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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Espírita faz o bem com interesse?

Uma evangélica dona de um blog anti-Espiritismo assim disse:

"Caridade, na Bíblia, não é apenas ajudar os necessitados, é muito mais do que isso. É amor! Amar o próximo como a nós mesmos, não tem nada a ver com fazer o bem porque se acredita que isso conta como crédito numa outra vida (que não existe) a fim de aliviar o carma... Isso é dar para receber. O amor cristão não tem nada a ver com isso. A Jesus de Kardec disse: "espíritas, amai-vos!" O Jesus da Bíblia mandou-nos amar o nosso próximo seja ele quem for, ainda que ele nos odeie."

E nem para os espíritas é ajudar apenas aos necessitados. Tem postagens aqui no meu blog em que cito a parábola do Rico e Lázaro. O Lázaro era pobre e não podia ajudar a ninguém.

Quanto a "ganhar créditos", não é isso o que ensina o Espiritismo. O que estiver fazendo caridade para chamar a atenção, para "comprar o céu", pode desistir. Não deve haver  interesses em conseguir um lugar no céu, mesmo porque acreditamos que na  vida espiritual há muito  trabalho na obra do nosso Pai e não um ocioso paraíso.  O que Espiritismo nos ensina é que temos responsabilidade e que o verdadeiro homem de bem faz o bem com alegria, sem pensar em recompensas.
  Um trecho do livro "Nosso Lar", do espírito André Luiz, Psicografia de Chico Xavier, mostra bem o que estou dizendo. André Luiz, diz para a  sua mãe, que vivia em esferas espirituais mais elevadas, e foi  a cidade espiritual "Nosso Lar"  o visitar: 
   " Oh! minha mãe!  deve ser maravilhosa a esfera da sua habitação! Que sublimes contemplações espirituais, que ventura!"
Ao que ela respondeu: "A esfera elevada, meu filho, requer, sempre, mais trabalho, maior abnegação. Não suponhas que tua mãe permaneça em visões beatificas, a distância dos deveres justos. Devo fazer-te sentir, no entanto, que minhas palavras não representam qualquer nota de tristeza, na situação em que me encontro. É antes revelação de responsabilidade necessária. Desde que voltei da Terra, tenho trabalhado intensamente pela nossa renovação espiritual. Muitas entidades, desencarnando, permanecem agarradas ao lar terrestre, a pretexto de muito amarem os que demoram no mundo carnal. Ensinaram-me aqui, todavia, que o verdadeiro amor, para transbordar em benefícios, precisa trabalhar sempre. Desde minha vinda, então, procuro esforçar-me por conquistar o direito de ajudar aqueles que tanto amamos." 
   E diz o "Evangelho Segundo o Espiritismo", no Capítulo XVII("Sede Perfeitos"): 
" O verdadeiro homem de bem é o que cumpre a lei de justiça, de amor e de caridade, na sua maior pureza. Se ele interroga a consciência sobre seus próprios atos, a si mesmo perguntará se violou essa lei, se não praticou o mal, se fez todo o bem que podia, se desprezou voluntariamente alguma ocasião de ser útil, se ninguém tem qualquer queixa dele; enfim, se fez a outrem tudo o que desejara lhe fizessem. 
   Deposita fé em Deus, na Sua bondade, na Sua justiça e na Sua sabedoria. Sabe que sem a Sua permissão nada acontece e se Lhe submete à vontade em todas as coisas. 
   Tem fé no futuro, razão por que coloca os bens espirituais acima dos bens temporais. 
   Sabe que todas as vicissitudes da vida, todas as dores, todas as decepções são provas ou expiações e as aceita sem murmurar. 
    Possuído do sentimento de caridade e de amor ao próximo, faz o bem pelo bem, sem esperar paga alguma; retribui o mal com o bem, toma a defesa do fraco contra o forte, e sacrifica sempre seus interesses à justiça. 
   Encontra satisfação nos benefícios que espalha, nos serviços que presta, no fazer ditosos os outros, nas lágrimas que enxuga, nas consolações que prodigaliza aos aflitos. Seu primeiro impulso é para pensar nos outros, antes de pensar em si, é para cuidar dos interesses dos outros antes do seu próprio interesse. O egoísta, ao contrário, calcula os proventos e as perdas decorrentes de toda ação generosa" 
E mais a frente, mesmo livro, mensagem do espírito François-Nicolas-Madeleine: 
"A virtude, no mais alto grau, é o conjunto de todas as qualidades essenciais que constituem o homem de bem. Ser bom, caritativo, laborioso, sóbrio, modesto, são qualidades do homem virtuoso. Infelizmente, quase sempre as acompanham pequenas enfermidades morais que as desornam e atenuam. Não é virtuoso aquele que faz ostentação da sua virtude,  pois que lhe falta a qualidade principal: a modéstia, e tem o vício que mais se lhe opõe: o orgulho. A virtude, verdadeiramente digna desse nome, não gosta de estadear-se. Adivinham-na; ela, porém, se oculta na obscuridade e foge à admiração das massas. S. Vicente de Paulo era virtuoso; eram virtuosos o digno cura d'Ars e muitos outros quase desconhecidos do mundo, mas conhecidos de Deus. Todos esses homens de bem ignoravam que fossem virtuosos; deixavam-se ir ao sabor de suas santas inspirações e praticavam o bem com desinteresse completo e inteiro esquecimento de si mesmos. 
À virtude assim compreendida e praticada é que vos convido, meus filhos; a essa virtude verdadeiramente cristã e verdadeiramente espírita é que vos concito a consagrar-vos. Afastai, porém, de vossos corações tudo o que seja orgulho, vaidade, amor-próprio, que sempre desadornam as mais belas qualidades. Não imiteis o homem que se apresenta como modelo e trombeteia, ele próprio, suas qualidades a todos os ouvidos
complacentes. A virtude que assim se ostenta esconde muitas vezes uma imensidade de pequenas torpezas e de odiosas covardias.
 
