justiça é um princípio da vida. Na natureza nada existiria se não houvesse justiça. Por exemplo, se os elementos químicos parassem de obedecer às leis químicas e bioquímicas, não estaríamos aqui debatendo esse assunto. Se os corpos celestes fizessem "greve" contra as leis da gravitação, nem imaginamos o que ocorreria, em seguida. O que acontece quando as pessoas desrespeitam as leis da sociedade? A vida se torna algo muito difícil e, se os corpos da natureza não tem livre-arbítrio para fugir às suas leis, os seres humanos criaram tribunais onde as pessoas são julgadas com relação aos atos em desacordo com a lei.

E, com relação a Deus? Deus não criou leis para o universo? Deus só criou leis para a matéria? O que fizeram Moisés, Jesus e muitos outros senão traduzir em linguagem e exemplos humanos a Lei Divina? Se existe Lei, então existe Justiça. Logicamente que nossas imperfeições impedem que a compreendamos de forma absoluta. Mas ela existe. E isso é tão patente que em todos os tempos as religiões sempre atribuíram valores de punição e recompensa futuras pelos atos cometidos. Ainda hoje, a idéia das penas eternas ou do paraíso eterno nada mais é do que aplicação da Justiça. Já imaginou se quem faz o bem e acredita em Deus vai para o inferno e quem peca vai para o céu? Cadê a justiça? Perguntaríamos! 

Se somos verdadeiramente justos, devemos punir conforme a gravidade do delito e não o contrário. Agora, é sempre possível imaginar que Deus puniria o justo e presentearia o que faz pouco ou nenhum caso da lei. A maior contradição que existe à noção de justiça (Divina) é a idéia de inferno que pune com rigor absoluto (eterno) uma falha finita e limitada no tempo. Na forma como é ensinada é uma idéia falsa que afasta muitos da religião, pois experimentalmente sabemos que não existe nada como uma região física de suplícios eternos, o que existe é a sobrevivência do ser além da morte e seu suplício íntimo, vitimado talvez, por uma consciência culpada, de difícil reconciliação imediata com o que é certo. Mas esse suplício está longe de ser eterno e faz parte da experiência de vida dessa alma antes de angariar novos vôos em direção a melhor compreensão das leis morais que regulam a relação entre os seres humanos e deles com Deus.  


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A sua pergunta "Quem somos nós para avaliar a justiça de Deus?" possui um erro lógico fundamental. Ninguém tem dúvida de que somos criaturas ainda longe da perfeição e que não podemos nos comparar a Deus, Inteligência Suprema, Causa Primária de Todas as Coisas. Mas dentro de nossa posição evolutiva relativa, temos o dever de avaliar o que é justo ou não, que está intimamente ligado ao que é bom ou não, para nós e para nosso próximo. Como vamos pautar nossas ações se não pudermos avaliá-las? Como vamos ser responsáveis por atos que não avaliamos e, por conseguinte, como vamos para o "céu" ou para o "inferno" se não temos condições de avaliar a justiça de Deus? Como pode ver, amigo, Deus nos deu a inteligência para a usarmos não somente na transformação material do nosso planeta, mas também para compreendermos alguns de seus desígnios. 

Note, ainda, que Jesus mesmo fez avaliações da justiça de Deus. Quando lemos a parábola do bom samaritano, por exemplo, vemos que Jesus está nos dando um exemplo de como avaliar a justiça de Deus. Se nossos atos forem bons para com o próximo, independentemente da sua crença ou raça, estarmos de acordo com a Justiça Divina. Jesus também afirmou que "a cada um segundo suas obras" (Mateus 16, 27) e não “segundo suas crenças”. Essa é uma afirmativa clara e não simbólica.
 
5) Por exemplo, temos, no mundo animal, um cachorro que nasce sem dono e é obrigado a virar latas de lixo para obter comida e vive se coçando, cheio de sarna e pulgas. Temos outro que é “de raça”, é adquirido por uma família rica que o trata melhor do que muitos seres humanos são tratados. E nem por isso dizemos que o cachorrinho pobre fez alguma coisa na sua vida anterior para merecer tudo o que vive na vida presente. Por que, no caso do ser humano, temos que buscar explicações passadas? 
 
A sua pergunta é muito interessante e não pode ser respondida sem alguns raciocínios preliminares.
 
A justiça humana, com todas as suas falhas, somente imputa culpa aos seres humanos que têm consciência plena dos atos que cometeram contra as leis. A justiça de Deus, da qual a humana não é mais que pálida e imperfeita emulação, não poderia ser menos justa. Então, o que ela prevê? Que almas que ainda não tenham plena consciência não sejam sujeitas a expiações.
 
Ora, como sabemos que os cães não têm consciência plena? Porque falta a eles, o que é evidente pela observação de seu comportamento, aquilo que os psicólogos denominam de “teoria da mente”, isto é, a capacidade de compreender os estados mentais (sentimentos, desejos, crenças e intenções) deles mesmos e dos outros seres com que interage - cães e humanos, em particular - e, assim, poderem agir em conformidade com tal compreensão. 
 
Todos sabemos que os cães são profundamente fiéis aos seus donos, isto é, àqueles seres que os alimentam e dão abrigo. No entanto, muito nos surpreende, quando não temos pleno conhecimento do que vemos, quando um cão é maltratado pelo dono e, mesmo assim, continua a amá-lo e defendê-lo. Por que isso ocorre? Porque, por ele não possuir a “teoria da mente”, ele não atribui aos maus tratos que recebe o valor de um ato intencional do seu dono. A rigor, ele sequer tem consciência de que seu dono tem consciência do que faz e do que não faz. Desse modo, ele não taxa o mesmo como malvado ou cruel. O cão age, nesse caso, da mesma forma que um humano age quando tem uma séria perturbação neurológica, como o autismo. Se um humano assim comete um crime, ele não vai para a cadeia mas para o manicômio judiciário, pois ele é considerado não responsável - conscientemente - pelo ato cometido.
 
Como os cães não têm a “teoria da mente”, eles não têm a consciência plena. Não tendo a consciência plena, não são responsáveis pelos seus atos e, não sendo responsáveis pelos seus atos, não estão sujeitos a expiações.
 
Os cães, portanto, assim como outros animais que já atingiram o patamar da individualização e estão com a consciência em desenvolvimento - alguns, como o cachorro, já tendo inclusive conquistado uma consciência do eu embrionária - são submetidos exclusivamente a provas. Essas provas podem parecer expiações para nós porque expiações e provas não têm diferença alguma em sua forma, mas apenas em sua motivação. Uma pessoa pode ter nascido pobre porque está em expiação em razão de ter usado mal o dinheiro em outra vida, por exemplo, ou ter assim nascido por estar em prova, devido a sempre ter usado bem o dinheiro quando o tinha mas nunca ter sido submetida, no seu estágio de evolução, à prova da pobreza. Pode nascer doente, fraca e pobre para testar sua fibra, sua fé e sua força de vontade ou, então, para experimentar os problemas que em outra vida faziam com que ela debochasse e ridicularizasse dos outros. 
 
Como vê, ninguém pode dizer quando as circunstâncias de uma vida constituem provas ou expiações. Só temos certeza que as dos cães são provas porque eles não têm a consciência plena no nível que nós humanos entendemos como plena. Logo, buscar nas mazelas humanas uma explicação na Lei da Causalidade faz todo sentido, o mesmo não se dando, de modo algum, com respeito às provações pelas quais passam os animais.
 
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Por outro lado, você tem toda a razão em questionar o excesso de alguns irmãos espíritas, ainda incipientes no estudo da Doutrina, em atribuir todas as suas mazelas ao passado ou aos obsessores. Muitas vezes, como você pode ter lido em O Evangelho Segundo o Espiritismo, as causas de nossas aflições residem em atitudes erradas cometidas nesta encarnação mesma. 
 
Quando, entretanto, não encontramos em nossos atos da vida presente a razão para determinados acontecimentos ou circunstâncias de vida, existe boa chance dessas razões residirem no passado ou serem provações aceitas antes de reencarnarmos.
 
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Ë interessante que, para as religiões de massa, sua questão sequer faz sentido. Uma vez que os animais não têm alma nem consciência, eles "não serão salvos" (como podem decidir pela salvação se não tem consciência?), eles podem ser mortos arbitrariamente - dai o gosto pela carne -  seu sofrimento não conta tal como suas vidas. Percebe-se a franca diferença entre essa postura e a de quem segue a Doutrina Espírita: para ela os animais são também seres imortais, nossos companheiros na marcha evolutiva. Devemos a eles todo o respeito e consideração, sendo nossa a obrigação protegê-los, minimizar seus sofrimentos e servir-lhes de exemplo de conduta.
 
