"Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros." (João 13:35) "Onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, lá estarei no meio deles." (Mateus 18:20)

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sábado, 10 de janeiro de 2015

Flávio Josefo confirma que Samuel se comunicou.

Trecho extraído de http://www.paulosnetos.net/index.php/finish/6-artigos-refutados/191-saul-nao-consultou-feiticeira-nem-bruxa-coisa-alguma

A passagem, no primeiro livro de Samuel (1Sm 28,3-25), que relata que, depois de
morto, ele apareceu a Saul é a que os detratores contestam dizendo não ser uma realidade e
mudam de uma consulta “a uma necromante”, extrapolando o texto, dizendo que foi “a uma
feiticeira ou bruxa”. Para mais uma vez comprovar a sua realidade e não “uma ação forjada por
Satanás”, vamos recorrer ao historiador hebreu Flávio Josefo (Flavius Josephus) (37-103 d.C.),
que, em História dos Hebreus, narrou essa história de Samuel da seguinte forma:

Capítulo 15
Saul, vendo-se abandonado por Deus na guerra contra os filisteus, consulta
por meio de uma médium a sombra de Samuel que lhe prediz que ele
perderia a batalha e seria morto com seus filhos. Aquis, um dos reis dos
filisteus, leva com ele Davi para o combate, mas os outros príncipes o obrigam a
reenviá-lo a Ziclague. Ele constata que os amalequitas a tinham saqueado e
incendiado. Persegue-os e os dizima. Saul perde a batalha. Jônatas e dois
outros de seus filhos são mortos, e ele, muito ferido. Ele obriga um escudeiro a
matá-lo. Bela ação dos habitantes de Jabes de Gileade para ter os corpos desses
príncipes
253. Saul, tendo sabido que os filisteus tinham avançado até Suném,
marchou contra eles, com seu exército e acampou em frente do deles, perto do
monte de Gilboa, mas, quando viu que eles eram incomparavelmente mais
fortes, sentiu sua coragem diminuir e rogou aos profetas que consultassem
a Deus para saber qual seria o resultado dessa guerra. Deus não lhe
respondeu, e esse silêncio duplicou-lhe o temor: julgou-se abandonado por Ele:
seu ânimo abateu-se e ele resolveu nessa dificuldade, recorrer à magia;
mas tinha expulsado do país todos os magos e adivinhos e toda espécie
de gente que costuma predizer o futuro; assim, não sabendo onde buscá-
los, mandou que se indagasse onde se poderia encontrar algum daqueles
que fazem voltar as almas dos mortos para interrogá-las e saber coisas
futuras. Um dos seus, disse-lhe que havia uma mulher na cidade de En-Dor a
qual poderia satisfazer-lhe os desejos. Imediatamente, sem falar com quem
quer que fosse, disfarçado e acompanhado por duas pessoas somente, foi
procurar aquela mulher, rogando-lhe que lhe predissesse o que estava
para lhe acontecer e fizesse voltar, para esse fim a alma de um morto,
que ele lhe ia nomear. Ela respondeu que não podia fazê-lo porque o rei
tinha absolutamente proibido, por um edito, que se servissem dessa
espécie de predição e que lhe rogava que, jamais tendo-lhe feito mal, não lhe
armasse uma cilada, para fazê-la cair numa falta que lhe custaria a vida. Saul
prometeu-lhe e jurou-lhe, que acontecesse o que acontecesse, ele não o faria e
que ela não corria risco algum. Esse juramento tranquilizou-a e ele pediu que
fizesse vir a alma de Samuel. Como ela não sabia quem era Samuel,
obedeceu sem dificuldade, mas quando sua presença se fez notar, não sei o
que de divino ela notou nele, que a surpreendeu e perturbou. Voltou-se para
Saul e disse-lhe: "Não sois vós o rei Saul?" (Ela o soubera pela visão).

Ele respondeu-lhe que era, e ordenou-lhe que lhe dissesse a causa daquela
grande perturbação, em que a via. Ela respondeu que via aproximar-se um
homem, que parecia todo divino. "Que idade tem ele?", disse Saul, "e como
está vestido?" "Ele parece", respondeu ela, "um velho mui venerável e está
revestido de um hábito sacerdotal". Então Saul não duvidou de que era
mesmo Samuel* e prostrou-se diante dele até o chão. A sombra perguntou
-lhe por que o havia obrigado a voltar do outro mundo". A necessidade me
obrigou a isso", disse ele, "porque tendo sido atacado por um exército muito
poderoso, eu me encontro abandonado, sem o auxílio de Deus, que não quer,
nem por seus profetas, nem por outro modo informar-me sobre o que está para
acontecer. Assim, só me resta recorrer a vós, que sempre me testemunhastes
tanto afeto".
Samuel, que sabia que o tempo da morte de Saul havia chegado, disse-lhe:
"Sei que de fato Deus vos abandonou é em vão desejais que vos diga o que
vos deve suceder; mas visto que o quereis, sabei que Davi reinará; que ele
terminará felizmente esta guerra e que por castigo de não terdes
executado as ordens que eu vos havia dado, da parte de Deus, depois de
ter vencido os amalequitas, vosso exército amanhã será desbaratado e vós
perdereis a coroa, a vida e vossos filhos nessa batalha." Estas palavras
gelaram o coração de Saul e ele desmaiou, quer pelo excesso da dor, quer
porque há dois dias não se alimentava. A mulher rogou-lhe que tomasse algum
alimento, para restaurar suas forças e poder voltar ao exército. Ele recusou-o;
ela insistiu ainda, dizendo que não lhe pedia outra recompensa, por ter arriscado
sua vida para fazer o que ele desejava, que sabia que não corria perigo pois era
o mesmo rei que lhe dava aquela ordem. Por fim, Saul não podendo resistir às
suas súplicas insistentes, disse-lhe que comeria alguma coisa. Logo ela matou
um vitelo, que era tudo o que possuía, preparou-o e serviu-lhe a ele e aos seus;
Saul voltou naquela mesma noite para o seu exército. Eu não poderia a este
propósito admirar assaz a bondade dessa mulher, que nunca antes tendo
visto o rei, em vez de se ressentir porque ele a havia reduzido a tão grande
pobreza, proibindo-a de exercer a arte que era seu meio de vida, teve
tanta compaixão da sua infelicidade, que não só contentou de consolá-lo, mas
deu-lhe tudo o que possuía, sem pretender recompensa alguma e sem nada
esperar dele, sabendo que ele morreria no dia seguinte. Nisso ela é tanto
mais louvável, quanto os homens são naturalmente levados a fazer o bem
somente àqueles dos quais podem também recebê-lo, e assim ela nos dá um
belo exemplo de como ajudar, sem interesse, aos que têm necessidade
de nosso auxílio pois que é uma generosidade tão agradável a Deus, que
nada mais do que ela pode levá-lo a nos tratar favoravelmente. Julgo
dever acrescentar outra reflexão que poderá ser útil a todos e particularmente
aos reis, aos príncipes, aos grandes, aos magistrados, às outras pessoas
constituídas em dignidade e a todos os que em qualquer condição estejam, têm
a alma grande e nobre, a fim de inflamá-los de tal modo ao amor da virtude que
não haja penas nem tribulações, que eles não aceitem, nem perigos que eles
não desprezem e até mesmo a morte, para conquistar uma reputação imortal,
dando sua vida pelo bem da pátria. Nós vemos o que Saul fez, pois, ainda que
Samuel o tivesse avisado de que ele seria morto com seus filhos na batalha, ele
preferiu perder a vida do que fazer uma ação indigna de um rei, para conservá-
la, abandonando seu exército, o que seria como entregá-lo nas mãos dos
inimigos.Assim, não hesitou em se expor com seus filhos a uma morte
certa, mas julgou que seria melhor e muito mais feliz, terminar gloriosamente
seus dias, com estes, combatendo pela salvação da pátria e merecendo viver
perenemente na memória da posteridade, do que sobreviver à sua infelicidade,
não ter mais uma posição e ser ainda tido em pouco na opinião de todos. Não
poderia, pois, deixar de considerar esse soberano, neste ponto, como muito
justo, muito sensato e muito generoso. E, se algum outro fez antes dele ou fizer
no futuro a mesma coisa, não haverá elogios de que não seja digno. Pois ainda
que aqueles que fazem a guerra na esperança de obter a vitória, merecem que
os historiadores elogiem suas ações e seus feitos grandiosos, parece-me que
somente devem ser tidos como provectos na coragem os que, à imitação de
Saul, preferem de tal modo sua honra à própria vida, que desprezam perigos
certos e inevitáveis. Nada é mais comum do que empreender aquilo cujo
desfecho é duvidoso e de que, se houver sorte favorável, se podem auferir
grandes vantagens. Mas nada poder prometer senão coisas funestas, estar
mesmo certo de que se perderá a vida no combate e ir com coragem intrépida
afrontar a morte, é o que se pode dizer o cúmulo da generosidade e da
coragem. Foi isso que admiravelmente fez Saul; foi o exemplo que ele deu a
todos os que desejam eternizar sua memória pela glória de suas ações, mas
principalmente aos reis, aos quais a nobreza da própria condição, não somente
não permite abandonar o cuidado de seus súditos, mas os torna mesmo dignos
de censura se tiverem por eles apenas um a medíocre afeição. Poderia eu falar
ainda muito mais, em louvor de Saul, mas, para não ser demasiado longo é-
me necessário retomar o fio do meu discurso.
[...]
255. 1 Samuel 31. Travou-se, entretanto, a batalha entre os filisteus e os
israelitas; foi encarniçada de parte a parte. Mas, por fim, a vantagem pendeu
para os filisteus, e Saul e seus filhos, que estavam empenhados no combate,
não tendo mais esperança de obter a vitória, só pensaram em morrer
gloriosamente. Praticaram atos de bravura, tão extraordinários que atraíram
sobre si todas as forças dos inimigos e depois de terem matado um grande
número deles, esmagados pela multidão, acabaram perecendo. Jônatas,
Abinadabe e Malquisua, seus dois irmãos, caíram ali mesmo e sua morte fez os
israelitas perder totalmente o ânimo; estes fugiram logo depois e os filisteus
fizeram grande matança. Saul retirou-se em boa ordem, com o que pôde salvar.
Os inimigos mandaram um grande número de arqueiros em sua perseguição,
bem como besteiros, que os mataram quase todos a golpes de dardos e de
flechas; Saul mesmo, depois de ter feito o possível, foi tão crivado de golpes que
querendo morrer, não lhe restavam, porém, mais forças para se matar. Ele
ordenou então ao seu escudeiro que lhe atravessasse o corpo com sua espada,
para impedir que ele caísse vivo em poder dos inimigos: vendo, que não se
resolvia a fazê-lo, colocou a ponta da espada sobre o estômago e se lançou
sobre ela. Quando o escudeiro de Saul viu seu senhor morto, matou-se também
e todos os soldados de sua guarda foram mortos, perto do monte de Gilboa.
Os israelitas que habitavam no vale, além do Jordão, tendo sabido da
derrota, da morte de Saul e de seus filhos, retiraram-se para lugares fortificados
e abandonaram as cidades que possuíam na planície, de que os filisteus se
haviam apoderado.
256. No dia seguinte, depois desse grande combate, os vencedores,
despojando os mortos, reconheceram o corpo de Saul e de seus filhos,
Cortaram-lhe a cabeça, e depois de terem anunciado sua morte por todo o
país e consagrado suas almas no templo de Astarote, seu falso deus,
penduraram seus corpos em forcas, perto da cidade de Bete-Seã que hoje
se chama Scitópolis. Os habitantes de Jabes-Gileade demonstraram nessa
ocasião a grandeza de sua coragem; pela indignação que sentiram por ver que
não somente se privavam tão grandes príncipes da honra da sepultura, mas
ainda os tratavam ignominiosamente, os mais corajosos dentre eles, foram de
noite apoderar-se daqueles corpos à vista dos inimigos e os levaram sem que
eles se atrevessem a protestar. Toda a cidade prestou-lhes homenagem,
organizando- lhes um honroso sepultamento; passaram-se dias de lamentações,
com suas mulheres e crianças, em luto público, num jejum tão rigoroso que não
quiseram nem beber nem comer durante todo esse tempo, tanto estavam
sentidos e penetrados de dor, pela perda de seu rei e de seus príncipes.
Eis como, segundo a profecia de Samuel, o rei Saul terminou sua
vida, por ter desobedecido às ordens de Deus, com relação aos amalequitas,
tendo feito morrer o grão-sacrificador Aimeleque, com toda a sua casa
sacerdotal e reduzido a cinzas a cidade destinada por Deus para sua estada.
Reinou dezoito anos durante a vida desse profeta e vinte e dois anos, depois de
sua morte. (JOSEFO, 2003, p. 169-172)


