"Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros." (João 13:35) "Onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, lá estarei no meio deles." (Mateus 18:20)

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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Bart D. Ehrman sobre a Ressurreição de Jesus

Diz o historiador e pesquisador sobre a Bíblia, o agnóstico Bart D. Ehrman, em seu livro Como Jesus se tornou Deus: 

"Já vimos por que os Evangelhos são tão problemáticos para historiadores que querem saber o que realmente aconteceu.
Isso é especialmente válido para os relatos dos Evangelhos sobre a ressurreição de Jesus. Fontes desse tipo são o que os historiadores buscariam ao examinar um evento passado? Tirando-se o fato de que foram escritas de quarenta a sessenta e cinco anos depois dos acontecimentos, por pessoas que não estavam lá para ver as coisas acontecerem, que viviam em partes diferentes do mundo, em épocas diferentes e falavam idiomas diferentes -, tirando tudo isso, elas estão cheias de discrepâncias,
algumas das quais não podem ser reconciliadas. De fato, os Evangelhos discordam em quase todos os detalhes nas narrativas da ressurreição.
Essas narrativas são encontradas em Mateus 28, Marcos 16, Lucas 24 e João 20-21. Leia os relatos e faça algumas perguntas básicas a si mesmo. Quem foi a primeira pessoa a ir até o túmulo? Maria Madalena sozinha (João)? Ou Maria com outra Maria  (Mateus)? Ou Maria com outra Maria e Salomé (Marcos)? Ou Maria, Maria, Joana e um grupo de outras mulheres (Lucas)? A pedra já estava afastada quando chegaram ao túmulo (Marcos, Lucas e João) ou explicitamente não (Mateus)? Quem foi visto 
lá? Um anjo (Mateus), um homem (Marcos), ou dois homens (Lucas)? Elas saíram imediatamente para contar a alguns dos  discípulos o que tinham visto (João), ou não (Mateus, Marcos e Lucas)? O que a pessoa ou as pessoas que estavam no túmulo mandaram as mulheres fazer? Dizer aos discípulos que Jesus se encontraria com eles na Galileia (Mateus e Marcos)? Ou lembrar o que Jesus havia lhes dito anteriormente,quando ele estivera na Galileia (Lucas)? As mulheres então foram contar aos discípulos
o que foram instruídas a dizer (Mateus e Lucas), ou não (Marcos)? Os discípulos viram Jesus (Mateus, Lucas e João), ou não (Marcos)? Onde o viram — apenas na Galileia (Mateus), ou apenas em Jerusalém (Lucas)? 
Existem outras discrepâncias, mas isso basta para esclarecer o ponto em questão. Devo ressaltar que algumas dessas diferenças dificilmente podem ser reconciliadas, a menos que se faça um bocado de ginástica interpretativa ao ler os textos. Por exemplo, o que se faz com o fato de as mulheres aparentemente encontrarem pessoas diferentes no túmulo? Em Marcos,encontram um homem; em Lucas, dois homens; e em Mateus, um anjo. O modo como essa discrepância às vezes é reconciliada por leitores que não aceitam que possa haver uma discrepância genuína no texto, é dizer que as mulheres na verdade encontraram dois anjos no túmulo.
Mateus menciona apenas um, mas não nega que houvesse um segundo; além disso, os anjos estavam disfarçados de humanos, de modo que Lucas afirma que havia dois homens; Marcos também confunde os anjos com homens, mas menciona apenas um, não dois, sem negar que fossem dois. E assim o problema é facilmente resolvido! Contudo, é resolvido de maneira deveras curiosa, pois essa solução de fato diz que o que realmente aconteceu é algo que não está narrado em nenhum dos Evangelhos, pois nenhum deles menciona dois anjos! Essa forma de interpretar os textos imagina um novo texto diferente de todos para reconciliar os quatro uns com os outros. Por certo qualquer um é livre para construir seu próprio Evangelho caso queira, mas esta provavelmente não é a melhor forma de se interpretar os Evangelhos que já temos. 
Considere um segundo exemplo — esse ainda mais gritante.Mateus é explícito quando diz que os discípulos são instruídos a ir para a Galileia, uma vez que é lá que irão se encontrar com Jesus (28:7). Eles assim o fazem (28:16), e é lá que Jesus se encontra com eles e dá seus mandamentos finais (28:17-20). Isso é evidente e o completo oposto do que acontece em Lucas. Ali os discípulos não são mandados para a Galileia. No túmulo vazio, as mulheres são informadas pelos dois homens que, quando Jesus esteve antes na Galileia, anunciou que ressuscitaria. Como os discípulos não são instruídos a ir para a Galileia, eles não vão. 
Ficam em Jerusalém, na terra da Judeia. E é lá que Jesus se encontra com eles "naquele mesmo dia" (24:13). Jesus fala com eles e os instrui enfaticamente para que não deixem a cidade até receber o poder do Espírito, o que acontece mais de quarenta dias depois, de acordo com Atos 1-2 (ou seja, eles não
devem ir para a Galileia, 24:49). Ele os conduz para os arredores de Jerusalém, até a vizinha Betânia, dá as últimas instruções e parte (24:50-51). E sabemos que eles seguiram as ordens: permaneceram na cidade, fazendo adoração no templo (24:53). No livro dos Atos, escrito pelo mesmo autor do livro de Lucas, verificamos que eles ficaram em Jerusalém por mais de um mês, até o dia de Pentecostes (Atos 1-2). 
Existe aqui uma nítida discrepância. Em um Evangelho os discípulos vão imediatamente para a Galileia, e no outro jamais vão lá. Um estudioso do Novo Testamento, Raymond Brown — ele mesmo um padre católico romano —, enfatizou:
Assim, devemos rejeitar a tese de que os Evangelhos possam ser harmonizados por meio de um rearranjo no qual Jesus apareça várias vezes aos Doze, primeiro em Jerusalém e depois na Galileia. [...] Os diferentes relatos nos Evangelhos narram,no que tange a conteúdo, a mesma aparição básica aos Doze, quer a situem em Jerusalém ou na Galileia. "