6) Se alguém nasce pobre, isso pode ser uma desvantagem, mas dentro da justiça de Deus essa pessoa não poderia ter alguma vantagem que compensasse esse problema? E o mesmo não poderia acontecer com o rico? O próprio Jesus não disse que é mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que um rico alcançar o reino dos céus? Se o ser humano pudesse avaliar um ser humano por completo, ele não enxergaria a justiça divina, sem precisar recorrer a explicações passadas?
 
Parece que você não está sendo coerente, pois acabou de dizer que não somos capazes de avaliar a justiça de Deus e agora vem estabelecendo parâmetro dentro da justiça de Deus. Mas, como já dissemos, a simples observação da vida das pessoas não nos permite saber se estão neste ou naquele momento em prova ou expiação. As dificuldades podem nos fazer agradecer a Deus ou imprecar contra Ele, dependendo de nosso estágio evolutivo. Voltamos a afirmar que não sabemos de explicação melhor e mais completa que a que nos fornece a Reencarnação, a Evolução e a Causalidade. Essas três leis precisam ser entendidas com profundidade. Não se trata apenas de aceitar existências passadas.
 
A Psiquiatria identifica indivíduos com idiotia, cujo significado é: “atraso intelectual profundo, caracterizado por ausência de linguagem e nível mental inferior ao da idade normal de três anos, e muitas vezes acompanhado de malformações físicas”. Daí lhe perguntamos: se a vida é única, qual a utilidade da vida para um Espírito com um nível mental inferior? Ele, ao morrer, não poderá ir para o “Céu” porque não fez o bem para o merecê-lo, mas também o “Inferno” não pode ser o seu destino, já que nenhum mal praticou? E aí, como explicar esse paradoxo? Estarão, todos os “desafortunados” que nascem com idiotia, destinados ao “purgatório” para toda a eternidade?
 
A interpretação que você propõe está em desacordo com a Justiça humana, quanto mais com a Divina. A Justiça manda que todos tenham chances iguais e oportunidades iguais. Dar vantagens a quem sofre mais e desvantagens a quem sofre menos parece ser justo mas não é. Há ricos que desejariam ter nascido pobres e vice-versa. Como avaliar os méritos de alguém se as condições são diferentes. Se é difícil a um rico entrar no reino dos céus, então devemos concluir que Deus criou uma armadilha para aqueles que nascessem ricos? O rico que conseguisse entrar no reino dos céus teria muito mais mérito do que o pobre que também foi para o reino dos céus, pois para o rico isso foi mais difícil. Portanto, sua interpretação está em contradição com a razão. 

A interpretação espírita para essas palavras de Jesus é muito mais racional e demonstra a grande sabedoria e a bondade do Criador. Jesus quis dizer que o rico possui mais dificuldades de praticar o bem ao próximo porque a riqueza excita vícios e paixões que desviam as pessoas do objetivo maior da vida. A riqueza é, portanto, uma provação das mais difíceis. Mas se um Espírito falhar, ele poderá nascer de novo para reparar seus erros, aprender a dar valor passando por dificuldades financeiras, etc.


7) Se o esquecimento das vidas passadas é colocado por Deus com uma finalidade bem específica, porque o ser humano procura saber o que aconteceu? Por que a procura por terapias de Vidas Passadas? E porque a necessidade de se comunicar com pessoas queridas que já faleceram? Se todos são obrigados a aceitar serenamente a separação provocada pela morte como um desígnio de Deus, porque aos espíritas caberia o privilégio de se comunicar com amigos e parentes? Não seria isso uma forma de revolta humana contra a vontade de Deus?
 
Fica-nos claro, mais uma vez, que a sua leitura das obras básicas do Espiritismo, se houve, não foi atenta. O Espiritismo não estimula a busca por saber o que aconteceu em vidas anteriores. A Terapia de Vidas Passadas, também chamada de Terapia Transpessoal, é um ramo da psicologia com objetivos determinados e nobres e que utiliza o conhecimento sobre a lei natural da reencarnação para ajudar as pessoas com problemas sérios de comportamento, como por exemplo, os variados tipos de fobias. Inclusive, é bom lembrar, a esmagadora maioria dos que a utilizam não são Espíritas, mas pessoas de outras correntes religiosas, que comprovaram na prática que pacientes foram curados por esse processo. Assim, a TVP não é para saciar a curiosidade das pessoas em saber o que foram em vidas passadas, como nos leva a crer a sua fala.
 
Os Espíritos superiores não saem por aí dizendo que é para a gente buscar saber o que fomos e fizemos no passado. Entretanto, os registros feitos com essa técnica são indícios científicos da reencarnação. Dia chegará em que essas pesquisas mostrarão clara e  certamente que a reencarnação é um fato como a Terra girar em torno do Sol e, será, que os religiosos de certas crenças vão continuar repetindo o antigo erro da igreja em mandar queimar os que diziam em contrário? 
 
Muitas pessoas têm um alto grau de curiosidade a respeito do passado. Por isso procuram inteirar-se de suas vidas anteriores, embora isso - se de fato acontecer positivamente -  possa ter efeitos deletérios na vida presente. O esquecimento do passado faz parte do processo de evolução espiritual como condição de reiniciar o aprendizado. Esse esquecimento diz respeito ao conhecimento específico e nunca às tendências e gostos, à inteligência e outros fatores, embora o corpo e disposições genéticas possam modificar ou impedir (nunca criar) a manifestação de certas tendências. Nossa consciência permanece a mesma, muito embora tenhamos nos esquecido completamente de nossa infância, das situações que vivemos na época, dos amigos que tivemos. Mas sabemos que somos conseqüência daquilo que vivemos.
 
A Terapia Transpessoal, portanto, é uma técnica médica e jamais será utilizada por Espíritas estudiosos a não ser que por algum motivo sério que motive sua ida a um psicólogo. Se o motivo de uma TVP for sério, o resultado será benéfico, se for leviano, será nulo.
 
Aliás, tudo o que ocorre na criação acontece porque os desígnios divinos assim o permitem. Se nos é concedida a oportunidade de aprender para ampliar nossos conhecimentos ou refinar o que anteriormente havíamos aprendido, é porque isso é bom para nossa evolução. Do mesmo modo, se nos for permitido lembrar de um ou outro evento no passado, seja de forma espontânea ou com a ajuda de um terapeuta, podemos estar certos de que tal ocorrerá somente se for para o nosso próprio bem e se atender a uma real necessidade nossa. Por acaso, o fato de nascermos ignorantes faz com que nossa mãe esteja cometendo um ato  “de revolta humana contra a vontade de Deus?” ao nos colocar na escola?
 
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Interessante uma passagem do livro de Jó, que diz: “Consulte as gerações passadas e observe a experiência de nossos antepassados. Nós nascemos ontem e não sabemos nada. Nossos dias são como sombra no chão. Os nossos antepassados, no entanto, vão instruí-lo e falar a você com palavras tiradas da experiência deles”. (Jó 8, 8-10). Se naquela época não existiam livros escritos onde os antepassados pudessem colocar suas experiências, qual é o sentido dessa recomendação? É fácil para quem sabe da realidade da comunicação com os mortos. Eles aparecerão pessoalmente para falar de suas experiências para que possamos nos aproveitar delas. É o que acontece com os Espíritos que, vindo com a permissão de Deus, têm como missão nos instruir com suas experiências.
 
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Veja só, a necessidade de se comunicar com pessoas queridas falecidas é a mesma que temos em nos comunicar com pessoas queridas que se mudaram para longe de nós. O Espiritismo nos orienta a aceitar com serenidade a separação causada pela morte. Mas, mais uma vez, notamos que sua leitura das obras básicas não foi atenta. Isso nunca foi nem será privilégio dos espíritas. Mas é natural que pessoas que seguem crenças que condenam a comunicação com os Espíritos não recebam notícias de seus entes queridos falecidos. Se bem que não existe ser humano que não tenha "sonhado" que esteve com um parente ou amigo falecido. O Espiritismo é a única doutrina que explica isso de forma muito natural, mais natural até do que as complicadas teorias psicológicas. 
 
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Estranhamos você sugerir que o desejo de saber notícias dos entes queridos é um sentimento de revolta contra Deus. Não existe pessoa em sã consciência que não se preocupe em saber se o filho(a) ou pai(mãe) ou qualquer ente querido falecido está bem. Expressões como “Deus o guarde”, “Descanse em paz” revelam esse sentimento nas pessoas. Portanto, o desejo de saber notícias nem sempre significa revolta. Existem os que se revoltam pelo falecimento de pessoas queridas, sim. Mas o Espiritismo, pelo contrário, ajuda a aceitar o fato, ao mostrar que a separação é passageira. Nesse aspecto, o Espiritismo ajuda as pessoas a não se revoltarem contra os desígnios divinos. O ato de saber notícias nem de longe constitui desrespeito ou revolta contra Deus e, muito pelo contrário, revela a confiança e a fé na Paternidade divina e na certeza da vida futura.
 