Iremos agora, por oportuno, comentar vários trechos desse relato de Josefo, visando
elucidar algumas coisas, que julgamos muito importantes.
Antes disso, ressaltaremos algo que, apesar de sua importância, ainda não vimos
ninguém atentar para ele, conquanto seja fundamental para o entendimento do texto acima.
Analisemos duas passagens bíblicas às quais está ligado:
1ª) “Samuel não viu mais Saul até o dia da sua morte” ou em outra versão  “Enquanto este viveu, Samuel nunca mais viu Saul”. (1Sm 15,35).
O autor bíblico, certamente, está dizendo que Saul não viu mais Samuel, enquanto este viveu, após ter degolado Agag em Guilgal; porém depois de morto sim, uma vez que mais à
frente relatará justamente o encontro dos dois personagens. A bem da verdade, houve um
“cochilo” do autor, pois, pelo menos uma vez, passados 8 anos (Bíblia Shedd, p. 410), Saul
ainda viu Samuel antes de sua morte, conforme relatado em 1Sm 19,22-24.
2ª) Na versão bíblica do episódio (1Sm 38,3-25), cujo título os tradutores da Bíblia de
Jerusalém impropriamente colocaram como “Saul e a feiticeira de Endor” (não podiam perder a
chance de fazer a ligação), o autor bíblico inicia o seu relato da seguinte forma:
“Samuel tinha morrido, e todo o Israel o tinha lamentado, e o sepultaram em Ramá,
sua cidade. Saul havia expulsado da terra os necromantes e adivinhos”. (1Sm
28,3).
Essas coisas citadas por ele, bem no início, é para chamar a atenção do leitor sobre o
que relatará na sequência; começa dizendo que Samuel havia morrido, fato que é informado
num passo bem anterior (1Sm 25,1), portanto a sua intenção é dizer algo assim: “Olha, leitor,
o Samuel que falaremos mais abaixo já morreu, lembre-se disso”. E ao dizer que Saul havia
expulsado os necromantes, está, de certa forma, reforçando a informação dada, pois se
buscaria o contato com um morto através de uma necromante. E ressaltamos que expulsou
“necromantes” e não feiticeiras.
Vamos comentar alguns trechos da transcrição acima do livro História dos Hebreus, cuja
tradução foi realizada pelo Pe. Vicente Pedroso:

a) “consulta por meio de uma médium a sombra de Samuel”:
Certamente, que aqui o tradutor pecou contra a honestidade, pois o termo médium não
existia na época em que foi escrito o texto por Josefo. O que de fato deveria ter sido
mencionado é: “consulta por meio de uma necromante”, tanto é verdade que, mais a frente,
lemos que Saul havia expulsado “toda a espécie de gente que costuma predizer o futuro” e
que ele queria saber de seus servos “onde se poderia encontrar algum daqueles que fazem
voltar as almas dos mortos para interrogá-las e saber coisas futuras”. Observa-se que, em
ambos os trechos, fala-se de previsão de futuro, o que não cabe aplicar isso a nós, os
espíritas, que não os evocamos, de forma alguma, com esse objetivo.
Além disso usa o termo “sombra” para referir-se a Samuel, quando, possivelmente,
teria sido dito por Josefo “espírito” ou “alma”, e não sombra.
Corroborando isso, podemos citar que no site Christian Classics Ethereal Library4
, a
versão em inglês da obra de Josefo, aí disponível, já diz “desejou que uma mulher necromante
fizesse subir a alma de Samuel5
”.
Não temos dúvida de que a colocação da palavra “médium” foi intencional, visando que
os leitores façam uma imediata ligação com o Espiritismo, pois, por pura ignorância, quando se
fala em médium, logo se relacionam à Doutrina Espírita. Entretanto, o que não sabem é que
médium todos nós somos; o que varia é o grau de sensibilidade que cada um de nós tem, já o
dissemos. A mediunidade é uma faculdade humana; portanto, pouco importa se a pessoa tem
ou não religião, ela está presente. Vejamos a definição de Kardec:

MÉDIUM (do lat. Médium, meio, intermediário): pessoas acessíveis à
influência dos Espíritos, e mais ou menos dotadas da faculdade de receber e
transmitir suas comunicações. Para os Espíritos, o médium é um intermediário;
é um agente ou um instrumento mais ou menos cômodo, segundo a natureza ou
o grau da faculdade mediúnica. Esta faculdade depende de uma disposição
orgânica especial, suscetível de desenvolvimento. Distinguem-se diversas
variedades de médiuns, segundo sua aptidão particular para tal ou tal modo de
transmissão, ou tal gênero de comunicação. (KARDEC, 1986, p. 196-197).

A quem ele atribuía a faculdade de ser médium? Leiamos:

Todo aquele que sente, num grau qualquer, a influência dos Espíritos,
é, por isso mesmo, médium. Essa faculdade é inerente ao homem; não constitui, portanto, privilégio exclusivo. Por isso mesmo, raras são as pessoas que dela não possuam alguns rudimentos. Pode, pois, dizer-se que todos são, mais ou menos, médiuns. […] (KARDEC, 2007a, p. 211).

Vê-se, portanto, que o Codificador não faz nenhuma restrição, pois não atribui a
mediunidade somente aos Espíritas; porém, como uma faculdade humana da qual todos
possuem alguns rudimentos.
O que é mais interessante disso é que os dois personagens envolvidos na história da
necromante, Samuel e Saul, também eram médiuns!!! Fato que se poderá verificar em:
1Sm 9,1-27: “Entre os benjaminitas, havia um homem chamado Cis, filho de Abiel,
filho de Seror, filho de Becorat, filho de Afia. Era um benjaminita muito importante.
Esse homem tinha um filho chamado Saul, jovem de boa aparência. Era um israelita
imponente: os outros lhe chegavam apenas até os ombros. As jumentas de Cis, pai de
Saul, tinham se extraviado. Cis disse ao filho Saul: 'Chame um dos empregados e vá
procurar as jumentas'". Eles cruzaram a região montanhosa de Efraim, atravessaram o
território de Salisa, mas não as encontraram. Atravessaram a região de Salim, e nada.
Atravessaram a região de Benjamim, e nem aí encontraram as jumentas. Quando
chegaram ao território de Suf, Saul disse ao empregado que o acompanhava: 'Vamos
voltar, senão o meu pai vai ficar mais preocupado conosco do que com as jumentas'. O
empregado, porém, sugeriu: 'Olhe. Na cidade vizinha há um homem de Deus que é
muito famoso.  Tudo o que ele diz, acontece de fato. Vamos até lá.  Quem sabe ele nos
possa orientar sobre o caminho que devemos seguir'  Saul disse ao empregado:
'Podemos ir. Mas o que vamos oferecer a esse homem? Já não temos pão na sacola.
Não temos nada para oferecer a esse homem de Deus. Será que sobrou alguma
coisa?' O empregado respondeu: Tenho aqui uma pequena moeda de prata.Vou
oferecê-la ao homem de Deus, e ele nos dará uma orientação'. (Em Israel,
antigamente, quando alguém ia consultar a Deus, costumava dizer: 'Vamos ao
vidente'. Porque, em lugar de 'profeta', como se diz hoje, dizia-se 'vidente'). Saul replicou: 'Ótimo, vamos lá'. E foram à cidade onde morava o homem de Deus. …
Saul chegou perto de Samuel, no meio da porta, e lhe perguntou: 'O senhor pode me
dizer onde é a casa do vidente?' Samuel respondeu: “Eu sou o vidente. Suba na
minha frente até o lugar alto. Hoje você comerá comigo, e amanhã de manhã você irá
embora Vou resolver a questão que o preocupa. Não se preocupe com as
jumentas que você perdeu há três dias. Elas já foram encontradas. Aliás, de
quem é toda a riqueza de Israel? Não é, por acaso, sua e da família do seu pai?'"

Hoje sabemos que a vidência é uma das particularidades da mediunidade, pela qual um
médium consegue enxergar tanto o plano espiritual como os seus habitantes. Então, a
conclusão óbvia é que sendo Samuel um vidente, necessariamente ele era um médium. E,
dada a ignorância sobre o fenômeno, o tinham como “um homem de Deus... que tudo o que
diz acontece”.
Aliás, parece-me ser uma característica dos hebreus que seus líderes tivessem, à sua
disposição, um vidente, o seu “médium oficial”, conforme se pode ver nos seguintes passos:

1Cr 21,9: “Então Javé disse a Gad, o vidente de Davi:”.
1Cr 25,5: “Eram todos filhos de Emã, o vidente do rei, a quem ele transmitia a
palavra de Deus”.
2Cr 9,29: “O resto da história de Salomão, do começo ao fim, está escrito na história
do profeta Natã, nas profecias de Aías de Silo e na visão que Ido, o vidente, teve
sobre Jeroboão, [...]”.
2Cr 29,30: “Em seguida, o rei Ezequias e os chefes ordenaram aos levitas que
louvassem Javé com as palavras de Davi e do vidente Asaf. E eles o fizeram de
coração alegre. Depois, se ajoelharam e se prostraram”.
2Cr 12,15: “A história de Roboão, do começo ao fim, está escrita na história do profeta
Semeías e do vidente Ado [...]”.

2Cr 16,7: “Nessa ocasião, o vidente Hanani procurou Asa, rei de Judá, e lhe disse:
[...]”.
2Cr 19,2: “O vidente Jeú, filho de Hanani, foi ao seu encontro e disse: [...]”.
2Cr 36,15: “[...] Asaf, nem Emã, nem Iditun, nem o vidente do rei, nem os porteiros
tiveram que deixar as suas funções, pois seus irmãos levitas prepararam tudo para
eles”.
Am 7,12: “Então Amasias disse a Amós: 'Vidente, vá embora daqui. Retire-se para a
terra de Judá. Vá ganhar a sua vida fazendo lá suas profecias'”.
A mediunidade de vidência não é uma das que são raridade, por isso, é comum
encontrarmos, nas Casas Espíritas, médiuns videntes, que, em alguns casos e quando há
necessidade, confirma a presença de determinado espírito. Além desses, podemos ainda
encontrar os médiuns audientes, que ouvem os espíritos; portanto, não se pode dizer que
“ninguém ouve nem vê” os espíritos que se utilizam dos médiuns de psicografia. Um bom
exemplo de um médium que tinha, além de outras, todas essas mediunidades juntas é o nosso
saudoso Chico Xavier.
Oportuno separar vidência com o que acontece ao se presenciar um fenômeno de
materialização. Na aparição de Samuel a Saul, este não o viu, porque não era médium vidente,
que é o caso da mulher. Quando Moisés e Elias apareceram a Jesus os discípulos Pedro, Tiago e
João, que o acompanhavam, viram, porque o fenômeno aqui foi o de uma materialização.
Esses dois casos são, portanto, diferentes na espécie; não se deve confundi-los como sendo a
mesma coisa, o que é comum aos dois é que ambos são fenômenos mediúnicos.
Voltando ao vidente Samuel, vejamos duas coisas importantes, no exercício que fazia
de sua mediunidade: primeira, é que recebia pagamento pelo uso de sua faculdade mediúnica,
razão de terem ficado preocupados em não ter nada para pagá-lo, tranquilizando-se, quando o
servo que acompanhava Saul encontrou uma pequena moeda de prata, deixando evidente que
Samuel comercializava a sua atividade como médium; a segunda relaciona-se ao objetivo pelo
qual foram procurá-lo; queriam saber dele onde se encontravam as jumentas pertencentes ao
pai de Saul, que haviam se perdido; ele afirma que elas seriam encontradas; dessa forma
Samuel demonstra que usava a sua mediunidade para as coisas fúteis da vida. Isso, sim, é o
que teria sido proibido por Moisés! Ambas as situações não fazem coro nas pessoas que
realmente praticam o Espiritismo.

Vejamos agora o personagem Saul, na qualidade de médium:
1Sm 16,14-23: “O espírito de Javé afastou-se de Saul, e ele começou a ficar agitado
por um espírito mau, enviado por Javé. Então os servos de Saul lhe disseram: 'Você
está sendo agitado por um espírito mau enviado por Deus. Dê uma ordem, e nós,
seus servos, vamos procurar alguém que saiba tocar harpa; desse modo, quando o
espírito mau enviado por Deus o atormentar, alguém tocará para você, e você
se sentirá melhor'. Então Saul ordenou: 'Procurem alguém que saiba tocar bem e o
tragam para mim'. Um dos servos disse: 'Conheço um filho do belemita Jessé...'. Então
Saul enviou mensageiros a Jessé com esta ordem: 'Mande-me o seu filho Davi,...' ...
Davi chegou ao palácio e se apresentou a Saul; o rei ficou muito bem impressionado
com ele, e o tornou seu escudeiro. E Saul mandou dizer a Jessé: "Davi ficará a meu
serviço, porque eu gosto dele'. Todas as vezes que o espírito de Deus atacava
Saul, Davi pegava a harpa e tocava. Então Saul se acalmava, sentia-se melhor,
e o espírito mau o deixava”.