(...) o Evangelho mais antigo diz que, quando Jesus foi preso, seus discípulos fugiram do local (Marcos 14, Mateus 24:26). E os primeiros relatos também sugerem que foi na Galileia que eles tiveram visões de Jesus vivo após a crucificação (insinuado em Marcos 14:28, afirmado em Mateus 24). A explicação mais plausível é que, quando os discípulos fugiram do local por medo de serem presos, tenham deixado  Jerusalém e ido para casa, na Galileia. E foi lá que eles — ou pelo menos um ou mais deles — afirmaram ter visto Jesus vivo de novo.
Algumas pessoas argumentaram que, se Jesus realmente ressuscitou, teria sido um evento tão espetacular que em sua excitação muitas testemunhas logicamente se  atrapalhariam um pouco nos detalhes. No entanto, meus tópicos em discussão até aqui são bem simples. Primeiro, não estamos lidando com testemunhas oculares. Estamos lidando com autores que viveram décadas depois em terras diferentes, falando idiomas diferentes e baseando suas fábulas em histórias que estiveram em circulação oral durante todos aqueles anos intermediários. Segundo, esses relatos não possuem apenas  discrepâncias menores em uns poucos detalhes; eles são claramente conflitantes 
uns com os outros, ponto por ponto. Não são o tipo de fonte que os historiadores esperariam para determinar o que realmente aconteceu no passado. Que tal o testemunho de Paulo?

(...) Nenhuma passagem declara as visões de Paulo com mais clareza ou força que 1 Coríntios 15, o chamado capítulo da ressurreição.
(...) As cartas de Paulo são os primeiros textos cristãos que temos da antiguidade; ele escreveu a maior parte nos anos 5o do século I, ou seja, uns dez ou quinze anos antes de nosso Evangelho sobrevivente mais antigo, Marcos. É difícil saber exatamente quando  1 Coríntios foi escrito; se situarmos na metade 
do período da redação das cartas de Paulo, poderíamos colocar por volta do ano 55 d.C.ou coisa assim — uns vinte e cinco anos após a morte de Jesus.
(...) não menciona nenhuma mulher. Nos Evangelhos são mulheres que descobrem o túmulo vazio, e em dois Evangelhos — Mateus e João — são mulheres que primeiro veem Jesus vivo depois de morto. "

Diz em seguida o autor algo significativo para nós espíritas, que acreditamos que Jesus apareceu em espírito, não em corpo carnal:

"Todavia, Paulo não fala nada sobre alguém descobrir um túmulo vazio, e não menciona quaisquer aparições de ressurreição para mulheres — nem aqui, nem em qualquer outra passagem de seus textos. Sobre o primeiro ponto, por muitos anos os estudiosos consideraram altamente significativo que Paulo, nossa "testemunha"  mais antiga da ressurreição, não diga nada sobre a descoberta de um túmulo vazio. Nosso primeiro relato da ressurreição de Jesus (iCo 15:3-5) discute as aparições sem 
mencionar um túmulo vazio, enquanto nosso primeiro Evangelho, Marcos, narra a descoberta do túmulo vazio sem discutir quaisquer das aparições (Marcos 16:1-8)."


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