Comunicarmo-nos com nossos parentes mais amados é uma maneira de conseguirmos consolo. Para o Espírita sincero (ou qualquer indivíduo) que aceite naturalmente a imposição da morte, não há realmente necessidade de procurar a conversa com os desencarnados. Mas essa conversa se revelou altamente iluminativa, uma vez que dela se originou uma nova doutrina capaz de trazer novas luzes na maneira como nos relacionamos com Deus, reafirmando a doutrina moral de Jesus e, mais recentemente, noções não religiosas da necessidade de nos bem relacionarmos socialmente, de que a felicidade nossa liga-se diretamente à felicidade que pudermos proporcionar aos que nos cercam.
 
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Os Espíritas não tem nenhum privilégio em relação à comunicação com os Espíritos. A mediunidade é a faculdade que torna possível a comunicação, não sendo ela privilégio de nenhuma religião, cultura, sociedade ou grupo. A Doutrina Espírita chamou a atenção para a importância dessas comunicações, compilando e expondo algumas faces do mundo espiritual que sempre existiu muito antes de a Terra ter existido. Essa é a principal contribuição do Espiritismo, o de fornecer evidências práticas - chamando a atenção para certos fenômenos - a favor da sobrevivência da alma. 
 
Não existe, ademais, qualquer tipo de privilégio diante de Deus, já que “Deus não faz acepção de pessoas” (Atos 10, 34), nem mesmo o da salvação por pertencer a determinada igreja, daí a comunicação com os mortos é dada a qualquer um. O que normalmente acontece é que nas igrejas tradicionais cristãs o Espírito manifestante é denominado de “Espírito Santo”, na tradição Judaica, diziam ser o próprio Deus que se manifestava, em outras tradições as comunicações vinham de anjos, santos ou de outras entidades em que acreditavam. A sua pergunta ”...porque aos espíritas caberia o privilégio de se comunicar com amigos e parentes?” demonstra que você, caro amigo, não só tem pouco estudo da Doutrina Espírita como da Bíblia e da literatura religiosa e mística em geral.

 
8) Kardec usa extensamente trechos da bíblia para apoiar o espiritismo, conferindo, com esta atitude, autoridade aos textos bíblicos. Afinal, seria absurdo ele escrever um livro inteiro que foi o Evangelho Segundo o Espiritismo, baseado em textos de conteúdo duvidoso. No entanto, por que são analisados apenas trechos que reforçam o espiritismo? Por que considerar alguns textos como dignos de citação e outros não?
 
Mais uma vez, nos reportamos aos critérios que nos foram indicados por Kardec: Razão e Bom-senso. Os diversos livros da Bíblia sofreram maior ou menor adulteração. Recomendamos a leitura de “A Sabedoria do Evangelho” de Carlos Torres Pastorino, “Analisando as Traduções Bíblicas”, de Severino Celestino da Silva e “A Bíblia à Moda da Casa” de Paulo da Silva Neto Sobrinho. São excelentes obras para sabermos distinguir o que deve ser entendido e aceito do que se lê na Bíblia. E, podemos dizer, que seguimos estritamente a Bíblia: “Examinai tudo retende o que é bom (1Ts 5, 21).
 
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De onde você concluiu que Kardec tenha escolhido temas que "reforçam o espiritismo"? Trechos em que o Mestre fala da caridade, do amor a nossos irmãos, da obediência às leis de Deus, por acaso são trechos que “reforçam o espiritismo”? Kardec se ateve aos temas essenciais com relação à mensagem de Jesus. Kardec mostrou que os ensinamentos de Jesus não estão em desacordo com a mensagem dos Espíritos superiores. Kardec até prestou uma importante "ajuda" com o capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo intitulado "Moral Estranha". Se consideradas ao pé da letra, algumas palavras de Jesus seriam completamente contraditórias com sua mensagem de amor. Mas, mais uma vez, a razão entra em cena para mostrar o sentido relativo daquelas palavras. Neste capítulo, Kardec não reforça apenas o Espiritismo, mas todo o Cristianismo ao mostrar o sentido mais racional para algumas palavras de Jesus que outras crenças cristãs não têm como explicar.
 
Por outro lado, existem muitas outras passagens cuja interpretação à luz da Doutrina Espírita é bastante esclarecedora e "reforça" o Espiritismo. Por exemplo, a menção que fizemos sobre a conversa do centurião com Jesus não foi aproveitada por Kardec. No entanto ela "reforça" e muito um dos pontos básicos do Espiritismo, qual seja, a fé raciocinada.
 
 
9) Por que é tão comum no meio espírita o discurso de que “a bíblia foi escrita por homens, e portanto está sujeita a falhas...” Ou, então, “o conteúdo da bíblia está relacionado ao contexto da época em que ela foi escrita”. Ou ainda “houve problemas de tradução” e “houve interesses humanos que adulteraram o conteúdo da bíblia”. Ora, se há tantos argumentos que colocam em dúvida a autenticidade da bíblia, porque Kardec utilizou trechos bíblicos para mostrar que os ensinamentos dos Espíritos estão presentes nas escrituras?
 
Você pergunta o por que de Kardec ter utilizado trechos da Bíblia. Kardec usou trechos da Bíblia porque falava a uma comunidade cristã e era inspirado pelo próprio Jesus e por fiéis seguidores de Jesus. Ademais, como poderia ele esclarecer questões religiosas aos cristãos sem utilizar a Bíblia que eles conheciam? As questões sobre a vida após a morte sempre pertenceram ao campo de estudos das religiões. A Bíblia, nesse aspecto, tem grande influência e respeito no mundo ocidental, mesmo sabendo dessas alterações intencionais e erros devido a tradução. Kardec, ao contrário do que as pessoas que não estudam o Espiritismo dizem, buscou mostrar que o Espiritismo não estava em desacordo com os ensinamentos cristãos essenciais e que, mesmo diante dessas alterações e erros, era possível encontrar verdades espíritas em muitos de seus trechos.
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Não só a Bíblia como toda e qualquer obra escrita em qualquer tradição cultural tem que ser lida tendo em mente o contexto em que foi escrita. Essa preocupação é básica para qualquer estudioso, seja um médico, um físico, um geógrafo, um economista ou um profissional de qualquer especialidade. Por que deveria ser diferente no caso de obras religiosas? É evidente que não é. 
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Com relação aos erros de tradução e interesses humanos que distorceram as escrituras, sugerimos que o irmão estude as obras que citamos acima. A esse propósito, é bom que se diga que o discurso sobre os erros e falhas não é de origem espírita. Historiadores do mundo inteiro podem explicar as razões pelas quais a Bíblia contém alterações de origem tanto lingüística (quando se faz traduções de uma língua para outra) quanto de origem proposital (quando existem interesses por parte dos poderosos). 
 

10) Poder-se-ia dizer que Kardec selecionou apenas os textos da bíblia relacionados à moralidade. Ele mesmo diz isso na introdução do Evangelho Segundo o Espiritismo (p.25-26) “essa parte [moral evangélica] será objeto exclusivo desta obra”. No entanto, no capítulo 3, ele fala sobre pluralidade dos mundos habitados, no capítulo 4 ele fala sobre reencarnação, no capítulo 6 ele fala sobre o “consolador prometido”.  Ou seja, ele não se detém exclusivamente na moralidade. Por quê?
 
Realmente o Codificador não se deteve apenas nos ensinamentos morais e a introdução diz que tal se daria. Ë bom lembrar, porém, que a introdução foi obra de Kardec e não dos Espíritos. Obra de um único Espírito (Kardec) ela própria, a Introdução, não conta com a chancela do ensinamento universal dos Espíritos. Kardec, quando comenta ou introduz qualquer assunto nas obras da Codificação, deixa bem claro que é ele que está falando. E em nenhum lugar ele se disse diferente ou mais especial que qualquer Espírito, encarnado ou não. Logo, tudo o que ele, Kardec, escreveu não faz parte dos ensinamentos dos Espíritos, sendo apenas o que são, comentários ou introduções pessoais suas. Pareceres de um Espírito singularmente sábio, sem dúvida, mas de um único Espírito.
 