As atitudes de Saul o tornaram presa de um espírito obsessor, que se afastava
temporariamente, quando Davi tocava harpa. Passava então, o filho de Cis, por um processo
de obsessão, que é “o domínio que alguns Espíritos logram adquirir sobre certas pessoas”
(KARDEC, 2007a, p. 317). Entre suas modalidades encontramos a subjugação “é uma
constrição que paralisa a vontade daquele que a sofre e o faz agir a seu mau grado” (KARDEC,
2007a, p. 322), que é, ao que tudo indica, o caso de Saul, registrado em dois momentos:
1Sm 18,10-12: “No dia seguinte, um espírito mau provindo de Deus tomou conta de
Saul, que começou a delirar dentro de casa. Como de costume, Davi estava tocando
harpa e Saul tinha a lança na mão. Saul atirou a lança, dizendo: 'Vou cravar
Davi na parede'. Davi, porém, conseguiu escapar duas vezes. Saul tinha medo de
Davi, porque Javé tinha abandonado Saul e agora estava com Davi”.
1Sm 19,8-10: “A guerra começou de novo e Davi saiu para lutar contra os filisteus.
Estes foram derrotados e fugiram. Ora, um espírito mau, vindo da parte de Javé,
se apoderou de Saul, quando estava sentado em casa, com a lança na mão,
enquanto Davi tocava harpa. Saul tentou cravar Davi na parede, mas Davi se
desviou e a lança fincou na parede. Então Davi se salvou fugindo. [...]”

O sentimento de inveja de Saul era um, dentre outros possíveis fatores, que fazia os
Espíritos bons se afastarem dele, que, em razão disso, ficava à mercê dos Espíritos maus, que
o assediavam sem dó.
Não raro, encontramos argumentos denegrindo a pessoa de Saul, dizendo que foi
tomado por ódio, inveja e ciúmes, ou que o egoísmo, a cobiça, o ciúme e a desobediência
endurecem o seu coração, e diante de tantos “predicados”, Deus não poderia respondê-lo;
pena que não se lembram de Jesus que disse: “As pessoas que têm saúde não precisam de
médico” (Mt 9,12) e “não vim chamar os justos e sim pecadores” (Mt 9,13). Não satisfeitos
acusam-no até de assassino, fazendo vistas grossas ao profeta Samuel que mandou trazer
Agag, o rei dos amalecitas, e, friamente, o degolou ali mesmo, diante do povo (1Sm 15,32-
33), convicto de que isso era agradável a Deus ao cumprir Suas ordens.
Já vimos até se dizer que Saul “nunca descera tanto”, pelo motivo dele ter se disfarçado
para ir à casa da necromante, sem levar em conta de que ele, como rei de Israel, expulsou, do
país, os necromantes; portanto, não poderia se encontrar com ela “vestido de rei”, pois,
certamente, ela não o atenderia e fatalmente diria que não mais era necromante, por proibição
do próprio Rei; porém usando de roupas comuns, ou seja, “disfarçando-se” de gente do povo
ela o faria. E, mais uma vez, vemos ao que leva o dogmatismo.
b) “rogou aos profetas que consultassem a Deus para saber qual seria o
resultado dessa guerra”
Como consultavam a Deus? Vejamos que, pela versão da Bíblia de Jerusalém, se afirma
que: “Saul consultou a Iahweh, mas Iahweh não lhe respondeu, nem por sonho, nem pela
sorte, nem pelos profetas” (1Sm 28,6), portanto, temos aí três maneiras pelas quais
consultavam a Deus: por sonho, pela sorte e pelos profetas. Chamamos a sua atenção, caro
leitor, para as consultas pela sorte, pois talvez ninguém o tenha explicado como elas
aconteciam; muitos por quererem esconder o que se encontra por detrás do processo, outros
por pura ignorância mesmo. Confessamos que até há pouco tempo nem tínhamos a mínima
ideia sobre elas; mas resolvemos pesquisar e encontramos algo inusitado.
Segundo apuramos, para os hebreus “A sorte indica a vontade de Deus...” (Vozes,
p. 305).Quando nos acontece algo inesperado, geralmente, dizemos que foi por
pura sorte; não é mesmo? Pois bem, esse “pela sorte” do texto bíblico é coisa semelhante,
conforme poder-se-á ver nas explicações que se seguem.
Primeiramente, devemos informar que nas Bíblias Ave-Maria, Mundo Cristão, Shedd,
SBB, SBTB e Novo Mundo, em vez de “pela sorte” encontramos “pelo urim”. Esse termo – urim
- está sempre ligado a “tumim”. O significado, conforme o Dicionário Bíblico Universal, para os
dois termos, é:
Urim e Tumim
Palavras de sentido incerto: designam uma técnica divinatória que
consiste em tirar a sorte várias vezes, usando duas pedrinhas ou
bastõezinhos ou algum objeto semelhante. Um dos objetos trazia a primeira
letra do alfabeto, o alef, inicial de urim, e o outro, a última letra, o tau (cf. Ez
9,4), inicial de tumim? Pode-se imaginar isso. O modo como funcionava aparece
em 1Sm 14,41-42, corrigido segundo o grego: “Saul disse: 'Se a culpa esta em
mim... o senhor... faça dar urim; se a culpa está em Israel, que dê tumim!'
Saul... foi designado. Saul disse: 'Lançai a sorte sobre mim e meu filho
Jônatas!', e a sorte caiu em Jônatas”. Trata-se portanto de uma resposta por
sim ou não, que vai progredindo por precisões sucessivas (cf. 1Sm 23,9-12). A
operação poderia durar muito tempo (1Sm 14,18-19, corrigido segundo o grego). Acontecia às vezes que o oráculo se recusava a responder (1Sm 14,37;
28,6). Sem dúvida, quando não saía nada ou quando os dois resultados saíam
ao mesmo tempo. A manipulação das sortes era confiada ao sacerdote
Eleazar (Nm 27,21) ou à tribo de Levi (Dt 33,8). Depois do reinado de Davi
só se encontra uma menção (Esd 2,63 = Ne 7,65). (MONLOUBOU e DU BUIT,
1997, p. 813-814)

Pelo Dicionário Bíblico (On-line), temos:
Urim e Tumim
Luzes e perfeições. Como há muita dúvida com respeito a estes nomes, será
bom examinar as referências das Escrituras sobre o assunto: ‘Também porás no
peitoral do juízo o Urim e o Tumim, para que estejam sobre o coração de Arão,
quando entrar perante o Senhor’ (Êx 28.30 - cf. Lv 8.8). Há, aqui, uma alusão a
pequenos objetos, em conexão com a interpretação da vontade de Deus por
meio do sumo sacerdote, estando essas coisas encerradas numa dobra do
peitoral. Parece que se trata de pedras, usadas como sortes, ou talvez de uma
única pedra com duas faces sobre as quais estivessem gravadas os termos Urim
e Tumim. Na ‘Bênção de Moisés’ (Dt 33.8) o privilégio de possuir o ‘Tumim e o
Urim’ é recebido da tribo de Levi. Em outras passagens há expressas
referências a Urim e a Tumim como meios de adivinhação. Na divina
designação de Josué, para sucessor de Moisés, se lê: ‘Apresentar-se-á perante
Eleazar, o sacerdote, o qual por ele consultará, segundo o juízo do Urim, perante
o Senhor’ (Nm 27:21). o que levou Saul a consultar a feiticeira de En-Dor foi o
seguinte: quando Saul consultou o Senhor, o Senhor ‘não lhe respondeu, nem
por sonhos, nem por Urim, nem por profetas’ (1 Sm 28.6). Nos dias de Esdras e
Neemias o método tinha caído em desuso - e por isso Zorobabel adiou a sua
decisão com respeito ao direito de certas famílias ao sacerdócio, ‘até que se
levantasse um sacerdote com Urim e Tumim’ (Ed 2.63 - Ne 7.65). Pode dizer-se,
com alguma probabilidade, que o mesmo método de adivinhação deve ter sido
empregado em alguns casos em que o Urim e o Tumim não são expressamente
mencionados (*veja g. Js 7.14 a 18 - Jz 20.28 - 1 Sm 10.20 a 24 - 2 Sm 2.1 -
5.19, 23). Eram, desse modo, o Urim e o Tumim o meio de apelar pela
sorte para a vontade ou conhecimento de Deus, nos casos que envolviam
duas alternativas, sendo isso naturalmente uma prerrogativa dos sacerdotes.
(Site Bíblia Online , 2010)

Portanto, essas duas pedras – urim e tumim -, eram usadas como meio de adivinhação;
só que, para eles, quem, supostamente, respondia às consultar, era o Deus de Israel. Os
sacerdotes são os que tinham o encargo de fazer essas consultas; foi isso que encontramos no
Dicionário Bíblico Universal:
O sacerdote e o oráculo divino
Dar oráculo é a função principal do sacerdote; em Dt 33,8-10 esta
função é citada pela primeira vez. Moisés desempenha esta tarefa (Ex 18,15-
19).
Os sacerdotes utilizavam os meios técnicos apropriados: o efod, o
urim e o tumim. Com o passar do tempo estes meios parecem suspeitos (Os
3,4): a consulta através dos profetas adquire mais importância do que a do
sacerdote. (MONLOUBOU e DU BUIT, 1997, p. 704)

Então, temos que, todas as vezes em que se encontrar na Bíblia referência a alguém
realizando um oráculo, significa, que, na verdade, esse alguém estava manejando os dados
urim e tumim, num processo divinatório, que, para eles, os hebreus, representava a vontade
de Deus. E é bom relembrar que: “Em Israel, antigamente, quando alguém ia consultar a
Deus, costumava dizer: 'Vamos ao vidente'. Porque, em lugar de 'profeta', como se diz hoje,
dizia-se 'vidente'”. (1Sm 9,9), relacionando, portanto, o “dom” do profeta à mediunidade.
Vejamos, para corroborar tudo isso que já foi dito, algumas passagens nas quais
encontraremos explicações dos tradutores bíblicos sobre o significado de urim e tumim.
Em Ex 28,6 é dito sobre uma parte da vestimenta do sacerdote chamada efod, onde
explicam:
O efod aqui é um elemento das vestes sacerdotais, ligado ao “peitoral do
juízo” (28,15s), onde estão as sortes sagradas: urim e tumim.
Originariamente era uma faixa de pano que cobria os flancos da divindade (cf. Is
30,22; Jz 8,27; 17,5) ou os do ministro do culto. Era usado para consultar a
Deus e dar respostas oraculares (1Sm 2,18.28; 14,18s.41; 23,9s; 2Sm
6,14). (Bíblia Sagrada - Vozes, p. 110)

O hebraico bíblico aplica o termo efod (etimologia incerta) a três realidades:
1º) o efod instrumento de adivinhação, que servia para consultar a
Iahweh (cf. 1Sm 2,28+); 2º) o efod-bad, “tanga de linho” usada pelos
ministros do culto (cf. 1Sm 2,18++; 3º) o efod do sumo sacerdote, espécie de
colete preso por cinto e suspensórios. A esse colete está preso o “peitoral do
julgamento” (vv. 15s), o qual contém as, sortes sagradas, Urim e Tumim
(v. 30; Lv 8,7-8; 1Sm 14,41+). O efod do sumo sacerdote é assim posto em
relação com o efod da adivinhação, do mesmo modo que o seu nome lembra a
antiga vestimenta dos sacerdotes. Mas essas aproximações são artificiais: essa
descrição da vestimenta do sumo sacerdote vale apenas para a época pósexílica,
e o uso do efod divinatório com as sortes sagradas, não é mais
documento depois de Davi. (cf. Ainda Jz 8,27+). (Bíblia de Jerusalém, p. 142)

Assim, temos que o efod é um instrumento de adivinhação (ou divinatório) e continha
as pedras ou sortes sagradas, urim e tumim, com as quais faziam suas consultas a Deus. Ora,
isso é bem interessante porque a adivinhação foi, segundo os próprios textos bíblicos,
proibida. Vê-se, portanto, não haver muita coerência nesse ponto.
Outra parte da vestimenta sacerdotal é citada em Ex 28,15, sobre a qual dizem:
O peitoral era um pedaço de pano dobrado de modo a formar uma espécie de
bolso para conter os dados (sortes) sagrados, urim e tumim (28,30). É
chamado “do juízo” porque por meio dos dados sagrados o sacerdote dava
a sentença ou julgamento divino (28,31). (Bíblia Sagrada - Vozes, p. 111)

No passo Ex 28,30, mencionado em “nota” a 28,15, recomenda-se que “No peitoral do
juízo porás o urim e tumim”, a respeito do qual explicam:
Urim e tumim eram o nome de duas pedras, em forma de dado, cada uma
de cor diferente, que serviam para dar a resposta convencionada por um
“sim” ou um “não”, de acordo com a pergunta feita (1Sm 14,41; 23,10-12).
Estes “dados” eram manejados pelos sacerdotes ou levitas (Nm 27,21; 23,10-
12). (Bíblia Sagrada - Vozes, p. 111)

Esse “peitoral do juízo” também era chamado de “peitoral do julgamento”, para o qual
também encontramos esta explicação:
O peitoral do julgamento (Ex 28,4s.30; Lv 8,8) era uma espécie de bolsa
onde se guardavam os reveladores da verdade (urim e tumim), espécie de
dados coloridos, pelos quais o sacerdote dava as respostas oraculares aos
fiéis, em nome de Deus. (Bíblia Sagrada - Vozes, p. 879)

Certamente que você, leitor, já deve estar percebendo que as consultas a Deus eram
feitas nos moldes de um autêntico “cara ou coroa”, pois, na verdade, o processo não passava
disso mesmo. E se, como dizem, “a adivinhação é prática ocultista para conhecer o futuro”,
exatamente era para que se usavam essas duas pedras, ou seja, conhecer o futuro, o que
torna “antibíblico” tal procedimento, portanto, dizer que “o método de Deus é a profecia e não
a adivinhação”, prova falta de conhecimento do assunto de que se fala. Está aí, pois a razão
pela qual não se fala dessas duas pedras, vistas como sortes sagradas.
E, para confirmar tudo isso, apresentamos o passo:

Nm 27,21: “Então Josué se apresentará ao sacerdote Eleazar, que consultará Javé
por ele, tirando a sorte por meio dos urim. Toda a comunidade, tanto Josué como
os filhos de Israel, agirá conforme o oráculo"

Aqui se tem a prova de que o urim e tumim eram usados para se fazer as consultas. O
que se acaba de ler foi quanto a uma das formas que faziam as consultas a Deus, vamos
agora, ver alguns dos motivos que os levavam a essas consultas; para isso transcreveremos
algumas passagens da Bíblia:
Jz 1,1-2: “Depois que Josué morreu, os israelitas consultaram a Javé: 'Quem de nós
irá na frente para combater os cananeus?' Javé respondeu: 'Judá irá na frente,
porque eu entreguei a terra nas mãos dele'”. 