Em princípio, o homem que se exalta, que ergue uma estátua à sua própria virtude, anula, por esse simples fato, todo mérito real que possa ter. Entretanto, que direi daquele cujo único valor consiste em parecer o que não é? Admito de boamente que o homem que pratica o bem experimenta uma satisfação íntima em seu coração; mas, desde que tal satisfação se exteriorize, para colher elogios, degenera em amor-próprio. 
O vós todos a quem a fé espírita aqueceu com seus raios, e que sabeis quão longe da perfeição está o homem, jamais esbarreis em semelhante escolho. A virtude é uma graça que desejo a todos os espíritas sinceros. Contudo, dir-lhes-ei: Mais vale pouca virtude com modéstia, do que muita com orgulho. Pelo orgulho é que as humanidades sucessivamente se hão perdido; pela humildade é que um dia elas se hão de redimir."



É preciso que entendam que caridade é muito mais do que "dar esmolas". No Livro dos Espíritos há a pergunta de Kardec: "Qual o verdadeiro sentido da palavra caridade, como entendida por Jesus?" e a resposta dos espíritos:"Benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros, perdão das ofensas". 
Ao refletirmos sobre a resposta dos espíritos, verificamos que o primeiro passo para o exercício da caridade é sermos benevolente para com todos. Assim, é preciso nos munirmos de boa vontade para tratarmos bem a todos, independentemente de posições sociais, pensamentos religiosos ou proximidade com os nossos corações. Comentário de Kardec à referida pergunta: "caridade, segundo Jesus, não se restringe à esmola, abrange todas as relações em que nos achamos com os nossos semelhantes, sejam eles nossos inferiores, nossos iguais, ou nossos  superiores". O próximo passo é a indulgência para as imperfeições dos outros, o que nos remete ao conceito de evolução. Entendemos que cada um de nós traz uma bagagem de valores morais concordante com seu estado evolutivo. O que é óbvio para nós, no momento atual, é início de aprendizado para o outro. Assim, é preciso reconhecer o direito do outro de errar e aprender com seus erros. Finalmente, a caridade como a entendia Jesus requer o perdão das ofensas. Perdoar é reconhecer a liberdade de pensar e agir do próximo, ainda que ele não corresponda aos nossos padrões de exigência no bem. Sentir-se ofendido é julgar, na ação do outro, atitudes que contrariam a nossa vaidade. 

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