Apesar do que acabamos de dizer, ainda assim o amigo se engana profundamente nesta questão! Cada capítulo que você citou possui discussões de extrema importância para o aspecto moral dos ensinamentos de Jesus. Vejamos:
i) Ao discutir a pluralidade dos mundos habitados, Kardec mostrou que o destino do ser humano é o progresso espiritual e que todos os seres evoluem. Não estamos destinados a ficar para sempre em nosso planetinha pois o Universo abriga inúmeros mundos onde os Espíritos continuam seu progresso em situações inimagináveis. Essa idéia nos ajuda a suportar os problemas cotidianos que, perto da grandeza que nos aguarda, se tornam pequenos contratempos que podemos superar. O que é uma vida difícil perto das oportunidades que a imortalidade nos oferece? O que é um vício perto das alegrias que nos aguardam no futuro? Isso nos ajuda sim a sentir mais força moral contra nossas inúmeras fraquezas.
 
 ii) A reencarnação, como mencionado anteriormente, revela a bondade e justiça do Criador. Ao saber que podemos reencarnar para cumprir responsabilidades abandonadas por nós, nos motivamos a vivenciá-las hoje para que, pelo contrário, tenhamos um futuro mais produtivo. A certeza da sobrevivência da alma e da possibilidade de "nascer de novo" nos dá forças para empreendermos nossa reforma íntima.

iii) O Espiritismo é com certeza o Consolador Prometido. Isto pois ele ajuda as pessoas a não se revoltarem com Deus quando os entes queridos desencarnam. Evitando a revolta, o Espiritismo asserena os corações e os enche de motivação para que se tornem pessoas boas para merecerem o reencontro futuro pois também sabemos que se nos entregamos à revolta, ao desânimo e aos vícios, nos afastaremos dos entes queridos. Portanto, o aspecto consolador da Doutrina Espírita fortalece-nos para a vivência dos ensinamentos morais.
Como se vê, caro amigo, Kardec foi muito mais sábio do que a gente imagina. Como já explicamos, o Espiritismo, quando visto sob o conjunto de seus princípios, demonstra uma forte consistência e coerência que o torna uma Doutrina muito sólida.

11) Se Jesus é o modelo e ele próprio se referia ao antigo testamento, porque o desqualificamos como “obra imperfeita escrita por seres humanos”?
 
Por um lado, porque Jesus sabia que a essência dos ensinamentos da Torah - assim como os de qualquer outra religião tradicional, diga-se de passagem - são mais que suficientes para levar qualquer homem à perfeição passível de se conquistar na Terra. Não vinha ele, portanto, para mudar a Lei mas para ensinar aos homens como melhor cumpri-la. Por outro lado, Jesus falava aos Judeus e tinha, por isso mesmo, que buscar nos livros sagrados dos Judeus a essência pura que havia escondida atrás dos relatos históricos, das tradições e dos rituais que nada acrescentavam.
 
Se o Antigo Testamento fosse realmente todo ele de revelação divina, não poderia ser modificado, pois se isso acontecesse implicaria em aceitar que Deus tivesse revelado algo imperfeito. Mas Jesus, em várias oportunidades, revogou leis do Antigo Testamento, é só ver as passagens em que Ele diz: “aprendeste o que foi dito, eu, porém vos digo”. Poderíamos sustentar a história de Adão e Eva como sendo o primeiro casal humano? Conseguiríamos explicar que mulher foi aquela que Caim encontrou e que povo é aquele para quem fundou uma cidade, fatos acontecidos quando vai para uma outra região após matar seu irmão Abel, filhos únicos do primeiro casal? A Terra ainda é o centro do Universo? O dilúvio universal foi fato acontecido, ou lenda copiada de outros povos?
 
O fato de considerarmos o Antigo e Novo testamentos obras que sofreram interferências e equívocos devido à traduções, não significa que elas sejam "desqualificadas". O fato de Kardec não estudá-las formalmente não significa que ele as desrespeitava. Esse é um engano muito sério. Um estudo atento ao Espiritismo mostra que Kardec não queria que ele se tornasse outra religião. Kardec desejava que o Espiritismo levasse as pessoas de volta para a vivência dos ensinamentos de Jesus. Mas infelizmente a ignorância ainda vai continuar a fazer essa injustiça com Kardec. 
 
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Arriscamos a expor a seguinte opinião: Se Kardec tivesse vivido um pouco mais, provavelmente ele teria estudado o Antigo Testamento para estudar os aspectos espíritas do mesmo. O Centro Espírita Allan Kardec de Campinas, SP, possui um curso sobre Antigo e Novo testamento à luz do Espiritismo. Eles possuem um livro didático sobre esses estudos. Citamos isso para mostrar a você que o movimento espírita na atualidade, como em outros tempos, respeita as obras antigas de todas as religiões. 
 
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O Espiritismo é a única doutrina ocidental que não se considera a única que salvará ou libertará do mal as pessoas. Se a cada um será dado segundo as obras e se mesmo um samaritano que faz o bem obterá o "reino dos céus", o Espiritismo nada mais faz do que repetir e incentivar isso junto a todos. O irmão  já meditou sobre isso? Se não, medite, por favor.
 
 
12) O espiritismo nos aproxima de Deus ou estimula o raciocínio e a vontade de conhecer? Precisamos do espiritismo para desejar conhecer, se vivemos numa época onde a razão e a ciência são tão importantes?
 
O Espiritismo nos estimula o raciocínio e vontade de conhecer. Porém ele nos diz, como antes nos disse Jesus, que, se nos instruirmos é a diretriz do segundo mandamento, nos amarmos é a do primeiro. A razão e a ciência não nos ensinam a amar os outros seres. A religião e a ciência se complementam e isso não se aplica só ao Espiritismo. Ocorre que o Espiritismo é, de todas as religiões, a que mais conformidade encontra com a ciência. E isso faz dele, inclusive, uma religião de mais fácil aceitação entre os homens de ciência. A Bíblia diz: “O Senhor deu aos homens a ciência para que pudessem glorificá-lo por causa das maravilhas dele”. (Ecl 38,6), daí a necessidade de aplicar a ciência à religião para glorificar a Deus.
 
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Por que você coloca como contrárias a idéia de "aproximar-se de Deus" e a de "usar o raciocínio e a vontade de conhecer"? Uma e outra coisa são perfeitamente unidas. Por que Deus nos deu inteligência? Sem o raciocínio, somos incapazes de ajuizar sobre nossos atos e por isso somos responsáveis por eles. Então o Espiritismo nos aproxima de Deus e nos estimula a usar o raciocínio e a vontade de conhecer como caminhos para essa aproximação.
 
A sua primeira pergunta revela, ainda, uma importante questão: O que é "se aproximar de Deus"? Deus não é um objeto nem uma criatura para nos aproximarmos fisicamente dele. Nenhuma religião respondeu essa questão de forma tão clara quanto o Espiritismo! Aproximarmo-nos de Deus significa evoluirmos em Amor e Sabedoria. Jesus disse: "bem aventurados os puros de coração porque verão a Deus" (S. Mateus, cap. V, v. 8.). 
 
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Mais uma vez, você revela não ter compreendido o papel do Espiritismo, prezado amigo. O Espiritismo não é uma ciência das coisas materiais onde a Física a Química, a Engenharia, a Medicina, etc. cumprem com muita eficiência o seu papel. No Boletim 476 do GEAE você vai encontrar a seguinte colocação do Carlos Iglesias, deste Corpo Editorial: "Na definição de Allan Kardec o Espiritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência de observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; como filosofia, compreende todas as conseqüências morais que decorrem dessas relações”
 
O Espiritismo, por enquanto, é a única doutrina racional que estuda de forma séria a relação entre o mundo material e espiritual. Portanto, precisamos, sim, do Espiritismo para conhecer as coisas do mundo espiritual.
 
 
13) A idéia da salvação ligada ao esforço pessoal e na caridade, não coloca o centro da questão demasiadamente no homem? Ou seja, é o homem que salva a si próprio e não Deus?
 
Precisamente. Deus nos dá as Leis e seus mensageiros nos ensinam a como cumpri-las. O resto é conosco. Aliás, não vejo que dificuldade o irmão vê nesse ponto. Como dissemos acima, a justiça humana não mais é que pálida emulação da Divina. E, por acaso, algum juiz teve alguma vez o desatino de condenar um inocente à soma das penas de um bando de malfeitores para absolver esses últimos e dizer que estão puros e livres de culpa por causa do sacrifício do inocente? Se é um absurdo tão grande pensar que um juiz humano fizesse isso, o que pensar então de Deus, que  mais que um Juiz perfeito, é o próprio conceito de Justiça?
 