A explicação que deram para o “'consultaram ao Senhor” (conforme outras versões
bíblicas), confirma o uso das sortes sagradas:
A consulta se fazia em geral em santuários. Fazia-se uma pergunta (cf,
Jz 18,5; 20,18-23) e para obter a resposta (sim ou não), lançavam-se as
sortes contidas no efod (cf. 1Sm 23,6-12; Jz 8,27). (Bíblia Sagrada - Vozes, p.
264,)

Queriam obter de Deus uma indicação sobre quem, na guerra contra os cananeus,
substituiria Josué, que havia morrido; motivo tão fútil, o que faz com que os “citadores de
Bíblia” nem falem nisso.
E para dissipar as possíveis dúvidas do processo utilizado, veja o que, após ser
escolhido, Judá disse a seu irmão Simeão: “Venha comigo para a região que me coube por
sorteio” (Jz 1,3). A expressão “por sorteio” é a prova do uso das pedras das sortes para
“adivinhar” a vontade de Deus, sob pena de se ter que dizer que os destinos do povo eleito era
decidido na base do “cara ou coroa”.
Jz 18,5: Eles lhe pediram: “Consulta a Deus: Queremos saber se a viagem que
estamos empreendendo será bem sucedida”.
Os homens da tribo de Dã estavam procurando um território para morar, cinco dos seus
valentes foram mandados para explorar a terra; ao encontrarem um jovem levita, que Micas
havia feito sacerdote, lhe pediram o que consta nesse texto. Mais uma vez a consulta a Deus,
se não por motivo fútil, pelo menos essencialmente material, querendo saber coisas do futuro.
Jz 20,18-23: “Foram a Betel e consultaram a Deus: 'Quem de nós irá em primeiro
lugar para guerrear contra os benjaminitas?" Javé respondeu: "Judá". Os israelitas
madrugaram, acamparam diante de Gabaá, e saíram para combater Benjamim,
colocando-se em ordem de batalha diante de Gabaá. Mas os benjaminitas saíram de
Gabaá e nesse dia massacraram vinte e dois mil israelitas. Os israelitas voltaram a
Betel para chorar até a tarde diante de Javé. Depois consultaram Javé,
perguntando: "Devemos lutar de novo contra nosso irmão Benjamim?" Javé
respondeu: "Marchem contra ele".
Uma consulta para saber quem iria guerrear contras os benjaminitas; mais um assunto
mundano e ligado ao conhecimento de coisas do futuro.
1Sm 10,21-22: “Convocou então a tribo de Benjamim por clãs, e o clã de Metri foi
sorteado. E Saul, filho de Cis, foi apontado no sorteio. Procuraram Saul, mas não o
encontraram. Consultaram, então, a Javé: 'Saul está aqui?' Javé respondeu: 'Ele
está escondido entre as bagagens'".


No processo de escolha do primeiro rei de Israel, as pedras urim e tumim foram usadas,
sorteando-se sucessivamente até a “escolha” recair em Saul. E, ato seguinte, como não
sabiam onde Saul se encontrava, apelaram, novamente para o processo de consulta, que, não
sabemos como, conseguiu apontar o lugar. A não ser que entre eles houvesse um médium
audiente, para ouvir o que Deus disse. O manipulador dos dados foi Samuel, que disse de
Saul: “Estão vendo quem Javé escolheu? Não há, entre todo o povo, ninguém igual a ele” (v.
22). Pena que a escolha foi mal-feita, e quanto mais se depõe contra a pessoa dele, mais se reforça isso, porquanto, Saul, tempos depois, desobedecerá à ordem divina de “riscar do
mapa” os amalecitas. Com isso, Saul atraiu para si a ira de Deus, que resolve então lhe tirar o
reino para entregar a um outro, no caso, a Davi.
1Sm 14,35-37: “E Saul construiu um altar para Javé, e foi esse o primeiro altar que ele
construiu para Javé. Depois disse: 'Vamos descer, durante a noite, para perseguir os
filisteus, e os saquearemos até o amanhecer; não vamos deixar nenhum sobrevivente'.
Os da tropa responderam: 'Faça o que achar melhor'. O sacerdote propôs: 'Vamos
aproximar-nos para consultar a Deus'. E Saul consultou a Deus: 'Devo descer para
perseguir os filisteus? Tu os entregarás em poder de Israel?' Nesse dia, porém, não
houve resposta”.
Até para uma guerra contra os filisteus Deus foi consultado, usando-se dos dois
instrumentos de adivinhação; porém, nada obteve em resposta. E, ao que tudo indica, Saul já
estava com os dias contados, pois foi, completamente, derrotado pelos filisteus no episódio;
ele e seus três filhos morrem. O passo 1Sm 28,3-25, cuja versão de Josefo estamos
analisando, trata dos antecedentes desse dia.
Com a morte de Saul, a realeza foi para as “mãos” de Davi, que teve a incumbência de
marchar novamente contra os filisteus; porém, antes disso, vejamos o que ele faz:

1Cr 14,10: “Davi consultou a Deus, perguntando: 'Devo atacar os filisteus? E tu
os farás cair em minhas mãos?' E o Senhor lhe respondeu: 'Vai! Eu os farei cair em
tuas mãos'”.
Aqui o processo de consulta foi o mesmo, apesar de não estar explícito no texto; porém
podemos tomar como sendo a forma usual, que é a que estamos levantando aqui. Vimos a
seguinte explicação dos tradutores da Bíblia Vozes para “Davi consultou a Deus”, que,
certamente, reflete a realidade da época:
Tanto Saul como Davi, quando durante uma guerra tinham que tomar
uma decisão difícil, não se fiavam na sua capacidade pessoal, nem apenas no
conselho de seus assessores, mas consultavam a Deus, em nome do qual
lutavam. A consulta à divindade era realizada por intermédio dum
sacerdote, que os acompanhava para essa finalidade (cf. 1Sm 14,9; 23,9;
30,7). Não consta ao certo, de que maneira o sacerdote obtinha a manifestação
de Deus, mas tudo indica que para isso eram manejados uma espécie de
dados (urim e tumim). Mais tarde essa função passou dos sacerdotes aos
profetas. (cf. 2Rs 22). (Bíblia Sagrada - Vozes, p. 454)

Confirma-se, portanto, tudo o que já foi dito anteriormente. E apontamos mais um
registro de uma outra consulta realizada por Davi:
1Sm 23, 2: “Davi consultou a Javé: 'Posso ir atacar os filisteus?' Javé respondeu: 'Pode
ir. Você os derrotará e libertará Ceila'".

c) “ele resolveu nessa dificuldade, recorrer à magia”:
Nesse item, temos um problema de tradução do texto de Josefo. Enquanto a publicação
da CPAD, com tradução de Vicente Pedroso, consta “recorrer à magia”; no texto em inglês que
consta do site Christian Classics Ethereal Library, se tem necromante; portanto, é quase certo
que, mais uma vez, estamos diante das traduções de conveniência, pois a editora citada é de
cunho protestante.
d) “mas tinha expulsado do país todos os magos e adivinhos e toda espécie de
gente que costuma predizer o futuro”:
Situação idêntica ao item anterior, em cujo site citado agora, se lê “necromantes e
adivinhos”, e não magos e adivinhos, como na tradução de História dos Hebreus, publicação
CPAD. E é importante ressaltar que, com relação às consultas, a preocupação, conforme já o
dissemos anteriormente, por inúmeras vezes, era quanto aos que tinham por objetivo prever o
futuro.
Algo bem interessante encontramos no site Christian Classics Ethereal Library, no qual
este trecho tem o seguinte teor: “tinha expulsado do país os adivinhos, e os necromantes, e
todos quantos exerciam artes semelhantes, excetuando-se os profetas”
Ora,para nós a exclusão dos profetas era pelo motivo deles fazerem exatamente o que se estava
querendo eliminar do meio dos hebreus, ou seja, adivinhação visando conhecer o futuro,
conforme o que consta em Dt 18,9-14. Aqui temos algo singular: os profetas podiam, outras
pessoas não. Tanto isso é verdade que, antes de ir procurar a necromante, Saul, tentou
conhecer o futuro com um profeta, e como não obteve resposta, ai, sim, é que foi procurar a
necromante de Endor
e) “onde se poderia encontrar algum daqueles que fazem voltar as almas dos
mortos para interrogá-las e saber coisas futuras”:
Revela-se aqui a intenção pela qual Saul foi buscar a necromante; queria consultá-la a
respeito de um evento futuro; no caso, sobre o que lhe aconteceria na guerra contra os
filisteus. E aí se vê que era crença da época que as “almas dos mortos” voltam e, em virtude
disso, elas podem ser interrogadas.
, elas podem ser interrogadas.
f) “o rei tinha absolutamente proibido, por um edito, que se servissem dessa
espécie de predição”:
Então, fica, mais uma vez, claro que o proibido era tudo quanto levasse a “essa espécie
de predição”, ou seja, conhecimento de fatos futuros.
g) “ele [Saul] pediu que fizesse vir a alma de Samuel”:
Será que o rei de Israel, estava tendo um comportamento idiota (desculpe-nos a
expressão), pedindo para vir a alma de Samuel? Ou é por que, pela experiência e costume do
povo hebreu, se tinha como certa a possibilidade de um morto voltar e se conversar com ele?
Tudo nos leva a crer nessa hipótese, que acaba sendo confirmada quando se proíbe consultá-
los, uma vez que, não há lógica alguma em se proibir algo que não pode acontecer, já o
dissemos.
h) “como ela não sabia quem era Samuel, obedeceu sem dificuldade”:
Esse ponto relatado por Josefo é interessante, porque sempre se argumenta que a
mulher conhecia os envolvidos na história, ou seja, tanto Samuel quanto Saul.

i) “mas quando sua presença se fez notar, não sei o que de divino ela notou
nele, que a surpreendeu e perturbou”:
Aqui, portanto, temos o registro da presença de Samuel; sua alma volta do Hades
atendendo ao pedido do rei Saul. Sobre o local que citamos, a versão inglesa afirma que a
mulher “chamou-o para fora do Hades”. Com certeza, foi isso que ocorreu, pois, para o povo
hebreu, até um certo momento de sua história, todos os mortos iam para o sheol, que, em
grego, corresponde ao Hades, que era, nada mais nada menos, que a sepultura comum.
Portanto, para que um morto voltasse, haveria, segundo a concepção da época, de subir,
conforme o narrado no texto bíblico.

j) Voltou-se para Saul e disse-lhe: “Não sois vós o rei Saul?” (Ela o soubera
pela visão).
Por aqui fica claro que a mulher só reconheceu o rei Saul porque isso ela ficou sabendo
pela visão, ou seja, “porque Samuel a havia informado quem ele era”, conforme o que consta
na versão inglesa no site Christian Classics Ethereal Library.

k) “Respondeu que via aproximar-se um homem, que parecia todo divino”:
Mas que coisa interessantíssima! Josefo atestando que o homem que se aproximava
parecia todo divino. Será que aqui os dogmáticos teriam razão quando dizem que: “O próprio
satanás se disfarça em anjo de luz” (2Cor 11,14)? Poderia até ser, caso João não tivesse dito:
“Quem pratica o mal, tem ódio da luz, e não se aproxima da luz, para que suas ações não
sejam desmascaradas”. (Jo 3,20).

l) Saul não duvidou de que era mesmo Samuel e prostrou-se diante dele até o
chão"
E ainda apelam, dizendo que quem se manifestou foi o diabo ou um pseudo-Samuel,
quando, além de Josefo, o texto bíblico afirma: "Então Saul viu que era Samuel" (1Sm 28,14).
Na versão inglesa temos: “ela disse que ele já era um homem velho, e de um
personagem glorioso, e tinha um manto sacerdotal. Então o rei descobriu por estes sinais
que era Samuel”, portanto, aqui temos o motivo pelo qual Saul reconheceu Samuel.
Um detalhe importante, que não pode passar despercebido, é que a atitude de Saul em
prostrar-se até o chão, diante do espírito-Samuel, comprova que, realmente, tinham os
espíritos como deuses, porquanto, esse tipo de coisa se fazia aos que eles tinham como uma
divindade.
O versículo 13, no qual a mulher descreve o ser que está vendo, ele é citado como “um
deus” em dez bíblias; “deuses”, em três bíblias e “um espírito”, em três bíblias. Algumas notas
explicativas são interessantes para o nosso estudo:

Em hebr. Um “elohim”, um ser sobre-humano (cf. Gn 3,5; Sl 8,6). Só aqui
aplicado aos mortos. (Bíblia de Jerusalém, p. 428).
Vi deuses: i.e um espírito (Bíblia Sagrada Barsa, p. 222).
Um deus que sobe da terra: a palavra hebraica para significar Deus, também
designa os seres supra-humanos e, como neste caso, o espírito dos mortos.
Havia a convicção de que os espíritos dos mortos estavam encerrados no sheol,
e este se situaria algures por baixo da terra. (Bíblia Sagrada Santuário, p. 392).
Um deus. Uma figura sobre-humana ou um espírito (o de Samuel). (Mundo
Cristão, p. 400).

Em O Livro dos Espíritos, também encontramos algo sobre esse assunto:

668. Por se terem produzido em todos os tempos e serem conhecidos desde
as primeiras idades do mundo, os fenômenos espíritas não terão contribuído
para a difusão da crença na pluralidade dos deuses?
“Sem dúvida. Como os homens chamavam deus a tudo o que era sobrehumano,
para eles os Espíritos pareciam deuses. É por isso que quando um
homem se distinguia dos demais, pelas suas ações, pelo seu gênio ou por um
poder oculto que o povo não compreendia, faziam dele um deus e lhe rendiam
culto após a morte” (603)
Entre os Antigos, a palavra deus tinha uma acepção muito ampla. Não
significava, como hoje, uma personificação do Senhor da Natureza. Era uma
qualificação genérica, que se dava a todo ser colocado acima das condições
da Humanidade. Ora, tendo as manifestações espíritas lhes revelado a
existência de seres incorpóreos que agiram como forças da Natureza,
eles os chamavam de deuses, como nós os chamamos Espíritos. Simples
questão de palavras, com a diferença de que, em sua ignorância, mantida
intencionalmente por aqueles que nisso tinham interesse, eles construíram
templos e altares muito lucrativos, ao passo que hoje os consideramos simples
criaturas como nós, mais ou menos perfeitas e despojadas de seus envoltórios
terrenos. Se estudarmos atentamente os diversos atributos das divindades
pagãs, reconheceremos sem dificuldade todos os atributos dos nossos Espíritos,
em todos os graus da escala espírita, seu estado físico nos mundos superiores,
todas as propriedades do perispírito e o papel que desempenham nas coisas da
Terra.
(KARDEC, 2006, P. 381)

Vê-se que Kardec apenas confirma o que constam das notas explicativas transcritas das
Bíblias, que consultarmos para esse nosso estudo.
Na versão da Casa Publicadora das Assembleias de Deus - CPAD, encontramos a
seguinte nota desta Editora sobre o relato de Flávio Josefo da manifestação de Samuel a Saul:
"Então Saul não duvidou de que era mesmo Samuel". É possível que Flávio
Josefo, para fazer essa asserção tenha-se baseado em algum targum -
paráfrases do Antigo Testamento usadas pelos rabinos judeus -, no entanto,
esse entendimento não pode ser aceito porque contraria o ensino da Bíblia
a respeito do assunto.
Sobre isso, transcrevemos o seguinte do livro "Saul e a Feiticeira", de L.M.
Ortiz, editado pela CPAD:
"Assim Samuel subiu, mas, apenas na fala da pitonisa. Até o fim ela teria de
fazer o seu jogo, para evitar que Saul desconfiasse.
"Se a bruxa houvesse acreditado que o aparecido [a sombra, como diz
Josefo] era realmente Samuel, ela é que teria tido medo, pois o profeta era
intransigente no que concernia às feiticeiras.
"Que é que vês?" - perguntou Saul. (Notemos que ele não via nada. A
feiticeira é que via ou dizia ver.) - Vejo deuses que sobem da terra: deuses
(espíritos). Note-se que eram muitos. O pedido foi que viesse um, e vieram
muitos, Se, por uma exceção, Deus tivesse deixado sair o espírito de Samuel,
permitiria que saíssem muitos?


"Saul perguntou à feiticeira como era a figura do espírito. Ela respondeu:
Vem subindo um homem ancião, e está envolto numa capa. É lógico que
sabendo ser Saul o seu consulente, a pitonisa deduziu querer ele falar a Samuel
e, assim, descreveu-lhe a popular figura de Samuel (que ela muito bem
conhecia). Apesar de sabermos que os demônios assumem a forma de
seres humanos que morreram, não se pode afirmar se a pitonisa via
realmente uma figura que parecia Samuel ou se apenas dizia que via para
contentar Saul. Saul entendeu, então, que era Samuel, mas Saul nada viu. Ele
se firmava no que dizia a pitonisa!
"Acreditar que foi realmente o espírito de Samuel que apareceu seria crer no
absurdo, isto é, seria acreditar que Deus se tenha negado a responder a Saul
por meios bíblicos: sonho, Urim, profecia, para responder-lhe por meio de uma
feiticeira. Deus não pode violar a sua própria Palavra. Se Deus não lhe35
respondeu por estes meios legítimos e bíblicos, muito menos, poderia responder
por um meio abominável e condenável pelo próprio Deus tantas vezes nas
Escrituras. Se não respondeu a Saul, através do Espírito Santo, como poderia
responder- lhe através do Diabo?" (JOSEFO, 2003, p. 169-172)


Não há como não admirar o contorcionismo argumentativo que fazem para fugir da
realidade da comunicação com os mortos; veja, caro leitor, o que nos apresenta a CPAD a
respeito da fala de Josefo sobre o reconhecimento do espírito Samuel feita por Saul: “não pode
ser aceito porque contraria o ensino da Bíblia respeito do assunto”. Mas o que ocorre é
exatamente o contrário, tem que ser aceito porque a Bíblia afirma que:
1º) Que Saul foi à necromante para falar com Samuel (v. 11);
2º) Que a necromante viu aparecer Samuel (v. 12); o que é confirmado em todas as
traduções bíblicas que utilizamos, quinze ao todo, sendo que na Novo Mundo consta o nome de
Samuel entre aspas.
3º) que o texto bíblico afirma categoricamente que Samuel conversou com Saul,
chegando até a ficar apavorado com as palavras dele (v. 15, 16 e 20); novamente, isso é
encontrado em todas as Bíblias; apenas a Novo Mundo insiste em colocar aspas no nome de
Samuel.
4º) Samuel confirma a Saul o que já lhe havida dito - por sua própria boca ou por seu
intermédio (v. 17) -, dependendo da versão bíblica; exatamente, porque naquele momento ele
usava a boca da médium e falava por intermédio dela.
Portanto, a aparição de Samuel é atestada pela própria Bíblia, se não se usar de
dogmatismo para interpretá-la, tentando, por exemplo, explicar que os versículos citados “são
na verdade a tradução do que a mulher falou a Saul”. O máximo que se poderia dizer é que a
consulta aos mortos contraria a Bíblia; isso se estiver vendo pela ótica dos ortodoxos.
Quanto ao socorro a L.M. Ortiz, há que se comentar sobre:
1º) “Samuel subiu, mas, apenas na fala da pitonisa”.
Então, devemos jogar o texto bíblico fora, pois, conforme provado logo acima, é fato
que Samuel apareceu e conversou com o rei Saul, que foi à procura da necromante,
exatamente, para falar com ele.
2º) “Se a bruxa houvesse acreditado que o aparecido era realmente Samuel, ela é que
teria tido medo”.
Entretanto, isso contraria o que o historiador Josefo disse, uma vez que está claro que a
necromante não conhecia Samuel, portanto, não havia razão para ela ter medo dele, ao
contrário, teve medo de Saul, porque com a aparição de Samuel a “ficha caiu” e ela conseguiu
ligar que quem estava ali, diante dela, disfarçado de gente comum, era o próprio rei que havia
banido os necromantes e adivinhos, conforme relatado no texto bíblico (v. 12).

3º) a necromante, e não feiticeira, via a Samuel porque ela era vidente, o que não era o
caso de Saul. Aliás, tem horas que pensamos que a Bíblia em mãos erradas pode ser um
perigo, especialmente nas de fanáticos. Eles poderiam, até mesmo pedir a pena de morte às
feiticeiras, imitando os carrascos da Inquisição, usando o passo: “A feiticeira não deixarás
viver” (Ex 22,18).
4º) a explicação dada para o “Vejo deuses que sobem da terra”, afirmando que
“deuses” se refere a espíritos, por isso concluindo que são vários e, em razão disso, não
ocorreu a aparição de Samuel, porque Deus poderia ter deixado o espírito de Samuel (sic);
mas não permitiria muitos. Gozado é que sempre nos dizem que as razões de Deus para fazer
alguma coisa é algo insondável ao homem; no entanto, aqui o autor já sabe que permitira um
espírito se manifestar; mas não daria permissão para muitos. Pena é que não disse qual foi a
revelação que tomou como sua base para afirmar isso.
Entretanto, podemos dizer que nas leis de Deus não há exceção alguma, basta ver o
que ocorre à nossa volta para se ter certeza disso; assim, se ele permite um espírito, por razão
de justiça e lógica deverá permitir vários, milhares ou mesmo todos eles. Certamente, que, ao
criar a lei que permite o intercâmbio com o mundo espiritual, não fez disso uma exceção;
porém, uma regra geral para todos os casos que se podem enquadrar nela.
Quanto à questão do uso do termo “deuses”, seria proveitoso para todos nós buscar
como o teor do versículo 13 consta em outras traduções bíblicas:
1) “um espírito”: Pastoral, do Peregrino e Vozes;
2) “deuses”: Barsa, SBTB e SBB;
3) “um deus”: Novo Mundo, Paulinas 1977, Paulinas 1957, Santuário, Paulinas 1980,
Ave-Maria, Shedd, de Jerusalém e Mundo Cristão.
Portanto, vemos que a maioria das traduções, mais especificamente 80% delas,
confirma que apareceu “um deus” ou “um espírito”, apenas três, em quinze, dizem deuses.
Mas estaria o termo realmente sendo usado para significar vários espíritos? É o que
questionamos. Além disso, querer alegar que foram vários espíritos, é fazer vistas grossas ao
que consta no versículo 14:
1) “um ancião/um velho”: Barsa, Santuário, do Peregrino, Ave-Maria, Shedd, Mundo
Cristão, de Jerusalém e Pastoral.
2) “um homem idoso/ancião/velho”: Paulinas 1977, Paulinas 1957, Paulinas 1980, Novo
Mundo, SBTB, SBB e Vozes.
Então, vemos que é unanimidade nas traduções que foi apenas um ser quem apareceu,
e não vários, como quer fazer crer o articulista citado. Na Bíblia Sagrada Barsa, explicam-nos:
“Vi deuses”: i. e. Um espírito (Barsa, p. 222), exatamente uma das que colocou deuses.
Vejamos essas outras informações:

1Sm 28,13: Em hebr. Um 'elohim', um ser sobre-humano (cf. Gn 3,5; Sl 8,6).
Só que aqui aplicado aos mortos. (Bíblia de Jerusalém, p. 428).
Elohim. Um dos nomes que usavam os hebreus do Antigo Testamento, para
designar Deus. Este nome traz consigo a ideia de grande majestade, e poder.
(Dicionário Prático Barsa, p. 87).
1Sm 28,13: Um Deus que sobe da terra: a palavra hebraica para significar
Deus, também designa os seres supra-humanos e, como neste caso, o espírito
dos mortos. Havia a convicção de que os mortos estavam encerrados no sheol, e
este se situaria por baixo da terra. (Bíblia Sagrada Santuário, p. 392).
“um deus”. Hebr.: 'Elo-hím, pl., evidentemente para denotar excelência e
aplicado a uma pessoa, embora o verbo “subir”, no hebr., esteja no pl., porque a
mulher viu apenas a forma de um homem idoso subir (Trad. Novo Mundo das
Escrituras Sagradas, p. 382).
=> Um deus. Uma figura sobre-humana ou um espírito (o de Samuel).
(Bíblia Anotada - Mundo Cristão, p. 400)

"O [verdadeiro] Deus" Hebr.: ha·'Elo·him
O título 'Elo-him, quando precedido pelo artigo definido ha, forma a
expressão ha·'Elo·hím. Esta expressão ocorre 376 vezes no M. Em 368 lugares
refere-se ao verdadeiro Deus, Jeová, e em 8 lugares refere-se a outros deuses.
[...]
A Tradução da Novo Mundo verte ha·'Elo·hím por "o [verdadeiro] Deus" em
todos menos três dos 368 lugares onde se refere a Jeová (veja Is 4:8, 9; 6:20).
[...] (Trad. Novo Mundo das Escrituras Sagradas, p. 1507).