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Se a salvação não está em nossas mãos, como explicar: “a cada um segundo suas obras” (Mt 16,27)? O critério da separação no dia do juízo final conforme está em Mt 25, 31-46)? Teria algum sentido a parábola do bom samaritano (Lc 10, 25-37)?
 
A idéia da salvação ligada ao esforço pessoal à caridade coloca o centro da questão no homem, sim, mas não cabe aqui o advérbio "demasiadamente" e sim a expressão "de forma justa". 
 
A maioria das religiões ditas cristãs colocam a salvação na questão da crença. Dizem elas que, se nós aceitarmos Jesus ou Deus ou a Bíblia, seremos salvos. Note que, mesmo num ato mínimo de aceitar ou não alguma coisa, temos o livre-arbítrio. Podemos reescrever a situação dizendo que "o homem se salvará se aceitar Jesus". Desde o momento em que o destino final depende de um gesto de pensamento e sentimento de nossa parte (a aceitação) então não é Deus ou algo externo que nos salva, mas sim nós mesmos. Portanto, até para as religiões que colocam a salvação na simples questão de crer ou não em Jesus, é o homem que salva a si próprio e não Deus.
 
No entanto, como a idéia de simples aceitação é incoerente com o bom-senso e justiça, o Espiritismo vai adiante e mostra que não basta aceitarmos a Jesus como o "caminho a verdade e a vida", já que "ninguém vai ao Pai senão por Ele". É preciso trilhar esse "caminho" para chegar ao Pai. É preciso praticar a caridade com o máximo esforço de nossa parte. Ë preciso viver os ensinamentos de Jesus a cada minuto de nossa vida.
 
14)  No Evangelho Segundo o Espiritismo [Cap. IV; p.85; §6] Kardec diz ”A idéia de que João Batista era Elias e de que os profetas podiam reviver na Terra se nos depara em muitas passagens dos Evangelhos”. E cita particularmente, para justificar essa tese, os seguintes versículos. Mt 17,10-13 e Mt 11,12-15.
 
A) No entanto, em Mt 11,14, Jesus diz que João Batista é “o Elias que há de vir”. Neste trecho temos, antes da palavra Elias, a letra “o”, que por mais insignificante que possa parecer, traz muita dificuldade na interpretação, pois um artigo, ao lado de um nome, adjetiva este mesmo nome. Por exemplo, eu posso dizer que Divaldo Pereira Franco é o Allan Kardec brasileiro. Com uma frase como esta, não estou dizendo que Divaldo é Allan Kardec, nem que Divaldo é a reencarnação do mesmo. Estou apenas querendo ressaltar que a função e a importância de Divaldo no Brasil se assemelham à função e à importância de Allan Kardec na codificação mundial.
 
As provas de que João Batista e Elias são o mesmo Espírito estão abundantemente esclarecidas em várias obras. Ninguém jamais cogitou em dizer o mesmo de Divaldo e Kardec. Mas, de qualquer forma, podemos ainda lhe dizer que não são todas as Bíblias que traduzem da forma como você citou. Por exemplo, as Bíblias protestantes publicadas pelas editoras Mundo Cristão e Novo Mundo não colocam o artigo que você faz questão de mencionar. Daí lhe perguntamos: qual das traduções bíblicas é a verdadeira? Por outro lado, em versículo anterior (10) Jesus relaciona João Batista à profecia de Malaquias 3, 1. Esse mensageiro é identificado no versículo 23: “Vejam! Eu mandarei a vocês o profeta Elias,...”. A conclusão final é que se Jesus está afirmando que João Batista é “o Elias”, “o profeta Elias” ou simplesmente “Elias”, não faz a menor diferença quando se quer entender. Mas, se desejar algo mais categórico, é só ler Mt 17, 12, que diz: 12. “Mas eu digo a vocês: Elias já veio, e eles não o reconheceram. Fizeram com ele tudo o que quiseram. E o Filho do Homem será maltratado por eles do mesmo modo." Na seqüência, ou seja, o versículo 13, diz: “Então os discípulos compreenderam que Jesus falava de João Batista”, isso reforça os nossos argumentos, pois sabemos que em outras ocasiões Jesus demonstrou conhecer o pensamento dos outros. Assim, se não fosse verdadeiro o que pensaram, Jesus teria dito, com certeza.
 
Veja o quão importante é usarmos a razão. Vamos analisar o contexto em que a frase que você destacou foi dita. Na referida passagem Jesus disse: "Ora, desde o tempo de João Batista até o presente, o reino dos céus é tomado pela violência e são os violentos que o arrebatam; - pois que assim o profetizaram todos os profetas até João, e também a lei. - Se quiserdes compreender o que vos digo, ele mesmo é o EIias que há de vir. - Ouça-o aquele que tiver ouvidos de ouvir.” (Mateus, XI, 12 a 15.)
 
A expressão "desde o tempo de João Batista" parece um grande contra-senso pois João Batista foi conterrâneo de Jesus (eram primos). Mais adiante Jesus disse que "se quiserdes compreender o que vos digo" ou seja, se vocês quiserem esclarecer o aparente contra-senso, "ele mesmo (o João) é o Elias que há de vir." Nesse contexto, não temos dúvidas de que Jesus quis dizer que João era Elias reencarnado. Se Jesus tivesse pretendido dizer que João era tão importante quanto foi Elias, ele não teria dito a expressão "desde o tempo de João Batista...". 

Agora, junte-se a esta passagem as outras em que Jesus fala de João e de Elias e conclua por você mesmo que não há dúvidas. Por que será que Jesus, ainda por cima, disse: "Ouça-o aquele que tiver ouvidos de ouvir". Aqui, sim, Jesus está usando uma linguagem simbólica onde "ouvir" significa entender e aceitar bem o que ele está dizendo.


B) Existe uma passagem do evangelho que não é analisada por Kardec que diz o seguinte: E eis o testemunho de João, quando, de Jerusalém, os judeus lhe enviaram sacerdotes e levitas para o interrogarem: “Quem és tu?” Ele fez uma declaração sem restrição; declarou: “Eu não sou o Cristo”. E eles lhe perguntaram: “Quem és tu? És Elias?” Ele respondeu: “Eu não sou Elias”. - “És tu o profeta?” Ele respondeu: “Não”. [Jo 1,19-21]. Kardec afirma que João era a reencarnação de Elias, e João afirma categoricamente que não é Elias. Como explicar este trecho?
 
Esse trecho demonstra a ignorância de João quanto à sua natureza como Espírito. Fato que comprova a afirmativa dos Espíritos quanto ao esquecimento do passado (Livro dos Espíritos, perguntas 392 a 399). Essa passagem não tem nada de contraditório com o que o Espiritismo diz.
 
O fato de que se não lembrarmos de algo das vidas anteriores não quer necessariamente dizer que não tenhamos vivido anteriormente, já que muitos acontecimentos dessa vida atual mesmo, por mais que o queiramos, não conseguimos lembrar e disso não podemos concluir que não os tenhamos vivido.
 
Além disso, Jesus não é um Espírito muito mais superior do que João? Jesus sabia do que estava falando. João não tinha todo o conhecimento. Nós preferimos aceitar a afirmativa de Jesus que João é Elias, quem quiser poderá acreditar em João. 

C) Na cronologia bíblica, João batista morre (Mt 14,1-12). Dias depois os discípulos de Jesus têm uma visão de Moisés e Elias, ao lado de Jesus. Se João Batista era Elias reencarnado, o espírito não deveria se mostrar com a aparência da sua última reencarnação? Deve-se considerar ainda que os discípulos conheciam João Batista, pois haviam convivido com ele, fato que não se sucedera com Elias.
 
Moisés e Elias são pilares do Judaísmo. A presença deles junto a Jesus serviu para corroborar a missão de Jesus como esclarecedor e promotor da Lei de Deus e não seu opositor. Além disso, para os Judeus em geral não era claro que João e Elias eram o mesmo Espírito. Tampouco tinham João como um profeta da envergadura de Elias. Além disso, todo Espírito se identifica não conforme sua última encarnação e sim conforme aquela que foi mais significativa para a sua evolução ou que mais marcará o entendimento em quem o vê. Que Pedro, Tiago e João não conviveram com Elias é um fato incontestável, mas isso não quer dizer que não poderiam identificá-lo. Aliás, a narrativa diz exatamente isso, ou seja, que foi identificado pelos três, já que não está dito que Jesus tenha falado o nome dos que lhe apareciam no momento, observar os versículos 3 e 4. E essa passagem está a prova bíblica incontestável que os mortos se comunicam. Tendo Jesus dito “tudo o que eu fiz, vós podeis fazer e até muito mais” (Jo 14,12), nos libera definitivamente da proibição mosaica de nos comunicarmos com os “mortos”.
 