ELOHIM
É o plural de tüoen (aproximado do árabe Ilah), que é uma ampliação de fi.
Esse plural, comumente acompanhado de um verbo no singular, significa a
majestade ou a plenitude. Designa um determinado deus: Camos (Jz 11,24),
Baal-Zebul ou Baal-Zebub (2Rs 1,2), ou o Deus de Israel, progressivamente
descoberto como Deus único (Gn 5,22; 9,27). A palavra podia ou não ser usada
com o artigo naquele tempo.
Acompanhado de um verbo no plural, Elo-him significa diversos deuses (Ex
18,11). Sob a forma habitual bené-eiohim, "filhos dos deuses", designa a
comitiva do deus EL, "pai dos deuses"; Israel utilizou esta representação
politeísta oferecida pelos povos da redondeza (Já 1,6: SI 82,1.6). Em 1Sm
28,13, elohim designa o espectro de Samuel. evocado pela pitonisa de37
Endor, para Saul. (MONLOUBOU e DU BUIT, 1997, p. 224)



Então, em hebraico lemos “elo-him”, que, apesar de estar no plural, foi traduzido como
Deus.
Por outro lado, não raro encontrarmos pessoas argumentando que se “sobem” é porque
são os demônios, pois se não fosse desceria, porquanto os anjos celestes vivem no céu. Pena é
que não se dão conta do ridículo da afirmativa, pois deveriam saber que àquela época era
crença comum que todos os mortos iriam para o xeol (sheol), que se localizava por debaixo da
terra, conforme já o falamos e poder-se-á ver nas seguintes explicações:

Ele sobe do Xeol, a morada subterrânea dos mortos (cf. Nm 16,33). No Xeol,
morada comum de todos os mortos, bons ou maus (cf. Nm 16,33+). (Bíblia
de Jerusalém, em relação aos vv. 12 e 19 de 1Sm 28, p. 428-429)

Embora se tenham apresentado diversas derivações da palavra hebraica
she'óhl, parece que ela deriva do verbo hebraico [?????] (sha-ál), que significa
“pedir” ou “solicitar”. Isto indicaria que o Seol é o lugar (não uma condição) que
pede ou exige todos sem distinção, ao acolher os mortos da
humanidade. (veja Gen 37:35 n e Is 7:11 n.) Encontra-se no solo da terra e
sempre é associado com os mortos, e refere-se claramente à sepultura comum
da humanidade, ao domínio da sepultura, ou à região terrestre (não marítima)
dos mortos. [...]

[...] Hades é o equivalente do Seol, e aplica-se à sepultura comum da
humanidade (em contraste com a palavra grega tá-fos, uma sepultura
individual). A palavra latina correspondente a Hades é in.fér.nus (às vezes
ín.fe.rus). Ela significa “o que jaz por baixo; a região inferior”, e se aplica bem
ao domínio da sepultura. Ela é assim uma apta aproximação dos termos grego e
hebraico.
Nas escrituras inspiradas, as palavras “Seol” e “Hades” são associadas com a
morte e os mortos, não com a vida e os vivos (Re 20;13) [...] (Traduções Novo
Mundo das Escrituras Sagradas, p. 1514).
Sepultura. Heb., Sheol. Esta palavra é usada 65 vezes no A.T.
Frequentemente significa a sepultura onde o corpo é colocado após a morte (cf.
Nm 16;30,33, Sl. 16,10). Pode também referir-se ao lugar dos espíritos dos
mortos, tanto dos justos (como aqui) quanto dos ímpios (cf. Pv 9;18).
(Bíblia Anotada - Mundo Cristão, p. 60).
Nm 16,33. Sepulcro. Em hebraico sheol. Esta palavra designa as profundezas
da terra onde descem os mortos bons ou maus para uma vida de letargia. A
doutrina da retribuição de além-túmulo e a da ressurreição, preparada pela
esperança dos salmistas (Sl 16,10s; 49,16), não aparecerão claramente senão
no fim do A.T. (Bíblia Sagrada - Santuário, p. 203).
Sl 6,6: Habitação dos mortos: expressão frequente que traduz o vocábulo
hebraico Cheol. Os antigos hebreus não tinham, da vida futura, uma ideia tão
clara como nós. Para eles, a alma separada do corpo permanecia num lugar
obscuro, de tristeza e esquecimento, em que o destino dos bons era
confundido com o dos maus. Donde a necessidade de uma retribuição
terrestre para os atos humanos. (Bíblia Sagrada – Ave-Maria, p. 660).


Portanto, diante dessa crença, um morto voltando só poderia subir, razão pela qual o
texto bíblico afirma “vejo deuses que sobem da terra”.
De igual modo deve ser vista a fala de Samuel a Saul: "Por que você me chamou,
perturbando o meu descanso?" (1Sm 28,15), uma vez que acreditavam que todos os mortos
iam dormir (2Sm 7,12; 1Rs 1,21) ou descansar (Gn 47,30; Dt 31,16; Eclo 22,10; 30,17) com
os seus antepassados.
5º) “É lógico que sabendo ser Saul o seu consulente, a pitonisa deduziu querer ele falar
a Samuel”.
Ao dizer isso desconsidera o texto bíblico que diz taxativamente que a Saul foi procurar
a necromante para consultar-se com Samuel, e, foi quem ele pediu a ela para evocar (v. 11).
Assim, ela sabia de antemão que era Samuel quem ia se apresentar, para atender ao pedido
dos que lhe evocaram.
6º) afirma que a necromante descreveu a figura de Samuel porque ela muito bem o
conhecia, contrário ao que Josefo afirmou, conforme já dissemos um pouco atrás.
7º) “Apesar de sabermos que os demônios assumem a forma de seres humanos que
morreram”.
Pena é que não citou a fonte bíblica de sua afirmação; aliás, até hoje ninguém
conseguiu essa proeza, exatamente, porque ela não existe; é apenas produto do dogmatismo
religioso para fugir de uma realidade que não querem que seja verdadeira, de jeito nenhum.
Podemos também desafiar que nos apresente prova bíblica de que “através de médiuns falam
os demônios ainda hoje, imitando a voz das pessoas falecidas8
”, uma vez que fazem gosto em usar a Bíblia para nos combater.

8º) “não se pode afirmar se a pitonisa via realmente uma figura que parecia Samuel ou
apenas dizia que via para contentar Saul”.
Sim, claro! Basta não dar valor ao que está narrado no texto bíblico (v. 12, 15, 16 e
20); aí, é fácil caminhar por tortuosas conjecturas...
9º) “acreditar que foi realmente o espírito de Samuel que apareceu seria crer no
absurdo”.
Eita!... Então jogue sua Bíblia fora, pois foi ela, “a palavra de Deus” que afirmou isso.
Crer mesmo num absurdo é crer que Deus tenha realmente proibido a comunicação com os
mortos, se isso não pudesse acontecer

10º) “seria acreditar que Deus se tenha negado a responder a Saul, por meios bíblicos:
sonho, urim, profecia”.
Entretanto, o texto afirma exatamente isso, que Deus negou por esses métodos de
adivinhação; foi por isso que Saul recorreu a necromancia. E, certamente, aqui temos uma
pessoa que nem sabe o que é urim, para justificar consultas a Deus por esse processo.

11º) “Deus não pode violar sua própria Palavra”.
Claro! É por isso que existe a comunicação com os mortos, já que, certamente, foi uma
lei que ele criou.

12º) “muito menos poderia responder por um meio abominável e condenável pelo
próprio Deus tantas vezes nas Escrituras”.
Aqui temos mais um absurdo: Deus cria uma lei para que o intercâmbio, entre os vivos
e os mortos, aconteça; entretanto, isso é abominável a Ele. Haja coerência! Ou seria faltar
capacidade para uma análise lógica? Já ouvimos milhares de vezes que a condenação divina se
encontra “tantas vezes nas Escrituras”, quando o “tantas vezes” não passa de meia-dúzia,
mesmo assim é algo atribuído a Ele pelos dogmáticos; já nós, espíritas, temos plena convicção
de que é coisa de Moisés.

13º) “como poderia responder-lhe através do diabo?”.
Ficou nos devendo a prova de que foi o diabo que se manifestou, sem contrariar o texto
bíblico que afirma ter sido Samuel. Falam... Falam; mas não provam nada! Aliás, temos aqui
algumas informações interessantes:

De acordo com a maioria dos exegetas, Samuel apareceu realmente,
não, porém, por força das palavras da necromante (a qual ficou aterrorizada),
mas por obra de Deus, que quis anunciar por boca de Samuel o grande
castigo. (Bíblia Sagrada - Paulinas 1980, p. 303)

[...] permitiu Deus que aparecesse a alma de Samuel para anunciar a
Saul os castigos que lhe enviaria (Eclo 46,23). (Bíblia Sagrada - Barsa, p. 223)
O narrador, embora não aprove o proceder de Saul e da mulher (v. 15),
acredita que Samuel de fato apareceu e falou com Saul: isto Deus podia
permitir. Logo, não é preciso pensar em manobra fraudulenta da mulher
ou em intervenção diabólica. Toda a cena pinta ao vivo o abandono e
desespero de Saul que está prestes a alcançar o ponto mais baixo da rejeição de
Deus (15,23-30.35; 16,1; 31). (Bíblia Sagrada - Vozes, p. 330)

Seria bom relembrarmos o texto de Eclo 46,20, no qual se afirma isso e se usando do
chavão evangélico, diremos: “A palavra de Deus afirma que Samuel mesmo depois de morto
profetizou!”. Portanto, mesmo depois de morto Deus “não deixou nenhuma de todas as suas
palavras cair em terra” (1Sm 3,19) E ponto final!!!
Justificam alguns dizendo que Samuel, por ter sido um profeta de Deus, sempre fiel às
suas ordens, não poderia desobedecê-lo após a morte, fazendo-se aparecer a Saul. Pode ser...;
porém, se esquecem de que não há nenhuma proibição dos “mortos” virem atender a
evocação dos “vivos”; até onde sabemos o que existe é exatamente o contrário, ou seja, dos
“vivos” evocarem os “mortos”. E, de mais a mais, como “o telefone toca de lá para cá”,
podemos ficar até dias evocando um espírito, que virá somente quando for permitido. Uma vez
tendo a permissão virá mesmo sem que o evoquemos; a vontade do homem não obstará sua
vinda. Reafirmamos que essa proibição não é divina, pois, caso fosse, estaria entre os Dez
Mandamentos, e, conforme já o dissemos, Moisés a teria colocado dentro da Arca da Aliança.

Continuam os argumentos: “se Samuel não iria aparecer, então quem apareceu se
fazendo passar por ele foi o diabo”. Contrapomos usando a opinião do Cardeal Alexis Henri
Marie Lépicier (1863-1936), ferrenho adversário do Espiritismo, que em O mundo invisível –
uma exposição da Teologia Católica perante o moderno Espiritismo disse:
[…] Se, portanto, os maus espíritos representassem, de facto, a alma
de qualquer morto, isso poder-se-ia apenas dar com as almas dos
condenados, que compartilham da miséria do Demônio, em cuja companhia
vivem para sempre.
[…]
Os demônios, repetimos mais uma vez, não podem de forma alguma
representar as almas dos justos que se encontram no Céu nem as
daqueles que estão ainda sofrendo no Purgatório. Não se pode admitir que
tais almas estejam dispostas a confiar os seus pensamentos a espíritos
malignos, nem que se sirvam deles como intermediários para se comunicarem
com os mortais. Deus, também, que é Santidade em pessoa, não
permitiria, e muito menos ordenaria que aqueles que são os seus amigos
espirituais fossem representados pelos seus blasfemos inimigos. (LÉPICIER,
1960, p. 253-255)

Apenas acrescentaríamos ao “representar” as almas também a questão de “se fazer
passar”, deixando ambas as possibilidades.
Não resistimos à “tentação” de acrescentar: considerando que o diabo é o pai da
mentira (Jo 8,44), que verdade não pode dele sair, é fácil para nós, diante disso, verificarmos
se foi realmente Samuel quem se manifestou ou não, basta ver se o que ele disse a Saul é
verdade e conferir se as profecias ditas por ele se cumpriram...
Vejamos essas palavras de Samuel a Saul:
“Javé fez com você o que já lhe foi anunciado por mim: tirou de você a realeza e a
entregou para Davi. Porque você não obedeceu a Javé e não executou o ardor da ira
dele contra Amalec”. (1Sm 28,17-18).
Destaquemos do passo: “o que já lhe foi anunciado por mim”; a questão é: Samuel já
havia anunciado a Saul que ele perderia a realeza? Sim! Quando ainda vivo, Samuel disse
textualmente ao rei: "Javé arranca hoje de você o reinado sobre Israel e o entrega a outro
mais digno do que você” (1Sm 15,28). O motivo foi exatamente o alegado na narrativa acima,
ou seja, porque Saul não havia cumprido a ordem de total extermínio dos amalecitas,
deixando viver Agag, rei de Amalec e o gado gordo (1Sm 15,18-23).
E quanto à profecia? Deixemos de lado as várias afirmações que vimos, e vejamo-la
para análise:
“E Javé vai entregar aos filisteus tanto você, como seu povo Israel. Amanhã mesmo,
você e seus filhos estarão comigo, e o acampamento de Israel também: Javé o
entregará nas mãos dos filisteus". (1Sm 28,19).
Vamos dividi-la em duas partes:
1ª) “vai entregar aos filisteus tanto você, como seu povo Israel. … e o acampamento de
Israel”:
Na guerra contra os filisteus Saul e todo o seu exército, portanto, Israel inteiro foi
derrotado pelo exército inimigo, então, podemos dizer que foram entregues “nas mãos dos
filisteus”, conforme anunciado na profecia.
2ª) “amanhã mesmo, você e seus filhos estarão comigo”:
Será que “o amanhã” significa o dia seguinte, ou um dia no futuro? Eis o primeiro
problema que surge. Acompanhando-se a sequência natural dos textos pode-se mesmo pensar
que o fato não aconteceu no dia seguinte; inclusive, já vimos pessoas dizendo que isso
aconteceu cinco e até dezoito dias depois; entretanto, há que ajustá-los à ordem dos
acontecimentos: 1Sm 28.2 continua em 29.1, indo até 30.31; 1Sm 28,4-25 continua em 31.1,
conforme podemos confirmar na Bíblia Sagrada – Vozes, onde explicam em notas de rodapé:
1ª) 28.2. A resposta é ambígua; o relato continua no c. 29. (p. 329).
2ª) 29.1. O c. 29 é a continuação de 28.2. (p. 330).
3ª) 30.1. O c. 30 forma a continuação do c. 29, sendo também uma espécie
de relato paralelo a 27,8-12. (p. 331).
4ª) 31.1. Depois do parênteses de 1Sm 29-30 aqui continua o texto de
28,4s. (p. 332).