O fato de Espíritos evoluídos se apresentarem de modo a serem identificados por quem os vê está registrado uma infinidade de vezes na história da vida dos santos. Estes sempre tiveram visões de Espíritos com os quais nunca tinham convivido mas aos quais nenhuma dificuldade tinham em reconhecer. A quantos se apresentou Jesus? A quantos se mostrou Maria? Qualquer médium de tradição cultural judaica identificará com facilidade seus grandes profetas, disso não resta qualquer dúvida.
 
 
15) No Evangelho Segundo o Espiritismo [Cap. IV; p.85] Kardec cita Jo 3,1-12, que é um trecho em que Jesus afirma que “Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo.” Kardec interpreta “nascer de novo” como reencarnação. Aqui podemos levantar dois problemas:
 
A) Jesus começou a frase em sentido figurado: “Ninguém pode ver o reino de Deus”. Se começou assim, é lógico supor que vai terminar da mesma forma. Logo, “nascer de novo” deveria estar, igualmente, em sentido figurado, mas se interpretamos “nascer de novo” como reencarnação, estamos, na verdade fazendo uma tradução literal (e não simbólica) das palavras de Jesus. Não é uma interpretação incoerente? 

Quando Jesus disse que “ninguém pode ver o reino de Deus”, ele não estava usando sentido figurado algum. Ninguém pode ver, mesmo, o reino de Deus pois não se trata de um reino material, com palácio, exércitos, etc.. Logo, não há incoerência alguma ao interpretarmos “nascer de novo” de forma literal.

Mais uma vez você analisa os textos bíblicos "fora" do contexto. Vamos analisar isso. Nessa passagem Jesus recebe a visita de um Fariseu, senador dos Judeus. Portanto, Nicodemos era pessoa bastante esclarecida. Daí Jesus disse a ele: "Ninguém pode ver o reino de Deus se não nascer de novo".
 
Qual foi a reação de Nicodemos, que era um homem inteligente e culto? Ele perguntou a Jesus "Como pode nascer um homem já velho? Pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, para nascer segunda vez?" Isso quer dizer que Nicodemos, que esteve lá com Jesus, entendeu no sentido literal a expressão "nascer de novo". Isso já indica que, no contexto, Jesus não estava usando linguagem figurada. Mas continuemos  a análise. Jesus refaz a afirmativa: "Se um homem não renasce da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. - O que é nascido da carne é carne e o que é nascido do espírito é Espírito. - Não te admires de que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo. O Espírito sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes donde vem ele, nem para onde vai; o mesmo se dá com todo homem que é nascido do Espírito." 

O que Jesus quis dizer com a expressão "renascer da água e do Espírito"? O que a água representava para os Judeus e para os demais povos daquela época? Segundo Kardec, no mesmo capítulo de O Evangelho Segundo o Espiritismo, a água era tida como o elemento gerador da vida. Nicodemos sabia disso pois era homem culto. Ao dizer que o que é nascido da carne é carne e do espírito é Espírito, Jesus ressalta os dois aspectos envolvidos no processo de reencarnação.
 
Ao dizer para Nicodemos não se admirar "de que eu te haja dito ser preciso que nasças de novo" Jesus mostra que não estava querendo usar linguagem simbólica com relação ao "nascer de novo". Ao explicar que o espírito sopra onde quer e ouvimos a sua voz sem saber de onde vem nem para onde vai, Jesus claramente reafirmou que o Espírito que animará o novo corpo vem de algum lugar que não conhecemos e irá embora para outro lugar após a morte. Isso, junto da idéia de nascer de novo, demonstram, de modo inequívoco, a Reencarnação.


B) Se nascer de novo significar reencarnação, e fizermos a devida substituição na frase, ela ficaria sem sentido: Ninguém pode ver o reino de Deus se não se submeter à reencarnação. Pois, pela própria doutrina espírita sabemos que um espírito pode reencarnar e não aproveitar sua nova vida, ficando estacionado na sua trajetória evolutiva, sem se aproximar um milímetro sequer de Deus. Portanto, para ver o reino de Deus o espírito precisa realmente progredir, ter uma renovação íntima, ou nascer de novo, no sentido de morrer para a vida material e renascer para a vida espiritual. E parece que, no fim, Jesus quis dizer isso mesmo, interpretando a frase inteira no sentido simbólico: Para nos aproximar de Deus (ver o reino de Deus) precisamos nos regenerar (nascer de novo). Não é uma interpretação mais coerente e mais simples, com maior rigor lógico?


A evolução é contínua. Em nenhum lugar a Doutrina ensina que podemos ficar estacionados em uma vida. Podemos não nos “aproximar de Deus” como você disse, mas enfrentamos provas e, de provas em provas, vamos aprendendo e endireitando nosso caminho. Há um comercial, achamos que no “Cartoon Network”, que mostra muita coisa sobre o que queremos dizer. Puseram um psicólogo para educar os sentimentos de todos os malfeitores dos desenhos. Lá para as tantas, após de explicar a eles um monte de coisas, ele pergunta “O que todos nós queremos”? E todos, dando prova de não terem prestado nenhuma atenção ao que o psicólogo tinha dito, gritam em coro “Conquistar o mundo”. Mais adiante, para ensiná-los a controlar a raiva, ele pega um papel e faz uma bola dizendo para eles fazerem o mesmo, para embrulharem sua raiva naquele papel. A cena acaba em off com o som de todos jogando a bola de papel encima do psicólogo. 

Por que lembramos do comercial do “Cartoon NetworK”? Porque é exatamente o que ocorre na vida. Alguém tem alguma dúvida do que teria ocorrido se um santo homem tivesse ido pregar reforma íntima à Átila, Gêngis Khan, Hitler ou Stalin? Jesus era sábio demais para achar que em uma única existência o ser humano pudesse fazer uma reforma íntima tão profunda a ponto de implantar o Reino de Deus em seu coração. Sabendo como sabia ser isso impossível, jamais o teria ensinado.

É um absurdo lógico entender que Jesus era ingênuo a ponto de julgar possível a reforma íntima de todas as criaturas em uma única existência. Por outro lado, a máxima “ninguém pode ver o reino de Deus se não se submeter à reencarnação”, esta, sim, tem toda a lógica, pois não estamos falando de uma única chance a mais, como o irmão certamente sabe e por algum motivo quis parecer ignorar. Deus, em sua infinita bondade, dá a seus amados filhos e filhas toda a eternidade para se voltarem para Ele. Mas voltaremos a esse tema mais adiante, utilizando uma analogia.
 
 
16) No mesmo capítulo do Evangelho Segundo o Espiritismo [Cap. IV, §4, p.84] Kardec diz “A reencarnação fazia parte dos dogmas dos judeus, sob o nome de ressurreição”. No entanto, devemos lembrar do relato bíblico da ressurreição de Lázaro.
 
A) Jesus afirmou claramente que ele estava morto (Jo 11,14), e não que havia sofrido um ataque de letargia (morte aparente). Portanto, houve, de fato, uma ressurreição! A menos que ponhamos em dúvida as palavras de Jesus, o que seria absurdo e colocaria em cheque um dos livros mais importantes do espiritismo, pois Kardec se utiliza fartamente dos ensinamentos de Jesus. Além do que, Jesus, sendo um Espírito extremamente superior, jamais mentiria. A conclusão aqui seria essa: a palavra ressurreição significava simplesmente ressurreição nos dogmas judeus. Como entender a afirmação de Kardec?
 
Quem fala que os Fariseus criam na reencarnação é Flavio Josefo em “A História dos Judeus”, uma obra que usam católicos, seguidores de outras crenças cristãs e até historiadores agnósticos como evidência da existência de Jesus na história.
 
Se os judeus não acreditassem na reencarnação como poderia nos explicar a resposta dada a Jesus quando Ele perguntou o que o povo pensava a respeito dele que diz "Alguns dizem que é João Batista; outros, que é Elias; outros ainda, que é Jeremias, ou algum dos profetas" (Mt 16, 13-15). O único que não se enquadra no conceito de reencarnação é João Batista que foi contemporâneo de Jesus, quanto aos outros caberiam como uma luva.

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Em Jo 11, 1-44 está a passagem sobre a ressurreição de Lázaro. Vejamos: Versículo 4: Jesus diz: "Essa doença não é para a morte, mas para a glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por meio dela”; Versículo 11: "O nosso amigo Lázaro adormeceu. Eu vou acordá-lo”; Versículo 14: Então Jesus falou claramente para eles: "Lázaro está morto”. Não lhe parece uma contradição o versículo 14 com os outros? Leia a passagem e retire dela os versículos 14 a 16 e veja se ela continuará coerente ou não.