O passo 1Sm 31,1 é o que relata a morte de Saul e seus filhos, que se coloca na
sequência imediata à profecia de Samuel narrada no capítulo 28; portanto, cumpriu-se
também esta outra parte da profecia, pois Saul e filhos morreram em consequência da batalha
e foram para o "estarão comigo", ou seja, "na morte" (Bíblia Anotada – Mundo Cristão, p. 401)
ou "no reino dos mortos" (Bíblia Sagrada – Vozes, p. 320), quer dizer, para junto de Samuel.
Lembremos apenas que, para os hebreus, depois da morte todos iam para um mesmo lugar, se
se quiser tomar a expressão em outro sentido. Assim, podemos aceitar que "Esta verdadeira
'batalha de Waterloo' de Saul e seus filhos cumpriu a profecia de Samuel (28,19)”. (Bíblia
Anotada – Mundo Cristão, grifo nosso).
Além disso, pode-se ainda confirmar, pelo relato de Josefo, que a necromante ajudou a
Saul, mesmo “sabendo que ele morreria no dia seguinte". (JOSEFO, 2003, p. 170).
Porém há dois pontos que precisam de um maior esclarecimento:
1º) foi dito que os filhos de Saul morreriam e não morreram todos eles. Teria, nesse
ponto, falhado a profecia?
Sim, realmente, alguns dos filhos de Saul não morreram na batalha; mas na profecia
também não foi dito expressamente que “todos” os filhos de Saul morreriam; entretanto, não
precisa ser nenhum gênio para entender que o autor estava falando daqueles que se
envolveriam na guerra e, nesse particular, todos os que lá estavam morreram. Mesmo assim,
se tomarmos da própria Bíblia, encontramos a afirmação de que “Dessa forma, morreram Saul
e seus três filhos: a família inteira” (1Cr 10,6), confirmando totalmente a profecia.
Por que se afirmou que morreu a família inteira de Saul? Simples, porque de sua esposa
Aquinoam, ele teve, segundo 1Sm 14,49, além das filhas Merob e Micol, os filhos Jônatas,
Jesui (Isbaal ou Isboset) e Melquisua, enquanto, que em 1Sm 31,2, são citados: Jônatas,
Abinadab e Melquisua. Abstraindo-se da divergência de um dos nomes, a quantidade é a
mesma. Por ser ela a “mulher oficial” de Saul estes são os que formavam a sua família,
aqueles que morreram junto com o pai.
Porém, Saul teve outros dois filhos - Armoni e Meribaal (ou Mefiboset) -, cuja mãe era
uma concubina do rei (2Sm 3,7), chamada Resfa, filha de Aías; assim, por serem filhos “da
filial”, certamente, o autor bíblico, por costume social, não os considerou como da família, fora
o fato de que não há registro que eles também combateram contra os filisteus, junto com o
pai.
2º) Saul não foi entregue nas mãos dos filisteus, ele suicidou-se;
Aqui se trata de entendimento do texto, onde se diz apenas que seria entregue nas
mãos, ou seja, que seria derrotado; não que os filisteus matariam-no. Não obstante, o suicídio
de Saul se deu exatamente porque, vencido pelo inimigo, não queria cair vivo nas mãos dele,
preferindo suicidar-se; é o que consta em 1Sm 31,4, sobre o seu trágico fim.
Por outro lado, ficamos sem poder precisar quem foi realmente o responsável pela
morte de Saul, pois temos três possíveis “culpados disso”: a) o próprio Saul, que se atirou
contra sua espada (1Sm 31,4); b) um amalecita, que o matou, a seu pedido (2Sm 1,6-10); c)
O Senhor, por sua infidelidade, o matou (1Cr 10,14). Será que alguém poderá nos elucidar
essa questão?
Tomando-se apenas dos textos bíblicos, poderíamos até incluir mais uma outra opção, a
de que os filisteus teriam enforcado a ele e Jônatas (2Sm 21,12); no entanto, isso fica
esclarecido em Josefo, que afirmou que apenas penduraram os corpos de Saul e de seus filhos
na forca (JOSEFO, 2003, p. 172), certamente visando humilhá-los, uma vez que consideravam
como um maldito de Deus quem fosse suspenso numa árvore (Dt 21,23).

m) “A sombra perguntou-lhe por que o havia obrigado a voltar do outro
mundo”.
Na versão inglesa lemos: “E quando a alma de Samuel perguntou por que ele o tinha
perturbado e trazido de volta'”. Novamente o tradutor Pe. Vicente usa o termo “sombra” em
vez de “alma”. O que não vemos senão com uma nítida intenção de não caracterizar a
comunicação com um morto. E aqui os que dizem ser o demônio quem se comunicou, podem
mudar de argumento, porquanto, esse não vale mais.
Um ponto interessante aqui é porque motivo Samuel não disse a Saul: “Não sei porque
me consultas se Deus proibiu consultar os mortos”, considerando que se ele era “um homem
de Deus” (1Sm 9,6-19), quando vivo, não poderia deixá-lo de ser depois de morto, pois até
nesta condição Samuel profetizou (Eclo 46,20).
Sobre o “havia obrigado”, vejamos o que Kardec, falou sobre o tema:

8ª O Espírito evocado vem espontaneamente, ou constrangido?
“Obedece à vontade de Deus, isto é, à lei geral que rege o Universo. Todavia,
a palavra constrangido não se ajusta ao caso, porquanto o Espírito julga da
utilidade de vir, ou deixar de vir. Ainda aí exerce o livre-arbítrio. O Espírito
superior vem sempre que chamado com um fim útil; não se nega a responder,
senão a pessoas pouco sérias e que tratam destas coisas por divertimento.”
9ª Pode o Espírito evocado negar-se a atender ao chamado que lhe é
dirigido?
“Perfeitamente; onde estaria o seu livre-arbítrio, se assim não fosse? Pensais
que todos os seres do Universo estão às vossas ordens? Vós mesmos vos
considerais obrigados a responder a todos os que vos pronunciam os nomes?
Quando digo que o Espírito pode recusar-se, refiro-me ao pedido do evocador,
visto que um Espírito inferior pode ser constrangido a vir, por um Espírito
superior.”
10ª Haverá, para o evocador, meio de constranger um Espírito a vir, a seu
mau grado?
“Nenhum, desde que o Espírito lhe seja igual, ou superior, em moralidade.
Digo — em moralidade e não em inteligência, porque, então, nenhuma
autoridade tem o evocador sobre ele. Se lhe é inferior, o evocador pode
consegui-lo, desde que seja para bem do Espírito, porque, nesse caso, outros
Espíritos o secundarão.” (KARDEC, 2007 , p. 373-374).


Portanto, nada acontece sem a permissão de Deus, os que pensam que os médiuns têm
esse poder, não se deram ao trabalho de estudar sobre o assunto, seja por preguiça, seja por
má vontade.

n) "Eu não poderia a este propósito admirar assaz a bondade dessa mulher":

Enquanto quase todo mundo execra a necromante, Josefo chega a elogiá-la.

o) "arte que lhe era o meio de vida":
Infelizmente, é isso o que ocorre muito; alguns médiuns fascinados pelo dinheiro fazem
de sua mediunidade um meio de vida, esquecendo-se do “dai de graça o que de graça
recebeste” (Mt 10,8).

p) "Eis como, segundo a profecia de Samuel, o rei Saul terminou sua vida":
Neste ponto, Josefo confirma que Samuel profetizou a morte de Saul, exatamente como
foi dito em Eclesiástico, conforme já o dissemos. E dessa forma torna válida a aparição de
Samuel a Saul, por meio da necromante de Endor.
Algumas pessoas afirmam que, entre as causas da morte de Saul, estava a de ter
consultado os mortos, baseando-se em:
1Cr 10,13-14: “Saul morreu por ter sido infiel a Javé: não seguiu a ordem de Javé e foi
consultar uma mulher que invocava os mortos, em vez de consultar a Javé. Então Javé
o entregou à morte e passou o reinado para Davi, filho de Jessé”.
Pedimos que não se zanguem conosco, pois afirmamos que o autor de Crônicas é um
grande mentiroso. Como?! É que o motivo “consultar uma mulher que invoca os mortos”, não é
verdadeiro, porque o motivo real foi porque Saul não cumpriu integralmente as ordens divinas
em relação aos amalecitas, que determinava:
1Sm 15,1-3: “Samuel disse a Saul: 'Javé me enviou para ungir você como rei sobre seu
povo Israel. Agora, pois, escute as palavras de Javé: 'Assim diz Javé dos exércitos: Vou
pedir contas a Amalec pelo que ele fez contra Israel, cortando-lhe o caminho, quando
Israel subia do Egito. Agora, vá, ataque, e condene ao extermínio tudo o que
pertence a Amalec. Não tenha piedade: mate homens e mulheres, crianças e
recém-nascidos, bois e ovelhas, camelos e jumentos'".

Estamos diante do “faça o que eu digo; mas não faça o que eu faço”, pois o “Não
matarás!” (Ex 20,13; Dt 5,17) deixou de prevalecer. É completamente absurdo atribuir essa
insanidade de “não tenha piedade: mate homens e mulheres, crianças e recém-nascidos” à
divindade, a quem se atribui, consequentemente, a execução de algo movido pelo sentimento
de vingança, próprio de seres imperfeitos. Nos dias de hoje, barbaridades desse tipo seriam
tratadas como crimes de guerra, levando os que deles participaram ao Tribunal Penal
Internacional (TPI) ou Corte Penal Internacional (CPI), que julga, entre outros, os crimes de
guerra e os contra a humanidade.

Só que Saul cometeu “o erro decisivo” por não levar integralmente a cabo essas ordens
e manteve vivo a Agag e ainda parte do gado gordo (1Sm 15,9). “Diante da gravidade desse
pecado” Deus foi atiçado em Sua ira divina, que, por esse motivo, arrependeu-se de ter feito
Saul rei de Israel, e, como castigo, promete passar o reino dele a outro (1Sm 15,28) e os
filisteus foram o instrumento divino para isso. E aí começa a história relatada por Josefo,
quando Saul, diante dos filisteus quer saber o que lhe acontecerá na guerra. Ao que o profeta
vindo do túmulo lhe avisa que Deus entregaria a ele e Israel aos filisteus, como havia lhe
falado por sua boca ou seu intermédio, conforme já mencionamos mais atrás.

Aqui, depois dessa análise do texto de Josefo, poderíamos fazer duas perguntas:
1ª) Os mortos se comunicam?
Sim, eles se comunicam, pois, se não se comunicassem, não haveria razão de se proibir
consultá-los.
2ª) Que provas podemos apresentar, além dessa da proibição?
A aparição de Samuel a Saul, a aparição de Moisés e Elias a Jesus, embora tentem
negar que Elias tenha morrido, mesmo considerando que é conflitante com o “a carne e o
sangue não podem herdar o reino dos céus” (1Cor 15,50) e as várias aparições de Jesus após
sua morte
E vamos mais longe; diremos que até os vivos também se comunicam. Eita, dirá você,
caro leitor; mas é a pura verdade. Leia, para confirmar: “Durante a noite, Paulo teve uma
visão: na sua frente estava de pé um macedônio que lhe suplicava: 'Venha à Macedônia e
ajude-nos!'" (At 16,9). Esse macedônio era uma pessoa viva, certo? Paulo presenciou a
manifestação do espírito de uma pessoa viva, que lhe suplicou ajuda.
stação do espírito de uma pessoa viva, que lhe suplicou ajuda.
Podemos encontrar também o profeta Eliseu indo, em espírito, “espiar” um de seus
servos; acompanhe a narrativa, na qual ele recusa um presente de Naamã, que lhe ofertava
por tê-lo curado da lepra; com sua recusa, Naamã diz que poderia dar o presente a seu servo
chamado Giezi, no que não foi permitido por Eliseu; quando Naamã voltava para casa, segue o
relato:

2Rs 5,21-27: “Então Giezi saiu correndo para alcançar Naamã. Quando Naamã viu que
Giezi ia correndo atrás dele, desceu do carro, foi ao seu encontro, e perguntou: 'Está
tudo bem?' Giezi respondeu: 'Tudo bem. Só que meu senhor mandou dizer-lhe: 'Agora
mesmo acabam de chegar, da região montanhosa de Efraim, dois jovens irmãos
profetas. Por favor, dê para eles trinta e cinco quilos de prata e duas roupas de festa' '.
Naamã respondeu: 'Aceite setenta quilos'. Insistiu para que Giezi aceitasse. Depois
Naamã colocou setenta quilos de prata e as roupas de festa em duas sacolas, e
entregou a dois servos seus. Estes foram na frente de Giezi, levando as sacolas.
Chegando a Ofel, Giezi pegou os presentes, guardou-os em casa, despediu os homens,
e eles foram embora. Depois Giezi foi ao encontro do seu senhor, e Eliseu lhe
perguntou: 'Onde é que você foi, Giezi?' Ele respondeu: 'O seu servo não foi a lugar
nenhum'. Mas Eliseu retrucou: 'Você pensa que o meu espírito não estava
presente quando alguém desceu do carro e foi encontrar você? Agora que você
recebeu o dinheiro, com ele você pode comprar roupas, plantações de azeitonas,
vinhas, ovelhas, bois, servos e servas. Mas a lepra de Naamã passará para você e seus
descendentes para sempre'. E Giezi saiu da presença de Eliseu, branco como a neve,
por causa da lepra”.

Eliseu ao dizer que “meu espírito não estava presente quando alguém desceu do carro e
foi encontrar você?”, demonstra que flagrou o Giezi recebendo os presentes de Naamã. A
diferença com o relato de Paulo, em relação ao fenômeno, é que Giezi não viu Eliseu em
espírito; talvez por lhe faltar faculdade para isso, ou porque não lhe foi permitido ver, ou,
ainda, faltou condições ambientais para sua aparição.
Há uma outra passagem bem interessante, que dela podemos extrair algo sobre a
comunicação com os mortos; é uma narrativa de Lucas:

“Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino, e dava banquete todos os
dias. E um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, que estava caído à porta do rico.
Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E ainda vinham os
cachorros lamber-lhe as feridas. Aconteceu que o pobre morreu, e os anjos o levaram
para junto de Abraão. Morreu também o rico, e foi enterrado. No inferno, em meio aos
tormentos, o rico levantou os olhos, e viu de longe Abraão, com Lázaro a seu lado.
Então o rico gritou: 'Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do
dedo para me refrescar a língua, porque este fogo me atormenta'. Mas Abraão
respondeu: 'Lembre-se, filho: você recebeu seus bens durante a vida, enquanto Lázaro
recebeu males. Agora, porém, ele encontra consolo aqui, e você é atormentado. Além
disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, nunca poderia
passar daqui para junto de vocês, nem os daí poderiam atravessar até nós'. O rico
insistiu: 'Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa de meu pai, porque eu tenho cinco
irmãos. Manda preveni-los, para que não acabem também eles vindo para este lugar de
tormento'. Mas Abraão respondeu: 'Eles têm Moisés e os profetas: que os escutem!' O
rico insistiu: 'Não, pai Abraão! Se um dos mortos for até eles, eles vão se converter'.
Mas Abraão lhe disse: 'Se eles não escutam a Moisés e aos profetas, mesmo que um
dos mortos ressuscite, eles não ficarão convencidos'". (Lc 16,19-31).

Uma das conclusões que chegamos é que, se o rico pediu a Abraão para mandar Lázaro
avisar a seus irmãos, é porque naquela época se acreditava na comunicação com os mortos.
Essa possibilidade poder-se-á ver também na resposta de Abraão, que não contestou isso,
apenas disse que seria muito difícil que dessem ouvidos aos mortos, uma vez que não deram
ouvidos nem aos vivos, aqueles que falavam em nome de Deus.
Não podemos deixar de registrar que é exatamente isso que está ocorrendo, em nossos
dias, ou seja, os mortos estão voltando para dar conselhos aos vivos e eles, ou pelo menos a
maioria deles, não dão ouvidos aos que se “levantam da tumba” para ajudar os que estão na
retaguarda.
Devido a explicações equivocadas não podemos deixar de falar que o “há um grande
abismo entre nós” está relacionado ao plano espiritual, onde o progresso de cada espírito os
coloca em lugares diferentes, e não, como se vê às vezes, um abismo entre o plano espiritual
e o físico, como sendo o motivo pelo qual os “mortos” não podem se comunicar com os “vivos”.
Em nossa pesquisa deparamos com um texto que nos leva à conclusão que até o século
II, pelo menos, essa era uma prática corriqueira. Tem o título de O Pastor e foi escrito por
volta de 142 a 155 E.C., tendo como autor Hermas, mencionado por Paulo (Rm 16,14),
provavelmente um discípulo dele; leiamos como ele orienta para se distinguir os bons dos
maus espíritos:
O espírito que vem da parte de Deus é pacífico e humilde; afasta-se de toda
malícia e de todo vão desejo deste mundo e paira acima de todos os homens.
Não responde a todos os que o interrogam, nem às pessoas em particular,
porque o espírito que vem de Deus não fala ao homem quando o homem
quer, mas quando Deus o permite. Quando, pois, um homem que tem um
espírito de Deus vem à assembleia dos fiéis, desde que se fez a prece, o espírito
toma lugar nesse homem, que fala na assembleia como Deus o quer.
Reconhece-se, ao contrário, o espírito terrestre, frívolo, sem sabedoria e sem
força, no que se agita, se levanta e toma o primeiro lugar. É importuno, tagarela
e não profetiza sem remuneração. Um profeta de Deus não procede assim.
(DENIS, 1987a, p. 61)
Vale a pena ressaltar a afirmativa de que “o espírito que vem de Deus não fala ao
homem quando o homem quer, mas quando Deus o permite”, pois é exatamente o que se diz
no Espiritismo, uma vez que os espíritos só se manifestam mesmo com a devida permissão de
Deus.
Realmente, quem estudou ou conhece os fenômenos de manifestação dos espíritos sabe
que muitos deles ocorreram sem que ninguém os tivessem evocado; eles, simplesmente, por
livre e espontânea vontade, e, obviamente, com a permissão de Deus, se manifestaram. E
disso colocamos: que não há nenhuma lei que os proíbe de virem ter com os vivos.
Para exemplificar, podemos citar os fenômenos de Hydesville, com as irmãs Fox às
voltas com os “raps” e o da gravação de vozes com Frederich Jürgenson, como provas de que
não é preciso evocar os espíritos, uma vez que, nos dois casos, eles se manifestaram
espontaneamente.
Em meados do século XIX, no pequeno povoado de Hydesville, nos EUA, temos a
família Fox sendo testemunha dos fenômenos espíritas. Essa localidade era um pequeno
povoado típico do Estado de New York e, quando da ocorrência desses fenômenos, contava
com um pequeno número de casas de madeira, do tipo mais simples; numa delas passou a
habitar, a partir de 11 de dezembro de 1847, a família de John D. Fox, de religião metodista.
Pouco tempo depois que mudaram, os seus moradores, os Fox, passaram a ouvir
arranhões, ruídos e pancadas, vibradas em todos os pontos e móveis da casa, cujas causas
não conseguiram descobrir.
Na noite de 31 de março de 1848, a jovem Kate, filha mais nova, resolve desafiar o
“barulho”, dando certa quantidade de palmas, no que foi correspondida com pancadas. Iniciouse,
dessa forma, o diálogo com o causador dos fenômenos, que se dizia um Espírito de um
caixeiro-viajante assassinado pelos antigos moradores da casa, cujo nome era Charles B.
Rosma.
Da mesma forma que essa manifestação espontânea, o russo Friedrich Jürgenson se viu
às voltas com a comunicação dos espíritos por meio de gravador. Este tipo de manifestação se
chama de Transcomunicação Instrumental, que são produzidas em aparelhos eletrônicos:
rádio, TV, computador, gravadores, etc.
O fato ocorreu em 12 de junho de 1959, às 14:00hs, quando estava em sua residência
de campo em Molnbo, perto de Estocolmo, Suécia, gravando o cantar dos pássaros:
[…] encontrando-se nas cercanias de Estocolmo, onde fazia gravações dos
cantos dos pássaros para um novo filme, ficou surpreso ao encontrar, na fita de
seu gravador, em meio ao trinar das aves, um solo de trompete que terminava
em fanfarra.
Ele pensou, inicialmente, que lhe houvessem vendido, como nova, uma fita
mal apagada. Ou que seu aparelho podia, excepcionalmente, captar ondas de
rádio. Nova tentativa, nova surpresa: uma voz, em norueguês, aconselhava-o a
gravar o som dos pássaros noturnos na Noruega. Ele acredita ter ouvido até o
som de um alcaravão.
Um mês mais tarde, quando preparava um programa de rádio sobre a grande
Anastásia, as vozes falaram-lhe da Rússia, e chamaram-no por seu nome. As
vozes manifestaram-se em alemão, em italiano, e, no meio delas, acreditou ter
reconhecido a voz de sua mãe, falecida quatro anos antes. (BRUNE e CHAUVIN,
p. 50).
Fica, então, provado que os espíritos se manifestam porque querem e há permissão
divina para isso. Mais casos poderão ser vistos no nosso livro Os espíritos comunicam-se na
Igreja Católica, onde relatamos vários deles acontecidos no seio dessa Igreja.

Enquanto se quiser e insistir em andar na contramão da história, pode-se alegar que
Samuel não manifestou, que foi um demônio ou um pseudo-Samuel; qualquer desculpa valerá
para os que não querem admiti-la; porém, nós que, neste ponto, não negamos o fato bíblico
(tão claramente relatado), que foi confirmado por um historiador hebreu e, especialmente, por
que não difere dos que atualmente acontecem pelo mundo afora, conforme relatos em várias
obras, muitas delas nenhuma ligação tendo com o Espiritismo; inclusive, alguns desses fatos
foram registrados por vários pesquisadores. Diremos, portanto, que Samuel se manifestou62
exatamente porque Deus o permitiu.
É certo que, se não houvesse permissão divina, não teria se apresentado a Saul,
profetizando o seu fim. Essa permissão pode ser corroborada pelo fenômeno da transfiguração,
em que o próprio espírito de quem proibiu esse tipo de manifestação (Moisés), em que ele e
Elias apareceram a Jesus. Ora, se fosse mesmo proibida por Deus ele não ousaria aparecer ao
Mestre; e o próprio Mestre, certamente, não infringiria uma lei divina, participando desse
fenômeno da materialização de Moisés e Elias, inconcebível ao enviado de Deus, que disse ter
vindo para cumprir a vontade do Pai
Aliás, a bem da verdade, nós nos comunicamos é com “vivos”, pois é essa a condição
do Espírito após o seu desencarne. E como é sabido que Deus “não é Deus dos mortos, mas de
vivos” (Mt 22,32), então, certamente, todos aqueles que deixaram o corpo físico, para
voltarem à pátria espiritual, continuam vivos, enquanto que o que está realmente morto, ou
seja, o corpo físico, só servirá mesmo para repasto aos vermes.
Por outro lado, não vemos nenhum bom motivo para que Deus não permita que nos
comuniquemos com os que já partiram para a dimensão espiritual, a não ser que, depois que a
alma se desenlaçar do corpo físico, acabe o sentimento de amor que nutria para com os
parentes e amigos. Se é assim, perguntamos: neste caso, não seria preferível vivermos iguais
aos animais que nenhuma ligação afetiva mantêm com sua prole, quando esta pode viver por
si mesma? Para que passar uma vida inteira amando os de sua família e os amigos para depois
da “morte” ser como algo que nunca tivesse existido?
Existindo uma “porta” pela qual, nós do plano físico, entramos em contato ou sofremos
influência dos seres invisíveis, que habitam a dimensão espiritual, então, a pergunta é: por
qual critério de justiça e lógica Deus interdita essa porta aos espíritos que nos são caros e a
deixa aberta aos demônios? A não ser que se admita o absurdo deles terem mais poder que
Deus e que, por isso, fazem o que querem, mesmo aquilo que Deus não permite a outros seres
espirituais.
Eis a conclusão que chegamos de tudo isso. Não nos iludimos, voltamos a repetir, de
que isso possa convencer aos dogmáticos; mas como se diz: o que é que se pode fazer...

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