E ainda quanto à morte de Lázaro, é bom lembrar que a catalepsia, ao longo dos tempos, fez com que muita gente fosse enterrada viva. Isso só deixou de ocorrer no final do século XX quando em quase todo mundo tornou-se necessária a comprovação de morte cerebral para que alguém fosse enterrado. Jesus, no primeiro momento, afirmou que Lázaro “dormia”. É evidente, portanto, que o Mestre sabia que Lázaro não estava realmente morto. No entanto, que poderia ele dizer? Poderia ele adiantar de 2000 anos um conhecimento científico? Um ataque cataléptico pode durar de poucos minutos a alguns dias e é um distúrbio que impede a pessoa de se movimentar, apesar de continuarem funcionando seus sentidos e funções vitais (que ficam só um pouco desaceleradas).Foi certamente isso que Lázaro teve mas a humanidade teria de esperar mais 2000 anos para saber o que acontecia nesses momentos e parar de enterrar os pobres doentes ainda vivos.

B) Ainda sobre a ressurreição de Lázaro, Kardec escreve “Há toda a probabilidade de que não havia senão síncope ou letargia”. (…) sabe-se que há letargias que duram oito dias e mais. (…) entre certos indivíduos, há decomposição parcial do corpo, mesmo antes da morte, e que exalam um odor de podridão.” [A Gênese; §§39,40; pp.292/293]. Mais uma vez surge uma incoerência, pois o próprio Jesus afirmou com firmeza e simplicidade: “Ele morreu!”. Por que insistir em buscar explicações como letargia?

 
Voltamos ao que dissemos acima. Jesus disse o que eles podiam entender. Não disse que Lázaro estava tendo um ataque cataléptico porque ninguém entenderia patavina. Se caísse um raio sobre uma pessoa e dissessem que a pessoa tinha sido castigada por Deus o que você teria dito se pudesse estar lá com o conhecimento de hoje? “Não, não foi um castigo de Deus, mas o fato da umidade relativa do ar estar alta, a atmosfera estar altamente ionizada, a pessoa estar usando um sapato de sola de couro, não haver pontos altos na redondeza, etc.”. Olhariam para você e o taxariam de louco. O melhor que você teria a fazer era concordar com eles e, depois, com habilidade e paciência, ensinar como eles deveriam proceder em ocasião de temporal. 

Quando lidamos com crianças pequenas é muito comum usarmos a mesma estratégia. Concordamos com elas em um primeiro instante para irmos aos poucos introduzindo os conceitos que permitirão mais tarde uma explicação que lhes seja possível entender. Os homens eram crianças espirituais naquelas épocas.

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Note, ainda, que Jesus não saia por aí a ressuscitar mortos antigos, com corpo completamente decomposto. Já que existe o fenômeno da letargia que, em certos indivíduos, há decomposição parcial, é bem possível, sim, que Lázaro ainda não estivesse morto. Não existe no Novo Testamento nenhum exemplo de Jesus ressuscitando algum morto antigo. Um exemplo destes, se houvesse, este sim  seria bastante conclusivo de uma “ressurreição”. 

Se os laços entre um Espírito e o corpo se desfazem, eles não podem ser refeitos. Mas se os laços entre o Espírito e o corpo estão apenas frouxos, como são nos casos de letargia, catalepsia e outros estados alterados de consciência, então eles podem ser reapertados. 

Mas, se mesmo assim, alguém desejar empregar a idéia de que Deus é todo poderoso e que, por isso, Ele pode fazer ressuscitar qualquer pessoa, esse tipo de argumento pode ser usado em favor do Espiritismo e da reencarnação pois Deus, sendo todo-poderoso, criou a possibilidade de reencarnação. Seria mais inteligente para nós, hoje, em nosso atual estágio de desenvolvimento intelectual, que analisássemos as conseqüências morais deste tipo de "concessão" divina.
17) No Evangelho Segundo o Espiritismo, Kardec cita Jo 14,1-3, em que Jesus fala aos seus discípulos: “Não se perturbe o vosso coração. Crede em Deus, crede também em mim. Há muitas moradas na casa de meu Pai”. Na seqüência, Kardec comenta: “A casa do Pai é o Universo. As diferentes moradas são os mundos que circulam no espaço infinito (...)”(Cap 3, p.71, §2). Aqui, apesar da interpretação ser lógica, ela parece não ser fiel ao contexto. Pois, pelo início da conversa: “Não se perturbe o vosso coração!”, vemos que Jesus está se propondo a usar palavras de consolo e encorajamento. Portanto, quando diz: “Há muitas moradas na casa de meu Pai”, ele quer dizer simplesmente que “há espaço para todos estarem ao lado de Deus”. É difícil imaginar que Jesus iria discursar sobre a diversidade dos planetas no universo, numa conversa que visava consolar (e não prestar esclarecimentos filosóficos). Aliás, saber que há diversos planetas não traz consolo algum, uma vez que a maioria deles são mundos primitivos ou mundos de prova e expiação, nos quais reina o sofrimento e cujos habitantes são distantes (simbolicamente) de Deus.
Enquanto países gastam fortunas incalculáveis para tentar estabelecer contato com habitantes do outro mundo, ainda existem pessoas que acham que apenas no mísero planeta terra há vida. Segundo dizem os especialistas, há 100 bilhões de galáxias, cada uma com 100 bilhões de planetas numa imensidão que está fora do alcance da compreensão humana. Admitir que Deus tenha criado tudo isso sem vida é fazer pouco da divindade e achar que possa existir no Cosmo algo inútil. Aí o apego à Bíblia é flagrante por parte de muitos que não aceitam a possibilidade de vida em outros mundos.
Em sua pergunta vemos, ademais, que o amigo se engana novamente. Kardec ou os Espíritos não disseram que a maioria dos mundos é de provas e expiação. Eles disseram que, além desses tipos de mundos, existem os de regeneração e os mundos evoluídos. Disseram, também, que alcançaremos esses mundos se nos esforçarmos por praticar os ensinamentos de Jesus. Quer idéia mais consoladora e encorajadora do que ter a certeza de que os nossos comezinhos problemas cotidianos são menos que nada comparável à grandeza de oportunidades que nos aguarda futuramente? Quer idéia mais educativa do que a que diz que não somos o centro do Universo e por isso devemos nos esforçar por combater o nosso orgulho e egoísmo? Há sim, muitas moradas na casa do Pai e a moeda de acesso a elas depende dos "tesouros espirituais" que amealharmos com a prática do bem ao próximo.
18) Em Jo 9,1-3, lê-se: “Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. Os seus discípulos lhe fizeram a pergunta seguinte: ‘Rabi, quem pecou para que ele nascesse cego, ele ou seus pais?’ Jesus respondeu: ‘Nem ele nem seus pais. Mas é para que as obras de Deus se manifestem nele’”. Este trecho não é comentado na obra de Kardec. Por quê? Segundo a doutrina espírita a origem dos males da vida presente estão em pecados pretéritos. Como, então, explicar este trecho?
Nem sempre que nos parece uma expiação o é. O cego de nascença pode ter necessitado passar por aquela prova para aprender alguma coisa que necessitava aprender. Se ele estava em prova, então sua cegueira não era devida a pecado nem dele nem de seus pais. Suponhamos que uma pessoa seja boa, não faça mal a ninguém intencionalmente mas esteja habituada a tudo fazer sozinha sem ouvir os conselhos alheios nem lhes aceitar o auxílio, incorrendo, por isso, em equívocos que lhe atrapalham a marcha. Uma pessoa assim pode vir em uma vida cega ou com outra deficiência física para aprender a receber auxílio, para aprender que somos todos responsáveis uns pelos outros e devemos caminhar de mãos dadas rumo ao Pai e não cada um por si. A cegueira ou uma deficiência física que obrigue o indivíduo a aceitar a solidariedade alheia pode muito bem ser uma prova por que necessita passar e não uma expiação.
Podemos ainda ressaltar que existe reencarnação por missão. Nesse caso não há nenhuma prova nem expiação por que o Espírito tenha por que passar, pois já saiu do ciclo das reencarnações, vivendo na condição de puro Espírito. Apenas por amor vem na condição de encarnado para cumprir uma determinada missão. Podemos, muito bem incluir esse cego nessa qualidade, pois a sua missão foi, além de vir para ser curado para realçar a missão de Jesus, a de afrontar os fariseus de forma a forçá-los a refletir, conforme poderá ser visto em Jo 9, 1-34.
Há ainda que considerar o efeito colateral benéfico da deficiência física. Quando nós, saudáveis, vemos uma pessoa deficiente lutar para realizar trabalhos comuns ou mesmo difíceis, sentimos uma ponta de vergonha por nossas comuns reclamações (tá frio, tá calor, tá doendo, etc.). Quer papel mais nobre do que esse de nos dar o exemplo de que as deficiências não impedem a gente de fazer o bem e trabalhar dignamente? Quando um Espírito evoluído reencarna em missão, muitas vezes ele aceita vir com deficiências físicas junto a uma família saudável precisamente para trazer aos membros dessa família o estímulo de que necessitam para vencer as dificuldades com coragem e alegria ao invés de imprecarem contra destino cruel que os possa estar atormentando.

19) “Larga é a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos, os que entram por ele; quão estreita é a porta e apertado o caminho que leva à vida, e poucos são os que o encontram”. (Mt 7,13-14). É complicado entender afirmações tão contundentes de Jesus se compararmos seus ensinamentos com a Lei da Evolução, da doutrina espírita. Afinal, se, pela Lei, todos vão evoluir, hoje o espírito pode optar pela porta larga, mas um dia ele vai passar pela estreita. Assim, não só muitos, como todos acabam encontrando o caminho que leva à vida.Será que Jesus era tão contundente apenas para assustar as pessoas e lavá-las a temer os castigos de Deus? Mas afinal Jesus não veio trazer a idéia do Deus-amor? Jesus falava dessa forma porque o povo da época precisava ouvir dessa forma? Porém, hoje o espiritismo revela que não existem penas eternas, bem numa época em que as pessoas são muito materialistas e desligadas da religião. Nosso povo atual não precisaria de conselhos tão ou mais graves e contundentes, em função disso?

Caro amigo, as pessoas conhecem as penas eternas há muito tempo. O que estas conseguiram fazer de fato? Somente afastaram as pessoas da religião pois são idéias que repugnam a razão. O Espiritismo coloca os pingos nos i's e mostra que somos, sim, responsáveis por nossa evolução. Sofreremos pelos erros cometidos ou para despertar em nós sentimentos mais depurados. O Espiritismo, pelo crescente número de adeptos que tem feito, demonstra que satisfaz a razão sem afrouxar o rigor que a Lei de Causa e Efeito apresenta.

Jesus, ao dizer que "Larga é a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos, os que entram por ele; quão estreita é a porta e apertado o caminho que leva à  vida, e poucos são os que o encontram" apenas reflete que a situação moral da humanidade não se alterou muito em 2000 anos. Jesus não está dizendo que as pessoas vão para o inferno eterno, mas sim que colherão os frutos amargos das amarguras que semearam em suas vidas. Jesus diz que ainda é difícil para nossa humanidade abrir mão do egoísmo e do orgulho em prol do que realmente faz a felicidade maior. Não é difícil entender essa afirmativa de Jesus, que você achou contundente, em termos da Lei de Evolução do Espiritismo. A criatura que hoje escolhe passar pela porta larga colherá frutos de sofrimento que a conduzirão para a porta estreita. Com o Espiritismo, o sofrimento não é castigo mas sim processo educativo a despertar no íntimo de nós as fibras de amor adormecidas ou afogadas pelos vícios das sensações. O sofrimento levará os Espíritos a optarem pela porta estreita que é a porta da luta contra as nossas fraquezas morais.

Essa interpretação e entendimento do Evangelho não estão mais de acordo com a razão e com a idéia do Deus-Amor? 

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Nosso povo atual é tão materialista justamente porque os ensinamentos das crenças cristãs tradicionais não fazem sentido para ele. Naquela época a justiça humana só existia em favor dos poderosos e era muito frágil ou inexistente para o povo. Ver Deus como um juiz severo podia ser educativo. Hoje, com a justiça implantada como instituição em todo o mundo, não há espaço para um Deus menos justo e menos tolerante que os juizes humanos.

Já pensou se os sistemas legal e penal fossem tais que houvesse muito menos chance de ficarmos soltos do que sermos presos? Imagine se o Brasil tivesse 100 milhões de habitantes, dos quais 98 milhões estivessem na cadeia e 2 milhões ficassem soltos para sustentá-los com seus impostos. Se tal sandice é impensável, por mais falha que seja nossa justiça, como podemos crer que a justiça divina nos dê uma porta estreita para poucos serem salvos e uma larga para a maioria se perder? Que Deus é esse?
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Você estranha que o Espiritismo ensine que “todos encontrem o caminho que leva à vida”. Mas é exatamente isso que ocorre segundo a nossa Doutrina e conforme a razão e o bom-senso nos indicam. Voltamos a chamar sua atenção para as instituições humanas, com sua imperfeição, para termos uma pálida idéia das leis divinas. Perguntamos a você, caro irmão: você ignora que as escolas permitem que o aluno repita o ano caso de seu aproveitamento seja inferior a certo mínimo aceitável? Ignora que, mesmo se reprovado na repetência, a escola não o impede de matricular-se em outra para repetir uma terceira vez? Ignora que qualquer criança, mesmo que tenha para isso que mudar freqüentemente de escola, pode repetir a mesma série tantas vezes quanto necessário até lograr passar para a seguinte? Ignora que até adultos, idosos inclusive, podem voltar aos bancos da escola para aprender a ler?

Ora, se as instituições humanas, tão imperfeitas que são, toleram os erros e as deficiências dos alunos e dão a eles incontáveis oportunidades de repetir a mesma série até serem aprovados, como podemos aceitar o absurdo dos que dizem que Deus dá somente uma chance a cada ser humano para acertar e ir para o céu ou errar e ir para o inferno? Não, Deus também nos dá intermináveis chances e nos descortina a eternidade para que aprendamos a lição! 

Analisemos algumas passagens bíblicas:

Sl 22, 28. Todos os confins da terra se lembrarão, e voltarão para Javé...

1 Tm 2, 3-4: Isso é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador. Ele quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade.

Conclusão

O mais importante de toda esta discussão é o fato de que o Espiritismo não afirma que "só os espíritas podem ser salvos". Inclusive, existe uma preocupação no movimento espírita de que espíritas estão desencarnando em situação um pouco desequilibrada. Isto ocorre, caro amigo, porque não adianta conhecer ao pé da letra cada mensagem, cada ensinamento. É preciso vivenciá-los. Um ateu que pratique a Lei de Amor mais do que um espírita ou um católico ou outro religioso, vai colher frutos muito mais felizes do que esse espírita ou católico ou quem quer que seja que somente tenha estudado e deixado de praticar o que estudou.

Se você se dedicar exclusivamente à caridade, em primeiro lugar e, em segundo, ao estudo sincero e honesto, dedicando sua energia a praticar o bem e a propagar com paciência e humildade os ensinamentos de Jesus, estamos certos de que logrará melhor resultado do que qualquer irmão que se diga espírita mas que somente estude os ensinamentos do Mestre contidos na Doutrina, sem contudo praticá-los no dia a dia.

Caso o irmão esteja satisfeito com nossas respostas, deseje continuar a estudar nossa Doutrina e tenha ou venha a ter alguma dúvida adicional, escreva-nos, pois teremos grande satisfação em ajudá-lo.

Caso, no entanto, nossas respostas às questões acima não tenham sido satisfatórias ao seu entendimento por deficiência certamente nossa, sugerimos que você visite o site do Grupo de Apologética Espírita (http://apologetico.cjb.net/), onde poderá ler inúmeros questionamentos semelhantes ao seu e as respostas que obtiveram. Nossos irmãos espíritas daquele Grupo também respondem a todas a mensagens que a eles são dirigidas e, desse modo, você nunca ficará sem reposta.

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Assim como recomendou Kardec, o Espiritismo não tem intenção de converter, cativar ou arregimentar pessoas para o seu lado. O Espiritismo, como explicado de forma geral em nossas respostas, não afirma que “fora do Espiritismo não há salvação”. Ele diz com clareza, isso sim, que “fora da caridade não há salvação”. Não importa, desse modo, se nosso irmão segue essa ou aquela religião ou doutrina, nem  se tem esse ou aquele entendimento diverso do nosso. O mais importante são “as obras” no bem que o irmão pratica, segundo as quais, como nos ensinou Jesus, “a cada um será dado..”

Siga com fé o seu caminho, pratique a caridade cristã e que a paz de nosso Mestre e Irmão Maior, Jesus, esteja sempre entre nós,

A Equipe do GEAE
Publicado no Boletim GEAE - Grupo de Estudos Avançados Espíritas, entre os seus números 478 a 487 e reproduzido com autorização dos editores e dos autores

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